O primeiro animal a ir ao espaço foi Albert, um macaco rhesus lançado pelos Estados Unidos em 11 de junho de 1948 num foguete V-2 alemão capturado na guerra. Ele não voltou vivo. Nem Albert II, que no ano seguinte chegou a 134 km de altura e foi o primeiro cuja altitude registrada passou com folga da fronteira do espaço. O primeiro animal a dar a volta na Terra foi a cadela Laika, em 3 de novembro de 1957, e ela também não voltou. E os primeiros que subiram alto, desceram e saíram andando foram duas macacas, Able e Baker, em 28 de maio de 1959.
Antes de mandar gente, ninguém sabia se um corpo vivo aguentava ficar sem peso. Não era conversa de ficção: era uma dúvida médica séria, e os dois lados da Guerra Fria resolveram testá-la em bichos. Esta é a história deles, montada a partir do levantamento histórico da própria NASA, A Brief History of Animals in Space, publicado pela agência em 1998.
Albert, o primeiro: um macaco num foguete capturado
Em 1948, os Estados Unidos tinham nas mãos um estoque de V-2, os foguetes que a Alemanha usara para bombardear Londres, e um deserto no Novo México para testá-los. Foi dali, da base de White Sands, que saiu o primeiro passageiro vivo: o macaco rhesus Albert I, em 11 de junho de 1948.
O registro da NASA é curto e um pouco triste: "a falta de alarde e de documentação fez de Albert um herói esquecido". Não há sequer uma altitude anotada no voo dele.
O voo seguinte tem número. Em 14 de junho de 1949, Albert II subiu noutro V-2 e chegou a 83 milhas, ou 134 km. Isso importa porque existe uma linha combinada internacionalmente, a 100 km de altitude, que separa o ar do espaço — a chamada linha de Kármán, explicada em Onde começa o espaço? A linha de Kármán, a 100 km. Albert II passou dela. O que ele não suportou foi a volta: o paraquedas falhou e ele morreu no impacto contra o chão.
A conta desses primeiros anos é dura. Albert IV também morreu no impacto, em dezembro de 1949. Um camundongo anônimo, fotografado em pleno voo em agosto de 1950, idem. O primeiro macaco a sobreviver a um voo de foguete foi Yorick, que em 20 de setembro de 1951 subiu com onze camundongos a 72 km — ainda abaixo da linha de Kármán — e foi recuperado vivo.
Por que os soviéticos escolheram cachorras de rua
Do outro lado, a equipe do engenheiro-chefe Sergei Korolev tomou um caminho diferente. Em vez de macacos, cachorros. O motivo, segundo o registro da NASA, foi prático: achava-se que cães ficariam menos agitados dentro da cápsula. E eram preferidas fêmeas, porque era mais fácil controlar a urina num traje fechado.
Entre 1951 e 1952, os foguetes R-1 soviéticos levaram nove cães em voos suborbitais, três deles duas vezes. Em 15 de agosto de 1951, Dezik e Tsygan ("Cigana") subiram e voltaram em segurança — foram os primeiros cães a fazer um voo desses.
E há uma história que parece roteiro de comédia. Numa das preparações, o cão Bobik fugiu na véspera. A equipe saiu à procura, achou um vira-lata perto da cantina da base e o batizou de ZIB, sigla russa para "Substituto do Cão Bobik Desaparecido". O substituto improvisado subiu a 100 km e voltou bem.
Laika: a primeira a dar a volta na Terra, sem passagem de volta
Em 3 de novembro de 1957, menos de um mês depois do Sputnik 1, a União Soviética lançou o Sputnik 2 com uma cadela a bordo.
O nome dela virou lenda, mas "Laika" não era bem um nome: é a palavra russa para uma raça de cães nórdicos, e virou apelido genérico. O nome verdadeiro dela era Kudryavka, "Cachinhos". Nos Estados Unidos a imprensa a apelidou de Muttnik, trocadilho entre mutt (vira-lata) e Sputnik.
Laika era uma cadela de rua, pequena, recolhida em Moscou. Foi treinada às pressas e colocada num compartimento metálico sob a esfera do Sputnik 2. E aqui está o ponto que quase ninguém conta direito: não havia plano de retorno. O registro da NASA é explícito — não houve tempo de projetar nenhuma estratégia de reentrada, e Laika morreu poucas horas depois da decolagem. A nave só caiu e queimou na atmosfera em abril de 1958, levando o corpo dela junto.
Foi o primeiro ser vivo a dar voltas completas em torno da Terra. Também foi o voo que mais desgastou, depois, a imagem do programa soviético.

Able e Baker: as primeiras a subir e voltar vivas
Em 28 de maio de 1959, um míssil Jupiter do Exército americano levou duas macacas dentro do cone de nariz: Able, uma rhesus nascida nos Estados Unidos, e Baker, um macaco-de-cheiro sul-americano. Subiram a 483 km — acima da altura em que a Estação Espacial orbita hoje — e as duas foram recuperadas sem ferimentos.
Foi a primeira vez que animais foram ao espaço de verdade e voltaram vivos. O final das duas, porém, foi bem diferente. Able morreu três dias depois, em 1º de junho, na mesa de cirurgia, por efeito da anestesia, enquanto médicos retiravam um eletrodo da pele dela. Baker viveu mais 25 anos e morreu de insuficiência renal em 1984, aos 27.
Um aviso de precisão: as duas fichas do acervo de imagens da NASA que mostram esse voo trocam as espécies entre si — uma chama Able de macaco-de-cheiro, a outra de rhesus. O levantamento histórico da agência, que é a fonte mais detalhada, diz que Able era a rhesus e Baker, a de cheiro. Ficamos com essa versão e registramos a divergência.

Ham, o chimpanzé que fez o voo de Shepard antes dele
Em 31 de janeiro de 1961, três meses antes de Alan Shepard, um chimpanzé de 16,8 kg fez exatamente o voo que o primeiro astronauta americano faria. O nome dele, Ham, é sigla de Holloman Aero Med, a base aérea onde treinou. Tinha nascido em julho de 1957, nos Camarões, e chegado aos Estados Unidos em 1959.
O plano era subir a 185 km a 7.081 km/h. O foguete empurrou demais:
| O voo de Ham (MR-2) | Planejado | O que aconteceu |
|---|---|---|
| Altitude | 185 km | 253 km |
| Velocidade máxima | 7.081 km/h | 9.426 km/h |
| Distância do ponto de queda | 467 km | 679 km |
| Tempo sem peso | — | 6,6 minutos |
| Duração total do voo | — | 16,5 minutos |
Os 679 km de desvio não são um detalhe: é a distância em linha reta entre Recife e Salvador. A cápsula caiu a 97 km do navio de resgate, e Ham só foi recolhido horas depois. O exame apontou cansaço e desidratação leves, nada mais.
Ham não era só carga viva. Durante o voo ele trabalhou, puxando alavancas conforme luzes acendiam, para mostrar que um ser vivo consegue raciocinar e reagir sem peso. Fez tudo direito. Em 5 de maio de 1961, Shepard repetiu o percurso — a história de quem chegou primeiro ao espaço, de um lado e do outro, está em Quem foi o primeiro homem a ir ao espaço?.
Em 29 de novembro do mesmo ano foi a vez de Enos, o primeiro chimpanzé a orbitar a Terra. O plano eram três voltas; um propulsor com defeito obrigou a encerrar na segunda. Enos foi recolhido 75 minutos depois de cair, em boas condições. O voo dele fechou os testes que permitiram a John Glenn orbitar em 20 de fevereiro de 1962.
Belka, Strelka e as tartarugas que contornaram a Lua
Em 19 de agosto de 1960, o Sputnik 5 levou as cadelas Belka ("Esquilinha") e Strelka ("Flechinha") junto com um coelho cinzento, 40 camundongos, 2 ratos e 15 frascos de moscas-das-frutas e plantas. Todos voltaram vivos: foram os primeiros seres vivos a orbitar a Terra e sobreviver. Strelka teve depois uma ninhada de seis filhotes, e um deles foi presenteado ao presidente americano John Kennedy.
E tem um recorde que quase ninguém conhece. Em 15 de setembro de 1968, a nave soviética Zond 5 partiu com tartarugas, larvas, sementes, plantas e bactérias a bordo. No dia 18 ela passou em volta da Lua, e no dia 21 a cápsula caiu no oceano Índico e foi recuperada. Ou seja: os primeiros terráqueos a contornar a Lua e voltar vivos foram tartarugas, três meses antes da Apollo 8.
| Marco | Quem | Quando |
|---|---|---|
| Primeiro animal lançado | Albert I (macaco rhesus) | 11/06/1948 |
| Primeira altitude acima de 100 km | Albert II | 14/06/1949 |
| Primeiro animal em órbita | Laika (cadela) | 03/11/1957 |
| Primeiros a ir ao espaço e voltar vivos | Able e Baker (macacas) | 28/05/1959 |
| Primeiros a orbitar e voltar vivos | Belka e Strelka (cadelas) | 19/08/1960 |
| Primeiro chimpanzé no espaço | Ham | 31/01/1961 |
| Primeiro chimpanzé em órbita | Enos | 29/11/1961 |
| Primeiro gato | Félicette (França) | 18/10/1963 |
| Recorde de permanência canina: 21 dias | Veterok e Ugoyok | 22/02/1966 |
| Primeiros a contornar a Lua e voltar | tartarugas, na Zond 5 | 15–21/09/1968 |
Por que não existe foto de Laika aqui
Você vai notar que as fotos deste artigo são todas de animais americanos. Isso não é escolha editorial: o acervo público de imagens da NASA, de onde saem as fotos deste site, é um arquivo americano. Ele guarda Ham, Able e Baker em alta resolução, e não tem nenhum retrato de Laika, de Belka ou de Strelka.
É a mesma limitação que aparece quando escrevemos sobre o lado soviético da corrida espacial, como em Quem foi a primeira mulher a ir ao espaço?. Preferimos dizer isso ao leitor a colocar uma imagem qualquer e deixar você supor que é a cadela.
Depois da Apollo 11, os animais saíram da primeira página e viraram o que a NASA chama de "carga biológica": aranhas que teceram teias no Skylab em 1973, rãs, peixes, tartarugas, água-vivas. Em 17 de abril de 1998, o ônibus espacial Columbia subiu com mais de dois mil bichos e sete pessoas, numa missão de dezesseis dias dedicada ao sistema nervoso. O que a microgravidade faz com um corpo, assunto que esses voos abriram, está em O que acontece com o corpo humano no espaço sem traje.




