Vai ter, e o projeto já tem contrato assinado. Em 30 de setembro de 2026, a NASA contratou o desenvolvimento de um sistema 5G com Wi-Fi 6 integrado para a superfície da Lua, num acordo de preço fixo de aproximadamente 38 milhões de dólares com a empresa Modulate Space Corporation, conduzido pelo Centro de Pesquisas Glenn, em Cleveland. O objetivo declarado é dar suporte às atividades da futura base lunar.
Não é um começo do zero: uma rede 4G já foi enviada à Lua numa missão anterior, e a arquitetura geral da comunicação lunar, chamada LunaNet, já é desenvolvida em conjunto por NASA, agência espacial europeia e agência japonesa. O que muda agora é a geração da tecnologia e a ambição do alcance.
Como era em 1972: uma antena de guarda-chuva apontada à mão
Para entender o tamanho da mudança, comece pela foto que abre este artigo. Aquele objeto que parece um guarda-chuva aberto é a antena de alto ganho do jipe lunar da Apollo 17, fotografada em 13 de dezembro de 1972. Ao fundo, pequena, está a Terra.
Aquilo é uma antena direcional: para funcionar, ela precisa estar apontada para a Terra, que é o ponto azul no alto da imagem. Uma antena assim serve a um equipamento de cada vez e não acompanha nada que se mova sozinha. E cada equipamento científico deixado na superfície tinha a própria ligação com a Terra, montada peça por peça — mais adiante neste artigo há a foto de Alan Bean carregando as duas metades do pacote de experimentos da Apollo 12 para montá-las a cerca de 90 metros do módulo lunar.
Era um sistema de ponta para a época e absolutamente inadequado para uma base. Numa base, as pessoas se movem, os robôs se movem, e ninguém pode parar para mirar antena.
O que os astronautas teriam hoje: rádio de voz e 300 metros de Wi-Fi
O ponto de partida do projeto atual está descrito num trabalho técnico da NASA sobre comunicação lunar. A arquitetura básica dos trajes de nova geração usa rádio UHF para voz e um pouco de telemetria, e Wi-Fi para vídeo — mas o Wi-Fi só funciona a distâncias "muito curtas, da ordem de 100 a 300 metros, no máximo".
Trezentos metros são menos de um sexto dos 2 km que a própria NASA quer que um astronauta possa caminhar (conta nossa). E os planos da NASA já falam em astronautas caminhando até 2 km do módulo de pouso e, a partir da Artemis V, usando um jipe lunar para ir até 10 km.
| Alcance | O que transmite | |
|---|---|---|
| Rádio UHF do traje | Longo | Voz e telemetria limitada |
| Wi-Fi do traje | 100 a 300 m | Vídeo, só pertinho |
| Rede 4G/LTE proposta | 2 km ou mais | Voz, dados, telemetria e vídeo em alta definição ao mesmo tempo |
| Meta da Artemis V | Até 10 km | O mesmo, com os astronautas de jipe |
É esse buraco — do quarteirão até os dez quilômetros — que a rede de celular lunar existe para tapar.
A ideia: a mesma tecnologia que já está no seu bolso
Por que usar 4G e 5G em vez de inventar um rádio espacial novo? Porque a tecnologia de celular já resolveu, na Terra, exatamente o problema que a Lua apresenta: muitos aparelhos móveis, se movendo, compartilhando a mesma antena, com voz, dados e vídeo ao mesmo tempo, sem ninguém precisar mirar nada.
E é barato no sentido que importa: existem bilhões de aparelhos no mundo usando esses padrões, o que significa décadas de engenharia já paga e componentes produzidos em escala. A NASA descreve o objetivo do contrato de 2026 com três palavras que resumem a aposta: um sistema escalável, baseado em padrões e com Wi-Fi 6 integrado.
A divisão de tarefas segue a lógica terrestre: Wi-Fi para distância muito curta, celular para o resto.
O 4G que a NASA mandou para o polo sul da Lua
A primeira tentativa já aconteceu. Em outubro de 2020, dentro do programa Tipping Point, a NASA contratou a Nokia para levar a primeira rede 4G/LTE à superfície lunar. O conjunto, chamado Sistema de Comunicações de Superfície Lunar, tinha três partes:
- Uma "rede dentro de uma caixa" — estação base e núcleo da rede juntos, com antenas próprias — instalada no módulo de pouso Nova-C, da Intuitive Machines.
- Um modem embarcado no jipe MAPP, da empresa Lunar Outpost, que faria o papel do celular.
- Um software de operação feito para ser controlado da Terra através de um enlace direto que a própria NASA descreve como de alta latência, baixa taxa de dados e sujeito a perdas.
A missão escolhida foi a IM-2, com destino a Mons Mouton, um platô perto da região do polo sul lunar. O plano previa testar a conexão em duas situações: curta distância, de 200 a 300 metros, e longa distância, até 2 km do módulo. Havia ainda uma terceira peça com modem embarcado, o saltador Micro-Nova, projetado para descer dentro de crateras permanentemente na sombra — justamente onde se procura gelo de água, assunto de Tem água na Lua? Onde está o gelo e quanto tem.
Uma observação honesta: este site descreve o plano da demonstração, porque é isso que as fontes primárias consultadas trazem. Não foi possível confirmar em fonte primária o resultado do teste, e esta página será atualizada quando houver.

O contrato de setembro de 2026: agora é 5G
O passo seguinte é o contrato anunciado em 30 de setembro de 2026. Ele é dividido em duas frentes, com prazos que vão até o fim de 2028.
| Frente | Período |
|---|---|
| Desenvolvimento da rede 5G em caixa e demonstração em laboratório | 1º de outubro de 2026 a 31 de janeiro de 2028 |
| Rede integrada de 5G e Wi-Fi na superfície lunar e demonstração em voo | 30 de novembro de 2026 a 31 de dezembro de 2028 |
O que a NASA diz que vai receber são o hardware, o firmware e o software necessários para avançar o sistema integrado de comunicação lunar, mais a compreensão da arquitetura e do desempenho operacional, mantendo flexibilidade para evoluir depois.
Repare na data final: dezembro de 2028. É o mesmo horizonte do primeiro pouso tripulado do programa Artemis, previsto para não antes de 2028 segundo o cronograma revisado da NASA — números e justificativas em Artemis III: quando vamos pisar na Lua de novo. Cronogramas espaciais atrasam, e este não é exceção; o que importa é que a rede está sendo desenvolvida para chegar junto com as pessoas.

LunaNet: a rede tem nome, e três agências dentro
O 5G resolve a conversa dentro da base. Falta a conversa com a Terra, e é aí que entra o LunaNet, a arquitetura geral que NASA, ESA e JAXA desenvolvem em conjunto para que sistemas de governos, de empresas e de outros países funcionem como uma rede só.
O LunaNet prevê quatro serviços:
- Rede: conectividade parecida com a da internet, usando uma tecnologia chamada rede tolerante a atrasos e interrupções, feita para que os dados não se percam quando o sinal cai.
- Navegação: posição, navegação e hora independentes da Terra, para que um jipe saiba onde está sem perguntar a Houston.
- Detecção e informação: alerta de situação, incluindo uma função de busca e salvamento lunar.
- Ciência lunar: comunicação por rádio e óptica para pesquisa.
Em 2024 a NASA selecionou a Intuitive Machines para desenvolver os primeiros satélites de retransmissão lunares, que serão lançados em etapas. Eles são indispensáveis porque, em boa parte da região polar sul e em todo o lado oculto, a Terra simplesmente não está no céu — nenhuma antena resolve isso apontando melhor, como explica O que existe do lado oculto da Lua?.
O que a internet lunar nunca vai resolver: 1,3 segundo
Por melhor que fique a rede, existe um limite que nenhuma engenharia contorna: a velocidade da luz. O sinal leva 1,3 segundo para ir da Terra à Lua, e outro tanto para voltar.
Isso significa que uma chamada de vídeo com alguém na Lua terá sempre cerca de 2,6 segundos entre a pergunta e o começo da resposta. É uma conversa possível, mas estranha — parecida com uma ligação internacional ruim, em que os dois começam a falar ao mesmo tempo.
Para operar um robô, é pior: dirigir um jipe com 2,6 segundos de atraso é dirigir às cegas. É por isso que o serviço de navegação independente do LunaNet importa tanto, e é a mesma razão que faz as sondas de espaço profundo operarem sozinhas, com atrasos de minutos a horas, como mostramos em Como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui.
Vale lembrar, ainda, que nada disso é som atravessando o espaço: toda essa conversa é onda de rádio, pela mesma razão que explicamos em Existe som no espaço? Por que ninguém ouve nada lá fora.




