Uma erupção solar classe X é uma erupção do degrau mais forte da escala que os cientistas usam para medir esses clarões. A escala tem cinco letras — A, B, C, M e X — e cada letra vale dez vezes a energia da anterior, exatamente como funciona a escala Richter dos terremotos. Ou seja: uma erupção X é dez vezes mais forte que uma M e cem vezes mais forte que uma C. E o X tem uma particularidade que as outras letras não têm: ele não tem teto. A erupção mais forte já medida, em 2003, foi registrada como X28 — e esse número é incerto porque os sensores que a mediam foram saturados antes de ela terminar.
Primeiro: o que é uma erupção solar
Segundo a NASA, uma erupção solar é uma explosão intensa de radiação, ou luz, no Sol. Esses clarões cobrem o espectro eletromagnético inteiro: raios X, raios gama, ondas de rádio, ultravioleta e luz visível.
Elas não são pequenas. A NASA as chama de as explosões mais poderosas do Sistema Solar, e diz que as maiores podem liberar tanta energia quanto um bilhão de bombas de hidrogênio.
Um detalhe que confunde muita gente: erupção não é a mesma coisa que ejeção de massa coronal. A erupção é o clarão de luz. A ejeção de massa coronal é uma nuvem gigantesca de material do Sol, disparada a mais de um milhão e meio de quilômetros por hora, que frequentemente acompanha uma erupção mas é outra coisa. A primeira chega em minutos; a segunda leva de um a três dias.
As cinco letras, da mais fraca à mais forte
A classificação é feita pela intensidade, isto é, pela quantidade de energia liberada, medida em raios X por satélites que vigiam o Sol o tempo todo.
| Classe | O que significa |
|---|---|
| A | As mais fracas; mal se distinguem da radiação de fundo do próprio Sol |
| B | Dez vezes a classe A |
| C | Dez vezes a B. Fracas demais para afetar a Terra de forma perceptível |
| M | Dez vezes a C. Podem causar apagões de rádio curtos nos polos e tempestades de radiação leves, capazes de pôr astronautas em risco |
| X | Dez vezes a M e cem vezes a C. As mais fortes, e sem limite superior |
A comparação com a escala Richter, que a própria NASA usa, é o melhor atalho para o leitor brasileiro: assim como um terremoto de magnitude 6 não é "um pouquinho pior" que um de magnitude 5, uma erupção M não é um pouquinho pior que uma C. É dez vezes.
Para dar o tamanho disso em dinheiro: se uma erupção classe A valesse R$ 1, uma B valeria R$ 10, uma C R$ 100, uma M R$ 1.000 e uma X R$ 10 mil.
O número que vem depois da letra
Dentro de cada letra existe uma escala fina, de 1 a 9, em que 9 é a mais forte. Então uma M5 é mais forte que uma M2, e uma C9 é quase uma M1.
O número é um multiplicador: uma X2 é duas vezes mais forte que uma X1. Em outubro de 2024, por exemplo, o Sol produziu uma X9.0 — nove vezes o piso da classe X. Quando o noticiário fala em "erupção classe X9", é esse o significado.

Por que o X não tem teto
As classes A até M são divididas de 1 a 9 e param aí: depois de M9 vem X1. Mas, como o X é a última letra do alfabeto da escala, não há para onde subir. A solução foi deixar o número correr: existem erupções mais de dez vezes mais fortes que uma X1, e elas são chamadas de X10, X20 e assim por diante.
Isso leva ao recorde, que é uma história interessante em si. A erupção mais forte já medida com métodos modernos aconteceu em 2003, durante um máximo solar, e foi tão forte que sobrecarregou os sensores que a mediam. O registro ficou em X28, que é o valor em que os detectores pararam de responder — não necessariamente o valor real do evento. Em 4 de novembro de 2003, essa erupção saturou os detectores de raios X de várias espaçonaves dedicadas a observar o Sol.
É um caso raro e honesto de ciência: o instrumento encontrou algo maior do que ele foi feito para medir, e o número publicado carrega essa ressalva.
Oito minutos — e o aviso chega junto com o problema
Aqui está o detalhe mais importante para entender o risco real. A energia de uma erupção viaja na velocidade da luz, o que significa que ela chega à Terra cerca de 8 minutos depois de acontecer.
A NASA resume a consequência numa frase que vale reler: "quando vemos uma erupção, a maior parte dos efeitos dela já está aqui". Não existe alerta prévio para o clarão em si — ver e ser atingido são o mesmo instante, com 8 minutos de atraso para os dois.
Com as partículas carregadas é um pouco diferente. O Sol acelera elétrons e prótons a velocidades altíssimas, e as mais rápidas cruzam os cerca de 150 milhões de quilômetros entre o Sol e a Terra em 30 minutos ou menos, iniciando o que se chama de tempestade de radiação. Para comparar com outras distâncias do Sistema Solar, vale ver Quanto tempo o sinal leva da Terra até cada planeta?.
O que uma classe X faz com você, na prática
A resposta vai decepcionar quem espera o pior, e isso é bom. Segundo a NASA, a radiação nociva de uma erupção não afeta fisicamente quem está no chão, porque estamos protegidos pela atmosfera e pelo campo magnético da Terra.
O que as erupções fortes fazem de verdade:
- Atrapalham comunicações de rádio que passam pela parte alta da atmosfera. É por isso que apagões de rádio afetam aviação em rotas polares e radioamadores antes de afetar qualquer outra coisa.
- Afetam satélites e espaçonaves, que estão fora da proteção do planeta. Erupções classe X em 5 e 6 de dezembro de 2006, por exemplo, dispararam uma ejeção de massa coronal que interferiu nos sinais de GPS recebidos no solo — o funcionamento do sistema está em Como o GPS sabe onde você está (satélites explicados).
- Põem astronautas em risco, que não têm a atmosfera inteira acima deles. Quanto eles recebem, e o que se faz a respeito, está em Quanta radiação um astronauta recebe de verdade?.
Para o Brasil há um detalhe próprio: a região sobre o nosso território onde o escudo magnético é mais fraco, explicada em O que é a Anomalia Magnética do Atlântico Sul?, faz com que satélites que passam por aqui sintam mais esses efeitos.
Não confunda a letra com a escala G
Este é o erro mais comum na hora de ler uma notícia sobre o Sol, e ele vem de existirem duas escalas diferentes para coisas diferentes:
- A escala de letras (A a X) mede a erupção, ou seja, o clarão de raios X que sai do Sol. É medida em satélites, minutos depois do evento.
- A escala G (G1 a G5) mede a tempestade geomagnética, ou seja, o efeito da ejeção de massa coronal quando ela bate no campo magnético da Terra, dias depois.
Uma erupção classe X pode não gerar tempestade nenhuma, se a ejeção não vier na nossa direção. E uma tempestade G5 pode vir de erupções que não foram as mais fortes do ano. O que uma tempestade forte faria com a infraestrutura está em Tempestade solar pode derrubar a internet e a energia?, e o lado bonito do fenômeno, em Aurora boreal: o que é, por que acontece e se aparece no Brasil.
A frequência das erupções acompanha o vaivém de onze anos do Sol, descrito em O que é o ciclo solar de 11 anos?: perto do máximo, erupções classe X deixam de ser notícia rara.




