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O que é o UVEX, o telescópio ultravioleta da NASA

A NASA confirmou o UVEX em 27 de outubro de 2026. Ele vai mapear o céu inteiro na luz que queima a pele, 100 vezes mais fundo que o anterior.

Publicado em 7 min de leitura
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A galáxia de Andrômeda vista em luz ultravioleta pelo telescópio GALEX, um disco inclinado de anéis azuis e brancos sobre um fundo preto salpicado de estrelas
Foto: NASA/JPL-Caltech
Neste artigo
  1. O que é a luz ultravioleta, em uma frase
  2. O que a NASA aprovou em 27 de outubro
  3. As três coisas que ele sabe fazer
  4. O mapa do céu inteiro, 100 vezes mais fundo
  5. A corrida contra o relógio das explosões
  6. Quem faz, e a órbita esquisita que ele vai usar

O UVEX é o próximo telescópio espacial de ultravioleta da NASA, e no dia 27 de outubro de 2026 ele deixou de ser projeto para virar missão de verdade. A agência confirmou oficialmente o programa, assumiu o compromisso de lançá-lo até janeiro de 2031 e fechou o custo total em US$ 590 milhões. A tarefa dele é fotografar o céu inteiro numa luz que os nossos olhos não enxergam — a mesma que queima a pele na praia.

A sigla vem de UltraViolet EXplorer, "explorador do ultravioleta". É um nome literal: ele explora a faixa do ultravioleta, e faz isso varrendo o céu todo, não um pedacinho de cada vez.

O que é a luz ultravioleta, em uma frase

A luz que você enxerga é só um pedaço estreito de uma escala muito maior. De um lado do arco-íris está o vermelho; passando dele, vem o infravermelho, que é calor. Do outro lado está o violeta; passando dele, vem o ultravioleta — a luz de maior energia que o Sol despeja na Terra e que o protetor solar existe para bloquear.

Essa luz é invisível para os olhos, mas não é invisível para a física. E ela tem uma característica útil para a astronomia: quem brilha em ultravioleta é jovem, quente e violento. Estrelas recém-nascidas, estrelas gigantes de vida curta, explosões — tudo isso aparece primeiro e com mais força no ultravioleta do que na luz comum.

Há um detalhe que decide tudo: a atmosfera da Terra bloqueia o ultravioleta. É ótimo para a nossa pele e péssimo para o astrônomo. Não existe telescópio de ultravioleta no topo de montanha nenhuma. Para enxergar nessa faixa, só indo para o espaço — exatamente como acontece com os raios X, assunto de Acabou o Swift, o telescópio que caçava explosões.

A galáxia espiral NGC 6744 vista em ultravioleta, com um anel de estrelas azuis em volta de um núcleo branco, sobre um campo de estrelas
Outra galáxia fotografada em ultravioleta pelo GALEX. O anel azul não é efeito artístico: é onde estrelas novas estão nascendo agora, e esse brilho só aparece nessa faixa de luz. Foto: NASA/JPL-Caltech

O que a NASA aprovou em 27 de outubro

O que aconteceu tem nome técnico: o UVEX passou pelo Key Decision Point C, ou KDP-C — uma revisão em que a agência olha o projeto inteiro, de engenharia e de orçamento, e decide se assume o compromisso de construir.

Passar nessa revisão significa três coisas concretas:

O que ficou decidido Valor
Lançamento até janeiro de 2031
Custo total do ciclo de vida US$ 590 milhões
Classe da missão Explorer de porte médio
Ano da escolha original 2024

Vale ser honesto sobre esses números, porque eles mudaram. Quando o UVEX foi escolhido, em 2024, a NASA falava em cerca de US$ 300 milhões sem contar o lançamento, com alvo em 2030 e missão de dois anos. O valor de agora, de US$ 590 milhões, é o custo total do ciclo de vida, que inclui o lançamento e a operação — ou seja, não é a mesma conta. Mesmo assim, a data escorregou de 2030 para "até janeiro de 2031". Cronograma espacial atrasa, e este já atrasou um pouco.

As três coisas que ele sabe fazer

A equipe do UVEX resume a missão em três capacidades, e as três vêm de um único instrumento:

  1. Fotografar um pedaço grande de céu em duas faixas de ultravioleta ao mesmo tempo, uma mais próxima do violeta e outra mais distante.
  2. Enxergar com nitidez nesse pedaço grande: a resolução prevista é de 2,25 segundos de arco num campo de 10 graus quadrados.
  3. Abrir a luz em espectro, de 1.150 a 2.650 ångströms, para ler a composição química do que está brilhando.

Dois desses números merecem tradução.

10 graus quadrados é a área de céu que cabe em cada foto. A Lua cheia, vista daqui, ocupa cerca de 0,2 grau quadrado. Então cada imagem do UVEX cobre mais ou menos 50 Luas cheias de uma vez. É isso que permite varrer o céu todo num prazo razoável.

2,25 segundos de arco é o tamanho do menor detalhe que ele separa. Um segundo de arco é o tamanho aparente de uma moeda de um real vista a uns 5,5 quilômetros. Então 2,25 segundos de arco é a mesma moeda vista a cerca de 2,5 quilômetros — a distância de uma caminhada curta. Enxergar isso enquanto se fotografa 50 Luas de uma vez é a parte difícil.

O ångström é só uma unidade de comprimento muito pequena: um décimo de bilionésimo de metro. A faixa de 1.150 a 2.650 ångströms é inteirinha ultravioleta, bem além do que o olho alcança.

O mapa do céu inteiro, 100 vezes mais fundo

O antecessor direto do UVEX se chamava GALEX (Galaxy Evolution Explorer), lançado em 2003 para mapear galáxias em ultravioleta. Ele funcionou e deixou um acervo que os astrônomos usam até hoje — as imagens deste artigo são dele.

O UVEX promete um salto de escala: o levantamento dele deve ser mais de 100 vezes mais profundo que o do GALEX. "Mais profundo" quer dizer enxergar coisas mais fracas, portanto mais distantes e mais numerosas. Será também o primeiro levantamento profundo do plano da nossa própria galáxia nessa faixa.

O satélite GALEX sendo baixado por guindaste sobre uma bancada de trabalho, numa sala limpa, com dois técnicos de macacão branco segurando a estrutura
O GALEX, antecessor do UVEX, sendo preparado no Centro Espacial Kennedy em março de 2003. Ele mapeou galáxias em ultravioleta por anos e é a régua que o novo telescópio quer superar em 100 vezes. Foto: NASA/KSC

O plano de observação é metódico: a varredura do céu inteiro se completa em cerca de 500 dias — um ano e quatro meses de trabalho contínuo — e, ao longo de dois anos, cada pedaço do céu é visitado umas 10 vezes. Visitar o mesmo lugar várias vezes é o que permite perceber o que mudou entre uma passada e outra.

O alvo científico principal é um tipo de objeto que quase ninguém catalogou: galáxias pequenas e pobres em elementos pesados, parecidas com as primeiras galáxias do universo, mas perto de nós. A equipe estima que existam entre 15 e 200 milhões delas ao alcance do telescópio. A faixa é larga porque ninguém sabe o número — e esse é justamente o ponto: menos de 1% delas foi identificada até hoje em todo o céu. Para quem gosta de comparação, é como ter um mapa do Brasil em que menos de uma cidade em cada cem está marcada.

A corrida contra o relógio das explosões

A segunda missão do UVEX é diferente da primeira: em vez de varrer com paciência, ele vai ter de apontar depressa.

Quando duas estrelas de nêutrons colidem — os caroços ultracompactos que sobram quando estrelas gigantes morrem —, o choque sacode o próprio espaço e gera ondas gravitacionais (o fenômeno está explicado em O que são ondas gravitacionais?), detectadas por observatórios aqui na Terra. Logo depois, a bola de fogo da colisão acende. E ela acende primeiro no ultravioleta.

O problema é que esse brilho inicial dura pouco: as horas e o primeiro dia depois da fusão. Quem chegar atrasado só vê o fim da festa. O UVEX foi desenhado para essa janela — e as duas faixas de ultravioleta servem para distinguir qual explicação física está certa, já que modelos diferentes preveem cores diferentes. É o tipo de evento descrito em O que é uma quilonova?.

A mesma pressa vale para supernovas. Nos primeiros dias, o espectro ultravioleta de uma estrela que explodiu guarda o registro do material que ela soltou antes de morrer — uma espécie de ficha médica do que aconteceu nos últimos anos de vida.

Quem faz, e a órbita esquisita que ele vai usar

A responsável científica pela missão é a astrofísica Fiona Harrison, do Caltech, na Califórnia. O Caltech entra com o plano focal (a câmera propriamente dita) e com a operação científica; a Universidade da Califórnia em Berkeley implementa o projeto e fornece o telescópio; a Northrop Grumman fornece a nave e cuida da integração e do lançamento; participam ainda o JPL e o Space Dynamics Laboratory. É a mesma dupla de centros que opera o telescópio NuSTAR há mais de uma década.

O telescópio em si é compacto: três espelhos e um módulo único de instrumento, com sensores do tipo CMOS — a mesma família de sensor da câmera do seu celular, só que com revestimento especial para ultravioleta.

A órbita é a parte curiosa. Em vez de ficar rodando baixo em volta da Terra, o UVEX vai usar uma órbita muito alongada em ressonância com a Lua, do mesmo tipo que o telescópio caçador de planetas TESS inaugurou. A vantagem é dupla: longe da atmosfera, ele escapa do brilho de fundo que o próprio ar produz, e a temperatura a bordo fica estável sem grande esforço de engenharia.

Juntando tudo, o UVEX não trabalha sozinho: ele foi pensado para somar com os grandes levantamentos em outras faixas de luz, como o do Telescópio Roman: o que é e o que ele vai fazer, no infravermelho. A ideia é ter, pela primeira vez, um mapa moderno do mesmo céu em várias cores de luz ao mesmo tempo.

Perguntas frequentes

Quando o UVEX vai ser lançado?

A NASA assumiu o compromisso, em 27 de outubro de 2026, de lançá-lo até janeiro de 2031. Quando foi escolhido, em 2024, o alvo era 2030. Como todo cronograma espacial, é uma previsão, não uma garantia.

Por que precisa de um telescópio no espaço para ver ultravioleta?

Porque a atmosfera da Terra absorve essa faixa de luz antes que ela chegue ao chão. É a mesma proteção que impede que a radiação ultravioleta do Sol nos queime muito mais do que já queima. Não existe altitude de montanha que resolva: tem de ser acima do ar.

Quanto custa o UVEX?

O custo total do ciclo de vida ficou em US$ 590 milhões, segundo a NASA, valor que inclui construção, lançamento e operação. Em 2024, quando a missão foi escolhida, falava-se em cerca de US$ 300 milhões sem contar o lançamento — são contas diferentes, e por isso os números não se comparam diretamente.

O UVEX substitui o Hubble ou o James Webb?

Não. Ele faz outra coisa. O Telescópio Hubble: o que é e o que ele já descobriu e o James Webb olham fundo para alvos pequenos, um de cada vez. O UVEX varre o céu inteiro numa faixa específica de luz, com campo amplo. Um aprofunda, o outro mapeia.

O que é uma missão Explorer da NASA?

É uma linha de missões científicas menores e mais rápidas que as grandes observatórios, escolhidas por concurso entre propostas de universidades e laboratórios. O UVEX entrou na categoria de porte médio, selecionado em 2024.

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