Marte e vida fora da Terra

Dá para terraformar Marte? O que a NASA calculou

Transformar Marte num segundo planeta Terra esbarra numa conta simples: não há CO₂ suficiente no planeta inteiro para engrossar o ar.

Publicado em 6 min de leitura
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Mapa de Marte montado com imagens do telescópio Hubble, com a superfície alaranjada, manchas escuras e as calotas polares brancas nas duas extremidades
Foto: NASA/Steve Lee (Univ. do Colorado), Jim Bell (Cornell) e Mike Wolff (Space Science Institute)
Neste artigo
  1. O que "terraformar" quer dizer
  2. Por que tudo começa pela pressão
  3. A conta que a NASA mandou fazer
  4. E as outras fontes? São piores ainda
  5. Por que Marte ficou assim
  6. E se a gente simplesmente esperasse?
  7. O que é possível de verdade

Não, e o motivo não é falta de tecnologia: é falta de matéria-prima. Um estudo financiado pela NASA fez a conta de todo o gás carbônico que ainda existe em Marte — nas calotas polares, grudado no solo, preso em minerais — e chegou a um número desanimador: juntando tudo, a pressão do ar marciano subiria dos atuais 0,6% da terrestre para cerca de 7%. É quase doze vezes mais do que hoje, e ainda catorze vezes menos do que o necessário.

Em outras palavras: mesmo gastando o planeta inteiro, não dá. O gás que faria de Marte uma segunda Terra não está mais lá.

O que "terraformar" quer dizer

Terraformar é transformar um planeta inteiro para que uma pessoa possa andar nele sem traje — respirando, com água líquida correndo na superfície e temperatura suportável. A palavra vem da ficção científica dos anos 1940 e virou vocabulário sério quando a exploração de Marte começou.

Não confunda com colonizar. Colonizar é levar gente para morar dentro de habitats pressurizados, o que é um problema de engenharia difícil mas conhecido — é esse o plano discutido em O plano da SpaceX pra colonizar Marte é possível?. Terraformar é outra escala: é mexer no planeta, não construir dentro dele.

E o primeiro passo de qualquer plano de terraformação é sempre o mesmo: engrossar a atmosfera.

Por que tudo começa pela pressão

Hoje a pressão atmosférica na superfície de Marte é de cerca de 0,6% da terrestre — são 6,36 milibares, contra 1.013 ao nível do mar aqui. Isso é quase vácuo, e tem uma consequência direta que explica o planeta inteiro: água líquida não é estável ali. Com pressão tão baixa, a água pula direto do gelo para o vapor, sem passar pelo estado líquido. É por isso que Marte tem leitos de rio secos e nenhum rio.

O jipe Curiosity fotografado por ele mesmo na superfície de Marte, pousado sobre lajes de rocha clara, com o chão alaranjado e o céu empoeirado ao fundo
O Curiosity em Marte, num autorretrato montado pela NASA. O céu claro da foto é poeira em suspensão, não ar: a pressão ali é de 0,6% da terrestre, baixa demais para a água durar líquida. Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS

O estudo da NASA é explícito sobre a meta: para ter água líquida estável, seria preciso uma pressão de CO₂ parecida com a pressão atmosférica total da Terra. Ou seja, o alvo não é "um pouco mais de ar". É multiplicar o que existe por mais de cem.

E tem um bônus embutido nessa conta: gás carbônico é gás de efeito estufa. Se você conseguisse colocar CO₂ suficiente para dar pressão, o planeta aqueceria junto. Um tiro, dois coelhos. Por isso toda proposta séria de terraformação começa por liberar CO₂ — e é exatamente aí que a conta trava.

A conta que a NASA mandou fazer

Em 30 de julho de 2018, Bruce Jakosky, da Universidade do Colorado em Boulder, e Christopher Edwards, da Universidade do Norte do Arizona, publicaram na revista Nature Astronomy um inventário de todo o CO₂ acessível em Marte. Eles usaram, entre outras coisas, dados da MAVEN, a sonda da NASA que mede a fuga da atmosfera marciana para o espaço.

O resultado, fonte por fonte:

De onde sairia o gás Quanto renderia (em pressão terrestre)
Pressão que já existe hoje 0,6%
Vaporizar as calotas polares inteiras subiria para 1,2%
Aquecer o solo para soltar o CO₂ grudado nele até 4%
Minerais que contêm carbono menos de 5%
Clatratos, se existirem provavelmente menos de 5%
Tudo somado cerca de 7%
Necessário para água líquida estável ~100%

A frase de Jakosky resume: "Nossos resultados sugerem que não há CO₂ suficiente restante em Marte para fornecer aquecimento de efeito estufa significativo."

Repare na primeira linha do inventário, que é a mais cruel. Vaporizar as duas calotas polares inteiras — toda aquela massa branca que aparece nas fotos de telescópio — dobraria a pressão. Dobrar 0,6% dá 1,2%. É o equivalente a esvaziar as duas geladeiras da casa e descobrir que ainda falta comida para o ano todo.

E as outras fontes? São piores ainda

As linhas de baixo da tabela parecem mais promissoras — até você ler como seria acessá-las.

O CO₂ grudado no solo é a maior fonte isolada, e renderia até 4%. Para liberá-lo seria preciso aquecer o solo. Não um pedaço do solo: o estudo fala em mineração a céu aberto do planeta inteiro, até cerca de 90 metros de profundidade (100 jardas, no original). Imagine escavar toda a superfície de um planeta até a profundidade de um prédio de trinta andares, e revirar tudo.

Os minerais com carbono rendem menos de 5% e são piores de processar: estão enterrados e exigiriam aquecimento acima de 300 °C para soltar o gás. O estudo descreve isso como "extremamente intensivo em energia" — e a energia teria de ser produzida em Marte, por equipamentos levados da Terra.

Os clatratos — gelo que aprisiona moléculas de gás na própria estrutura — são a fonte mais incerta: pode ser que nem existam em quantidade relevante, e, se existirem, renderiam provavelmente menos de 5%.

Nenhuma dessas fontes é uma torneira que se abre. Todas são obras de engenharia em escala planetária, e, mesmo completadas todas ao mesmo tempo, somam 7%.

Por que Marte ficou assim

A pergunta óbvia é: se Marte teve rios, teve atmosfera. Para onde ela foi?

Foi embora pelo topo. Marte perdeu cedo o campo magnético global que protegia o ar dele, e o vento solar — o jato de partículas que o Sol sopra o tempo todo — passou bilhões de anos arrancando a atmosfera molécula por molécula. A MAVEN foi justamente a sonda mandada para medir esse processo acontecendo hoje. A história completa, com os números, está em Por que Marte perdeu a atmosfera (e a Terra não)?.

Isso acrescenta um problema que a tabela acima nem considera: um Marte reatmosferado continuaria vazando. Você engrossaria o ar e o vento solar começaria a tirá-lo de novo. Em escala humana a perda é lenta, mas ela existe, e nenhum plano de terraformação resolveu ainda o que fazer a respeito.

E se a gente simplesmente esperasse?

Marte ainda solta gás sozinho, por atividade geológica. O estudo colocou número nisso também: nesse ritmo, levaria cerca de 10 milhões de anos apenas para dobrar a atmosfera atual.

Dobrar 0,6% dá 1,2%, que é o mesmo resultado de torrar as duas calotas polares. Dez milhões de anos para andar pouco mais de um sexto do caminho até os 7% — que por sua vez são um catorze avos do necessário. A paciência não é uma estratégia aqui.

O que é possível de verdade

Nada disso significa que Marte está fora de alcance. Significa que a pergunta certa é outra.

O que a engenharia conhecida permite é habitat: lugares pressurizados onde se respira ar fabricado, com proteção contra radiação e temperatura controlada. É morar dentro de uma bolha, não ao ar livre. E até isso tem problemas sérios em aberto — percloratos tóxicos no solo, poeira fina em tudo, gravidade de 38% cujos efeitos de longo prazo no corpo humano ninguém conhece.

Vale também separar duas perguntas que vivem embaralhadas. "Dá para terraformar Marte?" e "tem vida em Marte?" são assuntos diferentes: a segunda é sobre micróbios, passados ou presentes, e é tratada em Tem vida em Marte? O que os rovers já encontraram. Curiosamente, as duas se atrapalham: se houver vida marciana, terraformar seria destruí-la antes de conhecê-la.

A conclusão do estudo da NASA é uma frase só, e ela não fecha a porta para sempre — fecha para agora: terraformar Marte não é possível com a tecnologia de hoje. Tecnologias muito além das atuais ficam, por definição, fora da conta. Mas o problema que elas precisariam resolver não é de engenharia esperta: é que o gás não está lá.

Perguntas frequentes

É possível terraformar Marte?

Não com a tecnologia atual, segundo um estudo financiado pela NASA e publicado em 2018. O obstáculo não é a dificuldade da obra, é a falta de matéria-prima: somando todo o gás carbônico acessível do planeta, a pressão atmosférica chegaria a cerca de 7% da terrestre, e seria preciso algo próximo de 100% para ter água líquida estável.

Por que não dá para simplesmente derreter as calotas polares de Marte?

Porque elas são pequenas demais para o efeito desejado. O estudo da NASA calcula que vaporizar as calotas inteiras levaria a pressão de 0,6% para 1,2% da terrestre — o dobro do que existe, e ainda assim quase nada perto do necessário.

Quanto tempo levaria para terraformar Marte?

Não há prazo, porque não há método conhecido que funcione. Se a ideia fosse esperar o próprio planeta soltar gás por atividade geológica, o estudo estima cerca de 10 milhões de anos só para dobrar a atmosfera atual.

Qual é a diferença entre terraformar e colonizar Marte?

Terraformar é mudar o planeta inteiro para que se possa andar nele sem traje, respirando o ar. Colonizar é levar pessoas para morar em habitats pressurizados, com ar fabricado dentro deles. A segunda é um problema de engenharia difícil e conhecido; a primeira esbarra na falta de gás carbônico no planeta.

Por que Marte perdeu a atmosfera que tinha?

Porque perdeu cedo o campo magnético global que a protegia, e o vento solar foi arrancando o ar ao longo de bilhões de anos. A sonda MAVEN, da NASA, mede essa fuga acontecendo até hoje, e foram dados dela que entraram no cálculo do estudo de terraformação.

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