Marte e vida fora da Terra

Monte Olimpo: a maior montanha do Sistema Solar

Quanto mede o vulcão gigante de Marte, por que a NASA e a ESA publicam alturas diferentes e por que ele nunca poderia existir na Terra.

Publicado em 8 min de leitura
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O vulcão Monte Olimpo visto de cima, um domo circular acastanhado com a cratera do cume no centro e um paredão contornando a base
Foto: NASA/JPL
Neste artigo
  1. Quanto ele tem de altura, afinal
  2. Por que a resposta não é um número só
  3. Uma montanha que não parece uma montanha
  4. O paredão de 6 km que cerca a base
  5. Por que Marte conseguiu e a Terra não
  6. Ele não está sozinho: a família de Tharsis
  7. Dá para ver o Monte Olimpo da Terra?

O Monte Olimpo, em Marte, é a maior montanha do Sistema Solar: ele tem cerca de 22 quilômetros de altura e uma base de mais de 600 quilômetros de largura — quase a distância entre Brasília e Belo Horizonte. É um vulcão, não uma montanha dobrada como os Andes, e é tão largo que, se você estivesse em pé na encosta dele, provavelmente não perceberia que está subindo.

E já aviso uma coisa que vai aparecer em qualquer pesquisa que você fizer: a altura dele muda dependendo de quem publica. Isso não é erro de ninguém. É consequência de um detalhe que quase nunca se explica, e é o assunto da próxima seção.

Quanto ele tem de altura, afinal

Aqui estão os números que as próprias agências espaciais publicam, cada um medindo uma coisa diferente:

Quanto Quem publica O que esse número mede
22 km ESA (Mars Express) Elevação média do cume em relação ao nível de referência de Marte
27 km NASA/JPL (legenda da foto PIA00300) Altura do cume acima do terreno em volta
mais de 40 km NASA/JPL (legenda da foto PIA25476) Da base mais profunda, enterrada, até o cume

Repare que nenhum deles está errado. Eles medem a partir de pontos de partida diferentes — e essa é a chave para entender o Monte Olimpo.

Por que a resposta não é um número só

Na Terra, todo mundo concorda sobre a altura de uma montanha porque existe um acordo silencioso: medimos a partir do nível do mar. O Everest tem 8.849 metros acima do nível do mar (altura oficial acordada entre Nepal e China em 2020).

Marte não tem mar. Sem oceano, não existe um "zero" natural, e os cientistas tiveram de inventar um: um nível de referência definido por medições de altimetria a laser feitas da órbita. É desse zero artificial que saem os 22 quilômetros da ESA.

Só que o chão em volta do Monte Olimpo não é plano. O lado noroeste da base está vários quilômetros mais baixo que o lado sudeste, e boa parte da base está enterrada sob as próprias lavas que o vulcão despejou. Medir "do pé até o topo" depende, então, de qual pé você escolhe. Daí os 27 km de um lado e os "mais de 40 km" de outro.

O jeito honesto de guardar isso é: o Monte Olimpo levanta uns 22 quilômetros acima do nível de referência de Marte, e o número que você vai ler por aí depende de onde a régua foi encostada. Sempre que um site der uma altura sem dizer a partir de onde, desconfie — vale para Marte e vale para a Terra.

O vulcão Monte Olimpo visto de cima, um domo circular acastanhado com a cratera do cume no centro e um paredão contornando a base
O Monte Olimpo em mosaico colorido das sondas Viking. O buraco escuro no meio é a caldeira, a cratera que se forma quando a câmara de lava esvazia e o teto desaba. A linha de penhascos contornando o vulcão é a escarpa, que chega a 6 km de altura. Foto: NASA/JPL

Uma montanha que não parece uma montanha

Quando alguém diz "montanha de 22 km", a imagem que vem à cabeça é um pico afiado espetado no céu. O Monte Olimpo é o oposto disso.

Faça a conta comigo: 22 quilômetros de altura espalhados por 300 quilômetros de raio dão uma inclinação média de 4,2 graus, ou uma rampa de 7%. Para comparar: 7% é a inclinação de um trecho puxado de rodovia brasileira, daqueles em que o caminhão engata a marcha reduzida. Só que aqui essa rampa tem 300 quilômetros de comprimento.

Na prática, o Monte Olimpo é um escudo: uma pilha larguíssima e baixinha de lava muito fluida, empilhada camada sobre camada por bilhões de anos. O nome técnico é vulcão-escudo, o mesmo tipo dos vulcões do Havaí — e a diferença é só de escala.

A base cobre cerca de 283 mil quilômetros quadrados (conta nossa, tratando a base como um círculo de 600 km de diâmetro). A NASA compara essa área à do estado americano do Arizona. Em distância, dá para entender melhor: atravessar a base do Monte Olimpo de ponta a ponta é como ir de Brasília a Belo Horizonte, que são 620 km em linha reta.

O paredão de 6 km que cerca a base

Se a encosta é suave, onde está o drama? Na borda.

O Monte Olimpo é contornado por uma escarpa — um paredão de penhascos que, segundo a NASA, chega a 6 quilômetros de altura em alguns pontos. Ou seja: a parte mais espetacular do maior vulcão do Sistema Solar não é o cume, é a muralha que cerca o pé dele. Seis quilômetros de parede quase vertical são dois terços da altura do Everest, de uma vez só.

Ninguém sabe ao certo como essa escarpa se formou, e vale dizer isso com todas as letras: é um problema em aberto há décadas. A explicação mais persistente envolve deslizamentos gigantescos nas bordas do vulcão, que teriam espalhado destroços por centenas de quilômetros ao redor.

No cume fica a caldeira, a cratera que aparece como uma mancha escura na foto. Ela não é uma cratera de impacto: é o teto da câmara de lava que desabou depois que o magma escoou. A ESA mediu cerca de 3 quilômetros de profundidade, e a NASA registra que as crateras individuais que formam o conjunto têm em torno de 25 quilômetros de diâmetro cada uma. A primeira imagem colorida de alta resolução da caldeira inteira foi feita pela sonda Mars Express, da ESA, em 21 de janeiro de 2004.

Por que Marte conseguiu e a Terra não

Esta é a parte bonita da história, e ela explica o vulcão inteiro.

A Terra tem placas tectônicas: a crosta é dividida em pedaços que deslizam devagar, poucos centímetros por ano. Quando existe um ponto quente no manto — uma fonte de magma parada lá embaixo —, a placa passa por cima dele como uma esteira. O ponto quente constrói um vulcão, a placa arrasta esse vulcão para o lado, e o ponto quente começa outro. É exatamente isso que produziu o Havaí: não uma ilha, mas uma fileira de ilhas, cada uma um vulcão apagado que foi levado embora da fonte.

Marte não tem placas tectônicas. A crosta é uma peça só, e ela fica parada. O ponto quente despeja lava sempre no mesmo lugar, por bilhões de anos, sem nunca ser arrastado. Em vez de uma fileira de vulcões médios, o resultado é um vulcão só, monstruoso.

Some a isso a gravidade: em Marte ela é 0,38 vez a nossa (o assunto está em O que é gravidade? E por que os astronautas flutuam). Uma pilha de rocha pesa menos lá, então ela pode crescer mais antes de começar a afundar sob o próprio peso. Crosta parada e gravidade fraca, juntas, são a receita.

Uma região alaranjada de Marte com vários vulcões circulares grandes, um deles bem maior, e o começo de um sistema de cânions no canto
A região de Tharsis, em mosaico das Viking. O Monte Olimpo é o domo grande à esquerda; os três alinhados na diagonal são os Montes Tharsis, e o risco no canto inferior direito é o começo do cânion Valles Marineris. Foto: NASA/JPL/USGS

Ele não está sozinho: a família de Tharsis

O Monte Olimpo fica na borda de uma protuberância enorme da crosta marciana chamada Tharsis, e tem vizinhos do mesmo porte. Três outros vulcões gigantes — Arsia, Pavonis e Ascraeus — estão alinhados numa diagonal, como se alguém tivesse marcado o mapa com três pontos.

Esse alinhamento é a pista de que o assunto é mesmo o ponto quente no manto, e não um acidente isolado. É também um lembrete de que a história térmica de Marte foi violenta: o planeta produziu essa montanha toda e depois esfriou, perdeu o campo magnético e perdeu o ar, história contada em Por que Marte perdeu a atmosfera (e a Terra não)?.

Aqui vai a comparação que costuma impressionar mais:

Montanha Altura Medida a partir de
Monte Olimpo (Marte) ~22 km Nível de referência de Marte
Mauna Loa (Havaí) 9 km Base, no fundo do mar
Everest (Ásia) 8,849 km Nível do mar

O Mauna Loa é o maior vulcão da Terra quando se mede do fundo do oceano — o número de 9 km é da própria NASA. O Monte Olimpo tem quase duas vezes e meia essa altura, e uma base muito mais larga.

A ilha do Havaí vista do espaço, cercada de oceano azul-escuro, com dois cumes claros de neve no alto dos vulcões
A ilha do Havaí fotografada da Estação Espacial. Os dois pontos claros são os cumes nevados do Mauna Loa e do Mauna Kea. É a mesma receita de vulcão do Monte Olimpo, em escala terrestre — e, como a placa se move, o Havaí virou uma fileira de ilhas em vez de uma montanha só. Foto: NASA/JSC

Dá para ver o Monte Olimpo da Terra?

Com telescópio de amador, não como montanha. O que dá para ver, em noites de boa visibilidade e com Marte perto, é uma mancha clara na região de Tharsis, que às vezes é nuvem se formando sobre os vulcões. O relevo em si só aparece em imagens de sonda.

O que não dá para ver de jeito nenhum é o Monte Olimpo durante uma tempestade de poeira global, quando o planeta inteiro some atrás de uma névoa alaranjada — fenômeno explicado em Tempestade de poeira em Marte: o filme errou?.

Se algum dia alguém pisar lá, a experiência vai ser estranha: uma caminhada de centenas de quilômetros numa ladeira mansa, com a atmosfera ficando cada vez mais rala, até chegar a um buraco de 3 km de fundo e 25 km de diâmetro. E, olhando para trás, nenhuma vista de vale — só uma planície avermelhada indo embora até o horizonte.

Perguntas frequentes

Qual é a maior montanha do Sistema Solar?

É o Monte Olimpo, um vulcão em Marte, com cerca de 22 km de altura acima do nível de referência marciano e mais de 600 km de largura na base. Ele é maior que qualquer montanha conhecida na Terra ou em qualquer outro planeta ou lua já visitado por sondas.

Quantas vezes o Monte Olimpo é maior que o Everest?

Cerca de 2,5 vezes mais alto, usando os 22 km do Monte Olimpo e os 8.849 metros do Everest. Mas a diferença de largura é ainda maior: a base do Monte Olimpo tem mais de 600 km, enquanto o maciço do Everest tem algumas dezenas de quilômetros.

Por que cada site dá uma altura diferente para o Monte Olimpo?

Porque Marte não tem nível do mar. Cada fonte escolhe um ponto de partida: o nível de referência do planeta (22 km), o terreno em volta (27 km) ou a base enterrada mais profunda (mais de 40 km). Todos são defensáveis, desde que digam a partir de onde mediram.

O Monte Olimpo ainda está em atividade?

Não há erupção conhecida em Marte hoje, e nenhuma sonda registrou atividade vulcânica no Monte Olimpo. As lavas mais recentes das encostas parecem geologicamente jovens para os padrões marcianos, mas isso ainda significa milhões de anos de idade. É mais seguro tratá-lo como adormecido do que como extinto.

Por que a Terra não tem um vulcão desse tamanho?

Porque a crosta terrestre se move. O ponto quente que constrói um vulcão fica parado no manto, e a placa passa por cima dele, arrastando o vulcão para longe da fonte. O resultado é uma fileira de vulcões médios, como as ilhas do Havaí, em vez de um único gigante. Marte tem crosta parada e gravidade menor, e por isso a lava empilhou sempre no mesmo ponto.

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