Tecnologia e negócios

O que é o SWOT, o satélite que mede toda a água da Terra

O SWOT mede a altura de rios, lagos e oceano com até 1 cm de precisão numa faixa de 120 km. Em 2026 ele entregou a vazão de todo rio largo do planeta.

Publicado em 6 min de leitura
Compartilhar:
Parte do conjunto de instrumentos do satélite SWOT, um cilindro branco com manta térmica dourada, montado numa estrutura de apoio dentro de sala limpa
Foto: NASA/JPL-Caltech
Neste artigo
  1. Quem fez e quem paga
  2. O coração da coisa: o instrumento KaRIn
  3. O que ele enxerga, em números
  4. O resultado que mudou o jogo: a vazão de todo rio largo do planeta
  5. Por que isso importa para o Brasil
  6. Como ele se encaixa na medida do nível do mar
  7. O que o SWOT não faz

O SWOT é um satélite da NASA e da agência espacial francesa que faz uma coisa aparentemente simples e tecnicamente difícil: medir a altura da superfície da água em quase todo lugar da Terra — oceano, rio, lago e reservatório — com precisão de centímetros. O nome é a sigla de Surface Water and Ocean Topography, ou "topografia da água de superfície e do oceano". Ele foi lançado em 16 de dezembro de 2022, num foguete Falcon 9 da SpaceX, e ainda está trabalhando.

A ideia por trás dele é nova, e vale entender logo: até o SWOT, os satélites que mediam altura de água enxergavam uma linha fina logo abaixo deles. O SWOT enxerga uma faixa de 120 quilômetros de largura de uma vez. É a diferença entre passar um dedo sobre a mesa e passar um rodo.

Quem fez e quem paga

É uma missão conjunta de quatro agências. A NASA, através do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), e o CNES, a agência espacial da França, construíram e operam o satélite. A Agência Espacial Canadense e a Agência Espacial do Reino Unido entraram com contribuições.

Isso não é detalhe burocrático: significa que os dados são públicos e saem por um arquivo aberto da NASA, o PO.DAAC, que qualquer pessoa no mundo pode consultar.

O coração da coisa: o instrumento KaRIn

O instrumento principal chama-se KaRIn, de Ka-band Radar Interferometer. Em português: interferômetro de radar em banda Ka. Vamos destrinchar isso devagar, porque é aqui que mora a mágica.

Radar é o aparelho que dispara ondas de rádio para baixo e cronometra quanto tempo elas demoram para voltar. Quanto mais cedo a onda volta, mais alta está a superfície que a refletiu. Isso já era conhecido.

Interferômetro é o que há de novo. Em vez de uma antena só, o SWOT tem duas antenas de radar, montadas nas duas pontas de uma viga de 10 metros — quase o comprimento de um ônibus. Cada antena recebe o eco da mesma onda, mas de um ponto ligeiramente diferente, e a minúscula diferença entre os dois sinais revela a altura do ponto no chão com precisão absurda. É o mesmo princípio dos seus dois olhos: um olho só enxerga; dois olhos enxergam profundidade.

Banda Ka é a faixa de rádio em que ele trabalha: 35,75 gigahertz, uma onda bem curta, que reflete muito bem em água parada. O radar olha quase a pino, com um ângulo de só 2,7 graus para cada lado.

Ilustração do satélite SWOT no espaço, com uma viga horizontal comprida e uma antena de radar em cada ponta, mais dois painéis solares, sobre fundo preto estrelado
Ilustração da NASA: repare na viga horizontal com uma antena em cada ponta. São esses dez metros de distância entre elas que permitem medir altura por interferometria. Foto: NASA/JPL-Caltech

O que ele enxerga, em números

Medida Sobre terra (rios e lagos) Sobre o oceano
Resolução horizontal 50 metros 1 quilômetro
Resolução vertical (altura) 10 centímetros 1 centímetro
Largura da faixa medida 120 quilômetros 120 quilômetros
Altura da órbita 891 quilômetros 891 quilômetros
Ciclo de repetição 21 dias 21 dias
Revisita média 11 dias 11 dias

Um centímetro é a espessura de um lápis deitado. O SWOT consegue perceber uma variação desse tamanho na superfície do mar de 891 quilômetros de altura — mais que o dobro da altura em que voa a Estação Espacial. Sobre a terra, onde a água é mais agitada e o terreno atrapalha, a precisão cai para 10 centímetros, que ainda é a altura de um copo.

A resolução horizontal de 50 metros significa que ele divide o chão em quadradinhos de meio quarteirão. Sobre o oceano, que é grande e liso, ele trabalha com quadrados de 1 quilômetro.

Vale notar que a órbita dele não é sol-síncrona, ao contrário da maioria dos satélites de observação da Terra. Isso é proposital: como ele precisa medir maré, passar sempre no mesmo horário local seria péssimo, porque a maré também segue horário. O que é uma órbita sol-síncrona e por que quase todo satélite de imagem usa uma está em Órbita sol-síncrona: a que fotografa sempre na mesma luz.

O resultado que mudou o jogo: a vazão de todo rio largo do planeta

Em 5 de janeiro de 2026, a NASA e o CNES divulgaram a primeira estimativa global de vazão de rios feita do espaço.

"Vazão" é o volume de água que passa por segundo num ponto do rio. É o número que decide se uma usina hidrelétrica vai gerar energia, se uma cidade vai ter água na torneira e se uma várzea vai alagar. Até então, ele era medido por estações no chão — réguas, sensores, gente indo até lá. Rio sem estação, e eles são a maioria do planeta, simplesmente não tinha número.

O levantamento do SWOT cobre todo rio da Terra com mais de 50 metros de largura e traz junto a concentração de sedimento em suspensão, ou seja, quanta terra o rio está carregando. Dados e algoritmos ficaram públicos.

A NASA cita o Mississippi e o Amazonas entre os rios acompanhados. E a frase que a própria agência usou, em março de 2026, foi direta: pela primeira vez na história é possível medir rios continuamente e no globo inteiro.

Imagem de dados do satélite SWOT mostrando o rio Yukon e lagos próximos em vermelho e amarelo sobre um fundo azul, numa faixa inclinada sobre a paisagem do Alasca
Dados do SWOT de 18 de junho de 2023 sobre o Alasca. As cores quentes marcam onde há água: o rio Yukon aparece como um traço vermelho serpenteando, e cada lago vira uma manchinha. Foto: NASA/JPL-Caltech

Por que isso importa para o Brasil

O Brasil é um país de rios. A distribuição da nossa água doce e o tamanho dela na conta mundial estão em Quanta água tem a Terra, e quanto dela dá para beber. O problema prático sempre foi o mesmo: medir.

Um satélite que entrega altura e vazão de rios largos sem precisar de estação no chão resolve justamente o caso de bacias remotas e de difícil acesso — e boa parte da bacia amazônica é exatamente isso. É um complemento, não um substituto: o SWOT dá a altura da superfície, não a profundidade do leito nem a qualidade da água.

Também é bom guardar que ele não é o único satélite de água, e que cada um mede uma coisa diferente. A dupla GRACE pesa a água escondida embaixo do chão medindo gravidade, como conta Como dois satélites pesam a água escondida da Terra. O SWOT mede a água que aparece. São perguntas distintas.

Como ele se encaixa na medida do nível do mar

Sobre o oceano, o SWOT foi feito para enxergar o que os altímetros antigos não viam: as estruturas pequenas, de dezenas de quilômetros, como redemoinhos e frentes de corrente, que são justamente as que movem calor e nutriente pelo mar.

Os altímetros clássicos, que medem o nível médio do mar desde os anos 1990 e sustentam a série histórica usada em O nível do mar está subindo? O que o satélite mediu, continuam voando e continuam sendo a referência de longo prazo. O SWOT entra ao lado deles, com detalhe fino.

O que o SWOT não faz

Para não criar expectativa errada:

  • Ele mede altura de superfície, não volume direto nem profundidade. A vazão é calculada a partir da altura, da largura e da inclinação do rio.
  • Ele não vê rio estreito: abaixo de uns 50 metros de largura, o rio some na resolução.
  • A revisita é de 11 dias na média. Não é câmera ao vivo; é um retrato periódico.
  • A fase principal de operações foi planejada para três anos, prorrogável. Missão de observação da Terra costuma durar mais que o previsto, mas isso nunca é garantido.

Perguntas frequentes

O que é o satélite SWOT da NASA?

É um satélite lançado em 16 de dezembro de 2022 pela NASA e pela agência espacial francesa CNES, com apoio do Canadá e do Reino Unido, feito para medir a altura da superfície de rios, lagos, reservatórios e oceanos do mundo inteiro. SWOT significa Surface Water and Ocean Topography.

Como o SWOT mede a altura da água?

Pelo instrumento KaRIn, um radar que usa duas antenas montadas nas pontas de uma viga de 10 metros. Cada antena recebe o eco da mesma onda de rádio de um ponto um pouco diferente, e a diferença entre os dois sinais revela a altura do ponto no chão. É o mesmo princípio dos nossos dois olhos para enxergar profundidade.

Qual é a precisão do SWOT?

Sobre o oceano, cerca de 1 centímetro na vertical, com resolução horizontal de 1 quilômetro. Sobre rios e lagos, cerca de 10 centímetros na vertical e 50 metros na horizontal. Ele mede uma faixa de 120 quilômetros de largura por passagem, de uma órbita a 891 quilômetros de altura.

O SWOT mede os rios brasileiros?

Mede todos os rios do mundo com mais de 50 metros de largura, e a NASA cita o Amazonas entre os acompanhados. Na divulgação de 5 de janeiro de 2026, a agência e o CNES publicaram a primeira estimativa global de vazão de rios feita do espaço, com dados abertos.

Quanto tempo o SWOT demora para passar no mesmo lugar?

O ciclo de repetição da órbita é de 21 dias, mas como a faixa medida é larga e as passagens se sobrepõem, o intervalo médio entre duas medidas do mesmo ponto fica em torno de 11 dias.

Gostou? Compartilhe: WhatsAppFacebookTelegramX

Leia também

Mais em Tecnologia