O Monte Olimpo, em Marte, é a maior montanha do Sistema Solar: ele tem cerca de 22 quilômetros de altura e uma base de mais de 600 quilômetros de largura — quase a distância entre Brasília e Belo Horizonte. É um vulcão, não uma montanha dobrada como os Andes, e é tão largo que, se você estivesse em pé na encosta dele, provavelmente não perceberia que está subindo.
E já aviso uma coisa que vai aparecer em qualquer pesquisa que você fizer: a altura dele muda dependendo de quem publica. Isso não é erro de ninguém. É consequência de um detalhe que quase nunca se explica, e é o assunto da próxima seção.
Quanto ele tem de altura, afinal
Aqui estão os números que as próprias agências espaciais publicam, cada um medindo uma coisa diferente:
| Quanto | Quem publica | O que esse número mede |
|---|---|---|
| 22 km | ESA (Mars Express) | Elevação média do cume em relação ao nível de referência de Marte |
| 27 km | NASA/JPL (legenda da foto PIA00300) | Altura do cume acima do terreno em volta |
| mais de 40 km | NASA/JPL (legenda da foto PIA25476) | Da base mais profunda, enterrada, até o cume |
Repare que nenhum deles está errado. Eles medem a partir de pontos de partida diferentes — e essa é a chave para entender o Monte Olimpo.
Por que a resposta não é um número só
Na Terra, todo mundo concorda sobre a altura de uma montanha porque existe um acordo silencioso: medimos a partir do nível do mar. O Everest tem 8.849 metros acima do nível do mar (altura oficial acordada entre Nepal e China em 2020).
Marte não tem mar. Sem oceano, não existe um "zero" natural, e os cientistas tiveram de inventar um: um nível de referência definido por medições de altimetria a laser feitas da órbita. É desse zero artificial que saem os 22 quilômetros da ESA.
Só que o chão em volta do Monte Olimpo não é plano. O lado noroeste da base está vários quilômetros mais baixo que o lado sudeste, e boa parte da base está enterrada sob as próprias lavas que o vulcão despejou. Medir "do pé até o topo" depende, então, de qual pé você escolhe. Daí os 27 km de um lado e os "mais de 40 km" de outro.
O jeito honesto de guardar isso é: o Monte Olimpo levanta uns 22 quilômetros acima do nível de referência de Marte, e o número que você vai ler por aí depende de onde a régua foi encostada. Sempre que um site der uma altura sem dizer a partir de onde, desconfie — vale para Marte e vale para a Terra.

Uma montanha que não parece uma montanha
Quando alguém diz "montanha de 22 km", a imagem que vem à cabeça é um pico afiado espetado no céu. O Monte Olimpo é o oposto disso.
Faça a conta comigo: 22 quilômetros de altura espalhados por 300 quilômetros de raio dão uma inclinação média de 4,2 graus, ou uma rampa de 7%. Para comparar: 7% é a inclinação de um trecho puxado de rodovia brasileira, daqueles em que o caminhão engata a marcha reduzida. Só que aqui essa rampa tem 300 quilômetros de comprimento.
Na prática, o Monte Olimpo é um escudo: uma pilha larguíssima e baixinha de lava muito fluida, empilhada camada sobre camada por bilhões de anos. O nome técnico é vulcão-escudo, o mesmo tipo dos vulcões do Havaí — e a diferença é só de escala.
A base cobre cerca de 283 mil quilômetros quadrados (conta nossa, tratando a base como um círculo de 600 km de diâmetro). A NASA compara essa área à do estado americano do Arizona. Em distância, dá para entender melhor: atravessar a base do Monte Olimpo de ponta a ponta é como ir de Brasília a Belo Horizonte, que são 620 km em linha reta.
O paredão de 6 km que cerca a base
Se a encosta é suave, onde está o drama? Na borda.
O Monte Olimpo é contornado por uma escarpa — um paredão de penhascos que, segundo a NASA, chega a 6 quilômetros de altura em alguns pontos. Ou seja: a parte mais espetacular do maior vulcão do Sistema Solar não é o cume, é a muralha que cerca o pé dele. Seis quilômetros de parede quase vertical são dois terços da altura do Everest, de uma vez só.
Ninguém sabe ao certo como essa escarpa se formou, e vale dizer isso com todas as letras: é um problema em aberto há décadas. A explicação mais persistente envolve deslizamentos gigantescos nas bordas do vulcão, que teriam espalhado destroços por centenas de quilômetros ao redor.
No cume fica a caldeira, a cratera que aparece como uma mancha escura na foto. Ela não é uma cratera de impacto: é o teto da câmara de lava que desabou depois que o magma escoou. A ESA mediu cerca de 3 quilômetros de profundidade, e a NASA registra que as crateras individuais que formam o conjunto têm em torno de 25 quilômetros de diâmetro cada uma. A primeira imagem colorida de alta resolução da caldeira inteira foi feita pela sonda Mars Express, da ESA, em 21 de janeiro de 2004.
Por que Marte conseguiu e a Terra não
Esta é a parte bonita da história, e ela explica o vulcão inteiro.
A Terra tem placas tectônicas: a crosta é dividida em pedaços que deslizam devagar, poucos centímetros por ano. Quando existe um ponto quente no manto — uma fonte de magma parada lá embaixo —, a placa passa por cima dele como uma esteira. O ponto quente constrói um vulcão, a placa arrasta esse vulcão para o lado, e o ponto quente começa outro. É exatamente isso que produziu o Havaí: não uma ilha, mas uma fileira de ilhas, cada uma um vulcão apagado que foi levado embora da fonte.
Marte não tem placas tectônicas. A crosta é uma peça só, e ela fica parada. O ponto quente despeja lava sempre no mesmo lugar, por bilhões de anos, sem nunca ser arrastado. Em vez de uma fileira de vulcões médios, o resultado é um vulcão só, monstruoso.
Some a isso a gravidade: em Marte ela é 0,38 vez a nossa (o assunto está em O que é gravidade? E por que os astronautas flutuam). Uma pilha de rocha pesa menos lá, então ela pode crescer mais antes de começar a afundar sob o próprio peso. Crosta parada e gravidade fraca, juntas, são a receita.

Ele não está sozinho: a família de Tharsis
O Monte Olimpo fica na borda de uma protuberância enorme da crosta marciana chamada Tharsis, e tem vizinhos do mesmo porte. Três outros vulcões gigantes — Arsia, Pavonis e Ascraeus — estão alinhados numa diagonal, como se alguém tivesse marcado o mapa com três pontos.
Esse alinhamento é a pista de que o assunto é mesmo o ponto quente no manto, e não um acidente isolado. É também um lembrete de que a história térmica de Marte foi violenta: o planeta produziu essa montanha toda e depois esfriou, perdeu o campo magnético e perdeu o ar, história contada em Por que Marte perdeu a atmosfera (e a Terra não)?.
Aqui vai a comparação que costuma impressionar mais:
| Montanha | Altura | Medida a partir de |
|---|---|---|
| Monte Olimpo (Marte) | ~22 km | Nível de referência de Marte |
| Mauna Loa (Havaí) | 9 km | Base, no fundo do mar |
| Everest (Ásia) | 8,849 km | Nível do mar |
O Mauna Loa é o maior vulcão da Terra quando se mede do fundo do oceano — o número de 9 km é da própria NASA. O Monte Olimpo tem quase duas vezes e meia essa altura, e uma base muito mais larga.

Dá para ver o Monte Olimpo da Terra?
Com telescópio de amador, não como montanha. O que dá para ver, em noites de boa visibilidade e com Marte perto, é uma mancha clara na região de Tharsis, que às vezes é nuvem se formando sobre os vulcões. O relevo em si só aparece em imagens de sonda.
O que não dá para ver de jeito nenhum é o Monte Olimpo durante uma tempestade de poeira global, quando o planeta inteiro some atrás de uma névoa alaranjada — fenômeno explicado em Tempestade de poeira em Marte: o filme errou?.
Se algum dia alguém pisar lá, a experiência vai ser estranha: uma caminhada de centenas de quilômetros numa ladeira mansa, com a atmosfera ficando cada vez mais rala, até chegar a um buraco de 3 km de fundo e 25 km de diâmetro. E, olhando para trás, nenhuma vista de vale — só uma planície avermelhada indo embora até o horizonte.



