Mons Mouton é uma montanha de topo chato perto do polo sul da Lua, com quase 100 quilômetros de ponta a ponta e cerca de 6.000 metros de altura, que virou o endereço mais disputado da exploração lunar. Ela já recebeu uma missão, é o destino anunciado de um jipe-robô da NASA e aparece na lista de alvos de outras entregas. O nome é de 2023 e homenageia uma matemática da NASA.
Se você nunca ouviu falar dela, há um bom motivo: a montanha fica tão perto do polo sul que, da Terra, ela só aparece de raspão, na borda do disco da Lua. É uma região que ninguém olhava — até o gelo virar o assunto.
Onde fica, e por que esse endereço
Mons Mouton está a pouco mais de 5 graus do polo sul lunar, encostada na borda oeste da cratera Nobile. Aqui vale um aviso de honestidade: as páginas da própria NASA divergem um pouco. Um comunicado diz "pouco além de 5 graus do polo sul"; o material de imprensa de uma das missões fala em "dentro de 6 graus". É pouca diferença, mas é diferença, e quem for à fonte vai achar os dois números.
O que não varia é a importância do lugar. O polo sul da Lua é a região onde ficam as crateras permanentemente na sombra — buracos tão fundos e tão inclinados em relação ao Sol que o fundo deles nunca recebe luz, há bilhões de anos. Dentro deles, a temperatura despenca, e é ali que se espera encontrar gelo de água, assunto de Tem água na Lua? Onde está o gelo e quanto tem.
Mons Mouton é o oposto disso: é o terreno alto ao lado dos buracos escuros. E essa vizinhança é justamente o que a torna valiosa.
O tamanho: dois Picos da Neblina empilhados
Os números vêm do altímetro a laser da sonda LRO, que mapeou o relevo da Lua inteira medindo o tempo que um pulso de luz leva para ir e voltar.
| Medida | Valor |
|---|---|
| Largura do platô | quase 100 km |
| Altura acima do terreno em volta | cerca de 6.000 m |
| Distância até o polo sul | pouco mais de 5 graus |
| Formato do topo | plano, de mesa |
| Nome anterior (informal) | Leibnitz Beta |
| Nome oficializado em | fevereiro de 2023 |
Para dar escala aos dois primeiros números:
Quase 100 km de largura. Se essa montanha estivesse no Brasil e houvesse uma estrada reta cruzando o topo dela, você levaria mais de uma hora de carro, a 80 por hora, para ir de uma ponta à outra. Não é um pico: é um planalto.
Cerca de 6.000 metros de altura. O ponto mais alto do Brasil é o Pico da Neblina, com 2.995 metros. Mons Mouton tem, portanto, a altura de dois Picos da Neblina, um em cima do outro. E é tudo isso acima do terreno que a cerca, não acima de um "nível do mar" lunar — que, aliás, não existe.
O formato também importa. Não é um cone com pico, como o Monte Fuji. É uma mesa: paredes íngremes e um topo achatado, parecido com os morros de topo plano da Chapada Diamantina. Essa planura não é enfeite, como se vê daqui a pouco.
Quem foi Melba Roy Mouton
O nome não homenageia um astronauta nem um astrônomo. Homenageia uma matemática e programadora da NASA.
Melba Roy Mouton entrou no Centro de Voo Espacial Goddard, em Maryland, em 1959 — um ano depois de a própria NASA ser criada. Ela chefiou um grupo de "computadores humanos": pessoas, quase sempre mulheres, que faziam à mão as contas que hoje um programa faz em segundos. A tarefa desse grupo era rastrear os satélites Echo 1 e Echo 2, lançados em 1960 e 1964, calculando onde eles estariam no céu a cada momento.
Em 1961, ela passou a chefiar a programação de uma divisão que escrevia os programas usados para calcular posição e trajetória de naves — ou seja, exatamente o trabalho que ela antes fazia no papel, agora transformado em código. Depois, chegou a chefe adjunta de programas de pesquisa da Divisão de Trajetória e Geodinâmica do Goddard.
Pelo trabalho que desembocou na chegada da Apollo 11 à Lua, em 20 de julho de 1969, recebeu o Prêmio de Realização Apollo. Ela se aposentou em 1973, depois de 14 anos de NASA.
Há uma simetria bonita aí: a mulher que calculava onde as naves iam estar acabou virando um dos lugares aonde elas vão.
Como uma montanha da Lua ganha nome
Quem batiza acidentes geográficos em outros mundos é a União Astronômica Internacional, a entidade que também decidiu a classificação de Plutão, contada em Por que Plutão não é mais um planeta? A história completa.
Antes de 2023, aquela elevação era conhecida informalmente como "Leibnitz Beta" — um apelido técnico, derivado do nome de uma cratera vizinha, do tipo que serve para catalogar e não para contar história. Foi a equipe da missão VIPER, da NASA, que propôs o nome novo à União Astronômica Internacional, e ele foi oficializado em fevereiro de 2023.
A palavra "Mons" é "monte" em latim: é o termo padrão que a União Astronômica usa para montanhas em corpos do Sistema Solar. O sobrenome vem depois. Daí Mons Mouton — literalmente, "Monte Mouton".
Por que o topo chato vale ouro
Agora o detalhe de engenharia que explica a disputa. Pousar na Lua já é difícil; pousar no polo sul é pior, porque o terreno é acidentado, cheio de crateras e paredões, e o Sol fica sempre baixo no horizonte, deitando sombras enormes que confundem qualquer sensor.
Mons Mouton resolve três problemas de uma vez:
- É plano. Para pousar, a nave precisa de uma inclinação pequena. O topo de mesa é uma das poucas áreas razoavelmente planas da região polar.
- É alto e iluminado. Por estar acima do terreno em volta, o topo pega luz do Sol por períodos muito longos, enquanto as crateras ao lado permanecem na sombra. Luz significa energia solar, e energia é o que falta numa noite lunar de duas semanas — problema explicado em Por que uma bateria comum não funciona na Lua?.
- Fica a um passo do gelo. As crateras eternamente escuras, onde se procura água, estão logo ali embaixo.
É a combinação rara de pista de pouso, tomada elétrica e poço de água no mesmo endereço.
O que já foi e o que deve ir
A primeira tentativa foi a missão IM-2, da empresa Intuitive Machines, dentro do programa em que a NASA compra entregas de empresas privadas — modelo explicado em Por que a NASA paga empresas para pousar na Lua. O módulo Athena pousou em 6 de março de 2025, a cerca de 400 metros do ponto pretendido em Mons Mouton.

E aí veio o problema: a nave ficou deitada de lado, dentro de uma cratera. Nessa posição, os painéis solares não conseguiam recarregar as baterias, e a missão terminou antes do previsto. Ainda assim, não foi perda total: a NASA recebeu cerca de 6,6 gigabytes de dados, a broca TRIDENT demonstrou sua amplitude completa de movimento no ambiente lunar e o detector de gases fez varreduras — embora os pesquisadores acreditem, pelos dados iniciais, que os gases detectados eram de origem humana, trazidos pela própria nave.
O próximo da fila é o VIPER, o jipe-robô que vai cavar atrás de gelo e cuja página de missão aponta Mons Mouton como destino, com previsão para 2027. A história dele, com as idas e vindas do cronograma, está em O que é o VIPER, o jipe-robô que vai cavar gelo na Lua.
Dá para ver Mons Mouton do Brasil?
Com telescópio amador, às vezes sim — mas não como uma montanha.
A NASA registra que, quando a iluminação e a libração ajudam, Mons Mouton aparece como uma saliência em forma de grampo no contorno do polo sul da Lua. Libração é o balanço lento da Lua: ela não mostra exatamente a mesma face o tempo todo, e sim oscila alguns graus, revelando de vez em quando um pouquinho das bordas.
Então o que se vê não é o relevo da montanha, e sim o perfil dela recortado contra o céu, quando a borda da Lua está virada a nosso favor e o Sol bate de lado. É o mesmo princípio de enxergar o contorno de um morro ao entardecer: você não vê o morro, vê a silhueta.




