Curiosidades

Qual foi o primeiro animal a ir ao espaço?

Antes de Gagarin foram moscas, ratos, macacos e cachorros. Quem subiu primeiro, quem voltou vivo e o que o arquivo da NASA registra de cada voo.

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O chimpanzé Ham sentado numa cadeira de treino de metal, com a mão apoiada numa alavanca, em foto preto e branco de 1961
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. Albert, o primeiro: um macaco num foguete capturado
  2. Por que os soviéticos escolheram cachorras de rua
  3. Laika: a primeira a dar a volta na Terra, sem passagem de volta
  4. Able e Baker: as primeiras a subir e voltar vivas
  5. Ham, o chimpanzé que fez o voo de Shepard antes dele
  6. Belka, Strelka e as tartarugas que contornaram a Lua
  7. Por que não existe foto de Laika aqui

O primeiro animal a ir ao espaço foi Albert, um macaco rhesus lançado pelos Estados Unidos em 11 de junho de 1948 num foguete V-2 alemão capturado na guerra. Ele não voltou vivo. Nem Albert II, que no ano seguinte chegou a 134 km de altura e foi o primeiro cuja altitude registrada passou com folga da fronteira do espaço. O primeiro animal a dar a volta na Terra foi a cadela Laika, em 3 de novembro de 1957, e ela também não voltou. E os primeiros que subiram alto, desceram e saíram andando foram duas macacas, Able e Baker, em 28 de maio de 1959.

Antes de mandar gente, ninguém sabia se um corpo vivo aguentava ficar sem peso. Não era conversa de ficção: era uma dúvida médica séria, e os dois lados da Guerra Fria resolveram testá-la em bichos. Esta é a história deles, montada a partir do levantamento histórico da própria NASA, A Brief History of Animals in Space, publicado pela agência em 1998.

Albert, o primeiro: um macaco num foguete capturado

Em 1948, os Estados Unidos tinham nas mãos um estoque de V-2, os foguetes que a Alemanha usara para bombardear Londres, e um deserto no Novo México para testá-los. Foi dali, da base de White Sands, que saiu o primeiro passageiro vivo: o macaco rhesus Albert I, em 11 de junho de 1948.

O registro da NASA é curto e um pouco triste: "a falta de alarde e de documentação fez de Albert um herói esquecido". Não há sequer uma altitude anotada no voo dele.

O voo seguinte tem número. Em 14 de junho de 1949, Albert II subiu noutro V-2 e chegou a 83 milhas, ou 134 km. Isso importa porque existe uma linha combinada internacionalmente, a 100 km de altitude, que separa o ar do espaço — a chamada linha de Kármán, explicada em Onde começa o espaço? A linha de Kármán, a 100 km. Albert II passou dela. O que ele não suportou foi a volta: o paraquedas falhou e ele morreu no impacto contra o chão.

A conta desses primeiros anos é dura. Albert IV também morreu no impacto, em dezembro de 1949. Um camundongo anônimo, fotografado em pleno voo em agosto de 1950, idem. O primeiro macaco a sobreviver a um voo de foguete foi Yorick, que em 20 de setembro de 1951 subiu com onze camundongos a 72 km — ainda abaixo da linha de Kármán — e foi recuperado vivo.

Por que os soviéticos escolheram cachorras de rua

Do outro lado, a equipe do engenheiro-chefe Sergei Korolev tomou um caminho diferente. Em vez de macacos, cachorros. O motivo, segundo o registro da NASA, foi prático: achava-se que cães ficariam menos agitados dentro da cápsula. E eram preferidas fêmeas, porque era mais fácil controlar a urina num traje fechado.

Entre 1951 e 1952, os foguetes R-1 soviéticos levaram nove cães em voos suborbitais, três deles duas vezes. Em 15 de agosto de 1951, Dezik e Tsygan ("Cigana") subiram e voltaram em segurança — foram os primeiros cães a fazer um voo desses.

E há uma história que parece roteiro de comédia. Numa das preparações, o cão Bobik fugiu na véspera. A equipe saiu à procura, achou um vira-lata perto da cantina da base e o batizou de ZIB, sigla russa para "Substituto do Cão Bobik Desaparecido". O substituto improvisado subiu a 100 km e voltou bem.

Laika: a primeira a dar a volta na Terra, sem passagem de volta

Em 3 de novembro de 1957, menos de um mês depois do Sputnik 1, a União Soviética lançou o Sputnik 2 com uma cadela a bordo.

O nome dela virou lenda, mas "Laika" não era bem um nome: é a palavra russa para uma raça de cães nórdicos, e virou apelido genérico. O nome verdadeiro dela era Kudryavka, "Cachinhos". Nos Estados Unidos a imprensa a apelidou de Muttnik, trocadilho entre mutt (vira-lata) e Sputnik.

Laika era uma cadela de rua, pequena, recolhida em Moscou. Foi treinada às pressas e colocada num compartimento metálico sob a esfera do Sputnik 2. E aqui está o ponto que quase ninguém conta direito: não havia plano de retorno. O registro da NASA é explícito — não houve tempo de projetar nenhuma estratégia de reentrada, e Laika morreu poucas horas depois da decolagem. A nave só caiu e queimou na atmosfera em abril de 1958, levando o corpo dela junto.

Foi o primeiro ser vivo a dar voltas completas em torno da Terra. Também foi o voo que mais desgastou, depois, a imagem do programa soviético.

O chimpanzé Ham com a boca aberta mostrando os dentes, segurado por mãos humanas dentro da cabine, logo depois de ser retirado do mar
Ham poucos minutos depois de ser resgatado no Atlântico, em 31 de janeiro de 1961. O exame médico apontou apenas cansaço e desidratação leves. Foto: NASA/JSC

Able e Baker: as primeiras a subir e voltar vivas

Em 28 de maio de 1959, um míssil Jupiter do Exército americano levou duas macacas dentro do cone de nariz: Able, uma rhesus nascida nos Estados Unidos, e Baker, um macaco-de-cheiro sul-americano. Subiram a 483 km — acima da altura em que a Estação Espacial orbita hoje — e as duas foram recuperadas sem ferimentos.

Foi a primeira vez que animais foram ao espaço de verdade e voltaram vivos. O final das duas, porém, foi bem diferente. Able morreu três dias depois, em 1º de junho, na mesa de cirurgia, por efeito da anestesia, enquanto médicos retiravam um eletrodo da pele dela. Baker viveu mais 25 anos e morreu de insuficiência renal em 1984, aos 27.

Um aviso de precisão: as duas fichas do acervo de imagens da NASA que mostram esse voo trocam as espécies entre si — uma chama Able de macaco-de-cheiro, a outra de rhesus. O levantamento histórico da agência, que é a fonte mais detalhada, diz que Able era a rhesus e Baker, a de cheiro. Ficamos com essa versão e registramos a divergência.

Mãos de técnicos acomodam um macaco muito pequeno numa maca de metal, em foto preto e branco
Um dos dois macacos da missão de 28 de maio de 1959, logo depois de o cone de nariz ser recuperado no Atlântico pelo navio USS Kiowa. Foto: NASA/MSFC

Ham, o chimpanzé que fez o voo de Shepard antes dele

Em 31 de janeiro de 1961, três meses antes de Alan Shepard, um chimpanzé de 16,8 kg fez exatamente o voo que o primeiro astronauta americano faria. O nome dele, Ham, é sigla de Holloman Aero Med, a base aérea onde treinou. Tinha nascido em julho de 1957, nos Camarões, e chegado aos Estados Unidos em 1959.

O plano era subir a 185 km a 7.081 km/h. O foguete empurrou demais:

O voo de Ham (MR-2) Planejado O que aconteceu
Altitude 185 km 253 km
Velocidade máxima 7.081 km/h 9.426 km/h
Distância do ponto de queda 467 km 679 km
Tempo sem peso — 6,6 minutos
Duração total do voo — 16,5 minutos

Os 679 km de desvio não são um detalhe: é a distância em linha reta entre Recife e Salvador. A cápsula caiu a 97 km do navio de resgate, e Ham só foi recolhido horas depois. O exame apontou cansaço e desidratação leves, nada mais.

Ham não era só carga viva. Durante o voo ele trabalhou, puxando alavancas conforme luzes acendiam, para mostrar que um ser vivo consegue raciocinar e reagir sem peso. Fez tudo direito. Em 5 de maio de 1961, Shepard repetiu o percurso — a história de quem chegou primeiro ao espaço, de um lado e do outro, está em Quem foi o primeiro homem a ir ao espaço?.

Em 29 de novembro do mesmo ano foi a vez de Enos, o primeiro chimpanzé a orbitar a Terra. O plano eram três voltas; um propulsor com defeito obrigou a encerrar na segunda. Enos foi recolhido 75 minutos depois de cair, em boas condições. O voo dele fechou os testes que permitiram a John Glenn orbitar em 20 de fevereiro de 1962.

Belka, Strelka e as tartarugas que contornaram a Lua

Em 19 de agosto de 1960, o Sputnik 5 levou as cadelas Belka ("Esquilinha") e Strelka ("Flechinha") junto com um coelho cinzento, 40 camundongos, 2 ratos e 15 frascos de moscas-das-frutas e plantas. Todos voltaram vivos: foram os primeiros seres vivos a orbitar a Terra e sobreviver. Strelka teve depois uma ninhada de seis filhotes, e um deles foi presenteado ao presidente americano John Kennedy.

E tem um recorde que quase ninguém conhece. Em 15 de setembro de 1968, a nave soviética Zond 5 partiu com tartarugas, larvas, sementes, plantas e bactérias a bordo. No dia 18 ela passou em volta da Lua, e no dia 21 a cápsula caiu no oceano Índico e foi recuperada. Ou seja: os primeiros terráqueos a contornar a Lua e voltar vivos foram tartarugas, três meses antes da Apollo 8.

Marco Quem Quando
Primeiro animal lançado Albert I (macaco rhesus) 11/06/1948
Primeira altitude acima de 100 km Albert II 14/06/1949
Primeiro animal em órbita Laika (cadela) 03/11/1957
Primeiros a ir ao espaço e voltar vivos Able e Baker (macacas) 28/05/1959
Primeiros a orbitar e voltar vivos Belka e Strelka (cadelas) 19/08/1960
Primeiro chimpanzé no espaço Ham 31/01/1961
Primeiro chimpanzé em órbita Enos 29/11/1961
Primeiro gato Félicette (França) 18/10/1963
Recorde de permanência canina: 21 dias Veterok e Ugoyok 22/02/1966
Primeiros a contornar a Lua e voltar tartarugas, na Zond 5 15–21/09/1968

Por que não existe foto de Laika aqui

Você vai notar que as fotos deste artigo são todas de animais americanos. Isso não é escolha editorial: o acervo público de imagens da NASA, de onde saem as fotos deste site, é um arquivo americano. Ele guarda Ham, Able e Baker em alta resolução, e não tem nenhum retrato de Laika, de Belka ou de Strelka.

É a mesma limitação que aparece quando escrevemos sobre o lado soviético da corrida espacial, como em Quem foi a primeira mulher a ir ao espaço?. Preferimos dizer isso ao leitor a colocar uma imagem qualquer e deixar você supor que é a cadela.

Depois da Apollo 11, os animais saíram da primeira página e viraram o que a NASA chama de "carga biológica": aranhas que teceram teias no Skylab em 1973, rãs, peixes, tartarugas, água-vivas. Em 17 de abril de 1998, o ônibus espacial Columbia subiu com mais de dois mil bichos e sete pessoas, numa missão de dezesseis dias dedicada ao sistema nervoso. O que a microgravidade faz com um corpo, assunto que esses voos abriram, está em O que acontece com o corpo humano no espaço sem traje.

Perguntas frequentes

Qual foi o primeiro animal a ir ao espaço?

O macaco rhesus Albert I, lançado pelos Estados Unidos em 11 de junho de 1948 num foguete V-2 capturado. Ele não sobreviveu, e o registro da NASA nem anota a altitude que ele alcançou. O primeiro voo com altura documentada acima dos 100 km foi o de Albert II, em 14 de junho de 1949: 134 km.

A cadela Laika voltou viva?

Não. O Sputnik 2 foi montado às pressas e não tinha sistema de retorno nenhum. O levantamento histórico da NASA diz que Laika morreu poucas horas depois da decolagem. A nave permaneceu em órbita até abril de 1958, quando queimou ao reentrar na atmosfera.

Qual foi o primeiro animal a ir ao espaço e voltar vivo?

As macacas Able e Baker, em 28 de maio de 1959, num míssil Jupiter americano. Subiram a 483 km e foram recuperadas sem ferimentos. Em órbita, os primeiros a ir e voltar vivos foram as cadelas soviéticas Belka e Strelka, em 19 de agosto de 1960.

Por que usaram animais em vez de ir direto com pessoas?

Porque ninguém sabia se um corpo aguentava a ausência de peso. Havia um debate médico sério sobre o que aconteceria com a circulação, com o coração e com a capacidade de raciocinar sem gravidade. Os voos de Ham e Enos, em particular, foram feitos para provar que um ser vivo conseguia executar tarefas durante o voo, e não só sobreviver a ele.

Algum animal já foi à Lua?

Nenhum pisou nela, mas um grupo deles passou por perto antes de qualquer pessoa. A nave soviética Zond 5 contornou a Lua em 18 de setembro de 1968 com tartarugas, larvas, sementes e bactérias a bordo, e a cápsula foi recuperada viva no oceano Índico três dias depois — três meses antes de a Apollo 8 levar os primeiros humanos.

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