Curiosidades

Mons Mouton: a montanha da Lua que todo mundo quer

É um platô de topo chato perto do polo sul da Lua, com quase 100 km e 6.000 m de altura. Virou o endereço mais disputado da exploração lunar. Entenda.

Publicado em 7 min de leitura
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O terreno cheio de crateras perto do polo sul da Lua fotografado pela tripulação da Artemis II, com metade da imagem tomada pela escuridão do céu
Foto: NASA
Neste artigo
  1. Onde fica, e por que esse endereço
  2. O tamanho: dois Picos da Neblina empilhados
  3. Quem foi Melba Roy Mouton
  4. Como uma montanha da Lua ganha nome
  5. Por que o topo chato vale ouro
  6. O que já foi e o que deve ir
  7. Dá para ver Mons Mouton do Brasil?

Mons Mouton é uma montanha de topo chato perto do polo sul da Lua, com quase 100 quilômetros de ponta a ponta e cerca de 6.000 metros de altura, que virou o endereço mais disputado da exploração lunar. Ela já recebeu uma missão, é o destino anunciado de um jipe-robô da NASA e aparece na lista de alvos de outras entregas. O nome é de 2023 e homenageia uma matemática da NASA.

Se você nunca ouviu falar dela, há um bom motivo: a montanha fica tão perto do polo sul que, da Terra, ela só aparece de raspão, na borda do disco da Lua. É uma região que ninguém olhava — até o gelo virar o assunto.

Onde fica, e por que esse endereço

Mons Mouton está a pouco mais de 5 graus do polo sul lunar, encostada na borda oeste da cratera Nobile. Aqui vale um aviso de honestidade: as páginas da própria NASA divergem um pouco. Um comunicado diz "pouco além de 5 graus do polo sul"; o material de imprensa de uma das missões fala em "dentro de 6 graus". É pouca diferença, mas é diferença, e quem for à fonte vai achar os dois números.

O que não varia é a importância do lugar. O polo sul da Lua é a região onde ficam as crateras permanentemente na sombra — buracos tão fundos e tão inclinados em relação ao Sol que o fundo deles nunca recebe luz, há bilhões de anos. Dentro deles, a temperatura despenca, e é ali que se espera encontrar gelo de água, assunto de Tem água na Lua? Onde está o gelo e quanto tem.

Mons Mouton é o oposto disso: é o terreno alto ao lado dos buracos escuros. E essa vizinhança é justamente o que a torna valiosa.

O tamanho: dois Picos da Neblina empilhados

Os números vêm do altímetro a laser da sonda LRO, que mapeou o relevo da Lua inteira medindo o tempo que um pulso de luz leva para ir e voltar.

Medida Valor
Largura do platô quase 100 km
Altura acima do terreno em volta cerca de 6.000 m
Distância até o polo sul pouco mais de 5 graus
Formato do topo plano, de mesa
Nome anterior (informal) Leibnitz Beta
Nome oficializado em fevereiro de 2023

Para dar escala aos dois primeiros números:

Quase 100 km de largura. Se essa montanha estivesse no Brasil e houvesse uma estrada reta cruzando o topo dela, você levaria mais de uma hora de carro, a 80 por hora, para ir de uma ponta à outra. Não é um pico: é um planalto.

Cerca de 6.000 metros de altura. O ponto mais alto do Brasil é o Pico da Neblina, com 2.995 metros. Mons Mouton tem, portanto, a altura de dois Picos da Neblina, um em cima do outro. E é tudo isso acima do terreno que a cerca, não acima de um "nível do mar" lunar — que, aliás, não existe.

O formato também importa. Não é um cone com pico, como o Monte Fuji. É uma mesa: paredes íngremes e um topo achatado, parecido com os morros de topo plano da Chapada Diamantina. Essa planura não é enfeite, como se vê daqui a pouco.

Quem foi Melba Roy Mouton

O nome não homenageia um astronauta nem um astrônomo. Homenageia uma matemática e programadora da NASA.

Melba Roy Mouton entrou no Centro de Voo Espacial Goddard, em Maryland, em 1959 — um ano depois de a própria NASA ser criada. Ela chefiou um grupo de "computadores humanos": pessoas, quase sempre mulheres, que faziam à mão as contas que hoje um programa faz em segundos. A tarefa desse grupo era rastrear os satélites Echo 1 e Echo 2, lançados em 1960 e 1964, calculando onde eles estariam no céu a cada momento.

Em 1961, ela passou a chefiar a programação de uma divisão que escrevia os programas usados para calcular posição e trajetória de naves — ou seja, exatamente o trabalho que ela antes fazia no papel, agora transformado em código. Depois, chegou a chefe adjunta de programas de pesquisa da Divisão de Trajetória e Geodinâmica do Goddard.

Pelo trabalho que desembocou na chegada da Apollo 11 à Lua, em 20 de julho de 1969, recebeu o Prêmio de Realização Apollo. Ela se aposentou em 1973, depois de 14 anos de NASA.

Há uma simetria bonita aí: a mulher que calculava onde as naves iam estar acabou virando um dos lugares aonde elas vão.

Como uma montanha da Lua ganha nome

Quem batiza acidentes geográficos em outros mundos é a União Astronômica Internacional, a entidade que também decidiu a classificação de Plutão, contada em Por que Plutão não é mais um planeta? A história completa.

Antes de 2023, aquela elevação era conhecida informalmente como "Leibnitz Beta" — um apelido técnico, derivado do nome de uma cratera vizinha, do tipo que serve para catalogar e não para contar história. Foi a equipe da missão VIPER, da NASA, que propôs o nome novo à União Astronômica Internacional, e ele foi oficializado em fevereiro de 2023.

A palavra "Mons" é "monte" em latim: é o termo padrão que a União Astronômica usa para montanhas em corpos do Sistema Solar. O sobrenome vem depois. Daí Mons Mouton — literalmente, "Monte Mouton".

Por que o topo chato vale ouro

Agora o detalhe de engenharia que explica a disputa. Pousar na Lua já é difícil; pousar no polo sul é pior, porque o terreno é acidentado, cheio de crateras e paredões, e o Sol fica sempre baixo no horizonte, deitando sombras enormes que confundem qualquer sensor.

Mons Mouton resolve três problemas de uma vez:

  1. É plano. Para pousar, a nave precisa de uma inclinação pequena. O topo de mesa é uma das poucas áreas razoavelmente planas da região polar.
  2. É alto e iluminado. Por estar acima do terreno em volta, o topo pega luz do Sol por períodos muito longos, enquanto as crateras ao lado permanecem na sombra. Luz significa energia solar, e energia é o que falta numa noite lunar de duas semanas — problema explicado em Por que uma bateria comum não funciona na Lua?.
  3. Fica a um passo do gelo. As crateras eternamente escuras, onde se procura água, estão logo ali embaixo.

É a combinação rara de pista de pouso, tomada elétrica e poço de água no mesmo endereço.

O que já foi e o que deve ir

A primeira tentativa foi a missão IM-2, da empresa Intuitive Machines, dentro do programa em que a NASA compra entregas de empresas privadas — modelo explicado em Por que a NASA paga empresas para pousar na Lua. O módulo Athena pousou em 6 de março de 2025, a cerca de 400 metros do ponto pretendido em Mons Mouton.

Rastro luminoso e curvo de um foguete subindo à noite sobre a água escura, visto de longe, com a costa e o céu em preto
O lançamento da missão IM-2 às 19h16 de 26 de fevereiro de 2025, no Centro Espacial Kennedy, na Flórida. A longa exposição transforma a subida do foguete num risco de luz. A bordo ia o módulo Athena, com destino a Mons Mouton. Foto: NASA/Kim Shiflett

E aí veio o problema: a nave ficou deitada de lado, dentro de uma cratera. Nessa posição, os painéis solares não conseguiam recarregar as baterias, e a missão terminou antes do previsto. Ainda assim, não foi perda total: a NASA recebeu cerca de 6,6 gigabytes de dados, a broca TRIDENT demonstrou sua amplitude completa de movimento no ambiente lunar e o detector de gases fez varreduras — embora os pesquisadores acreditem, pelos dados iniciais, que os gases detectados eram de origem humana, trazidos pela própria nave.

O próximo da fila é o VIPER, o jipe-robô que vai cavar atrás de gelo e cuja página de missão aponta Mons Mouton como destino, com previsão para 2027. A história dele, com as idas e vindas do cronograma, está em O que é o VIPER, o jipe-robô que vai cavar gelo na Lua.

Dá para ver Mons Mouton do Brasil?

Com telescópio amador, às vezes sim — mas não como uma montanha.

A NASA registra que, quando a iluminação e a libração ajudam, Mons Mouton aparece como uma saliência em forma de grampo no contorno do polo sul da Lua. Libração é o balanço lento da Lua: ela não mostra exatamente a mesma face o tempo todo, e sim oscila alguns graus, revelando de vez em quando um pouquinho das bordas.

Então o que se vê não é o relevo da montanha, e sim o perfil dela recortado contra o céu, quando a borda da Lua está virada a nosso favor e o Sol bate de lado. É o mesmo princípio de enxergar o contorno de um morro ao entardecer: você não vê o morro, vê a silhueta.

Perguntas frequentes

Qual é a maior montanha da Lua?

Mons Mouton não é a maior. Ela chama atenção por outro motivo: pela combinação de altura, topo plano e posição junto ao polo sul, o que a torna um bom lugar para pousar e trabalhar. É endereço estratégico, não recorde de altitude.

Por que o polo sul da Lua virou o alvo de todo mundo?

Porque é lá que estão as crateras permanentemente na sombra, onde se espera encontrar gelo de água. Água na Lua significa água para beber, oxigênio para respirar e, em tese, combustível — o que mudaria a conta de qualquer missão longa, como descreve A NASA vai construir uma base na Lua? O plano em 3 fases.

Já pousou alguma nave em Mons Mouton?

Sim. O módulo Athena, da missão IM-2, pousou a cerca de 400 metros do alvo em 6 de março de 2025, mas acabou deitado de lado dentro de uma cratera e não conseguiu recarregar as baterias. A missão terminou antes do planejado, embora tenha entregue alguns dados.

Quem decide o nome de uma montanha na Lua?

A União Astronômica Internacional. No caso de Mons Mouton, a proposta partiu da equipe da missão VIPER, da NASA, e o nome foi oficializado em fevereiro de 2023, substituindo a designação informal "Leibnitz Beta".

Quem foi Melba Roy Mouton?

Uma matemática e programadora que trabalhou no Centro Goddard da NASA de 1959 a 1973. Chefiou o grupo de "computadores humanos" que rastreava os satélites Echo 1 e Echo 2 e, depois, a equipe que escrevia os programas de cálculo de trajetória. Recebeu o Prêmio de Realização Apollo pelo trabalho que levou à chegada da Apollo 11 à Lua.

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