Marte e vida fora da Terra

Por que tantas missões falharam ao pousar em Marte?

Unidade trocada, motor desligado cedo demais, um sensor travado por um segundo. A lista das tentativas de pouso em Marte e o que deu errado em cada uma.

Publicado em 8 min de leitura
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Um escudo térmico em forma de cone alaranjado sendo baixado por cabos dentro de um disco branco, cercado por oito técnicos de macacão branco numa sala limpa
Foto: NASA/KSC
Neste artigo
  1. A lista completa das tentativas de pouso
  2. O erro de unidade que queimou um orbitador
  3. A nave que desligou o motor cedo demais
  4. Um segundo de sensor travado
  5. Os soviéticos chegaram primeiro, e por 20 segundos
  6. O que todos os casos têm em comum
  7. E o que mudou desde 2012

A frase que circula é que "metade das missões a Marte fracassa". A conta real é mais interessante do que isso: das 17 tentativas de pousar em Marte feitas em toda a história, 10 deram certo, uma entregou 20 segundos de dados e 6 falharam. E o detalhe que muda a leitura: quatro das seis falhas são soviéticas, todas nos anos 1970. Desde o Viking 1, em 1976, houve três perdas em treze tentativas — e duas delas foram a estreia de equipes que nunca tinham pousado em Marte.

Pousar em Marte não é mais um cara ou coroa. É uma habilidade que poucos times do mundo têm, e o lugar onde ela quebra é quase sempre a primeira vez. Abaixo, a lista completa e o que exatamente deu errado em cada caso.

A lista completa das tentativas de pouso

Ano Missão De quem O que aconteceu
1971 Mars 2 URSS Entrou muito inclinado e se destruiu
1971 Mars 3 URSS Pousou e transmitiu por segundos antes de se calar
1973 Mars 6 URSS Contato perdido; impacto rápido demais
1973 Mars 7 URSS O módulo errou o planeta e virou um sobrevoo
1976 Viking 1 EUA ✅ Sucesso
1976 Viking 2 EUA ✅ Sucesso
1997 Mars Pathfinder EUA ✅ Sucesso
1999 Mars Polar Lander EUA Silêncio na chegada; causa nunca confirmada
2003 Beagle 2 Europa / Reino Unido Pousou, mas nunca falou; achado em 2015
2004 Spirit EUA ✅ Sucesso
2004 Opportunity EUA ✅ Sucesso
2008 Phoenix EUA ✅ Sucesso
2012 Curiosity EUA ✅ Sucesso
2016 Schiaparelli Europa Caiu de 3,7 km de altura
2018 InSight EUA ✅ Sucesso
2021 Perseverance EUA ✅ Sucesso
2021 Zhurong China ✅ Sucesso

A lista foi montada a partir do histórico de missões a Marte do Laboratório de Propulsão a Jato e da cronologia do arquivo de dados espaciais da NASA.

Uma observação sobre números que divergem: na época do pouso da InSight, em 2018, a NASA publicou a conta de 19 tentativas de pouso com 12 sucessos. A nossa tabela tem 15 linhas até aquela data. Os dois números estão certos e contam coisas diferentes — a conta da NASA inclui, por exemplo, as duas microssondas Deep Space 2, que viajaram junto com o Mars Polar Lander e também se perderam. Sempre que um número desses aparecer, vale perguntar o que está sendo contado.

O erro de unidade que queimou um orbitador

Este não foi uma tentativa de pouso, mas é o fracasso marciano mais famoso da história e o mais didático de todos.

O Mars Climate Orbiter saiu da Terra em 11 de dezembro de 1998 e chegou a Marte em 23 de setembro de 1999. Ele devia frear e se acomodar numa órbita a 140 a 150 km de altura. Em vez disso, mergulhou até cerca de 57 km e se desfez na atmosfera: errou o alvo por 80 a 90 quilômetros.

A causa, no texto da própria NASA: um erro de navegação porque parte dos comandos da nave era enviada em unidades inglesas, sem ser convertida para o sistema métrico. Um programa em solo entregava a força dos pequenos empurrões de correção em libras-força por segundo; o programa de bordo esperava newtons por segundo. Ninguém percebeu, porque cada erro sozinho era minúsculo — eles foram se somando ao longo de nove meses de viagem até virar 90 km.

A lição não é "alguém foi desleixado". É que sistemas complicados falham nas costuras entre equipes, não no meio do trabalho de cada uma.

Um satélite retangular envolto em manta dourada dentro de uma sala limpa, com logotipos da NASA, da Lockheed Martin e do JPL na frente e técnicos de macacão branco em volta
O Mars Climate Orbiter no Centro Espacial Kennedy, em setembro de 1998. Os logotipos na frente contam parte da história: a conversão de unidades se perdeu entre o software de solo da empresa e o software de bordo. Foto: NASA/KSC

A nave que desligou o motor cedo demais

O Mars Polar Lander saiu em 3 de janeiro de 1999 e devia pousar perto do polo sul marciano em 3 de dezembro de 1999. Ele entrou na atmosfera e nunca mais deu sinal.

Aqui é preciso ser honesto, e a própria NASA é: a causa não é conhecida. Nenhum dado voltou. O que existe é o relatório de uma comissão independente, de março de 2000, com as explicações possíveis — e a hipótese principal, a que ficou na memória de todo mundo, é a seguinte.

A nave descia com três pernas dobradas. Ao abri-las, perto do chão, o tranco da abertura teria sido lido pelo sensor de contato com o solo como se o pé já tivesse tocado a superfície. O computador, seguindo a regra que lhe deram, fez exatamente o que devia fazer quando a nave pousa: desligou os motores de frenagem — só que a nave ainda estava dezenas de metros no ar.

É uma hipótese, não um fato estabelecido, e vale repetir isso porque a internet costuma contar a história como se fosse certeza. O que se sabe com certeza é o silêncio.

Um segundo de sensor travado

O caso mais bem documentado é o da Schiaparelli, módulo europeu que tentou pousar em Marte em 19 de outubro de 2016. A agência espacial europeia recuperou um volume grande de dados durante a descida e reconstruiu a sequência inteira. Ela é assustadora de tão simples:

Altura O que aconteceu Estava certo?
Topo da atmosfera Entrada e freada aerodinâmica ✅ Como previsto
12 km Paraquedas abre a 1.730 km/h ✅ Normal
~11 km A unidade inercial satura por cerca de 1 segundo ❌ A origem de tudo
7,8 km Escudo térmico é solto ✅ Planejado
— O radar de altura funciona e mede certo ✅ Normal
— O computador junta tudo e calcula altura negativa ❌ Abaixo do chão
3,7 km Solta o paraquedas, dá um sopro nos motores e "pousa" ❌ Ainda no ar
3,7 km a 0 Queda livre ❌ Fim

A unidade de medida inercial é o aparelho que mede a rotação da nave. Ela saturou — chegou ao valor máximo que consegue ler — por cerca de um segundo, mais tempo do que o esperado, e a navegação integrou esse valor travado como se fosse real. O resultado foi uma altura calculada abaixo do nível do solo, e o computador então fez exatamente o que mandava o manual para quem já pousou: soltou tudo e desligou.

Dali em diante a nave simplesmente caiu. Uma queda livre de 3,7 km em Marte, ignorando o pouco de ar que existe lá, dura cerca de 45 segundos e termina a algo perto de 600 km/h — é a nossa conta, e é um limite superior, porque a atmosfera rarefeita freia um pouco. A agência reproduziu a cadeia inteira em simulação e confirmou.

Os soviéticos chegaram primeiro, e por 20 segundos

Antes de todo mundo, a União Soviética tentou quatro vezes, entre 1971 e 1973, e só uma quase deu certo.

Em 2 de dezembro de 1971, o módulo do Mars 3 tocou a superfície e se tornou o primeiro objeto humano a pousar em Marte e sobreviver o suficiente para transmitir alguma coisa. E aí a transmissão parou.

Quanto tempo ele durou? Depende de qual página da NASA você lê: umas dizem 14,5 segundos, e a cronologia detalhada do arquivo de dados espaciais registra que a transmissão começou às 13h52min05s (horário universal), 90 segundos depois do pouso, e terminou às 13h52min25s — ou seja, 20 segundos. Os dois números aparecem em fontes da mesma agência, e a diferença é de onde se começa a contar. De um jeito ou de outro, foram segundos.

A explicação mais aceita para o silêncio é cruel e muito marciana: estava acontecendo uma tempestade de poeira global, uma das maiores já registradas, e ela pode ter provocado uma descarga elétrica que danificou o sistema de comunicação. A nave pousou. O planeta é que não deixou.

O que todos os casos têm em comum

Olhando a lista inteira, três padrões aparecem.

Nenhuma falha foi de foguete ou de escudo térmico. A entrada na atmosfera, a parte que parece mais violenta, funcionou em praticamente todos os casos — inclusive na Schiaparelli. O que quebra é sempre a decisão: quando soltar, quando desligar, a que altura estou. Os detalhes de por que essa sequência é tão apertada estão em Como uma sonda pousa em Marte? Os 7 minutos de terror.

Ninguém pode socorrer. O sinal de rádio leva mais de dez minutos só para atravessar a distância entre os dois planetas, então a nave decide tudo sozinha. Quando o controle da missão recebe a notícia de que a descida começou, ela já terminou. É a diferença que Quanto tempo leva para chegar a Marte explica em distância e que aqui vira impotência.

Não dá para testar de verdade. Não existe nenhum lugar na Terra com a gravidade de Marte e a atmosfera de Marte ao mesmo tempo. Cada peça é testada separadamente e a sequência completa só roda uma vez, valendo tudo, a 200 milhões de quilômetros de casa.

Um escudo térmico marciano embalado em plástico transparente sobre um carrinho de transporte numa sala limpa, com dois técnicos de macacão ao fundo
O escudo térmico do Mars Polar Lander embalado para transporte, em outubro de 1998. Pouco mais de um ano depois, ele entraria na atmosfera marciana e a nave nunca mais daria sinal. Foto: NASA/KSC

E o que mudou desde 2012

Desde o pouso do Curiosity, em 2012, a técnica do guindaste voador — um estágio que paira e baixa o jipe-robô em cabos — funcionou nas duas vezes em que foi usada. A China acertou na primeira tentativa, em 2021, o que nenhuma outra estreante tinha conseguido. E o Perseverance estreou uma navegação que compara o que a câmera vê com um mapa a bordo e desvia sozinho de pedras e crateras durante a descida.

A conta fica melhor a cada década, mas ela não é uma promessa. O que os robôs já encontraram depois de chegar está em Tem vida em Marte? O que os rovers já encontraram, e o próximo desafio, que é o caminho inverso, em Por que é tão difícil trazer uma pedra de Marte?.

Perguntas frequentes

Quantas missões falharam ao pousar em Marte?

Das 17 tentativas de pouso da história, 6 falharam completamente e 1 (a soviética Mars 3, de 1971) pousou mas transmitiu só por segundos. Quatro das seis falhas foram soviéticas, nos anos 1970. Desde 1976 houve três perdas em treze tentativas.

O que aconteceu com o Mars Climate Orbiter?

Ele se desfez na atmosfera de Marte em 23 de setembro de 1999 porque parte dos comandos foi enviada em unidades inglesas sem conversão para o sistema métrico. A nave devia entrar em órbita a 140–150 km de altura e mergulhou até cerca de 57 km.

Por que a Schiaparelli caiu em Marte?

Porque a unidade de medida inercial saturou por cerca de um segundo logo depois da abertura do paraquedas. O computador calculou uma altura negativa, concluiu que já havia pousado, soltou o paraquedas e desligou os motores — quando a nave ainda estava a cerca de 3,7 km do chão.

Alguém já achou o Beagle 2?

Sim. O módulo britânico pousou em 25 de dezembro de 2003 e nunca transmitiu. Em 2015, imagens de alta resolução de um orbitador da NASA mostraram que ele chegou inteiro ao chão e abriu parte dos painéis — o suficiente para pousar, mas não para liberar a antena.

Pousar em Marte ainda é muito arriscado?

Menos do que já foi, mas continua sendo a parte mais difícil de qualquer missão. Desde 2012, todos os pousos tentados deram certo, e a técnica do guindaste voador e a navegação com reconhecimento do terreno melhoraram muito as chances. Ainda assim, a sequência inteira só é testada de verdade uma vez, sem possibilidade de socorro.

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