Curiosidades

Apollo 1: o que aconteceu no incêndio de 1967

Um teste em solo matou três astronautas em menos de 20 segundos. Veja o que pegou fogo, por que a escotilha não abriu e o que a NASA mudou depois.

Publicado em 8 min de leitura
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Os três astronautas da Apollo 1 de traje espacial em frente à torre de lançamento do Complexo 34
Foto: NASA
Neste artigo
  1. Quem eram os três
  2. O teste que ninguém achou perigoso
  3. Os 17 segundos, minuto a minuto
  4. A conta do oxigênio
  5. Por que a escotilha não abriu
  6. O que a investigação concluiu
  7. O que mudou, e por que a Apollo 11 deve isso à Apollo 1

Em 27 de janeiro de 1967, uma sexta-feira, três astronautas morreram dentro de uma nave Apollo que estava parada no chão, presa ao foguete, num ensaio que nem sequer envolvia combustível. Virgil "Gus" Grissom, Edward White e Roger Chaffee ficaram sem chance porque a cabine estava pressurizada com oxigênio puro e porque a escotilha abria para dentro — com a pressão interna subindo, era fisicamente impossível abri-la. Do primeiro aviso de fogo ao fim de qualquer sinal da nave passaram-se 17,7 segundos.

O acidente é o começo da história que termina com a Apollo 11 na Lua dois anos e meio depois. Sem ele, quase certamente não haveria pouso — e este artigo mostra por quê, usando o relatório oficial da junta de investigação da NASA, a Apollo 204 Review Board.

Quem eram os três

Gus Grissom era o veterano. Foi o segundo americano no espaço, num voo Mercury em 1961, e comandou a primeira missão Gemini tripulada em 1965. Tinha fama de engenheiro exigente e de reclamar em voz alta do que não gostava.

Ed White era, naquele momento, o astronauta mais famoso dos Estados Unidos: em junho de 1965 ele saiu da cápsula Gemini 4 e flutuou do lado de fora por vinte minutos, a primeira caminhada espacial americana. Era ele, na poltrona do meio, o encarregado de abrir a escotilha numa emergência.

Roger Chaffee tinha 31 anos e nunca havia voado. A Apollo 1 seria a estreia dele.

A missão tinha o nome técnico AS-204 e seria o primeiro voo tripulado do programa Apollo, previsto para fevereiro de 1967: duas semanas em órbita da Terra, para testar a nave. Depois do acidente, a NASA passou a chamá-la oficialmente de Apollo 1, em homenagem à tripulação. Àquela altura os Estados Unidos corriam contra o relógio para cumprir a promessa de pisar na Lua antes de 1970 — o clima político daquela corrida está contado em Por que ninguém voltou à Lua desde 1972 — respondido de vez.

Os três astronautas da Apollo 1 em macacões azuis, sentados atrás de uma miniatura do módulo de comando
Ed White, Gus Grissom e Roger Chaffee com uma maquete do módulo de comando, em 1966. Os três morreriam dentro da versão real da nave meses depois. Foto: NASA/JSC

O teste que ninguém achou perigoso

O ensaio daquele dia se chamava "plugs-out": a nave era desligada de todas as ligações externas de energia e passava a funcionar com os próprios recursos, simulando uma contagem regressiva completa. O foguete embaixo estava vazio, sem combustível. Por isso o procedimento não entrou na lista de testes perigosos — a classificação de risco da época cobria apenas foguetes abastecidos, combustíveis que pegam fogo sozinhos ao se misturar, gases liquefeitos a temperaturas muito baixas e explosivos armados.

A consequência dessa etiqueta é o coração da tragédia, e o relatório diz isso com todas as letras: não havia equipe de bombeiros nem médica de plantão na plataforma, o equipamento de emergência da sala branca em volta da escotilha não servia para fumaça e nenhum procedimento de resgate havia sido escrito para esse tipo de acidente.

O dia foi ruim desde cedo. A tripulação entrou na nave às 15h de Brasília. Grissom sentiu um cheiro estranho no circuito de oxigênio e a contagem parou para coletar uma amostra — a análise posterior descartou qualquer relação com o incêndio. Depois começaram as falhas de comunicação: um microfone que ficou permanentemente aberto e não podia ser desligado, e rádios que não se entendiam entre as estações de solo. É durante esse conserto, com a contagem congelada, que o fogo começa.

Os 17 segundos, minuto a minuto

Os horários abaixo saíram do relatório da junta de investigação, que os registra em GMT. Estão convertidos para o horário de Brasília — em 1967 o Brasil não adotava horário de verão, então a diferença é de três horas exatas.

Horário (Brasília) O que aconteceu
09h55 A nave é ligada. O teste começa
15h00 Grissom entra na cápsula; White e Chaffee em seguida
15h20 Contagem parada: cheiro estranho no oxigênio (depois descartado)
16h42 Contagem retomada; a escotilha é instalada
16h45 Começa a purga da cabine com oxigênio puro
19h40 Nova parada: falhas de comunicação
20h20 Contagem congelada em T−10 minutos
20h30min55s Pico de tensão registrado no barramento elétrico AC 2
20h31min04,7s A tripulação avisa por rádio: há fogo na cabine
20h31min19s A cápsula se rompe pela pressão interna
20h31min22,4s Fim de toda transmissão de voz e dados
~20h36 As três escotilhas terminam de ser abertas

Entre o aviso de fogo e o silêncio total: 17,7 segundos. Entre o aviso e a escotilha aberta: cerca de cinco minutos. Os primeiros bombeiros chegaram de 8 a 9 minutos depois do alarme; o primeiro médico, mais de 12 minutos depois.

A conta do oxigênio

Por que um arco elétrico pequeno virou um incêndio total em segundos? A resposta cabe numa conta.

A cabine estava a 16,7 psi de oxigênio puro (psi é a unidade de pressão usada na engenharia americana; o ar que você respira agora está a 14,7 psi). No ar comum, apenas 21% é oxigênio — a pressão só do oxigênio é de 3,08 psi. Dividindo um pelo outro: dentro daquela cabine havia 5,4 vezes mais moléculas de oxigênio por litro do que no ar de uma sala.

Isso muda a natureza dos materiais. Velcro, tecido, espuma, isolamento de fio: coisas que no ar normal queimam devagar, em oxigênio puro a essa pressão queimam como papel embebido em álcool. A junta listou o que havia demais ali dentro e concluiu que "as condições do teste eram extremamente perigosas", acrescentando a frase que ficou: o longo histórico de sucessos com oxigênio puro "levou a excesso de confiança e complacência".

Uma observação que costuma confundir: no espaço o oxigênio puro não é tão temerário assim. Em órbita a cabine Apollo operava a cerca de 5 psi, um terço da pressão daquele teste, e com um terço do oxigênio por litro. O erro não foi usar oxigênio puro; foi usá-lo pressurizado acima da atmosfera com a nave lotada de material combustível e a tripulação trancada.

Por que a escotilha não abriu

Aqui entra a segunda conta, e ela é implacável. A cabine estava a 16,7 psi; do lado de fora havia 14,7 psi. São 2 psi de diferença empurrando a escotilha contra o batente por dentro — e a escotilha da Apollo, na época, abria para dentro.

Enquanto o interior estivesse mais pressurizado que o exterior, nenhuma força humana abriria aquela porta. E, com o fogo, a pressão não caiu: subiu. O relatório é direto: "Devido à pressão interna, a escotilha interna não pôde ser aberta antes da ruptura da cápsula. A tripulação nunca teve condição de realizar a saída de emergência."

A fivela do cinto de Ed White foi encontrada fechada, o que indica que ele seguiu o procedimento à risca — o manual mandava abrir a escotilha ainda preso ao assento. Testemunhas que acompanhavam a imagem de televisão da janela da escotilha relataram movimento compatível com ele tentando alcançar a alavanca.

Na prática, abrir aquela escotilha em condições normais levava no mínimo 90 segundos e exigia as três pessoas trabalhando juntas.

O interior carbonizado do módulo de comando da Apollo 1, com fios e tubulações queimados
O interior do módulo de comando fotografado no dia seguinte ao incêndio. Foi a partir da reconstrução peça por peça deste compartimento que a junta localizou a origem mais provável do arco elétrico. Foto: NASA/JSC

O que a investigação concluiu

A junta trabalhou até abril de 1967 e não conseguiu apontar uma faísca específica. O que ela concluiu foi mais útil que um culpado:

  • O iniciador mais provável foi um arco elétrico na parte baixa e dianteira da baia de equipamentos do lado esquerdo, onde a fiação de instrumentação do sistema de controle ambiental passava entre a unidade de refrigeração e o painel de oxigênio. Vários pontos de arco foram encontrados nos destroços. Nenhum indício de sabotagem.
  • A causa da morte foi asfixia por inalação de gases tóxicos, com as queimaduras como causa contribuinte. A autópsia indicou que a perda de consciência foi rápida e que a reanimação já era impossível quando a escotilha se abriu.
  • As condições que criaram o desastre, na lista da própria junta: cabine selada e pressurizada com oxigênio; material combustível espalhado; fiação vulnerável carregando energia; tubulação vulnerável com líquido refrigerante inflamável; saída de emergência inadequada; socorro inadequado.

A frase mais dura do relatório não é técnica: "na dedicação aos muitos problemas difíceis das viagens espaciais, a equipe Apollo deixou de dar atenção adequada a certas questões corriqueiras, mas igualmente vitais, de segurança da tripulação".

O que mudou, e por que a Apollo 11 deve isso à Apollo 1

O programa parou por vinte meses. O módulo de comando foi redesenhado de cabo a rabo.

Antes Depois
Escotilha abrindo para dentro, mínimo de 90 segundos Escotilha única abrindo para fora, em cerca de 7 segundos
Oxigênio puro a 16,7 psi na plataforma Mistura de 60% oxigênio e 40% nitrogênio na plataforma
Velcro, espuma e tecidos inflamáveis pela cabine Materiais autoextinguíveis; velcro drasticamente reduzido
Fiação e tubulação expostas Fiação blindada e encanamento de refrigerante revisto
Teste sem bombeiro nem médico de plantão Equipes de emergência presentes em teste com tripulação

A escotilha de abertura rápida virou padrão em todas as naves tripuladas americanas desde então, incluindo as cápsulas que trazem astronautas de volta hoje — o passo a passo dessa volta está em Como os astronautas voltam para a Terra, passo a passo.

O primeiro voo tripulado do Apollo só aconteceu em outubro de 1968, com a Apollo 7. Nove meses depois, a nave que levou Neil Armstrong e Buzz Aldrin à Lua era o mesmo projeto, reconstruído — a história completa está em Quem foi o primeiro homem a pisar na Lua?.

E a herança mais visível veio em abril de 1970, quando uma explosão a caminho da Lua quase matou outra tripulação. Dessa vez o controle de solo tinha procedimentos, redundância e uma cultura de checagem que nasceram da investigação de 1967 — é o que contamos em Apollo 13: o que deu errado e como eles voltaram vivos. O programa que a Apollo 1 quase matou é o mesmo que, por causa dela, aprendeu a trazer gente de volta.

Perguntas frequentes

O que aconteceu com a Apollo 1?

Em 27 de janeiro de 1967, durante um teste de rotina na plataforma de lançamento do Complexo 34, em Cabo Kennedy, um incêndio irrompeu dentro do módulo de comando. A cabine estava pressurizada com oxigênio puro a 16,7 psi, e o fogo tomou tudo em segundos. Os três astronautas a bordo — Grissom, White e Chaffee — morreram por asfixia. O foguete não tinha combustível; o acidente aconteceu inteiramente em solo.

Por que eles não conseguiram sair da nave?

Porque a escotilha abria para dentro e a pressão interna a mantinha fechada. Com 16,7 psi dentro e 14,7 psi fora, era impossível empurrá-la; e o incêndio aumentou ainda mais essa pressão, até a cápsula se romper. A junta de investigação concluiu que a tripulação "nunca teve condição de realizar a saída de emergência".

Qual foi a causa do incêndio da Apollo 1?

A investigação não identificou uma faísca específica, mas apontou como iniciador mais provável um arco elétrico na fiação da baia de equipamentos do lado esquerdo da cabine. O que transformou a faísca em desastre foi a combinação de oxigênio puro pressurizado, material inflamável espalhado pela cabine e uma escotilha que não abria.

Quanto tempo durou o incêndio?

Do aviso de fogo pelo rádio até o fim de toda transmissão de voz e dados passaram-se 17,7 segundos. A cápsula se rompeu cerca de 14 segundos depois do alarme. As escotilhas só terminaram de ser abertas aproximadamente cinco minutos depois.

A NASA mudou o nome da missão depois do acidente?

Sim. A missão tinha a designação técnica AS-204 e passou a ser chamada oficialmente de Apollo 1 em homenagem à tripulação. Os números seguintes foram atribuídos a voos não tripulados, e o primeiro voo tripulado a decolar de fato foi a Apollo 7, em outubro de 1968.

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