A frase que circula é que "metade das missões a Marte fracassa". A conta real é mais interessante do que isso: das 17 tentativas de pousar em Marte feitas em toda a história, 10 deram certo, uma entregou 20 segundos de dados e 6 falharam. E o detalhe que muda a leitura: quatro das seis falhas são soviéticas, todas nos anos 1970. Desde o Viking 1, em 1976, houve três perdas em treze tentativas — e duas delas foram a estreia de equipes que nunca tinham pousado em Marte.
Pousar em Marte não é mais um cara ou coroa. É uma habilidade que poucos times do mundo têm, e o lugar onde ela quebra é quase sempre a primeira vez. Abaixo, a lista completa e o que exatamente deu errado em cada caso.
A lista completa das tentativas de pouso
| Ano | Missão | De quem | O que aconteceu |
|---|---|---|---|
| 1971 | Mars 2 | URSS | Entrou muito inclinado e se destruiu |
| 1971 | Mars 3 | URSS | Pousou e transmitiu por segundos antes de se calar |
| 1973 | Mars 6 | URSS | Contato perdido; impacto rápido demais |
| 1973 | Mars 7 | URSS | O módulo errou o planeta e virou um sobrevoo |
| 1976 | Viking 1 | EUA | ✅ Sucesso |
| 1976 | Viking 2 | EUA | ✅ Sucesso |
| 1997 | Mars Pathfinder | EUA | ✅ Sucesso |
| 1999 | Mars Polar Lander | EUA | Silêncio na chegada; causa nunca confirmada |
| 2003 | Beagle 2 | Europa / Reino Unido | Pousou, mas nunca falou; achado em 2015 |
| 2004 | Spirit | EUA | ✅ Sucesso |
| 2004 | Opportunity | EUA | ✅ Sucesso |
| 2008 | Phoenix | EUA | ✅ Sucesso |
| 2012 | Curiosity | EUA | ✅ Sucesso |
| 2016 | Schiaparelli | Europa | Caiu de 3,7 km de altura |
| 2018 | InSight | EUA | ✅ Sucesso |
| 2021 | Perseverance | EUA | ✅ Sucesso |
| 2021 | Zhurong | China | ✅ Sucesso |
A lista foi montada a partir do histórico de missões a Marte do Laboratório de Propulsão a Jato e da cronologia do arquivo de dados espaciais da NASA.
Uma observação sobre números que divergem: na época do pouso da InSight, em 2018, a NASA publicou a conta de 19 tentativas de pouso com 12 sucessos. A nossa tabela tem 15 linhas até aquela data. Os dois números estão certos e contam coisas diferentes — a conta da NASA inclui, por exemplo, as duas microssondas Deep Space 2, que viajaram junto com o Mars Polar Lander e também se perderam. Sempre que um número desses aparecer, vale perguntar o que está sendo contado.
O erro de unidade que queimou um orbitador
Este não foi uma tentativa de pouso, mas é o fracasso marciano mais famoso da história e o mais didático de todos.
O Mars Climate Orbiter saiu da Terra em 11 de dezembro de 1998 e chegou a Marte em 23 de setembro de 1999. Ele devia frear e se acomodar numa órbita a 140 a 150 km de altura. Em vez disso, mergulhou até cerca de 57 km e se desfez na atmosfera: errou o alvo por 80 a 90 quilômetros.
A causa, no texto da própria NASA: um erro de navegação porque parte dos comandos da nave era enviada em unidades inglesas, sem ser convertida para o sistema métrico. Um programa em solo entregava a força dos pequenos empurrões de correção em libras-força por segundo; o programa de bordo esperava newtons por segundo. Ninguém percebeu, porque cada erro sozinho era minúsculo — eles foram se somando ao longo de nove meses de viagem até virar 90 km.
A lição não é "alguém foi desleixado". É que sistemas complicados falham nas costuras entre equipes, não no meio do trabalho de cada uma.

A nave que desligou o motor cedo demais
O Mars Polar Lander saiu em 3 de janeiro de 1999 e devia pousar perto do polo sul marciano em 3 de dezembro de 1999. Ele entrou na atmosfera e nunca mais deu sinal.
Aqui é preciso ser honesto, e a própria NASA é: a causa não é conhecida. Nenhum dado voltou. O que existe é o relatório de uma comissão independente, de março de 2000, com as explicações possíveis — e a hipótese principal, a que ficou na memória de todo mundo, é a seguinte.
A nave descia com três pernas dobradas. Ao abri-las, perto do chão, o tranco da abertura teria sido lido pelo sensor de contato com o solo como se o pé já tivesse tocado a superfície. O computador, seguindo a regra que lhe deram, fez exatamente o que devia fazer quando a nave pousa: desligou os motores de frenagem — só que a nave ainda estava dezenas de metros no ar.
É uma hipótese, não um fato estabelecido, e vale repetir isso porque a internet costuma contar a história como se fosse certeza. O que se sabe com certeza é o silêncio.
Um segundo de sensor travado
O caso mais bem documentado é o da Schiaparelli, módulo europeu que tentou pousar em Marte em 19 de outubro de 2016. A agência espacial europeia recuperou um volume grande de dados durante a descida e reconstruiu a sequência inteira. Ela é assustadora de tão simples:
| Altura | O que aconteceu | Estava certo? |
|---|---|---|
| Topo da atmosfera | Entrada e freada aerodinâmica | ✅ Como previsto |
| 12 km | Paraquedas abre a 1.730 km/h | ✅ Normal |
| ~11 km | A unidade inercial satura por cerca de 1 segundo | ❌ A origem de tudo |
| 7,8 km | Escudo térmico é solto | ✅ Planejado |
| — | O radar de altura funciona e mede certo | ✅ Normal |
| — | O computador junta tudo e calcula altura negativa | ❌ Abaixo do chão |
| 3,7 km | Solta o paraquedas, dá um sopro nos motores e "pousa" | ❌ Ainda no ar |
| 3,7 km a 0 | Queda livre | ❌ Fim |
A unidade de medida inercial é o aparelho que mede a rotação da nave. Ela saturou — chegou ao valor máximo que consegue ler — por cerca de um segundo, mais tempo do que o esperado, e a navegação integrou esse valor travado como se fosse real. O resultado foi uma altura calculada abaixo do nível do solo, e o computador então fez exatamente o que mandava o manual para quem já pousou: soltou tudo e desligou.
Dali em diante a nave simplesmente caiu. Uma queda livre de 3,7 km em Marte, ignorando o pouco de ar que existe lá, dura cerca de 45 segundos e termina a algo perto de 600 km/h — é a nossa conta, e é um limite superior, porque a atmosfera rarefeita freia um pouco. A agência reproduziu a cadeia inteira em simulação e confirmou.
Os soviéticos chegaram primeiro, e por 20 segundos
Antes de todo mundo, a União Soviética tentou quatro vezes, entre 1971 e 1973, e só uma quase deu certo.
Em 2 de dezembro de 1971, o módulo do Mars 3 tocou a superfície e se tornou o primeiro objeto humano a pousar em Marte e sobreviver o suficiente para transmitir alguma coisa. E aí a transmissão parou.
Quanto tempo ele durou? Depende de qual página da NASA você lê: umas dizem 14,5 segundos, e a cronologia detalhada do arquivo de dados espaciais registra que a transmissão começou às 13h52min05s (horário universal), 90 segundos depois do pouso, e terminou às 13h52min25s — ou seja, 20 segundos. Os dois números aparecem em fontes da mesma agência, e a diferença é de onde se começa a contar. De um jeito ou de outro, foram segundos.
A explicação mais aceita para o silêncio é cruel e muito marciana: estava acontecendo uma tempestade de poeira global, uma das maiores já registradas, e ela pode ter provocado uma descarga elétrica que danificou o sistema de comunicação. A nave pousou. O planeta é que não deixou.
O que todos os casos têm em comum
Olhando a lista inteira, três padrões aparecem.
Nenhuma falha foi de foguete ou de escudo térmico. A entrada na atmosfera, a parte que parece mais violenta, funcionou em praticamente todos os casos — inclusive na Schiaparelli. O que quebra é sempre a decisão: quando soltar, quando desligar, a que altura estou. Os detalhes de por que essa sequência é tão apertada estão em Como uma sonda pousa em Marte? Os 7 minutos de terror.
Ninguém pode socorrer. O sinal de rádio leva mais de dez minutos só para atravessar a distância entre os dois planetas, então a nave decide tudo sozinha. Quando o controle da missão recebe a notícia de que a descida começou, ela já terminou. É a diferença que Quanto tempo leva para chegar a Marte explica em distância e que aqui vira impotência.
Não dá para testar de verdade. Não existe nenhum lugar na Terra com a gravidade de Marte e a atmosfera de Marte ao mesmo tempo. Cada peça é testada separadamente e a sequência completa só roda uma vez, valendo tudo, a 200 milhões de quilômetros de casa.

E o que mudou desde 2012
Desde o pouso do Curiosity, em 2012, a técnica do guindaste voador — um estágio que paira e baixa o jipe-robô em cabos — funcionou nas duas vezes em que foi usada. A China acertou na primeira tentativa, em 2021, o que nenhuma outra estreante tinha conseguido. E o Perseverance estreou uma navegação que compara o que a câmera vê com um mapa a bordo e desvia sozinho de pedras e crateras durante a descida.
A conta fica melhor a cada década, mas ela não é uma promessa. O que os robôs já encontraram depois de chegar está em Tem vida em Marte? O que os rovers já encontraram, e o próximo desafio, que é o caminho inverso, em Por que é tão difícil trazer uma pedra de Marte?.




