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O satélite que ficou 6 anos exposto no espaço: o LDEF

A NASA deixou um satélite de propósito em órbita para ver o que o espaço faria com ele. Era para ficar 1 ano. Ficou 69 meses, e quase se perdeu.

Publicado em 7 min de leitura
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O satelite LDEF, um cilindro de doze lados coberto de bandejas de experimento, preso ao braco robotico do onibus espacial sobre a costa da Florida
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. Um satélite que não fazia nada
  2. O acidente que mudou tudo
  3. O que o espaço fez com ele
  4. O presente escondido no atraso
  5. Por que isso ainda importa

Em abril de 1984, a NASA soltou em órbita um cilindro de quase 10 toneladas coberto de bandejas de experimento e foi embora. A ideia era deixá-lo lá por cerca de um ano, depois buscá-lo com o ônibus espacial e estudar no laboratório o que o espaço tinha feito com ele. O nome era LDEF, sigla em inglês para "instalação de exposição de longa duração". O plano não saiu como previsto: o satélite ficou 69 meses lá em cima, quase seis anos, e foi recolhido com pouco tempo de sobra antes de cair sozinho. O acidente que o deixou abandonado acabou transformando o experimento no mais valioso que a NASA já fez sobre o assunto.

Quase tudo o que se sabe hoje sobre detritos pequenos demais para serem rastreados por radar saiu das marcas desse cilindro.

Um satélite que não fazia nada

O LDEF é estranho de explicar porque ele não tinha missão no sentido comum. Não tirava foto, não media o clima, não retransmitia sinal. Ele era, essencialmente, um cabide gigante.

A ficha, segundo o catálogo de espaçonaves da NASA:

Item Dado
Formato cilindro de 12 lados
Tamanho 4,3 m de diâmetro por 9,1 m de comprimento
Massa 9.710 kg
Lançamento 6 de abril de 1984, ônibus espacial Challenger
Recolhimento janeiro de 1990, ônibus espacial Columbia
Experimentos a bordo 57
Desenvolvido por Centro de Pesquisas Langley, da NASA

Nove metros de comprimento é o mesmo que dois carros de passeio enfileirados, e os 4,3 m de diâmetro passam da largura de um ônibus. Sobre a estrutura iam 57 experimentos, montados em bandejas aparafusadas nos doze lados. Cada bandeja era de um grupo de pesquisa diferente, cheia de amostras: tipos de tinta, plásticos, metais, vidros de lente, células solares, sementes, espelhos.

O satélite não tinha sistema central de energia nem de dados. Quem quisesse eletricidade levava a própria bateria na bandeja. O LDEF só avisava a hora de começar e a hora de terminar. E foi feito para ser estabilizado passivamente: sem motor e sem giroscópio, ele se mantinha sempre com a mesma face apontada para a frente, usando só a diferença de gravidade entre as pontas. Isso importa mais do que parece, e daqui a pouco você vai ver por quê.

O acidente que mudou tudo

Quem levou o LDEF para a órbita, em abril de 1984, foi o Challenger. O plano era buscá-lo cerca de um ano depois.

Em 28 de janeiro de 1986, o Challenger foi destruído 73 segundos após a decolagem, com sete pessoas a bordo. A frota inteira de ônibus espaciais ficou parada por quase três anos, e a fila de missões se desfez. A história completa desse período está em Challenger e Columbia: os desastres do ônibus espacial.

O LDEF ficou esquecido lá em cima.

Os documentos da NASA registram o atraso sem rodeios: o recolhimento aconteceu 57 meses depois do planejado, em parte por causa do acidente. Some os 12 meses previstos aos 57 de atraso e você chega aos 69 meses que ele realmente passou em órbita.

E havia pressa, porque o satélite estava caindo. A órbita começou a cerca de 476 km de altitude e, quando ele foi buscado, já tinha decaído para cerca de 331 km. O ar rarefeito das camadas altas vai freando qualquer objeto nessa faixa, como contamos em Quanto tempo um satélite fica no espaço antes de cair?. Se ninguém fosse buscá-lo, ele reentraria e queimaria, com os 57 experimentos dentro.

Em 9 de janeiro de 1990, o ônibus espacial Columbia decolou na missão STS-32. No quarto dia de voo — 12 de janeiro — o braço robótico agarrou o LDEF e o trouxe para o porão de carga.

O satelite LDEF preso ao braco robotico do onibus espacial, visto atraves da janela da cabine, com a Terra ao fundo e o Sol no alto
O resgate, em janeiro de 1990, visto pela janela da Columbia. O LDEF já tinha caído de 476 para 331 km de altitude; sem essa missão, ele teria reentrado e queimado com os 57 experimentos dentro. Foto: NASA/JSC

O que o espaço fez com ele

Antes de desparafusar qualquer coisa, os astronautas fotografaram o satélite inteiro, lado por lado. O que apareceu foi um objeto visivelmente surrado.

Crateras. A superfície estava crivada de marcas de impacto. Cada uma foi feita por um grão de poeira ou por um fragmento de detrito artificial, viajando rápido demais para ser evitado. O modelo da NASA indicava que a maior partícula que o LDEF deveria ter encontrado em seis anos teria cerca de 0,5 mm — meio milímetro, um grão de areia fina. E as maiores crateras encontradas batiam com esse tamanho.

Meio milímetro parece inofensivo até você considerar a velocidade. Micrometeoroides chegam a uma média de cerca de 20 km por segundo. Nessa velocidade, um grão de areia carrega a energia de um objeto muito maior aqui embaixo — é por isso que detrito miúdo é um problema sério, assunto de A Estação Espacial desvia de lixo espacial?.

A diferença entre frente e trás. Aqui está o motivo pelo qual aquela estabilização passiva importava tanto. Como o LDEF mantinha sempre a mesma face apontada para a direção do movimento, a frente e a traseira sofreram coisas diferentes — e isso virou um experimento controlado de graça. A face dianteira levou muito mais impactos de detrito artificial; a traseira, bem menos. E apareceu uma surpresa: crateras com resíduo de material artificial, feito pelo homem, foram encontradas também nas faces de trás, o que o modelo da época não previa.

Oxigênio atômico. Na altitude do LDEF, o principal componente do ar rarefeito é oxigênio em forma de átomos soltos, que são quimicamente agressivos. A face dianteira do satélite recebeu cerca de 8,4 × 10²¹ átomos por centímetro quadrado ao longo da missão — as faces de trás receberam uma fração ínfima disso. Esse oxigênio corrói tintas e plásticos, e foi o que deixou várias bandejas com cara de coisa velha.

Vista de perto de bandejas de experimento do LDEF, com paineis de materiais diferentes em tons de dourado, marrom e prata, e a Terra ao fundo
Close das bandejas durante a inspeção feita pela tripulação da Columbia antes de guardar o satélite. Cada painel é um material diferente, e as cores mostram quanto cada um resistiu a seis anos de oxigênio atômico e radiação. Foto: NASA/JSC

O presente escondido no atraso

Há uma ironia no centro dessa história: o atraso melhorou o experimento.

O LDEF foi lançado em abril de 1984, numa época de mínimo solar — a fase calma do ciclo de 11 anos do Sol. Foi recolhido em janeiro de 1990, perto do máximo solar, a fase agitada. Sem querer, ele atravessou meio ciclo solar, do vale ao pico.

Isso rendeu um dado que nenhuma missão de um ano teria dado. Quando o Sol fica ativo, ele aquece e infla a atmosfera alta da Terra, que então alcança altitudes maiores. O resultado medido: nos últimos meses da missão, o fluxo de oxigênio atômico batendo na frente do satélite era quase cem vezes maior que no começo. O mesmo objeto, na mesma órbita, vivendo dois ambientes completamente diferentes.

Em junho de 1991, mais de 400 pesquisadores se reuniram na Flórida para o primeiro simpósio de resultados. Os anais foram publicados com um título que resume tudo: LDEF: 69 Months in Space.

Por que isso ainda importa

Um satélite recolhido em 1990 pode parecer assunto de museu. Não é, por um motivo simples: é impossível estudar detrito pequeno de outro jeito.

Objetos grandes em órbita são rastreados por radar do chão. Mas as partículas de milímetro e de fração de milímetro — que são as mais numerosas de longe — não aparecem em radar nenhum. A única maneira de contá-las é expor uma superfície conhecida por um tempo conhecido, trazê-la de volta e contar os buracos. Foi exatamente o que o LDEF fez, com os doze lados de um cilindro de nove metros e quase seis anos de exposição.

Os resultados entraram nos modelos de blindagem usados até hoje para projetar naves. O próprio documento da NASA que descreve a missão explica o que estava em jogo: sem um bom conhecimento desse ambiente, a engenharia erra para os dois lados — ou instala toneladas de blindagem desnecessária, encarecendo tudo, ou protege de menos e perde a missão.

Se você quer saber o que acontece com os satélites que ninguém vai buscar, a resposta está em Lixo espacial pode cair na sua cabeça? Os casos reais.

Há ainda um detalhe que fecha a história de um jeito triste. O LDEF foi lançado pelo Challenger, perdido em 1986, e recolhido pelo Columbia, que se desintegraria na reentrada em 2003. Os dois ônibus espaciais que cuidaram desse satélite acabaram no mesmo lugar: na lista de acidentes que mudaram o programa espacial americano.

Perguntas frequentes

O que era o LDEF?

Era um satélite da NASA sem função operacional, projetado apenas para ficar exposto ao ambiente espacial e depois voltar à Terra para ser analisado. Um cilindro de 12 lados, 9,1 m de comprimento e 9.710 kg, coberto por 57 experimentos em bandejas. Foi lançado em abril de 1984 e recolhido em janeiro de 1990.

Por que ele ficou 69 meses no espaço em vez de 1 ano?

Porque o acidente do Challenger, em janeiro de 1986, parou a frota de ônibus espaciais por quase três anos e desorganizou a fila de missões. Os documentos da NASA registram que o recolhimento ocorreu 57 meses depois do planejado. O atraso acabou melhorando o experimento, porque o satélite atravessou do mínimo ao máximo do ciclo solar.

O que foi descoberto com o LDEF?

Principalmente a quantidade e o tamanho dos detritos pequenos demais para serem rastreados por radar, contados pelas crateras de impacto na superfície. Também mostrou como o oxigênio atômico corrói materiais em órbita baixa, quanta radiação os equipamentos recebem e quais tintas, plásticos e vidros resistem ao ambiente espacial. Esses dados entraram nos modelos de blindagem usados até hoje.

O LDEF ainda existe?

A estrutura voltou inteira à Terra em 1990. Depois da inspeção, as bandejas de experimento foram desmontadas e distribuídas aos grupos de pesquisa responsáveis por cada uma, para análise em laboratório.

Por que não fazem outro LDEF?

Porque não existe mais um veículo capaz de pegar um objeto de 10 toneladas em órbita e trazê-lo de volta inteiro. Essa capacidade acabou com a aposentadoria do ônibus espacial, em 2011. Experimentos de exposição continuam sendo feitos, mas em escala bem menor, em suportes do lado de fora da Estação Espacial.

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