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Quanto tempo um foguete leva para chegar ao espaço?

Entre oito e nove minutos. Veja a subida marcada pelo relógio da NASA, do ônibus espacial ao foguete da Lua, e por que o difícil não é subir.

Publicado em 8 min de leitura
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Ônibus espacial Columbia decolando da plataforma com o tanque externo alaranjado, chama branca e nuvem de fumaça, contra céu azul e gramado verde
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. A resposta curta, e por que ela é sempre a mesma
  2. O difícil não é a altura, é a velocidade
  3. A subida do ônibus espacial, marcada no relógio
  4. O mesmo relógio no foguete da Lua
  5. Max Q: o minuto em que o foguete alivia
  6. Chegar ao espaço e chegar à órbita não são a mesma coisa
  7. E no Brasil, quanto demoraria?

Entre oito e nove minutos. É esse o tempo que um foguete grande leva da decolagem até desligar os motores em órbita, e ele é surpreendentemente parecido entre veículos muito diferentes. No ônibus espacial, os motores principais queimavam por 8 minutos e meio. No foguete da Lua, o SLS, o corte dos motores do estágio central aconteceu 8 minutos e 3 segundos depois do botão, no voo da Artemis I.

A parte contraintuitiva é esta: quase todo esse tempo não é gasto subindo, e sim acelerando de lado. O foguete chega à altura do espaço bem antes de chegar à velocidade do espaço.

A resposta curta, e por que ela é sempre a mesma

Oito ou nove minutos parece pouco para uma viagem dessas, e parece arbitrário que foguetes tão diferentes demorem quase o mesmo. Não é arbitrário.

Um foguete não pode subir devagar. Enquanto ele está acendendo os motores, está gastando combustível só para não cair — cada segundo parado no ar é combustível jogado fora. Então a trajetória ótima é a mais rápida que a estrutura aguenta, e a estrutura de todos eles aguenta mais ou menos o mesmo: cerca de 3 g, três vezes o peso normal do corpo. Acelerar até a velocidade de órbita sem passar disso dá, na conta, algo entre oito e nove minutos.

É o mesmo motivo pelo qual carros muito diferentes levam tempos parecidos para frear: o limite não é o carro, é o atrito do pneu.

O difícil não é a altura, é a velocidade

Esta é a ideia que resolve o assunto inteiro, e quase nenhum vídeo de lançamento explica.

O espaço começa a 100 km de altitude, na linha de Kármán, assunto de Onde começa o espaço? A linha de Kármán, a 100 km. Cem quilômetros é pouco: é a distância de uma hora de estrada. Se existisse um elevador, você subiria isso numa tarde.

Só que chegar lá em cima não adianta nada. Se você subir 100 km e parar, cai de volta na mesma hora. Para ficar em órbita, é preciso ir tão rápido de lado que, enquanto você cai, o chão da Terra curva embaixo de você na mesma taxa — e você erra o planeta, para sempre.

Essa velocidade é o verdadeiro preço. O ônibus espacial orbitava a 17.321 mph, ou cerca de 27.900 km/h. Para comparar: o avião comercial que leva você de São Paulo a Lisboa voa a uns 900 km/h. O ônibus espacial ia trinta vezes mais rápido que esse avião.

A altura é a parte barata. A velocidade é a conta toda — e é por isso que o foguete passa a maior parte da subida deitando, inclinando o bico para a frente em vez de apontar para cima. Quem quiser a física por trás disso encontra em Como funciona um foguete? A explicação simples e em O que é velocidade de escape? O limite para sair da Terra.

A subida do ônibus espacial, marcada no relógio

O ônibus espacial é o veículo com a subida mais bem documentada da história, e serve de régua para todos os outros. A ficha da NASA descreve assim:

Momento O que acontecia
0 Decolagem, com dois foguetes sólidos e três motores principais
Até 2 min Os foguetes sólidos queimam em paralelo com os motores principais
~2 min, a 45 km Os sólidos acabam e são descartados; velocidade de 4.828 km/h
2 a 8 min Só os três motores principais, acelerando até a velocidade de órbita
8,5 min Fim do voo propulsado: os motores principais desligam
~113 km O tanque externo alaranjado é descartado, já perto da velocidade orbital

Repare na linha dos 45 km. Dois minutos depois de decolar, o conjunto estava a 4.828 km/h — rápido, mas ainda só um sexto da velocidade final. Ou seja: no primeiro quarto do tempo de subida, o foguete tinha conquistado menos de 20% da velocidade de que precisava. O trabalho pesado estava todo pela frente, e é feito depois, mais alto, onde o ar não atrapalha.

A própria NASA resume o trecho final numa frase: depois que os foguetes sólidos são jogados fora, os motores principais levam o conjunto de 4.828 km/h até cerca de 27.000 km/h em apenas seis minutos.

Uma observação de fonte, porque a mesma página da NASA se contradiz: num trecho ela dá a velocidade orbital do ônibus espacial como 17.321 mph (27.900 km/h) e noutro arredonda para "cerca de 17.000 mph" (27.400 km/h). A diferença de 500 km/h não muda nada na conclusão, e ela existe porque a velocidade exata depende da altitude da órbita escolhida em cada missão.

Ônibus espacial Discovery subindo da plataforma de lançamento, visto de lado, com o tanque alaranjado, grandes nuvens brancas de fumaça nos dois lados e céu azul limpo ao fundo
A decolagem da STS-41. Nos primeiros dois minutos, os dois foguetes brancos de combustível sólido fazem a maior parte da força; depois são descartados e o resto da subida fica com os três motores do orbitador. Foto: NASA/JSC

O mesmo relógio no foguete da Lua

O SLS, foguete que a NASA usa no programa Artemis, é um veículo completamente diferente — mais alto, mais pesado, com destino a outro corpo celeste. Mesmo assim, o cronômetro da subida é quase idêntico. A linha do tempo oficial do voo da Artemis I, de 16 de novembro de 2022, registra:

Tempo de voo Evento
00:01:10 Máxima pressão dinâmica (Max Q)
00:02:12 Separação dos foguetes sólidos
00:03:11 Descarte da carenagem do módulo de serviço
00:03:16 Descarte do sistema de escape de emergência
00:08:03 Comando de corte dos motores do estágio central

Os sólidos se separaram a cerca de 48 km de altitude. E o corte dos motores veio aos 8 minutos e 3 segundos, com o conjunto a mais de 16.000 mph — mais de 25.700 km/h.

Compare com o ônibus espacial: dois minutos para largar os foguetes sólidos, oito minutos para desligar os motores principais. São projetos separados por quarenta anos e o relógio é praticamente o mesmo, porque a física é a mesma.

Uma nota de fonte: a linha do tempo oficial marca a separação do estágio central no mesmo instante do corte dos motores, 00:08:03, enquanto o kit de imprensa pré-voo da missão trazia 00:08:15 para essa separação. São 12 segundos de diferença entre dois documentos da própria NASA; o mais provável é que um seja o planejado e o outro o registrado, e não há como desempatar pelas páginas públicas.

Max Q: o minuto em que o foguete alivia

Dentro desses oito minutos há um momento com nome próprio, e quem assiste a uma transmissão sempre ouve o locutor anunciá-lo: o Max Q, ou máxima pressão dinâmica. Na Artemis I, ele caiu em 1 minuto e 10 segundos.

Max Q é o instante de maior estresse mecânico sobre o foguete. Ele resulta de uma disputa entre duas coisas que mudam ao mesmo tempo: a velocidade sobe o tempo todo, e o ar fica cada vez mais rarefeito conforme ele ganha altura. No começo há muito ar e pouca velocidade; depois há muita velocidade e quase nenhum ar. Em algum ponto entre os dois, o produto é máximo.

A analogia é a mão fora da janela do carro. A 40 km/h a mão quase não sente nada; a 110 km/h, na estrada, ela é empurrada para trás com força. Agora imagine acelerar e, ao mesmo tempo, o ar ir ficando mais fino: o empurrão cresce, atinge um pico e depois diminui sozinho. Esse pico é o Max Q — e é por isso que, em muitos foguetes, os motores diminuem a potência de propósito por alguns segundos ali, para não castigar a estrutura.

Chegar ao espaço e chegar à órbita não são a mesma coisa

Essa distinção vale um parágrafo porque é a origem de muita confusão em notícia.

Um voo suborbital sobe acima de 100 km, passa alguns minutos sem peso e cai de volta. É isso que as empresas de turismo espacial vendem, como explicamos em Turismo espacial: as empresas que já vendem passagem. Esse voo "chega ao espaço" em dois ou três minutos e acaba em cerca de dez.

Um voo orbital precisa dos oito ou nove minutos inteiros, porque não basta a altura: é preciso a velocidade lateral. A diferença de energia entre os dois é enorme — e é a diferença entre um passeio e uma missão.

Quando alguém diz "o foguete chegou ao espaço em três minutos", provavelmente está certo e falando de altitude. Quando alguém diz "oito minutos até a órbita", também está certo e falando de outra coisa.

E no Brasil, quanto demoraria?

A conta não mudaria muito, mas o Brasil tem uma vantagem rara na largada. Alcântara, no Maranhão, fica a pouco mais de 2 graus do equador, e perto do equador a rotação da Terra já dá ao foguete um empurrão de graça para o leste — detalhe que explicamos em Alcântara: por que a base brasileira é cobiçada no mundo todo.

Esse empurrão não encurta os oito minutos. O que ele faz é reduzir o combustível necessário para chegar à mesma velocidade, o que significa mais carga útil pelo mesmo preço. O relógio é parecido em qualquer lugar do mundo; o que muda é quanto cabe dentro do foguete.

Perguntas frequentes

Quanto tempo um foguete leva para chegar ao espaço?

Para atingir 100 km de altitude, a fronteira do espaço, bastam cerca de dois a três minutos. Para chegar à órbita e ficar lá, são necessários entre oito e nove minutos: no ônibus espacial, os motores principais queimavam 8 minutos e meio; no SLS da Artemis I, o corte veio aos 8 minutos e 3 segundos.

Por que demora tanto se o espaço fica a só 100 km?

Porque o problema não é a altura, é a velocidade. Subir 100 km é fácil; ficar em órbita exige quase 28.000 km/h de velocidade horizontal, senão o foguete simplesmente cai de volta. A maior parte dos oito minutos é gasta acelerando de lado, não subindo.

O que é Max Q num lançamento?

É o instante de máxima pressão do ar sobre o foguete, resultado da combinação entre a velocidade que cresce e o ar que rareia. Na Artemis I aconteceu 1 minuto e 10 segundos depois da decolagem. Muitos foguetes reduzem a potência dos motores por alguns segundos nesse trecho para poupar a estrutura.

Qual a velocidade de um foguete quando chega à órbita?

Cerca de 28.000 km/h para a órbita baixa da Terra. A NASA registra o ônibus espacial orbitando a 17.321 mph, ou aproximadamente 27.900 km/h. É cerca de trinta vezes a velocidade de um avião comercial.

Os astronautas sentem muita força na subida?

Sim, mas menos do que a maioria imagina. Os foguetes são projetados para não passar de cerca de 3 g na fase final da subida, ou seja, três vezes o peso normal do corpo. É desconfortável e dura poucos minutos, mas está longe do limite do que uma pessoa treinada suporta.

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