No sábado de Carnaval, 6 de fevereiro de 2027, a Lua vai passar na frente do Sol e o Brasil inteiro vai ver um eclipse solar. No extremo sul do Rio Grande do Sul, o Sol vira um anel de fogo por alguns minutos. No resto do país, ele fica com uma "mordida" que vai de quase 90% no Rio de Janeiro a quase nada em Roraima. Este guia tem a hora exata para 45 cidades, o que esperar em cada região e a única regra que não pode ser quebrada: nunca olhar para o Sol sem proteção certificada, nem por um segundo.
O que vai acontecer, em uma frase
A Lua vai ficar exatamente entre você e o Sol, mas estará um pouco mais longe da Terra que o normal, então não vai cobrir o Sol inteiro: sobra uma borda brilhante em volta, o anel. Por isso o nome técnico é eclipse anular, de "anel". É diferente do eclipse total, em que o Sol some por completo e o céu escurece como noite.
Na prática, mesmo onde o anel aparece, o dia fica só um pouco mais fraco, como um fim de tarde nublado. O que impressiona é olhar (com o filtro certo) e ver o Sol reduzido a um aro fino de luz.
Onde o anel aparece inteiro
A faixa em que o anel é visível tem cerca de 280 km de largura e cruza o Chile, a Argentina, o Uruguai e só a ponta sul do Rio Grande do Sul, antes de seguir pelo Atlântico até a África. No Brasil, o anel completo é visto de:
- Chuí e Barra do Chuí
- Praia do Hermenegildo
- Santa Vitória do Palmar, que fica bem perto da borda norte da faixa
Quanto mais ao sul, mais tempo o anel dura. Na Barra do Chuí ele fica formado por cerca de 4 minutos e meio; no centro de Santa Vitória do Palmar, uns 2 minutos e meio. Em Punta del Este, no Uruguai, a 200 km, passa de 5 minutos, e no meio do Atlântico chega ao máximo de 7 minutos e 51 segundos.
Cidades como Rio Grande, Pelotas e Jaguarão ficam a poucos quilômetros da faixa: verão 85% do Sol coberto, um eclipse parcial muito profundo, mas sem o anel fechado. Você pode ver algumas listas na internet incluindo cidades de Santa Catarina e do Paraná na faixa do anel. Elas estão erradas: por lá o eclipse é parcial.

Horário do eclipse por cidade
Todos os horários abaixo estão no fuso local de cada cidade. "Início" é o momento em que a Lua começa a morder o Sol; "máximo" é a maior cobertura; "fim" é quando a Lua sai por completo. A coluna "Sol coberto" indica a fração da área do Sol que a Lua vai esconder no máximo.
Os números foram calculados a partir dos elementos orbitais publicados pela NASA para este eclipse, com precisão de cerca de um minuto. Se a sua cidade não está na lista, use a mais próxima ou confira em timeanddate.com/eclipse.
Sul: onde o eclipse é mais forte
| Cidade | Início | Máximo | Fim | Sol coberto |
|---|---|---|---|---|
| Barra do Chuí (RS) | 10h57 | 12h44 | 14h27 | Anel de fogo, 12h42 a 12h47 |
| Chuí (RS) | 10h57 | 12h44 | 14h27 | Anel de fogo, 12h42 a 12h46 |
| Santa Vitória do Palmar (RS) | 10h57 | 12h45 | 14h27 | Anel de fogo, 12h43 a 12h46 |
| Rio Grande (RS) | 11h02 | 12h50 | 14h32 | 86% |
| Pelotas (RS) | 11h02 | 12h50 | 14h32 | 85% |
| Jaguarão (RS) | 10h59 | 12h47 | 14h29 | 85% |
| Porto Alegre (RS) | 11h07 | 12h57 | 14h38 | 83% |
| Caxias do Sul (RS) | 11h09 | 12h59 | 14h40 | 81% |
| Bagé (RS) | 10h59 | 12h48 | 14h31 | 81% |
| Santana do Livramento (RS) | 10h57 | 12h45 | 14h29 | 77% |
| Uruguaiana (RS) | 10h55 | 12h44 | 14h28 | 71% |
| Florianópolis (SC) | 11h18 | 13h08 | 14h48 | 83% |
| Curitiba (PR) | 11h21 | 13h12 | 14h52 | 76% |
| Londrina (PR) | 11h22 | 13h13 | 14h53 | 67% |
| Foz do Iguaçu (PR) | 11h09 | 12h59 | 14h42 | 65% |
Sudeste
| Cidade | Início | Máximo | Fim | Sol coberto |
|---|---|---|---|---|
| Arraial do Cabo (RJ) | 11h43 | 13h31 | 15h06 | 86% |
| Cabo Frio (RJ) | 11h43 | 13h32 | 15h07 | 86% |
| Rio de Janeiro (RJ) | 11h40 | 13h30 | 15h05 | 84% |
| Niterói (RJ) | 11h41 | 13h30 | 15h05 | 84% |
| Vitória (ES) | 11h53 | 13h41 | 15h14 | 85% |
| Santos (SP) | 11h31 | 13h21 | 14h59 | 80% |
| São Paulo (SP) | 11h31 | 13h22 | 15h00 | 78% |
| Campinas (SP) | 11h32 | 13h22 | 15h00 | 76% |
| Belo Horizonte (MG) | 11h46 | 13h36 | 15h11 | 76% |
| Uberlândia (MG) | 11h40 | 13h30 | 15h06 | 64% |
Curiosidade: a Região dos Lagos, no Rio, fica quase na linha que a faixa do anel segue pelo oceano. Por isso Arraial do Cabo e Cabo Frio têm cobertura igual à do Chuí, só que sem o anel se fechar.
Centro-Oeste
| Cidade | Início | Máximo | Fim | Sol coberto |
|---|---|---|---|---|
| Brasília (DF) | 11h50 | 13h39 | 15h13 | 58% |
| Goiânia (GO) | 11h45 | 13h34 | 15h09 | 56% |
| Campo Grande (MS) | 10h23 | 12h12 | 13h52 | 52% |
| Cuiabá (MT) | 10h37 | 12h21 | 13h55 | 38% |
Nordeste
| Cidade | Início | Máximo | Fim | Sol coberto |
|---|---|---|---|---|
| Salvador (BA) | 12h17 | 14h01 | 15h30 | 74% |
| Maceió (AL) | 12h32 | 14h12 | 15h37 | 73% |
| Aracaju (SE) | 12h26 | 14h08 | 15h34 | 73% |
| Recife (PE) | 12h38 | 14h17 | 15h41 | 71% |
| João Pessoa (PB) | 12h40 | 14h19 | 15h42 | 69% |
| Natal (RN) | 12h43 | 14h21 | 15h43 | 65% |
| Fortaleza (CE) | 12h45 | 14h21 | 15h43 | 53% |
| Teresina (PI) | 12h35 | 14h13 | 15h36 | 46% |
| São Luís (MA) | 12h43 | 14h16 | 15h36 | 37% |
Norte
| Cidade | Início | Máximo | Fim | Sol coberto |
|---|---|---|---|---|
| Palmas (TO) | 12h09 | 13h52 | 15h20 | 44% |
| Belém (PA) | 12h45 | 14h12 | 15h28 | 26% |
| Macapá (AP) | 12h51 | 14h11 | 15h22 | 18% |
| Porto Velho (RO) | 11h01 | 12h18 | 13h30 | 10% |
| Manaus (AM) | 11h37 | 12h45 | 13h47 | 8% |
| Rio Branco (AC) | 09h52 | 11h01 | 12h08 | 7% |
| Boa Vista (RR) | 12h28 | 12h58 | 13h27 | 1% |
Em Manaus, Boa Vista e Rio Branco, a Lua mal encosta no Sol. Sem filtro e telescópio, ninguém vai notar.
Como olhar sem machucar os olhos
Aqui não tem meio-termo. Olhar para o Sol a olho nu, mesmo com 86% dele coberto, queima a retina em segundos, sem dor e sem aviso. O dano costuma ser permanente. E o anel de fogo não é exceção: a borda que sobra brilha o bastante para cegar. Diferente do eclipse total, não existe nenhum momento seguro para tirar o filtro em um eclipse anular.
O que funciona:
- Óculos de eclipse com certificação ISO 12312-2. Custam de R$ 10 a R$ 40. Compre com antecedência de lojas de astronomia ou planetários; perto da data, aparecem falsificações. Teste antes: com os óculos, você não deve enxergar nada além do Sol e de lâmpadas muito fortes.
- Vidro de solda número 14. Vendido em lojas de material de construção. Tem de ser o 14; números menores não protegem.
- Projeção com furinho. Faça um furo de agulha em um pedaço de papelão e deixe a luz do Sol passar por ele até uma folha branca a um metro de distância. A imagem do Sol "mordido" aparece na folha. É de graça, seguro e funciona até com uma peneira ou com a sombra das folhas de uma árvore.
- Filtro solar próprio na frente da lente de binóculo, telescópio ou câmera. Nunca atrás da ocular e nunca os óculos de eclipse improvisados na lente: o calor concentrado derrete o filme.
O que não funciona, mesmo que alguém jure que sim: óculos escuros (nem empilhados), radiografia, CD ou DVD, vidro fumê, filme de câmera velado, negativo, água em balde, celular apontado direto sem filtro.

O que você vai ver, minuto a minuto
- Início. Uma "mordida" aparece no canto direito superior do Sol. Nos primeiros 20 minutos, só quem está olhando com filtro percebe.
- Uma hora depois. Com mais da metade do Sol coberto, a luz do dia fica estranha, mais fraca e com sombras nítidas demais. A temperatura cai um ou dois graus. As sombras de árvores viram centenas de pequenos crescentes no chão: são projeções naturais do eclipse.
- Máximo. Nas cidades com mais de 80% de cobertura, o dia parece um fim de tarde. Pássaros podem se calar. No Chuí, o anel se fecha e fica formado por uns 4 minutos.
- Depois. Tudo se repete ao contrário por mais uma hora e meia.
A duração inteira, do início ao fim, é de cerca de 3 horas e meia. Você não precisa ficar o tempo todo: o intervalo de 40 minutos ao redor do máximo é o que vale.
Dicas para o dia
- Cheque a previsão do tempo na véspera. Fevereiro é chuvoso em boa parte do país. Se estiver nublado na sua cidade, a transmissão ao vivo de observatórios (o Observatório Nacional costuma fazer) mostra o anel do Chuí.
- Sol alto. O máximo acontece perto do meio-dia, com o Sol quase a pino no Sul e Sudeste. Não precisa de horizonte aberto; qualquer quintal serve.
- Crianças entendem melhor com a projeção do furinho. E é a forma mais segura de envolver várias pessoas ao mesmo tempo.
- Foto de celular: sem filtro na lente, a foto sai só uma bola branca estourada e pode danificar o sensor. Com os óculos de eclipse presos na frente da lente, dá para registrar o crescente. Os passos são parecidos com os de como fotografar a Lua com o celular.
- Viajar para o anel? Chuí e Santa Vitória do Palmar são pequenas e a procura por hospedagem no Carnaval vai ser alta. Se for, reserve cedo. Pelotas, a 250 km, é a base mais próxima com estrutura, mas de lá o anel não fecha.
Por que a Lua não cobre tudo
A órbita da Lua é uma elipse, então a distância até a Terra varia entre cerca de 356 mil e 406 mil km. Em 6 de fevereiro de 2027, a Lua estará perto do ponto mais distante. Mais longe, ela parece menor no céu, e o disco dela não alcança o tamanho aparente do Sol: cobre 92,8% do diâmetro e sobra o anel. É o oposto do que acontece nas superluas, quando a Lua está no ponto mais próximo e parece maior.
Se a Lua estivesse mais perto naquele dia, o eclipse seria total. A diferença entre um e outro é de apenas alguns milhares de quilômetros na órbita.
O último e o próximo
O Brasil viu um anel de fogo há pouco tempo: em 14 de outubro de 2023, a faixa cruzou o Nordeste, com Natal e João Pessoa dentro dela. O de 2027 é o segundo em quatro anos, o que é raro; o normal é uma década ou mais de espera.
Depois dele, o próximo eclipse solar com faixa central no Brasil é o anular de 26 de janeiro de 2028, que atravessa a Região Norte. E o eclipse total de 2 de agosto de 2027, o que vai ter mais de seis minutos de escuridão sobre a Espanha e o Egito, não será visível do Brasil, ao contrário do que algumas manchetes deixam entender. O próximo eclipse solar total sobre território brasileiro está previsto só para 2045.
Enquanto isso, os eclipses lunares, que não exigem proteção nenhuma, estão listados em eclipse lunar no Brasil: calendário 2026–2027, e todos os eventos do ano estão no calendário astronômico 2027.




