Perguntas que todo mundo faz

Por que a Estação Espacial não fica sem ar?

O oxigênio não vem em tanque: vem da água, quebrada por eletricidade. E o CO₂ que a tripulação solta vira água de novo. Como funciona o ar lá em cima.

Publicado em 7 min de leitura
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Astronauta Nichole Ayers flutuando dentro da Estação Espacial com os cabelos soltos, segurando uma peça do sistema de suporte de vida durante a manutenção
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. Quanto ar uma pessoa gasta por dia
  2. De onde vem o oxigênio: eletricidade quebrando água
  3. O gás carbônico é o problema mais urgente
  4. O truque que fecha o ciclo: CO₂ de volta para água
  5. Por que a conta ainda não fecha
  6. Três sistemas diferentes para a mesma coisa

Porque o oxigênio da Estação Espacial não vem em cilindro: ele é fabricado lá dentro, a partir de água, com eletricidade. Uma máquina passa corrente elétrica pela água e quebra a molécula em dois gases — oxigênio, que vai para o ar da cabine, e hidrogênio, que é reaproveitado. O processo se chama eletrólise, e é a mesma coisa que acontece naquela experiência de feira de ciências em que dois fios numa bacia d'água fazem bolhinhas.

Isso resolve metade do problema. A outra metade é o gás carbônico (CO₂) que sete pessoas sopram o dia inteiro num tubo fechado, e que, se ninguém tirar, vai subindo até ficar tóxico. A estação captura esse gás e — eis a parte engenhosa — consegue transformar boa parte dele de volta em água, que volta para a eletrólise.

É um ciclo que quase se fecha. "Quase" é a palavra-chave desta reportagem, e é ela que decide se um dia dá para ir a Marte.

Quanto ar uma pessoa gasta por dia

Antes da engenharia, a conta. Michael K. Ewert, do Centro Espacial Johnson da NASA, e Chel Stromgren, da empresa Binera, publicaram em 2019 o balanço de massa de um astronauta — quanto ele consome e quanto produz num dia de trabalho normal em órbita:

Item Por pessoa, por dia
Oxigênio consumido 0,89 kg
Gás carbônico produzido 1,08 kg
Vapor de água (suor e respiração) 2,53 kg
Água líquida eliminada 0,51 kg

Note que o astronauta devolve mais massa de gás do que recebe: ele respira 0,89 kg de oxigênio e solta 1,08 kg de gás carbônico. A diferença não é mágica — é o carbono da comida, que entra pela boca e sai pelo pulmão.

Com sete pessoas a bordo, a estação precisa de 6,2 kg de oxigênio por dia e tem de se livrar de 7,6 kg de gás carbônico. Em um ano, isso dá 2,3 toneladas de oxigênio e quase 2,8 toneladas de gás carbônico. Para ter ideia do que significa mandar isso de foguete: 6,2 kg de oxigênio por dia esvaziariam um botijão de cozinha de 13 kg a cada dois dias. Levar tudo isso de foguete, para sempre, é uma logística que nenhum programa quer pagar, assunto detalhado em Como a comida e a água chegam à Estação Espacial?.

De onde vem o oxigênio: eletricidade quebrando água

O sistema americano se chama Oxygen Generation Assembly (algo como "conjunto gerador de oxigênio"). Ele usa uma pilha de células com uma membrana de polímero no meio: a água entra, a eletricidade dos painéis solares atravessa, e saem dois gases separados. O oxigênio vai para o ar da cabine; o hidrogênio segue para outro equipamento, que aparece daqui a duas seções.

A conta de quanta água isso consome é simples e dá um número bonito. Cada molécula de água tem dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio, então, pela massa das moléculas, 1 kg de água rende 0,89 kg de oxigênio — exatamente o que uma pessoa respira por dia (conta nossa, pelas massas moleculares). Em outras palavras:

Um litro de água por pessoa por dia é o que a estação gasta para manter todo mundo respirando.

Sete pessoas, sete litros — três garrafões e meio daqueles de 2 litros, por dia. Esse é o custo real do ar lá em cima.

Astronauta Carl Walz flutuando de camiseta e bermuda ao lado do gerador de oxigênio Elektron, um cilindro metálico cinza do tamanho de uma pessoa, preso à parede do módulo russo
O Elektron, o gerador de oxigênio do lado russo da estação, fotografado em 2002. Ele faz o mesmo que o sistema americano: quebra água com eletricidade. Hoje são três unidades como essa a bordo. Foto: NASA/JSC

O gás carbônico é o problema mais urgente

Se o gerador de oxigênio parar, a estação tem reservas e tempo para consertar. Se a remoção de gás carbônico parar, o relógio corre bem mais rápido — porque o CO₂ se acumula sozinho, sem ninguém fazer nada.

O equipamento que resolve isso tem um nome comprido e um princípio simples: ele usa uma peneira molecular de zeólita, que é um mineral cheio de poros microscópicos de tamanho muito preciso. Os poros prendem preferencialmente as moléculas de gás carbônico e deixam passar o resto do ar. Funciona como um coador de café que, em vez de separar por tamanho de pó, separa por tipo de molécula.

Quando a peneira enche, o sistema a aquece e a coloca em vácuo: o gás carbônico se solta, e o material volta a funcionar. É por isso que são várias peneiras — umas prendendo enquanto outras se limpam, em revezamento contínuo.

Esse gás carbônico capturado poderia simplesmente ser jogado para fora, e boa parte dele ainda é. A seção seguinte explica por que vale muito a pena não fazer isso.

Astronauta japonês Aki Hoshide atrás do equipamento de remoção de gás carbônico, puxado para fora do rack, com dutos laranja e roxo aparecendo
Aki Hoshide troca válvulas do sistema que retira o gás carbônico do ar da estação, em 2012. Esse é o equipamento cuja parada é mais urgente de todas: o CO₂ sobe sozinho. Foto: NASA/JSC

O truque que fecha o ciclo: CO₂ de volta para água

Lembra do hidrogênio que sobrou da eletrólise? Ele vai para um reator que faz a chamada reação de Sabatier, batizada com o nome do químico francês que a descreveu.

Dentro desse reator, aquecido a cerca de 225 °C e com um catalisador de níquel (um material que acelera a reação sem ser consumido), o gás carbônico capturado pelas peneiras encontra o hidrogênio da eletrólise. Saem duas coisas: água, que volta para o gerador de oxigênio, e metano, que é o gás de cozinha, e que é jogado para fora.

É um ciclo quase fechado: a água vira oxigênio, o oxigênio vira gás carbônico dentro das pessoas, e o gás carbônico vira água de novo.

Por que a conta ainda não fecha

Aqui entra o número mais importante da reportagem. Segundo o relatório anual de suporte de vida da NASA apresentado em 2023, o reator Sabatier da estação, quando estava funcionando, recuperava cerca de 47% do oxigênio do gás carbônico. Menos da metade.

A razão é química e não tem conserto fácil: falta hidrogênio. Para desmontar uma molécula de gás carbônico, o reator precisa de quatro moléculas de hidrogênio — e a eletrólise, para cada molécula de oxigênio que fabrica, só devolve duas. Dá para metade. Pior: os quatro átomos de hidrogênio que entram saem presos no metano e são jogados fora com ele, sem voltar para o ciclo. O gás carbônico que fica sem hidrogênio para reagir é despejado no espaço, levando junto o oxigênio preso nele.

Para uma viagem a Marte, a NASA estabeleceu a meta de recuperar mais de 75%, e há três caminhos em desenvolvimento, nenhum deles pronto:

Tecnologia O que faz Recuperação
Sabatier atual Reage CO₂ com hidrogênio, descarta metano ~47% (medido na ISS)
Pirólise de metano Quebra o metano para recuperar o hidrogênio Até 86%, em teoria
Sistema Bosch Substitui o Sabatier; separa carbono sólido 100%, em teoria
Meta para ir a Marte — Mais de 75%

O sistema Bosch tem a melhor nota no papel e um problema prático sério: ele produz carbono sólido, fuligem, e ninguém ainda resolveu como lidar com pó solto em gravidade zero, onde pó não desce — ele fica flutuando e entra em tudo, como se vê em Como astronautas tomam banho e vão ao banheiro.

Vale registrar que, na água, a conta já fecha muito melhor: em junho de 2023 a NASA anunciou ter atingido 98% de recuperação de água a bordo. Christopher Brown, da equipe de suporte de vida em Houston, explicou assim: "digamos que você embarque com 45 quilos de água. Você perde menos de um quilo, e os outros 98% continuam girando."

Três sistemas diferentes para a mesma coisa

Suporte de vida não admite peça única. A estação tem hoje três maneiras independentes de produzir oxigênio:

  1. Os três Elektron, no lado russo, que fazem eletrólise de água recuperada a bordo.
  2. O gerador americano, no lado americano, que faz eletrólise também, mas com projeto diferente.
  3. As velas de oxigênio, cilindros de perclorato de lítio que liberam oxigênio ao queimar. Cada cilindro rende um dia de oxigênio para uma pessoa, e eles ficam guardados para quando a tripulação é grande ou algo falha.

O termo técnico para isso é redundância dissimilar: não basta ter dois equipamentos iguais, porque uma falha de projeto derrubaria os dois juntos. É preciso que funcionem por princípios diferentes. É a mesma lógica de ter, em casa, vela e lanterna — não duas lanternas da mesma marca.

E a terceira opção tem história. Em 24 de fevereiro de 1997, na estação russa Mir, uma dessas velas de oxigênio pegou fogo de verdade, com chama de quase um metro e fumaça densa em toda a estação. Esse episódio e o que ele ensinou estão contados em Como o fogo queima no espaço?.

Perguntas frequentes

De onde vem o oxigênio da Estação Espacial?

Da água. Equipamentos chamados geradores de oxigênio passam eletricidade pela água e separam a molécula em oxigênio e hidrogênio, num processo chamado eletrólise. O oxigênio vai para o ar da cabine. A energia vem dos painéis solares. Pelas massas moleculares, cada litro de água rende cerca de 0,89 kg de oxigênio — o que uma pessoa respira em um dia.

Quanto oxigênio um astronauta consome por dia?

Cerca de 0,89 kg por pessoa por dia, segundo o balanço de massa publicado por engenheiros do Centro Espacial Johnson em 2019. A mesma pessoa produz 1,08 kg de gás carbônico. Com sete pessoas a bordo, são 6,2 kg de oxigênio consumidos e 7,6 kg de gás carbônico a remover, por dia.

O que acontece com o gás carbônico que os astronautas soltam?

Ele é capturado por peneiras de zeólita, um mineral com poros que prendem moléculas de CO₂. Depois, parte dele vai para um reator que o combina com hidrogênio a cerca de 225 °C, produzindo água — que volta para fazer oxigênio — e metano, que é descartado. O sistema recuperava cerca de 47% do oxigênio quando estava em operação.

A Estação Espacial pode ficar sem ar?

Na prática, não por falta de produção: existem três sistemas independentes de gerar oxigênio a bordo, mais velas químicas de reserva. O risco real não é acabar o oxigênio, e sim acumular gás carbônico se a remoção falhar, ou perder pressão por um furo. Por isso a remoção de CO₂ é tratada como mais urgente que a geração de oxigênio.

Por que não levam simplesmente tanques de oxigênio?

Por causa do peso. Sete pessoas consomem 2,3 toneladas de oxigênio por ano, o equivalente a esvaziar um botijão de cozinha de 13 kg a cada dois dias. Lançar isso de foguete custaria mais que toda a carga útil disponível. Reciclar a bordo é a única forma viável — e, numa viagem a Marte, sem reabastecimento, deixa de ser opção e vira requisito.

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