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Tubos de lava da Lua: as cavernas da futura base

A Lua tem mais de 200 buracos fotografados pela NASA, e dentro deles faz 17 °C o ano inteiro. É onde a primeira base lunar pode morar.

Publicado em 8 min de leitura
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Buraco circular escuro na superfície cinzenta da Lua, com parte do fundo iluminada pelo Sol e a borda em sombra, fotografado de cima pela sonda LRO
Foto: NASA/GSFC/Arizona State University
Neste artigo
  1. O que é um tubo de lava, afinal
  2. Os buracos que a LRO fotografou
  3. Os 17 graus que mudaram tudo
  4. Três problemas resolvidos de uma vez
  5. O GIMLI, que vai procurar de perto
  6. O que ainda não se sabe

A Lua tem buracos. Não crateras de impacto, que todo mundo conhece: buracos de bordas quase verticais que descem direto para o subsolo, como se alguém tivesse furado o chão com um saca-rolhas gigante. A sonda LRO, da NASA, já fotografou mais de 200 deles, e cerca de 16 são provavelmente clarabóias de tubos de lava — túneis vazios deixados por rios de lava que correram ali há bilhões de anos. E a medida que transformou essa curiosidade geológica no endereço mais cobiçado da Lua é esta: lá dentro faz cerca de 17 °C, estáveis, o tempo todo.

Na superfície, do lado de fora, a temperatura vai de cerca de 127 °C ao meio-dia a −173 °C à noite.

O que é um tubo de lava, afinal

Não é nada exótico, e existe aqui na Terra também — há tubos de lava visitáveis no Havaí, na Islândia e nas Canárias.

Quando um rio de lava corre, a superfície dele, em contato com o lado de fora, esfria primeiro e endurece. Vira uma casca. Mas por baixo dessa casca a lava continua quente e continua correndo, como água dentro de um cano. Quando a erupção acaba e a lava que sobrou escorre para longe, o que fica é o cano vazio: um túnel com teto de rocha.

A analogia mais direta é a do leite quente esquecido na panela. Forma-se aquela nata por cima enquanto o líquido embaixo continua líquido. Se você tirasse o líquido por baixo com cuidado, sobraria a nata formando um teto sobre um vazio. Um tubo de lava é isso, em pedra e em escala de quilômetros.

Na Lua esses túneis podem ser muito maiores que os terrestres, porque a gravidade lá é um sexto da nossa e o teto de pedra aguenta vãos bem mais largos sem desabar.

Os buracos que a LRO fotografou

A Lunar Reconnaissance Orbiter — a sonda que a NASA mantém mapeando a Lua desde o lançamento, em 18 de junho de 2009 — é quem encontrou esses poços. São mais de 200 catalogados, e a avaliação da equipe é que cerca de 16 deles são tubos de lava cujo teto desabou, abrindo uma janela para o túnel lá embaixo.

Dois endereços concentram a atenção:

Poço Profundidade Boca Onde fica
Poço de Marius (Marius Hills) cerca de 34 m 65 × 90 m Região vulcânica das Colinas de Marius
Poço do Mar da Tranquilidade cerca de 100 m — Mare Tranquillitatis

Trinta e quatro metros de profundidade são o pé-direito de um prédio de uns onze andares. O do Mar da Tranquilidade é quase três vezes mais fundo que isso. Não são fendas: são abismos de boca larga, e o Sol chega a iluminar parte do fundo quando bate no ângulo certo — foi assim que a NASA conseguiu ver que o chão lá embaixo existe e é relativamente plano.

Buraco grande e arredondado na superfície cinzenta da Lua, com metade do fundo iluminada pelo Sol e uma barra de escala de 100 metros no canto inferior
O poço do Mar da Tranquilidade fotografado pela LRO, com a escala de 100 metros marcada pela NASA. A parte iluminada mostra o chão lá embaixo; a borda em sombra indica que o buraco é mais largo embaixo do que em cima, o que é a assinatura de um teto que desabou. Foto: NASA/GSFC

Os 17 graus que mudaram tudo

Em 26 de julho de 2022, uma equipe liderada por Tyler Horvath, então doutorando na Universidade da Califórnia em Los Angeles, publicou o resultado que colocou esses buracos no mapa das missões. Usando o Diviner — um instrumento da LRO que mede temperatura a distância, como um termômetro de testa apontado para o chão lunar —, eles mediram o que acontece dentro do poço do Mar da Tranquilidade.

Nas partes permanentemente na sombra, a temperatura mal se move ao longo do dia lunar: fica em torno de 17 °C.

Para entender o tamanho da façanha, é preciso saber como é o lado de fora. Um dia lunar inteiro dura uns 29 dias terrestres, o que dá cerca de duas semanas de luz seguidas de duas semanas de escuridão em qualquer ponto da Lua. Durante esse mês de exposição, o chão vai de cerca de 127 °C no auge do dia a −173 °C no fundo da noite — são 300 graus de diferença entre o meio-dia e a meia-noite, e o material tem de aguentar essa gangorra todo mês, para sempre.

Uma observação de fonte, porque os números da NASA não batem entre si: o comunicado da LRO que trouxe os 17 °C dá a superfície iluminada a 260 °F, ou 127 °C, enquanto o arquivo de dados espaciais da agência — que é o que usamos em Qual é a temperatura do espaço? — publica cerca de 120 °C. Os dois são defensáveis: a temperatura do chão lunar depende da latitude e da hora exata. A conclusão não muda com sete graus.

Lá dentro do poço, não. Dezessete graus é temperatura de noite fresca de inverno em São Paulo — e é constante. Como resumiu Horvath, numa frase que virou a melhor propaganda do assunto: "Os humanos evoluíram vivendo em cavernas, e às cavernas talvez voltemos quando formos morar na Lua."

Três problemas resolvidos de uma vez

O que faz um tubo de lava valer tanto não é o conforto térmico sozinho. É o fato de que um teto de pedra resolve, de graça, três coisas que custariam toneladas de equipamento.

Radiação. A Lua não tem atmosfera nem campo magnético para filtrar nada, então a superfície recebe raios cósmicos e partículas do Sol direto, o tempo todo. A proteção conhecida contra isso é massa: colocar matéria entre a pessoa e o céu. Uma base na superfície precisaria ser enterrada ou coberta com metros de solo lunar — trabalho pesado feito por máquinas que ainda não existem lá. Um tubo de lava já vem com metros de rocha por cima. Quanto isso importa está em Quanta radiação um astronauta recebe de verdade?.

Micrometeoroides. Sem atmosfera, não existe estrela cadente na Lua: toda pedrinha que cai, cai inteira e na velocidade original. Grãos do tamanho de areia chegam ao chão a vários quilômetros por segundo. Um teto de rocha simplesmente para isso.

Temperatura. Equipamento que passa de 127 °C a −173 °C e volta, uma vez por mês, dilata, contrai, racha e cansa. Lá dentro, nada disso acontece. Toda a energia que uma base gastaria aquecendo de madrugada e resfriando de dia pode ser usada em outra coisa.

Fica de fora um quarto problema, e vale dizer com honestidade: a poeira. O pó lunar é abrasivo, grudento e entra em tudo — foi o maior inimigo das missões Apollo, como contamos em A poeira da Lua: o maior inimigo das missões lunares. Uma caverna não resolve isso.

O GIMLI, que vai procurar de perto

Em 30 de setembro de 2026, a NASA anunciou três experimentos científicos selecionados para descer ao chão lunar na nova fase do programa. Um deles se chama GIMLI, e a missão dele é exatamente esta: procurar tubos de lava no Poço de Marius.

Isso coloca o assunto numa categoria diferente. Até aqui, tubo de lava lunar era um achado de sonda em órbita e um bom argumento de artigo científico. Com um instrumento selecionado para ir até lá, vira item de planejamento de missão.

O contexto dessa decisão é a reorganização do programa lunar americano anunciada em março de 2026, que tirou a estação orbital do centro do plano e colocou uma base no chão — história contada em O Gateway: a estação espacial lunar que a NASA pausou. Uma base no chão precisa decidir onde no chão, e as duas respostas em disputa são o polo sul, por causa do gelo de água, e as cavernas, por causa do abrigo. O gelo é o assunto de Tem água na Lua? Onde está o gelo e quanto tem.

As duas respostas, aliás, podem não ser excludentes — e é justamente isso que falta descobrir.

O que ainda não se sabe

Vale ser honesto sobre o tamanho da ignorância aqui, porque é grande.

Ninguém sabe se os poços levam mesmo a túneis. A geometria das sombras sugere fortemente que a boca se alarga embaixo, o que é a assinatura de um teto desabado sobre um vazio maior. Mas sugerir não é ver. Nenhuma sonda entrou em nenhum deles.

Ninguém sabe o tamanho dos túneis. Estimativas a partir de medidas de gravidade apontam para estruturas de dezenas a centenas de metros de largura, possivelmente com quilômetros de extensão. São estimativas.

Ninguém sabe como entrar. Um buraco de 34 metros com paredes verticais e possivelmente em balanço não se desce de escada. E não se sobe de volta carregando equipamento, num traje pressurizado, com um sexto da gravidade ajudando a saltar mas nada ajudando a frear.

Ninguém sabe se o teto é seguro. Um teto que já desabou uma vez é, por definição, um teto que desaba.

Por isso o GIMLI é um instrumento de procura, e não uma missão de exploração. O primeiro passo é confirmar que o túnel existe. O resto vem depois — e provavelmente com robôs antes de gente, pelo mesmo motivo que a Lua inteira recebeu sondas antes de receber a Apollo.

Perguntas frequentes

Existem cavernas na Lua de verdade?

Existem buracos de verdade, mais de 200 fotografados pela sonda LRO da NASA, e cerca de 16 têm forte indício de serem clarabóias de tubos de lava — túneis deixados por rios de lava antigos. Nenhuma sonda entrou em nenhum deles ainda, então a existência dos túneis é muito provável, mas não confirmada diretamente.

Por que faz 17 graus dentro dos buracos da Lua?

Porque a parte permanentemente na sombra nunca recebe Sol direto e fica trocando calor só com as paredes de rocha em volta, que mantêm uma temperatura média estável. Na superfície exposta, sem atmosfera para segurar calor, a temperatura dispara a cerca de 127 °C no dia e despenca a −173 °C na noite, que dura cerca de duas semanas.

Dá para construir uma base dentro de um tubo de lava?

É uma das ideias mais levadas a sério hoje, porque o teto de rocha protege de radiação, de micrometeoroides e das variações de temperatura sem custar nada. Mas ninguém sabe ainda como descer num poço de dezenas de metros, se o teto é estável nem qual o tamanho real dos túneis. O experimento GIMLI, anunciado pela NASA em 30 de setembro de 2026, vai procurar essas respostas no Poço de Marius.

Qual é o maior buraco conhecido na Lua?

Entre os mais estudados, o poço do Mar da Tranquilidade tem cerca de 100 metros de profundidade e o Poço de Marius tem cerca de 34 metros de profundidade por 65 por 90 metros de boca. Como só uma parte dos mais de 200 poços catalogados foi estudada em detalhe, esses não são necessariamente os maiores que existem.

Tubos de lava existem na Terra?

Existem, e dá para visitar vários — no Havaí, na Islândia e nas ilhas Canárias, entre outros lugares. O mecanismo é o mesmo: a superfície do rio de lava esfria e vira teto, a lava de baixo escorre e deixa o túnel vazio. Os lunares tendem a ser bem maiores, porque a gravidade menor permite vãos mais largos sem desabamento.

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