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Como a Estação Espacial fala com a Terra?

A ISS dá uma volta na Terra em 90 minutos e passa a maior parte dela longe dos EUA. Entenda os satélites que levam a voz e o vídeo até Houston.

Publicado em 7 min de leitura
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O primeiro satelite TDRS sendo erguido para fora do porao de carga do onibus espacial Challenger, com o foguete branco marcado USA sob ele
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. Antes: 13 minutos de conversa a cada hora e meia
  2. A ideia: subir a antena em vez de espalhar antenas
  3. O primeiro foi lançado pelo Challenger
  4. Onde o sinal desce
  5. Por que o vídeo da estação às vezes congela
  6. Para o leitor no Brasil

Ela não fala direto com Houston: fala com satélites que ficam muito mais alto e que repassam o sinal para baixo. A Estação Espacial voa a cerca de 400 km de altitude e dá uma volta completa na Terra a cada 90 minutos. Nesse trajeto, ela passa a maior parte do tempo sobre oceanos e sobre países onde a NASA não tem antena. Se dependesse de falar diretamente com uma estação no chão, a tripulação ficaria muda quase o tempo inteiro. A solução foi colocar satélites retransmissores a 35 mil km de altitude, que enxergam a estação de cima e jogam o sinal para uma antena no deserto do Novo México. São eles que levam a voz, os dados e o vídeo ao vivo que você assiste no celular.

Essa rede tem nome — TDRS, sigla em inglês para "satélites de rastreamento e retransmissão de dados" — e ela resolveu um problema que atormentou os primeiros programas espaciais.

Antes: 13 minutos de conversa a cada hora e meia

Nos tempos de Mercury, Gemini e Apollo, a NASA fazia do jeito óbvio: espalhava antenas pelo mundo e falava com a nave quando ela passava por cima de alguma.

Funcionava mal. Segundo a própria NASA, essa rede de estações terrestres conseguia cobrir, no melhor dos casos, cerca de 15% da órbita de uma nave.

Faça a conta com a Estação Espacial de hoje, que leva 90 minutos para dar uma volta: 15% de 90 minutos são 13 minutos e meio. O resto — mais de uma hora, a cada volta — seria silêncio.

Imagine seu celular funcionando assim: treze minutos de sinal, depois mais de uma hora sem nada, e de novo. Agora imagine fazer isso com uma tripulação em órbita, em que um alarme pode disparar a qualquer momento.

Era um problema conhecido e sem solução barata, porque a alternativa era construir e manter dezenas de estações em território de outros países, com tudo o que isso envolve de acordo diplomático e custo.

A ideia: subir a antena em vez de espalhar antenas

Em 1973, a NASA criou o projeto TDRS com outra abordagem: em vez de muitas antenas no chão, poucos satélites bem alto.

A chave é a altura. Esses satélites ficam em órbita geoestacionária, a cerca de 35 mil km da Terra — quase 90 vezes mais alto que a Estação Espacial. Nessa altitude, o satélite leva exatamente 24 horas para dar uma volta, o mesmo tempo que a Terra leva para girar. Resultado: ele parece parado sobre o mesmo ponto do planeta, o tempo todo. É o mesmo truque dos satélites de TV, que permite a antena de casa ficar apontada sempre para a mesma direção.

De lá de cima, cada satélite enxerga um pedaço enorme da órbita baixa — e, portanto, enxerga a Estação Espacial durante boa parte da volta dela. Com alguns satélites distribuídos, a cobertura fecha.

O salto foi brutal. Dos 15% das estações terrestres, a rede TDRS passou a oferecer, segundo a NASA, cobertura de praticamente 100% para naves em órbita baixa.

Estações no chão Rede TDRS
Cobertura da órbita até cerca de 15% praticamente 100%
Onde fica a antena dezenas de países 35 mil km de altitude
Contato por volta de 90 min cerca de 13 minutos praticamente contínuo

Os satélites funcionam como o que os engenheiros chamam de "cano torto": eles não processam nem entendem nada do que passa. Recebem o sinal da nave numa frequência e o reemitem para a antena no chão, sem mexer no conteúdo. Toda a inteligência fica nas pontas.

O primeiro foi lançado pelo Challenger

O primeiro satélite da série, o TDRS-A, subiu no porão de carga do ônibus espacial Challenger, em sua viagem inaugural. O lançamento foi em 4 de abril de 1983, e no dia seguinte a tripulação soltou o satélite.

Ele ainda precisou de 39 queimas de ajuste para chegar à posição final. Já na órbita certa, foi renomeado TDRS-1. Era, na época, o maior e mais sofisticado satélite de comunicação já construído, com cerca de 2,3 toneladas.

A diferença apareceu na hora. Jeff Volosin, diretor-adjunto da área de comunicações da NASA em Goddard, resumiu o efeito: com o TDRS-1 em operação, a oitava missão do ônibus espacial conseguiu transmitir mais dados de engenharia e de ciência que as sete missões anteriores somadas.

Ilustracao de um satelite TDRS com dois grandes refletores em forma de guarda-chuva e paineis solares, sobre a Terra azul
Ilustração de um satélite TDRS feita pela NASA. Os dois refletores grandes, de malha, são as antenas que apontam para uma nave por vez; o satélite recebe o sinal dela e o reemite para o chão. Por ser ilustração, as proporções e as cores não são fotográficas. Foto: NASA/JSC

A rede foi fechada em 1989, com o quarto satélite em posição. Uma segunda geração subiu entre 2000 e 2002. Ao todo, 11 satélites TDRS foram construídos, e todos entraram em operação menos um: o TDRS-B foi destruído no acidente do Challenger, em janeiro de 1986. O mesmo veículo que levou o primeiro da série ao espaço levou o segundo consigo na destruição, como contamos em Challenger e Columbia: os desastres do ônibus espacial.

O TDRS-1, projetado para durar 10 anos, trabalhou 27. Foi aposentado em 2009 e desativado em 2010.

Onde o sinal desce

Os satélites jogam tudo para terra em pontos específicos. O principal é o Complexo de White Sands, no deserto do Novo México, nos Estados Unidos, escolhido justamente por ter céu limpo quase o ano inteiro — chuva forte atrapalha sinal nas frequências usadas. Há também uma estação em Guam, no Pacífico.

De White Sands, o sinal segue por redes terrestres até o Centro Espacial Johnson, em Houston, onde fica o Controle da Missão que conversa com a tripulação, e até os centros das outras agências parceiras.

Hoje essa estrutura faz parte do que a NASA chama de Near Space Network, a rede de perto — que atende missões próximas e reúne mais de 40 antenas, próprias e alugadas de empresas. A agência descreve o alcance dela de duas formas em páginas diferentes: "até um milhão de milhas da Terra" numa, "até 1,25 milhão de milhas" noutra. A ordem de grandeza é a mesma — cerca de 1,6 a 2 milhões de km — e cobre com folga a Lua.

É uma divisão de trabalho clara: a rede de perto cuida de quem está aqui no quintal; quem está em Marte ou além fala com as antenas gigantes da Deep Space Network, outra história, contada em Como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui.

Por que o vídeo da estação às vezes congela

Se você já assistiu a uma transmissão ao vivo da Estação Espacial, provavelmente viu a imagem travar e aparecer um aviso de perda de sinal.

Não é falha da sua internet. Mesmo com satélites geoestacionários, existem momentos em que a estação entra numa zona de sombra — a região atrás da Terra em que nenhum satélite da rede consegue vê-la — ou em que a antena da estação precisa trocar de satélite. Nessas trocas e nessas sombras, o sinal cai por alguns minutos e volta.

Os astronautas convivem com isso naturalmente. O Controle da Missão sabe de antemão quando cada janela de silêncio vai acontecer, e as tarefas mais delicadas são agendadas para períodos de cobertura garantida.

Vale lembrar que há também um limite físico que nenhuma rede resolve: o sinal viaja à velocidade da luz, e a subida até 35 mil km mais a descida introduzem um pequeno atraso. Para a órbita baixa isso é fração de segundo, imperceptível numa conversa. Para a Lua já são mais de um segundo em cada sentido — razão pela qual chamada lunar nunca vai soar natural, assunto de Vai ter internet na Lua? A NASA já está montando a rede.

Para o leitor no Brasil

Uma dúvida comum: dá para captar a Estação Espacial com equipamento caseiro?

A transmissão principal, com voz e vídeo, passa pelos satélites TDRS em frequências e potências que exigem antena profissional. Não é algo de quintal.

Mas existe um caminho aberto: a estação tem equipamento de radioamador a bordo, e radioamadores licenciados no Brasil conversam com astronautas de vez em quando, em contatos agendados com escolas. É uma faixa de frequência pensada justamente para alcance modesto.

E há a forma mais simples de todas de "detectar" a estação, que não precisa de rádio nenhum: olhar para cima na hora certa e vê-la cruzar o céu como um ponto branco e veloz. O passo a passo está em Como ver a Estação Espacial passar sobre a sua cidade.

Perguntas frequentes

Como os astronautas da Estação Espacial falam com Houston?

Por meio de satélites retransmissores em órbita geoestacionária, a cerca de 35 mil km de altitude, chamados TDRS. A estação transmite para cima, o satélite reemite o sinal para uma antena em terra — principalmente o Complexo de White Sands, no Novo México — e dali ele segue por redes terrestres até o Controle da Missão, em Houston.

Por que a NASA não usa antenas no chão para falar com a ISS?

Porque a estação dá uma volta na Terra a cada 90 minutos e passa a maior parte do tempo sobre oceanos. Uma rede de estações terrestres cobria, no máximo, cerca de 15% da órbita, o que daria por volta de 13 minutos de contato a cada volta. Com os satélites retransmissores, a cobertura é praticamente contínua.

O que significa órbita geoestacionária?

É a órbita a cerca de 35 mil km de altitude em que um satélite leva 24 horas para dar uma volta na Terra — exatamente o tempo que o planeta leva para girar. Como os dois giram juntos, o satélite parece parado sobre o mesmo ponto do chão. É por isso que antena de TV por satélite fica apontada sempre na mesma direção.

Por que a transmissão ao vivo da Estação Espacial congela às vezes?

Porque a estação entra em regiões onde nenhum satélite da rede consegue vê-la, ou porque a antena está trocando de satélite. São interrupções de alguns minutos, previstas pelo Controle da Missão, que agenda as tarefas críticas para os períodos de cobertura garantida.

Qual foi o primeiro satélite TDRS?

O TDRS-A, lançado em 4 de abril de 1983 no porão do ônibus espacial Challenger, em sua viagem inaugural, e solto no dia seguinte. Já em posição, passou a se chamar TDRS-1. Projetado para durar 10 anos, operou por 27, até 2009.

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