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A sonda que fotografou a Lua inteira: o que é a LRO

Desde 2009 uma sonda da NASA dá voltas na Lua e fotografa tudo. Foi ela que achou o gelo, mapeou o polo sul da Artemis e viu os sítios da Apollo.

Publicado em 6 min de leitura
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A sonda LRO, envolta em manta térmica dourada e prateada, suspensa por cabos dentro de um galpão de testes antes do lançamento
Foto: NASA/JPL
Neste artigo
  1. O que a LRO é, em uma frase
  2. Os sete instrumentos, e o que cada um faz
  3. O mapa que ela entregou: 98% da Lua
  4. O que ela descobriu que mudou os planos da NASA
  5. As fotos dos sítios da Apollo
  6. Por que ela consegue mandar tanta coisa para casa
  7. Quanto tempo ela ainda dura

A Lunar Reconnaissance Orbiter, ou LRO, é uma sonda da NASA que dá voltas na Lua desde junho de 2009 e, de lá, fotografa e mede a superfície sem parar. Quase toda imagem moderna da Lua que você vê na internet — o lado oculto inteiro, o fundo das crateras do polo sul, os pontos onde a Apollo pousou — saiu dela. É a nave que transformou a Lua, de um disco que a gente olha de longe, no corpo celeste mais bem mapeado do Sistema Solar depois da Terra.

E ela continua lá, trabalhando, com combustível previsto para durar até por volta de 2027.

O que a LRO é, em uma frase

É um satélite do tamanho aproximado de um carro pequeno que orbita a Lua passando por cima dos dois polos, enquanto a Lua gira devagar por baixo dele. Essa combinação — órbita polar (que passa sobre o polo norte e o polo sul a cada volta) mais a rotação da Lua — faz com que, em algumas semanas, a sonda acabe sobrevoando toda a superfície, faixa por faixa, como alguém cortando grama em um gramado redondo.

Os números da ficha do catálogo da NASA: a LRO saiu do Cabo Canaveral em 18 de junho de 2009, às 21h32 no horário universal (18h32 em Brasília), num foguete Atlas V 401, junto com uma segunda nave, a LCROSS. Chegou à Lua quatro dias e meio depois, em 23 de junho. Pesava 1.846 kg na decolagem, sendo quase metade disso combustível, e carrega 92 kg de instrumentos — sete ao todo. O custo total estimado da missão foi de cerca de 460 milhões de dólares, algo como o preço de uns poucos quilômetros de metrô em São Paulo.

O lado oculto da Lua inteiro, cinzento e coberto de crateras, visto de frente sobre fundo preto
O lado oculto da Lua, montado pela NASA a partir de milhares de fotos da câmera grande-angular da LRO e divulgado em março de 2011. Repare que não há os grandes mares escuros que marcam a face que vemos daqui: do outro lado, quase tudo é terreno alto e esburacado. Foto: NASA/GSFC

Os sete instrumentos, e o que cada um faz

Cada instrumento responde a uma pergunta diferente. Vale conhecer os três primeiros, porque são eles que aparecem nas notícias:

Instrumento O que ele faz
LROC (câmeras) Duas câmeras de detalhe que enxergam 1 metro por ponto e uma grande-angular colorida de 100 metros
LOLA (altímetro a laser) Dispara laser no chão e cronometra a volta, medindo altura e relevo
Diviner (radiômetro) Mede a temperatura do chão, inclusive dentro das crateras eternamente escuras
LEND (detector de nêutrons) Procura hidrogênio, que é a pista de que há água congelada
LAMP (ultravioleta) Enxerga o fundo das crateras escuras usando só a luz das estrelas
CRaTER (radiação) Mede a radiação que um astronauta receberia, usando plástico que imita tecido humano
Mini-RF (radar) Radar que "enxerga" abaixo da poeira

A câmera é a estrela. Quando a NASA diz que a LROC tem 1 metro de resolução, significa que cada pontinho da imagem corresponde a um quadrado de 1 metro de lado no chão da Lua — mais ou menos o tamanho de uma mesa de jantar. É por isso que ela consegue mostrar um módulo lunar como um objeto, e não como um borrão. Por que nenhum telescópio aqui da Terra consegue o mesmo é assunto de Dá para ver a bandeira da Lua com telescópio?.

O mapa que ela entregou: 98% da Lua

Em 17 de dezembro de 2010, pouco mais de um ano depois de começar o trabalho principal, a NASA publicou o mapa de relevo feito com os dados do LOLA: mais de 98% da superfície lunar, com altitude medida ponto a ponto. É a razão de hoje existir um "mapa-múndi" da Lua tão bom quanto os mapas que temos dos oceanos da Terra.

Em 15 de março de 2011, a missão já tinha entregue mais de 192 terabytes de dados ao arquivo público da NASA. Para dar escala: 192 terabytes equivalem a cerca de 41 mil DVDs, na comparação da própria NASA, ou ao espaço de mil celulares novos cheios até a borda. A própria agência afirma que a LRO gerou o maior volume de dados de qualquer missão de ciência planetária da NASA.

O que ela descobriu que mudou os planos da NASA

A descoberta de maior consequência foi a água congelada no fundo das crateras do polo sul. Em 9 de outubro de 2009, a nave companheira LCROSS jogou seu estágio de foguete dentro da cratera Cabeus, perto do polo sul, e os instrumentos detectaram água na nuvem de poeira levantada. A LRO complementou isso mapeando, com o Diviner e o LEND, onde o chão é frio e escuro o bastante para guardar gelo por bilhões de anos.

Isso é o que define, hoje, onde a Artemis vai pousar: não em qualquer lugar bonito, mas perto de uma reserva de água que pode virar bebida, oxigênio e combustível. O inventário completo está em Tem água na Lua? Onde está o gelo e quanto tem.

A LRO também fotografou os buracos no chão lunar que podem ser entradas de cavernas — assunto de Tubos de lava da Lua: as cavernas da futura base — e mediu a temperatura dentro deles.

As fotos dos sítios da Apollo

A LRO fotografou todos os seis locais de pouso da Apollo. Nas imagens aparecem os estágios de descida dos módulos lunares, as trilhas de pegadas dos astronautas e os rastros do jipe nas três últimas missões. Em cinco dos seis sítios dá para ver a sombra da bandeira projetada no chão; a da Apollo 11 provavelmente foi derrubada pelo jato do motor na decolagem.

Imagem em tons de cinza do local de pouso da Apollo 12, com um ponto claro de sombra marcada no centro de uma planície cheia de pequenas crateras
O sítio da Apollo 12, no Oceano das Tempestades, visto pela câmera da LRO. O ponto brilhante com sombra no centro é o estágio de descida do módulo lunar, abandonado ali em novembro de 1969. Foto: NASA/GSFC/Arizona State University

Ela não parou nos americanos. Fotografou o local onde a soviética Luna 17 pousou em 17 de novembro de 1970, a chinesa Chang'e 4 no lado oculto em 3 de janeiro de 2019, a indiana Chandrayaan-3 em 23 de agosto de 2023 (quatro dias depois do pouso) e a americana Odysseus em 22 de fevereiro de 2024. Virou, na prática, o cartório da Lua: quando alguma coisa pousa ou cai lá, é a LRO que vai conferir.

Por que ela consegue mandar tanta coisa para casa

Há um detalhe prático que explica o volume de dados e que quase ninguém comenta: a LRO não disputa antena com as sondas distantes. Ela usa uma estação de solo própria e transmite em banda Ka a até 300 megabits por segundo — mais rápido que a maioria das conexões de fibra residencial no Brasil.

Comparar com o outro extremo ajuda: a Voyager 1, a cerca de 26 bilhões de quilômetros daqui, manda dados a cerca de 160 bits por segundo. A diferença é quase toda questão de distância, e o assunto está explicado em Como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui.

Quanto tempo ela ainda dura

A LRO passou de 15 anos em órbita da Lua e segue mandando dados. O limite não é eletrônico: é combustível. A NASA informou, no balanço de 15 anos da missão, que há propelente suficiente para manter a órbita até por volta de 2027. Quando acabar, a órbita vai se degradar aos poucos e a sonda vai cair em algum ponto da superfície que ela mesma mapeou.

Vale dizer com honestidade o que isso não significa: "até 2027" é uma estimativa de operação, não uma data de desligamento marcada. Missões assim costumam ser estendidas quando a nave está saudável e o dinheiro aparece. Como ela é hoje a principal fonte de imagens para escolher onde pousar, há bom motivo para esticá-la o quanto der.

Perguntas frequentes

A LRO ainda está funcionando?

Está. Ela entrou em órbita da Lua em junho de 2009 e continua ativa, passando dos 15 anos de operação. A NASA estima combustível para manter a órbita até perto de 2027.

A LRO consegue ver a bandeira da Apollo?

Ela vê a sombra da bandeira, não o tecido. A câmera separa detalhes de cerca de 1 metro, e a bandeira tem 1,5 metro de largura mas é fininha de perfil. A sombra comprida projetada no chão é mais fácil de identificar que o objeto em si.

Por que não dá para fazer essas fotos de um telescópio daqui da Terra?

Porque o detalhe que um telescópio separa depende do tamanho do espelho e da distância. Para chegar a 1 metro de detalhe na Lua a 384.400 km, seria preciso um espelho de centenas de metros. A LRO resolve o problema do jeito mais simples: fica a algumas dezenas de quilômetros do chão.

Quem controla a LRO?

O Centro Goddard de Voo Espacial da NASA, em Maryland, nos Estados Unidos. As câmeras LROC são operadas por uma equipe da Universidade Estadual do Arizona, e as imagens entram em um arquivo público que qualquer pessoa pode consultar.

Ela já quase bateu em outra sonda?

Em 5 de março de 2024 a LRO passou a menos de 5 quilômetros da sonda sul-coreana Danuri, com velocidade relativa de cerca de 11.500 km/h. A órbita da Lua está ficando movimentada, e as agências já coordenam passagens entre si para evitar sustos.

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