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O que é uma câmara anecoica, a sala onde o eco não existe

Paredes forradas de espinhos de espuma que engolem ondas de rádio. É nessa sala que a NASA testa se a antena de uma nave funciona de verdade.

Publicado em 6 min de leitura
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Instrumento espacial branco e prateado sobre um carrinho, diante de uma parede inteira coberta por blocos de espuma em formato de cunha, dentro de uma câmara de testes
Foto: NASA/Katie Mellos
Neste artigo
  1. Primeiro, uma confusão que precisa ser desfeita
  2. Como os espinhos funcionam
  3. Uma câmara de verdade, com os números
  4. Os quatro ensaios que se fazem ali
  5. A sala do Goddard, que tem mais de meio século
  6. Por que uma antena precisa ser testada numa sala assim

Câmara anecoica é uma sala construída para não ter eco nenhum. As paredes, o teto e às vezes o chão são forrados de espinhos — cunhas de espuma apontadas para dentro, como uma cama de pregos gigante — e a função deles é engolir as ondas que chegam, em vez de devolvê-las. "Anecoico" vem do grego e quer dizer literalmente "sem eco".

A NASA tem várias dessas salas, e elas servem para responder duas perguntas que decidem se uma nave pode voar: a antena dela funciona como deveria? e os aparelhos dela atrapalham uns aos outros? Se a resposta for errada e ninguém descobrir no chão, descobre-se no espaço, onde não dá para consertar.

Primeiro, uma confusão que precisa ser desfeita

Existem dois tipos de câmara anecoica, e eles não são a mesma coisa.

A acústica absorve som. É a prima famosa, a sala silenciosa de estúdio de gravação, e é ela que aparece quando se fala em "a sala mais silenciosa do mundo". No teste de naves, a versão industrial dela é a câmara onde buzinas gigantes berram para simular o estrondo do foguete — ensaio que está contado em Como se testa uma nave espacial antes de ela voar.

A eletromagnética, que é o assunto deste texto, absorve ondas de rádio. Ela é silenciosa no sentido do rádio: dentro dela, um receptor não capta nenhuma estação, nenhum celular, nenhum Wi-Fi do prédio ao lado. A espuma é parecida, o princípio é o mesmo, mas a onda engolida é outra.

A diferença importa porque, no espaço, som não se propaga — o motivo está em Existe som no espaço? Por que ninguém ouve nada lá fora — e ondas de rádio se propagam perfeitamente. Toda comunicação de nave é rádio. Daí a câmara eletromagnética ser indispensável.

Como os espinhos funcionam

O formato não é enfeite. Quando a onda de rádio bate numa parede lisa, ela volta inteira, como bola de frontão. Quando bate numa floresta de cunhas, ela entra no vão entre duas pontas e fica ricocheteando ali dentro, perdendo energia a cada rebote, até sobrar quase nada para voltar.

O material também conta. Na câmara do Centro Goddard, em Maryland, os absorvedores são cones de espuma de poliuretano feitos para absorver micro-ondas. Em outras instalações, como o laboratório de compatibilidade eletromagnética do Centro Langley, há placas de ferrita (um material cerâmico com ferro, que dá conta das frequências mais baixas) combinadas com o absorvedor piramidal de espuma.

O resultado é o que os engenheiros chamam de zona de silêncio: um volume no meio da sala onde a onda que o instrumento recebe veio da antena de teste e de mais lugar nenhum. É a condição do espaço aberto, reproduzida dentro de um galpão.

Traje espacial completo pendurado num mastro no meio de uma enorme câmara forrada de cunhas azul-escuras do chão ao teto, com um único técnico de pé no canto inferior direito
Junho de 2021: o traje de exploração xEMU em teste de antena na câmara anecoica do Centro Espacial Johnson. Repare no técnico à direita — ele dá a escala da sala. Foto: Norah Moran

Uma câmara de verdade, com os números

O laboratório de interferência e compatibilidade eletromagnética do Centro Langley publica as medidas da sua câmara, e elas ajudam a imaginar a coisa:

Item Medida
Dimensões da câmara 9 × 6 × 5,5 metros
Blindagem 120 decibéis até 40 GHz
Porta blindada 2,4 × 2,4 metros, automática e deslizante
Mesa de plano de terra 1,2 × 2,4 metros, com tampo de cobre
Mesa giratória 2 metros de diâmetro
Tipo semi-anecoica, totalmente soldada e blindada

Traduzindo: é um cômodo com a área de uma sala de aula grande e pé-direito de 5,5 metros, quase dois andares. Ela é soldada inteira, sem fresta, porque qualquer fenda deixa rádio entrar.

O número mais importante é o da blindagem: 120 decibéis. Grosso modo, isso significa que um sinal vindo de fora chega lá dentro reduzido a cerca de um milionésimo do que era. A faixa coberta vai até 40 gigahertz, o que inclui com folga as frequências usadas por satélite, por radar e por Wi-Fi.

O equipamento a ser testado fica em cima de uma mesa com tampo de cobre — o cobre serve de referência elétrica, um "chão" conhecido para as medidas — ou, se for grande demais, sobre uma mesa giratória de 2 metros, que roda o objeto para medir a antena em todos os ângulos.

Os quatro ensaios que se fazem ali

A sala serve para um conjunto fechado de perguntas:

  1. Emissões radiadas — o aparelho está jogando no ar alguma onda que não deveria?
  2. Suscetibilidade radiada — o aparelho estraga quando uma onda de fora bate nele?
  3. Emissões conduzidas — ele está injetando ruído elétrico nos próprios cabos?
  4. Suscetibilidade conduzida — ele estraga se chegar ruído por esses cabos?

É isso que os engenheiros chamam de compatibilidade eletromagnética: a arte de fazer vinte aparelhos conviverem dentro da mesma lata sem um atrapalhar o outro. Numa nave, o rádio, o computador de bordo, as válvulas, os motores e os sensores estão todos a poucos centímetros uns dos outros.

Esses ensaios normalmente só são feitos no equipamento que vai voar de verdade — não em modelos de treino —, junto com outras provas pesadas como o O que é o teste de vácuo térmico, que imita o espaço.

Instrumento de satélite com uma antena em formato de prato, montado sobre uma base metálica, diante de uma parede de espuma azul-marinho em formato de cunhas
Outubro de 2021: um radiômetro de micro-ondas, feito para medir o vento na superfície do mar, em ensaios de antena antes de ir para a Estação Espacial. Foto: NASA/JSC

A sala do Goddard, que tem mais de meio século

A mais conhecida é a GEMAC, sigla de Goddard ElectroMagnetic Anechoic Chamber, em Greenbelt, no estado de Maryland. A NASA a descreve como campo de provas de antenas há mais de cinquenta anos, e a última grande reforma foi em 1997, quando a faixa de frequências que ela consegue testar foi ampliada.

Ken Hersey, o engenheiro do Goddard que liderou o projeto daquela reforma, resumiu a utilidade da sala de um jeito que qualquer um entende: trabalhar sem ela "seria como tirar a calculadora de um contador".

Duas missões recentes passaram por lá:

  • A antena de alto ganho do Telescópio Espacial Roman foi testada e certificada ali, em janeiro de 2023. O que esse telescópio vai fazer está em Telescópio Roman: o que é e o que ele vai fazer.
  • A antena de cobertura terrestre do satélite PACE, que estuda plâncton, aerossóis, nuvens e ecossistemas do oceano, também foi certificada na GEMAC antes do lançamento.

A câmara não serve só para antena, aliás: ela também é usada para calibrar instrumentos como radares e sensores que medem radiação em micro-ondas.

Por que uma antena precisa ser testada numa sala assim

Parece exagero testar antena em laboratório blindado. Não é, por dois motivos.

O primeiro é que o corpo da nave faz parte da antena. O sinal não sai de um ponto no vácuo: ele sai de uma peça parafusada numa estrutura cheia de metal, manta térmica, painel solar e cabo. Tudo isso reflete e distorce. A única forma de saber o padrão real de emissão é medir o conjunto montado, e para isso o ambiente tem de estar limpo de ecos.

O segundo é que não existe segunda chance. Uma antena que irradia para o lado errado, descoberta depois do lançamento, é uma missão perdida. A conversa entre a Terra e uma nave já é difícil nas melhores condições, como mostra Como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui.

Há ainda uma terceira razão, que é de convivência: o espectro de rádio é um recurso regulado no mundo inteiro, com faixas reservadas e faixas proibidas — assunto de Por que existe uma faixa de rádio proibida no mundo todo. Um aparelho que vaza sinal onde não devia não é só um problema da missão: é um problema de todo mundo.

Perguntas frequentes

O que é uma câmara anecoica?

É uma sala forrada de material absorvedor, em geral cunhas de espuma, construída para eliminar ecos. Existem câmaras anecoicas acústicas, que absorvem som, e eletromagnéticas, que absorvem ondas de rádio. A NASA usa as eletromagnéticas para testar antenas de naves e satélites e para verificar se os aparelhos de bordo interferem uns nos outros.

Por que as paredes têm espinhos?

Porque uma parede lisa devolve a onda inteira. Nas cunhas, a onda entra no vão entre duas pontas e fica ricocheteando ali, perdendo energia a cada rebote, até quase nada voltar. O material costuma ser espuma de poliuretano; para frequências mais baixas, entram também placas de ferrita.

O que significa blindagem de 120 decibéis?

Significa, grosso modo, que um sinal de rádio vindo de fora chega ao interior da câmara reduzido a cerca de um milionésimo da intensidade original. A câmara do Centro Langley da NASA mantém esse nível de blindagem em frequências de até 40 gigahertz.

Que testes são feitos numa câmara anecoica da NASA?

Quatro principais: emissões radiadas (se o aparelho emite onda indevida), suscetibilidade radiada (se ele falha quando recebe onda de fora), emissões conduzidas (ruído que ele injeta nos próprios cabos) e suscetibilidade conduzida (se ele falha com ruído vindo pelos cabos). Além disso, mede-se o desempenho das antenas em todos os ângulos.

Câmara anecoica é a mesma coisa que sala à prova de som?

Não exatamente. A versão acústica realmente é uma sala sem eco sonoro, parente do estúdio de gravação. Mas as câmaras usadas para testar naves nesse artigo são eletromagnéticas: elas silenciam ondas de rádio, não som. As duas usam espuma em cunha, mas absorvem coisas diferentes.

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