Curiosidades

Dá para ver a Muralha da China do espaço?

Não dá: nem da Lua, nem a olho nu da órbita. Veja o que a NASA responde, quem derrubou o mito e o que realmente aparece quando se olha a Terra de cima.

Publicado em 8 min de leitura
Compartilhar:
Terreno montanhoso e nevado da Mongólia Interior fotografado da Estação Espacial, com estradas finas e manchas de cidade, sem nenhuma muralha identificável
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. A resposta oficial da NASA, em uma frase
  2. O detalhe que todo mundo esquece: largura, não comprimento
  3. A foto que virou notícia, e o que ela mostra de verdade
  4. O que dá para ver da órbita
  5. De noite, a Terra entrega tudo
  6. E da Lua? Nem isso
  7. O astronauta chinês que desmentiu, e o livro didático
  8. O jeito que funciona: radar, não olho

Não dá. A Muralha da China não é visível a olho nu do espaço — nem da órbita baixa, onde fica a Estação Espacial, nem muito menos da Lua. A frase "é a única obra humana que se vê do espaço" é, nas palavras da própria NASA, um mito espacial: a agência publicou um texto só para desmontá-lo, e quem ajudou a derrubar a lenda foi o primeiro astronauta chinês.

O que torna isso curioso é que a muralha é enorme. A NASA descreve uma estrutura de 4.500 milhas, cerca de 7.200 km, erguida ao longo de mil anos. Para o Brasil ter noção: é quase o dobro da distância em linha reta entre Oiapoque, no Amapá, e o Chuí, no Rio Grande do Sul, que dá 4.177 km (conta nossa). Mesmo assim, ela some. E o motivo é mais interessante que o mito.

A resposta oficial da NASA, em uma frase

Em maio de 2005 a NASA publicou um texto chamado, em tradução livre, A muralha da China é menos grandiosa vista do espaço. A primeira frase não deixa margem: a Muralha da China, "frequentemente anunciada como o único objeto feito pelo homem visível do espaço", em geral não é — pelo menos não a olho nu, em órbita baixa da Terra. E "certamente não é visível da Lua".

Quem explica o porquê no texto é Kamlesh P. Lulla, na época cientista-chefe de observação da Terra no Centro Espacial Johnson, em Houston, o setor que coordena as fotografias feitas por astronautas. O argumento dele é de uma simplicidade desconcertante:

"É muito, muito difícil distinguir a Muralha da China nas fotografias dos astronautas, porque os materiais usados na muralha são parecidos, em cor e em textura, com os materiais do terreno em volta dela — a terra."

Ou seja: o problema não é o tamanho. É o contraste.

O detalhe que todo mundo esquece: largura, não comprimento

A muralha tem milhares de quilômetros de comprimento, mas poucos metros de largura. É como uma linha desenhada com lápis muito fino numa folha gigante.

E a órbita da Estação Espacial fica a cerca de 400 km de altitude. Essa distância tem um equivalente no Brasil: São Paulo e Rio de Janeiro estão a 361 km em linha reta (conta nossa, pela fórmula de Haversine). Imagine tentar enxergar, estando no Rio, uma estrada de terra que atravessa São Paulo. A estrada existe, tem quilômetros, e você não vai ver — porque o que decide não é o comprimento da linha, é a espessura dela e a diferença de cor entre ela e o chão ao lado.

Uma rodovia asfaltada, preta sobre terra clara, tem contraste. Uma pista de aeroporto, cinza sobre verde, tem contraste. Uma parede de pedra e terra batida, sobre pedra e terra batida, não tem.

A foto que virou notícia, e o que ela mostra de verdade

A história voltou às manchetes em 2004 e 2005. Leroy Chiao, comandante da Expedição 10 da Estação Espacial, fotografou a região da Mongólia Interior, cerca de 320 km ao norte de Pequim. A imagem de 24 de novembro de 2004, feita com uma lente de 180 mm, foi considerada a primeira foto confirmada da muralha vista da órbita. Uma segunda, de 20 de fevereiro de 2005, agora com lente de 400 mm, talvez também a mostre — é a que abre este artigo.

Aqui vem a parte honesta, e é ela que fecha o assunto: o próprio Chiao disse que não viu a muralha e que não tinha certeza de que a foto a mostrava. Lulla, analisando a imagem, foi igualmente cauteloso: "parece que o conjunto certo de condições precisou acontecer para esta fotografia capturar o pequeno segmento da muralha". As condições eram um dia de sol e uma nevada recente, que realçou o relevo.

Em outras palavras: para registrar a muralha, foi preciso uma teleobjetiva, neve no chão, Sol baixo e um analista procurando onde ela deveria estar. Isso é o contrário de "dá para ver a olho nu".

O que dá para ver da órbita

A parte boa é que a resposta "não" vem com uma lista enorme de "sim". Segundo Lulla, do espaço você vê muita coisa feita por gente.

O que se vê da órbita Por que aparece
Cidades à noite Luz própria, em padrão de ruas
Cidades de dia Cor e textura diferentes do campo em volta
Grandes rodovias e pontes Linhas retas que a natureza não faz
Aeroportos Pistas largas e claras, em ângulos retos
Represas e reservatórios Água onde não havia água
Pirâmides de Gizé Formas geométricas com sombra, sobre areia
Muralha da China Quase nunca, e só com teleobjetiva

As pirâmides de Gizé são o contraexemplo perfeito da muralha. Elas aparecem com clareza nas fotos da Estação porque são blocos geométricos altos jogando sombra sobre um deserto liso. A muralha acompanha o relevo e tem a cor do relevo; as pirâmides interrompem o relevo.

Vista de cima do Cairo, com a malha urbana à esquerda e o deserto à direita, e as três pirâmides de Gizé visíveis como formas claras com sombras triangulares no meio da areia
As pirâmides de Gizé, fotografadas da Estação Espacial em 26 de julho de 2012. Os lados voltados para o sudeste estão iluminados e os voltados para noroeste estão na sombra, o que dá a cada pirâmide um contorno triangular inconfundível. Foto: NASA/JSC

De noite, a Terra entrega tudo

Se existe um "objeto humano visível do espaço", ele não é uma construção: é a iluminação pública. As fotos noturnas da Estação mostram os continentes desenhados por luz, com as capitais como manchas e as estradas como fios.

A foto abaixo é do sul da Itália. O contorno da bota aparece inteiro, porque as cidades da costa marcam a linha onde a terra acaba e o mar começa. Nenhum satélite precisou de teleobjetiva para isso.

A Terra à noite vista da Estação Espacial, com a península itálica desenhada por milhares de pontos de luz alaranjados sobre o mar escuro, e um painel solar da estação na borda esquerda
O sul da Itália fotografado da Estação Espacial em 11 de junho de 2011. A luz elétrica das cidades é o que mais denuncia a presença humana quando se olha a Terra de cima. Foto: NASA/JSC

Se quiser ver a Estação de onde esse tipo de foto é feito, ela passa sobre o Brasil várias vezes por semana e aparece a olho nu: o passo a passo está em Como ver a Estação Espacial passar sobre a sua cidade.

E da Lua? Nem isso

Aqui o mito é ainda mais fácil de derrubar, porque existem testemunhas. A ideia de que a muralha se veria da Lua circula desde pelo menos 1938, muito antes de alguém ter ido lá conferir. Quando finalmente foram, em 1969, a resposta veio na hora.

Alan Bean, da Apollo 12, resumiu assim:

"A única coisa que você consegue ver da Lua é uma esfera bonita, quase toda branca, um pouco de azul e manchas de amarelo, e de vez em quando um pouco de vegetação verde. Nenhum objeto feito pelo homem é visível nessa escala."

Faz sentido. A Lua está a cerca de 384 mil km da Terra — mil vezes mais longe que a Estação Espacial. Dessa distância, a Terra inteira é uma bolinha. Cidades somem, continentes viram manchas. Quem quiser saber como era estar lá para fazer essa observação encontra a história completa em Quem foi o primeiro homem a pisar na Lua?.

O astronauta chinês que desmentiu, e o livro didático

A reviravolta mais interessante é política. A lenda era ensinada em livros escolares na China, e quem a abalou foi Yang Liwei, o primeiro chinês a ir ao espaço: perguntado se tinha visto a muralha, ele disse que não. A NASA registra que houve até discussão sobre reescrever os livros — o que a agência chama, com ironia, de "tarefa formidável no país mais populoso da Terra".

A linha do tempo do mito cabe em cinco datas, e todas estão no texto da NASA:

Quando O que aconteceu
Desde pelo menos 1938 Circula a ideia de que a muralha se veria da Lua
1969 Alan Bean, da Apollo 12, diz que nenhum objeto humano aparece nessa escala
24 de novembro de 2004 Leroy Chiao faz, com lente de 180 mm, a primeira foto confirmada da muralha a partir da órbita
20 de fevereiro de 2005 Segunda foto, com lente de 400 mm, que talvez também a mostre
9 de maio de 2005 A NASA publica o texto que desmonta o mito

É um bom lembrete de como um "fato" vira fato: ninguém verificou, todo mundo repetiu, e virou matéria de prova. A mesma coisa acontece com outras afirmações sobre o planeta que soam óbvias e não se sustentam — reunimos as provas simples de uma delas em Como sabemos que a Terra é redonda? As provas simples.

O jeito que funciona: radar, não olho

Existe uma forma de a muralha aparecer com clareza, e ela não envolve enxergar. A NASA registra que imagens de radar feitas do espaço mostram trechos da muralha facilmente. Um radar embarcado no ônibus espacial Endeavour registrou um trecho num deserto a cerca de 700 km a oeste de Pequim, em que a muralha aparece como uma linha atravessando a imagem.

O radar não enxerga cor: ele mede como a superfície devolve as ondas que recebe. E uma parede de pedra devolve muito diferente de areia solta, mesmo quando as duas têm exatamente a mesma cor. É por isso que o radar vê o que o olho não vê — o mesmo princípio que faz sondas mapearem a superfície de Vênus através de nuvens permanentes.

Perguntas frequentes

Afinal, existe alguma obra humana visível a olho nu do espaço?

Da órbita baixa, sim, várias: cidades, aeroportos, grandes rodovias, represas e as pirâmides de Gizé aparecem nas fotos dos astronautas. O que não existe é um "único objeto visível do espaço" — a frase do mito está errada nas duas pontas, porque a muralha quase não aparece e muitas outras coisas aparecem.

Por que a Muralha da China não aparece se é tão grande?

Porque o que importa para enxergar à distância é a largura e o contraste, não o comprimento. A muralha é estreita e foi construída com os materiais do próprio lugar, então tem quase a mesma cor e a mesma textura do terreno ao redor. Ela se confunde com o chão.

Dá para ver a Muralha da China da Lua?

Não. Da Lua, a cerca de 384 mil km, a Terra aparece como uma esfera pequena e nenhum objeto construído por pessoas é distinguível. O astronauta Alan Bean, da Apollo 12, descreveu que só se vê branco de nuvem, azul de oceano, amarelo de deserto e, de vez em quando, verde.

Então aquela foto famosa da muralha vista do espaço é falsa?

Não é falsa, é mal explicada. A foto existe, foi feita da Estação Espacial pelo comandante Leroy Chiao em novembro de 2004, mas com teleobjetiva de 180 mm, com neve no chão realçando o relevo e com o Sol em ângulo baixo. O próprio Chiao disse que não viu a muralha a olho nu e que não tinha certeza se ela estava na imagem.

Gostou? Compartilhe: WhatsAppFacebookTelegramX
  • Curiosidades

    Quantos G um astronauta aguenta no lançamento?

    Menos do que a maioria das pessoas imagina. O ônibus espacial era projetado para não passar de 3,0 G durante a subida, e as cápsulas atuais, que voltaram ao formato dos…

    ·6 min de leitura
  • Curiosidades

    O que é o espectro eletromagnético?

    O espectro eletromagnético é a lista completa de todos os tipos de luz que existem no universo, organizados do mais "esticado" ao mais "apertado". E a parte que os seus olhos…

    ·6 min de leitura
  • Curiosidades

    Por que astronautas fotografam a Terra à mão?

    Porque o olho humano escolhe, e o satélite não. Um satélite de observação cumpre um trajeto fixo, aponta para baixo na hora marcada e registra o que estiver ali, com ou sem…

    ·6 min de leitura
  • Curiosidades

    O que foi a corrida espacial? De Sputnik a Apollo 11

    A corrida espacial foi a disputa entre Estados Unidos e União Soviética para chegar primeiro a cada marco da exploração do espaço, entre o fim dos anos 1950 e meados dos anos…

    ·7 min de leitura