Em 23 de setembro de 2026, a NASA escolheu o PRIMA como o primeiro telescópio de uma nova categoria de missões. Ele vai observar o céu numa faixa de luz que praticamente nenhum telescópio espacial em operação cobre — o infravermelho distante, que é a luz emitida pelas coisas muito frias do universo. A meta é lançá-lo em 2033, para uma missão de cinco anos, com um teto de custo de 1,2 bilhão de dólares.
Para dar escala: é pouco mais de um décimo do que custou o James Webb. E o espelho dele é menor que o do Hubble. O que o torna especial não é tamanho: é a faixa de luz que ele vai olhar.
O que a NASA anunciou
O comunicado é o RELEASE26-076, de 23 de setembro de 2026, atualizado no dia seguinte para incluir a lista final de parceiros internacionais.
A sigla PRIMA vem de PRobe far-Infrared Mission for Astrophysics, algo como "missão sonda de infravermelho distante para astrofísica". A missão passou para a chamada Fase B, que é a etapa de projeto preliminar e desenvolvimento de tecnologia. Depois dela vem uma revisão de confirmação, baseada em desempenho técnico, de cronograma e de custo, que decide se o projeto entra na Fase C — a de construir de verdade.
Em outras palavras: está aprovado para ser desenhado, não para ser construído. Essa distinção é importante e nós vamos voltar a ela no fim.
| Ficha do PRIMA | |
|---|---|
| Nome completo | PRobe far-Infrared Mission for Astrophysics |
| Anunciado em | 23 de setembro de 2026 |
| Etapa atual | Fase B (projeto preliminar) |
| Teto de custo do projeto | 1,2 bilhão de dólares, sem contar o lançamento |
| Lançamento previsto para | 2033 |
| Duração planejada | cinco anos |
| Tamanho do telescópio | 5,9 pés, ou cerca de 1,80 m |
| Quem administra | Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), na Califórnia |
| Centros parceiros da NASA | Goddard (Maryland) e Marshall (Alabama) |
O comunicado fala em "um telescópio de 5,9 pés" e não especifica se essa é a medida do espelho principal; é a única dimensão que a agência publicou. Para comparação, o espelho do Hubble tem 2,4 m e o do James Webb, 6,5 m.
O que é "infravermelho distante", afinal
Esta é a parte que vale entender, porque ela explica a missão inteira.
Luz é onda, e o comprimento dessa onda define a cor. O olho humano enxerga uma faixa estreita, do violeta ao vermelho. Logo depois do vermelho, fora do nosso alcance, começa o infravermelho — que, no dia a dia, a gente conhece como calor. O controle remoto da TV conversa com o aparelho por infravermelho. A câmera térmica do bombeiro enxerga pessoas no escuro porque elas emitem infravermelho.
E aqui está o ponto: quanto mais frio o objeto, mais longa é a onda que ele emite. Uma chapa de fogão em brasa brilha no visível, em vermelho. Um corpo humano, bem mais frio que a chapa, já brilha fora do visível, no infravermelho — é isso que a câmera térmica capta. E uma nuvem de poeira cósmica, a algo como 250 graus abaixo de zero, brilha ainda mais longe no espectro: no infravermelho distante.
Essa é a faixa onde o universo frio fica visível. Poeira entre as estrelas, discos de gás gelado onde planetas estão se formando, galáxias cobertas de pó — tudo isso é um nada preto na luz visível, uma mancha que esconde o que há atrás. No infravermelho distante, a mesma poeira acende.

O buraco que ele vem tapar
A NASA descreve o papel do PRIMA de um jeito direto: ele vai cobrir o vão entre os observatórios de infravermelho que já existem, como o James Webb, e os radiotelescópios.
Pense no espectro da luz como um teclado de piano. Nós temos instrumentos excelentes para algumas oitavas: o Hubble cobre o visível e o ultravioleta, o Webb cobre o infravermelho próximo e médio, as antenas de rádio cobrem a ponta das ondas mais longas. No meio desse teclado existe um trecho de teclas que quase ninguém toca — e é justamente nele que a poeira fria canta.
Houve telescópios espaciais que trabalharam ali — o Herschel, da Agência Espacial Europeia, é o mais conhecido —, mas nenhum deles está em operação hoje.
Os três telescópios espaciais que o site já cobre, lado a lado com o novato:
| Telescópio | Espelho | Enxerga sobretudo | Situação |
|---|---|---|---|
| Hubble | 2,4 m | visível e ultravioleta | em operação desde 1990 |
| James Webb | 6,5 m | infravermelho próximo e médio | em operação |
| Roman | 2,4 m | infravermelho próximo | lançado em agosto de 2026 |
| PRIMA | cerca de 1,80 m | infravermelho distante | aprovado para projeto preliminar |
O que ele vai procurar
A NASA lista três objetivos principais, e todos eles dependem de enxergar poeira e gás frios:
- A origem dos planetas fora do Sistema Solar. Planetas nascem em discos de poeira gelada em volta de estrelas jovens. Esses discos são exatamente o tipo de alvo que brilha no infravermelho distante. Como esses mundos são encontrados hoje está em Como descobrem planetas fora do Sistema Solar?.
- Como as galáxias e seus buracos negros cresceram ao longo da história do universo. Muita formação de estrela acontece escondida atrás de poeira; no visível, a conta não fecha.
- Como a poeira e os elementos pesados se acumularam no universo. Carbono, oxigênio, ferro — tudo o que forma planetas e gente foi fabricado dentro de estrelas e espalhado depois. O rastro desse acúmulo está no pó.
Há ainda uma pergunta solta na lista da agência que costuma chamar mais atenção que as três: a origem da água da Terra. Toda a água do planeta veio de algum lugar, e as pistas de onde ela se formou estão em nuvens frias que só o infravermelho distante mostra.
O tipo de nuvem em que isso acontece está explicado em O que é uma nebulosa? Tipos, como se formam e como ver.
Uma classe nova de missão
O PRIMA não é só um telescópio novo: ele inaugura uma categoria, batizada de Probe Explorers.
A NASA já tinha dois extremos. De um lado, missões pequenas e frequentes do Programa Explorer. Do outro, os carros-chefes bilionários como Hubble, Webb e Telescópio Roman: o que é e o que ele vai fazer. Entre os dois havia um degrau grande demais: projetos ambiciosos mas de porte médio não tinham onde se candidatar.
A criação dessa faixa intermediária foi recomendada pelo levantamento decenal das Academias Nacionais americanas de 2020, o Pathways to Discovery in Astronomy and Astrophysics for the 2020s — um documento em que a comunidade astronômica dos Estados Unidos define, a cada dez anos, quais são as prioridades da área.
A escolha do PRIMA considerou três critérios: mérito científico alinhado com esse levantamento, viabilidade de custo e de cronograma, e uso de tecnologias que possam servir a missões grandes no futuro. Em 2024, a agência havia selecionado dois candidatos para estudos de conceito de um ano, com 5 milhões de dólares cada: o PRIMA e o AXIS, um telescópio de raios X. O PRIMA levou.
Nicky Fox, administradora associada da Diretoria de Missões Científicas da NASA, chamou a missão de "a próxima janela da humanidade para o universo profundo". Shawn Domagal-Goldman, diretor da Divisão de Astrofísica, disse que a agência vai "começar a próxima década com o PRIMA".
A lista de parceiros internacionais é longa: CNES (França), ASI (Itália), DLR (Alemanha), CSA (Canadá), KASI/KASA (Coreia do Sul), JAXA (Japão) e a agência espacial do Reino Unido. O Brasil não está entre eles.
O que ainda pode mudar
Vale terminar com a parte que as manchetes costumam deixar de fora.
O PRIMA está na Fase B. Isso significa projeto preliminar e amadurecimento de tecnologia — não construção. Entre ele e a plataforma de lançamento existe uma revisão de confirmação, e missões já foram barradas nessa etapa por estouro de custo ou por tecnologia que não amadureceu a tempo.
O ano de 2033 é, portanto, uma meta, não uma data marcada. Cronograma espacial atrasa: o James Webb levou mais de vinte anos de desenvolvimento antes de finalmente subir. E o teto de 1,2 bilhão de dólares vale para o projeto, sem contar o lançamento e outros custos fora dele.
Nada disso diminui a notícia. Significa apenas que a frase correta é "previsto para 2033", e que a próxima data a acompanhar não é a do lançamento: é a da revisão de confirmação.




