Marte e vida fora da Terra

Tempestade de poeira em Marte: o filme errou?

Marte tem tempestades que cobrem o planeta e apagam o Sol por semanas. Mas o vento lá não derruba ninguém. Veja o que é real e o que o cinema inventou.

Publicado em 7 min de leitura
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Seis faixas lado a lado mostrando o Sol em Marte escurecendo aos poucos até sumir na tempestade de poeira de 2018
Foto: NASA/JPL-Caltech/TAMU
Neste artigo
  1. O ar de Marte quase não existe
  2. A conta que derruba a cena do filme
  3. Então por que a tempestade de 2018 foi tão grave?
  4. De quantos em quantos anos isso acontece
  5. A estação das tempestades, e por que ela existe
  6. O que a poeira faz com quem trabalha lá

As tempestades de poeira de Marte são reais, gigantescas e capazes de cobrir o planeta inteiro — uma delas apagou o Sol e matou um rover da NASA em 2018. Mas a cena de abertura de Perdido em Marte, em que o vento derruba um foguete e arranca um astronauta do chão, é fisicamente impossível: o ar de Marte é tão rarefeito que a rajada mais forte já medida lá empurra menos que uma brisa de 12 km/h aqui na Terra.

As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e entender por que é entender o clima de Marte. Vamos aos números, todos de medição da NASA.

O ar de Marte quase não existe

Tudo começa aqui. A ficha planetária da NASA põe os dois planetas lado a lado:

Item Marte Terra
Pressão na superfície 6,36 milibares 1.014 milibares
Densidade do ar na superfície cerca de 0,016 kg/m³ 1,217 kg/m³
Inclinação do eixo 25,19° 23,44°
Duração do ano 686,98 dias 365,26 dias

Repare na segunda linha. Um metro cúbico de ar marciano pesa 16 gramas; o mesmo metro cúbico aqui pesa 1,2 quilo. O ar de Marte é 76 vezes mais leve que o nosso (conta a partir dos dois valores acima).

E é isso que muda tudo, porque a força que o vento faz não depende só da velocidade: depende do peso do ar que ele empurra. É a diferença entre levar um tapa de ar e levar um tapa de água. Você consegue andar contra um vento de 30 km/h; não consegue andar contra uma correnteza de 30 km/h.

A conta que derruba a cena do filme

A NASA mediu o vento em Marte com os módulos Viking, no chão. Os valores da ficha planetária:

Situação Velocidade medida
Verão, dia comum 2 a 7 m/s (7 a 25 km/h)
Outono 5 a 10 m/s (18 a 36 km/h)
Durante tempestade de poeira 17 a 30 m/s (61 a 108 km/h)

Cento e oito quilômetros por hora parece coisa séria — e seria, aqui. Mas a força do vento cresce com a densidade do ar multiplicada pelo quadrado da velocidade. Fazendo a conta com as densidades da tabela anterior, uma rajada de 108 km/h em Marte empurra o mesmo que uma brisa de 12 km/h na Terra (conta nossa).

Doze quilômetros por hora é o vento que balança a cortina da janela. É o que você sente andando de bicicleta devagar. Não derruba uma pessoa, não tomba um foguete e não arranca uma antena.

A NASA diz a mesma coisa com as próprias palavras: em uma página dedicada justamente a separar fato de ficção nas tempestades marcianas, a agência registra que o vento mais forte chega a "cerca de 60 milhas por hora", menos da metade da velocidade de alguns ventos de furacão na Terra, e que uma tempestade marciana não derrubaria nem rasgaria equipamento mecânico de grande porte. O cientista Michael Smith, do Goddard, afirma que é improvável que uma tempestade dessas deixasse um astronauta preso em Marte.

Para quem quer saber o que de fato mataria alguém lá fora, a lista é outra e está em O que acontece com o corpo humano no espaço sem traje.

Então por que a tempestade de 2018 foi tão grave?

Porque o perigo não é o empurrão. É a sombra.

A poeira marciana é finíssima, mais fina que talco, com grãos de poucos micrômetros, e a NASA descreve os grãos como levemente eletrostáticos: eles grudam nas superfícies que tocam, como isopor picado. Uma vez levantada, essa poeira fica semanas suspensa no ar rarefeito — e bloqueia o Sol.

Em 30 de maio de 2018, a sonda Mars Reconnaissance Orbiter detectou o começo de uma tempestade. Em 19 de junho ela já era oficialmente um evento de poeira que envolvia o planeta inteiro, maior que a América do Norte e a Rússia somadas.

O rover Opportunity, que funcionava com painéis solares, parou de falar com a Terra em 10 de junho de 2018, sem conseguir recarregar as baterias. A NASA enviou mais de mil comandos ao longo dos meses seguintes e, em 13 de fevereiro de 2019, declarou a missão encerrada. O rover tinha sido projetado para durar 90 dias e durou quase 15 anos, rodando 45,16 km na superfície.

O Curiosity, que estava lá no mesmo momento, atravessou a tempestade sem susto — porque ele não depende do Sol: usa um gerador nuclear, assunto de Por que as sondas da NASA usam energia nuclear?.

Mapa do planeta Marte inteiro, aberto como um mapa-múndi, com grandes manchas claras de poeira cobrindo boa parte da superfície alaranjada
Marte inteiro em 6 de junho de 2018, montado a partir das imagens diárias da Mars Reconnaissance Orbiter. As manchas claras são a poeira se espalhando. O ponto azul marca onde estava o rover Opportunity. Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS

De quantos em quantos anos isso acontece

Tempestades regionais são comuns. As globais, que cobrem o planeta, são raras. A NASA registra que elas acontecem, em média, uma vez a cada três anos marcianos — cerca de cinco anos e meio terrestres.

Os eventos confirmados, segundo a NASA:

Ano terrestre O que ficou registrado
1971 Encobriu Marte durante a chegada das primeiras sondas
1977 Global
1982 Global
1994 Global
2001 Global, acompanhada em detalhe por orbitadores
2007 Reduziu muito a energia dos rovers Spirit e Opportunity
2018 A última confirmada; encerrou a missão do Opportunity

Desde 1924, o JPL conta nove eventos de poeira que envolveram o planeta, com a ressalva honesta de que o número real deve ser maior: durante boa parte desse período não havia ninguém olhando de perto. Depois de 2018 houve tempestades enormes — uma delas, em janeiro de 2022, do tamanho de dois Estados Unidos —, mas nenhuma foi classificada como global.

A estação das tempestades, e por que ela existe

Aqui entra o detalhe que quase ninguém conta: as tempestades globais têm estação. Elas acontecem na primavera e no verão do hemisfério sul de Marte, que é quando o planeta passa mais perto do Sol.

A órbita de Marte é bem mais alongada que a nossa. Pela ficha da NASA, ele vai de 206,65 milhões de km do Sol no ponto mais próximo a 249,26 milhões no mais distante. Isso significa que, no periélio, Marte recebe 45% mais luz solar do que no afélio (conta nossa, a partir dos dois valores). Mais luz, mais aquecimento, mais ar em movimento — e a poeira levantada esquenta o ar ainda mais, o que levanta mais poeira. A tempestade se alimenta de si mesma.

Nós calculamos as datas dessa estação para o ciclo atual, usando a posição do Sol sobre Marte fornecida pelo sistema Horizons do JPL:

Marco em Marte Data na Terra (cálculo nosso)
Começo da primavera no sul (abre a estação de poeira) 30 de novembro de 2025
Solstício de verão no sul (auge da estação) 25 de abril de 2026
Fim da estação e virada do ano marciano 1º de outubro de 2026
Próxima abertura da estação de poeira 18 de outubro de 2027

Ou seja: a temporada de tempestades globais de Marte está acabando agora. A virada do dia 1º de outubro marca o início do ano marciano 39, contado desde a primavera de 1955 — e a próxima janela de risco só abre em outubro de 2027. Como um ano marciano dura 687 dias, essas datas andam bastante no nosso calendário; a mecânica disso está em Quanto tempo dura um ano em cada planeta?.

Um detalhe dá confiança na conta: a imagem da tempestade de 2018 publicada pela NASA vem carimbada com a posição de Marte na órbita no dia 6 de junho daquele ano, e ela cai poucos dias depois do início da primavera no hemisfério sul — exatamente onde a nossa tabela põe a abertura da estação.

Superfície alaranjada de Marte vista de cima, com uma nuvem branca e densa de poeira erguendo-se acima das crateras e de um vulcão
Uma "torre de poeira" sobre a superfície de Marte, fotografada pela Mars Reconnaissance Orbiter. Colunas assim levam poeira para bem alto na atmosfera e são um dos motores das tempestades que crescem até virar globais. Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS

O que a poeira faz com quem trabalha lá

Mesmo fora das tempestades globais, a poeira é o inimigo número um de qualquer equipamento em Marte:

  • Painéis solares sujos. Até um redemoinho de poeira pequeno cobre o painel e reduz a luz que chega nele. Sem vento forte para limpar, a energia cai ano após ano.
  • Tudo gruda. Os grãos eletrostáticos aderem a lentes, juntas, trilhos e vedações.
  • A atmosfera incha. Durante tempestades, a densidade do ar em grande altitude pode triplicar — a NASA descobriu isso com o Mars Global Surveyor. Isso é um problema direto para as sondas que freiam usando a atmosfera para entrar em órbita, técnica explicada em Como uma sonda entra em órbita de outro planeta?.
  • O pouso fica pior. Menos visibilidade e ar mais instável complicam a descida, já difícil por si só, como conta Como uma sonda pousa em Marte? Os 7 minutos de terror.

E é essa mesma poeira, levantada e redistribuída por bilhões de anos, que dá ao planeta a cor que todo mundo conhece — a história está em Por que Marte é vermelho?.

Perguntas frequentes

Existe tempestade de areia em Marte de verdade?

Existe, mas não é areia: é poeira finíssima, mais fina que talco. As tempestades são reais e algumas cobrem o planeta inteiro por semanas. A diferença para a Terra é que o ar marciano é 76 vezes mais leve que o nosso, então a força do vento é pequena mesmo quando a velocidade é alta.

O vento de Marte poderia derrubar uma pessoa ou um foguete?

Não. A NASA mediu rajadas de até 30 m/s, ou 108 km/h, durante tempestades. Como o ar de Marte é muito mais rarefeito, essa rajada empurra o mesmo que uma brisa de cerca de 12 km/h na Terra. A cena de abertura de Perdido em Marte é a parte fictícia do filme, e a própria NASA diz isso.

O que matou o rover Opportunity?

A falta de luz. A tempestade global de 2018 escureceu o céu a ponto de os painéis solares não conseguirem recarregar as baterias. O rover parou de se comunicar em 10 de junho de 2018, e a NASA declarou a missão encerrada em 13 de fevereiro de 2019, depois de mais de mil tentativas de contato.

De quantos em quantos anos acontece uma tempestade global em Marte?

Em média, uma vez a cada três anos marcianos, o que dá cerca de cinco anos e meio terrestres. Elas só acontecem na primavera e no verão do hemisfério sul marciano, quando o planeta está mais perto do Sol. A última confirmada foi a de 2018.

Quando é a próxima estação de tempestades em Marte?

Pelo nosso cálculo com os dados do JPL Horizons, a estação atual termina em 1º de outubro de 2026, que é também a virada do ano marciano. A próxima janela de risco abre em 18 de outubro de 2027 e vai até o fim de 2028. Isso não garante que haverá uma tempestade global: garante apenas que é nessa faixa que elas podem acontecer.

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