A Apollo 13 ia pousar na Lua e nunca pousou: dois dias depois do lançamento, um tanque de oxigênio explodiu dentro da nave e arrancou de uma vez a energia elétrica, o ar e a água da tripulação. Os três homens a bordo estavam a cerca de 320 mil km da Terra, longe demais para dar meia-volta. A saída foi mudar de nave no meio do caminho, contornar a Lua e voltar apertados numa cabine feita para dois — e deu certo. Quase quatro dias depois, os três amerissaram vivos no Pacífico.
Quem estava a bordo
A tripulação era formada por James Lovell, o comandante, que já tinha voado na Apollo 8 e contornado a Lua antes; Fred Haise, piloto do módulo lunar; e John Swigert, piloto do módulo de comando. Swigert entrou de última hora: o titular foi tirado do voo dias antes da decolagem por ter ficado exposto a rubéola.
O destino era Fra Mauro, uma região montanhosa do lado visível da Lua. Se tudo desse certo, Lovell e Haise seriam o quinto e o sexto ser humano a pisar lá — a história de como os dois primeiros chegaram está em Quem foi o primeiro homem a pisar na Lua?.

Houston, tivemos um problema: o que explodiu
O lançamento foi no sábado, 11 de abril de 1970, às 16h13 de Brasília. Os dois primeiros dias foram tão sem graça que a televisão americana nem transmitiu ao vivo a apresentação que a tripulação fez de dentro da nave.
Na madrugada de terça-feira, 14 de abril, às 00h06 de Brasília, o controle pediu uma tarefa de rotina: ligar os agitadores dos tanques de oxigênio, que servem para desembolar o líquido lá dentro e permitir medir quanto ainda resta. A fiação de um dos tanques estava com o isolamento danificado desde antes do voo. A faísca pegou fogo no isolante, a pressão disparou e o tanque de oxigênio número 2 explodiu, estourando um painel inteiro da lateral da nave e danificando o tanque número 1 junto.
A frase que ficou famosa foi dita ali. No filme ela aparece como "Houston, temos um problema". Na gravação real, Swigert diz primeiro "Ok, Houston, tivemos um problema aqui", e Lovell repete logo depois. No passado, não no presente: quando eles falaram, já tinha acontecido.
Aqui está o detalhe que quase ninguém conta. O oxigênio daqueles tanques não era só para respirar. Ele alimentava as células de combustível, que misturavam oxigênio com hidrogênio para gerar toda a eletricidade da nave — e sobrava água potável como subproduto. Perder o oxigênio era perder as três coisas de uma vez: ar, luz e bebida.
A viagem, hora a hora, no horário de Brasília
Os instantes abaixo vêm da ficha da missão do centro de dados de ciência espacial da NASA, convertidos do tempo universal para o horário de Brasília (o Brasil não tinha horário de verão em 1970).
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| Sáb 11/04, 16h13 | Lançamento, do Cabo Canaveral |
| Seg 13/04, 22h09 | O terceiro estágio do foguete é jogado contra a Lua de propósito, para os sismômetros deixados pela Apollo 12 medirem a batida |
| Ter 14/04, 00h06 | Explosão do tanque de oxigênio, 55 h e 55 min depois da decolagem |
| Ter 14/04, 05h43 | Queima de 11,6 m/s que devolve a nave à trajetória de retorno livre |
| Ter 14/04, 23h40 | Queima grande, de 263 segundos, depois de contornar a Lua |
| Qui 16/04, 01h32 | Pequena correção de rota |
| Sex 17/04, 09h53 | Última correção, de 22 segundos |
| Sex 17/04, 15h07 | Amerissagem no Pacífico Sul |
A missão inteira durou 5 dias, 22 horas e 55 minutos.
Por que a saída foi seguir em frente, e não dar meia-volta
Parece contraintuitivo, mas a nave estava perto demais da Lua para voltar. Frear, parar e refazer o caminho de trás para a frente exigiria uma queima gigantesca com o motor principal — o motor que ficava justamente na parte da nave que tinha acabado de explodir, e que ninguém sabia se ainda funcionava.
O caminho seguro era o oposto: deixar a gravidade da Lua fazer a curva. A Apollo 13 tinha saído da trajetória de retorno livre para poder chegar a Fra Mauro, e a primeira providência foi voltar para ela. Retorno livre é uma rota desenhada de tal forma que, se ninguém ligar motor nenhum, a nave contorna a Lua e cai de volta na Terra sozinha, como uma pedra jogada para cima volta sozinha.
Isso foi feito com o motor do módulo lunar, o veículo de pouso, que estava intacto e acoplado à frente. Depois de passar por trás da Lua, veio a queima grande de 263 segundos, que encurtou a volta em cerca de dez horas e mudou o ponto de queda para o Pacífico.

O recorde que a Apollo 13 segurou por 56 anos
Ao contornar a Lua sem entrar em órbita, a Apollo 13 passou mais longe da Terra do que qualquer missão tripulada antes ou depois: 400.171 km. Foi o ponto mais distante já alcançado por seres humanos.
Não foi sorte de trajetória apenas. Rodando as efemérides do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA para aquela semana, a Lua estava no apogeu — o ponto da órbita dela mais afastado de nós — exatamente em 15 de abril de 1970, a 404.495 km do centro da Terra. Os três chegaram ao ponto mais longe justamente no dia em que a Lua estava mais longe.
Esse recorde caiu em 6 de abril de 2026, quando a tripulação da Artemis II passou dessa marca e seguiu até cerca de 406 mil km. Foram 56 anos, e a história dessa volta está em Artemis II: como foi a volta dos humanos à órbita da Lua.
Três pessoas numa cabine feita para duas
O módulo lunar virou bote salva-vidas. Ele tinha sido projetado para manter duas pessoas vivas por 45 horas; precisou segurar três por cerca de 90 horas. Oxigênio sobrava, porque havia tanques reservados para as caminhadas na superfície. O problema era o contrário: o gás carbônico que os três exalavam.
Cada nave tinha filtros de hidróxido de lítio para capturar esse gás, mas os do módulo de comando eram quadrados e os encaixes do módulo lunar eram redondos. Com o nível de gás carbônico subindo para valores perigosos, os engenheiros em terra montaram, com o material que eles sabiam existir a bordo, um adaptador de saco plástico, papelão da capa do plano de voo e fita adesiva. Leram o passo a passo pelo rádio, os astronautas construíram a coisa lá em cima, e o nível caiu. O apelido foi caixa de correio.
Faltava energia e faltava água. Desligaram quase tudo, inclusive o aquecimento: a temperatura dentro da nave caiu para perto de 3 °C e as paredes ficaram molhadas de condensação. Cada um passou a beber cerca de um copo de água por dia. Haise chegou à Terra com infecção urinária e febre.
A última conta, e a volta
Para entrar na atmosfera, uma cápsula precisa acertar um ângulo estreito: raso demais e ela quica de volta para o espaço, íngreme demais e queima. Normalmente o computador de bordo faz esse acerto. Com quase tudo desligado, as últimas correções de rota foram feitas à mão: sem computador de navegação, a tripulação alinhou a nave usando a própria Terra na janela como referência e cronometrou o tempo de motor no relógio.
Eles religaram o módulo de comando com o pouco de bateria que tinha sido poupado, numa sequência de acionamento escrita do zero em terra durante a viagem, e largaram o módulo danificado. Só então viram o estrago: faltava um painel inteiro da lateral.
A amerissagem foi às 15h07 de Brasília de sexta-feira, 17 de abril de 1970, a cerca de 6,5 km do navio de resgate. Como é que uma cápsula atravessa a atmosfera sem virar carvão é assunto de Como os astronautas voltam para a Terra, passo a passo.

Por que chamam isso de fracasso bem-sucedido
Nenhum objetivo da missão foi cumprido: ninguém pousou, ninguém trouxe pedra, ninguém andou em Fra Mauro. E mesmo assim a Apollo 13 é lembrada como a hora em que o programa espacial mostrou do que era capaz, porque tudo o que salvou aqueles três já existia antes do acidente — o módulo lunar acoplado, a trajetória de retorno livre, os simuladores em terra e milhares de pessoas treinadas para improvisar com o que havia a bordo.
A investigação encontrou a causa exata do curto-circuito, o projeto do tanque foi alterado e as missões seguintes voltaram a pousar. Por que elas pararam poucos anos depois é outra história, contada em Por que ninguém voltou à Lua desde 1972 — respondido de vez.




