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Starliner: por que 2 astronautas ficaram 9 meses na ISS

Eles iam ficar oito dias e ficaram 286. O que deu errado na nave da Boeing, como os dois voltaram e quando a Starliner volta a voar.

Publicado em 8 min de leitura
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A nave Starliner da Boeing se aproximando da Estação Espacial, vista como uma cápsula escura contra o espaço preto, com a faixa azul fina da atmosfera da Terra logo abaixo
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. A linha do tempo, do jeito que aconteceu
  2. O que é a Starliner, e por que ela existe
  3. O que deu errado: propulsores e hélio
  4. A decisão de 24 de agosto de 2024
  5. Como eles voltaram de verdade
  6. "Presos" é a palavra certa?
  7. O que a NASA e a Boeing dizem agora
  8. Por que essa história importa para quem não liga para a Boeing

Em junho de 2024, dois astronautas americanos subiram numa nave nova para um teste de oito dias. Voltaram 286 dias depois, em março de 2025, e numa nave de outra empresa. A Starliner, da Boeing, levou Butch Wilmore e Suni Williams até a Estação Espacial sem matar ninguém, mas chegou lá com propulsores falhando e vazamentos de hélio, e a NASA decidiu que era arriscado demais trazer os dois de volta nela. A nave voltou vazia. Os dois ficaram.

Essa é a resposta curta. A longa tem detalhes que quase ninguém conta direito — a começar pelo fato de que "presos" é uma palavra que a NASA nunca usou, e com alguma razão.

A linha do tempo, do jeito que aconteceu

Quando O que aconteceu
5 de junho de 2024 Decolagem num foguete Atlas V, de Cabo Canaveral, com Wilmore e Williams
6 de junho de 2024 Acoplagem na Estação Espacial, já com propulsores falhando na aproximação
Junho a agosto de 2024 Testes de propulsor em órbita e no chão, no Novo México
24 de agosto de 2024 A NASA anuncia que a nave volta sem tripulação
6 de setembro de 2024 A Starliner pousa vazia no deserto do Novo México
Setembro de 2024 A Crew-9 sobe com dois assentos vagos, reservados para eles
18 de março de 2025 Wilmore e Williams amerissam perto de Tallahassee, na Flórida
28 de setembro de 2026 NASA e Boeing anunciam o plano para a nave voltar a voar

Repare na coluna da esquerda: entre a decolagem e a volta passaram nove meses e meio. A missão planejada era de oito dias. É quase trinta e seis vezes mais tempo do que o previsto — como sair de casa para um fim de semana na praia e voltar só no ano seguinte.

O que é a Starliner, e por que ela existe

A Starliner é uma cápsula — uma nave em formato de cone, sem asas, que volta à Terra de paraquedas. Ela foi construída pela Boeing dentro de um programa da NASA que pagou duas empresas para desenvolver naves de transporte de astronautas: a outra é a SpaceX, com a Dragon.

A nave Starliner vista de cima, pequena contra o branco das nuvens da Terra, durante a aproximação da Estação Espacial
A Starliner chegando à Estação Espacial em junho de 2024, fotografada por quem já estava lá dentro. Nesta fase da aproximação é que vários propulsores de controle falharam. Foto: NASA/JSC

A ideia por trás disso é simples e vale repetir, porque explica quase tudo o que veio depois: a NASA não quer depender de uma única nave. Entre 2011 e 2020, depois da aposentadoria dos ônibus espaciais, os Estados Unidos não tinham nenhuma e compravam assento na Soyuz russa. A Dragon resolveu isso em 2020. A Starliner era para ser a segunda opção — o pneu reserva. Ter duas naves significa que, se uma for descoberta com um defeito, ninguém fica sem carona.

O que deu errado: propulsores e hélio

Dois problemas apareceram, e eles são de naturezas diferentes.

O primeiro foi vazamento de hélio. O hélio ali não serve de combustível: ele é um gás inerte que fica pressurizado em tanques e serve para empurrar o combustível de verdade até os motores, como quem aperta um tubo de pasta de dente. A Starliner subiu com um vazamento já conhecido e pequeno, e ganhou outros em voo.

O segundo foi mais sério. O módulo de serviço — a parte de trás da nave, que leva motores, tanques e painéis solares, e que é descartada antes da reentrada — tem pequenos propulsores de controle, os que giram e ajustam a nave em manobras finas. Na aproximação da Estação, vários deles não responderam como deveriam. A tripulação e o controle em solo conseguiram recuperar a maior parte e acoplar, mas a dúvida ficou: eles voltariam a falhar na hora de sair de órbita?

A própria NASA, no comunicado em que fechou a investigação, descreve a causa como uma combinação do ambiente térmico com características do próprio projeto dos propulsores — ou seja, eles esquentavam demais, em posições em que o calor não tinha para onde ir, e passaram a operar fora da faixa para a qual foram qualificados. Vale registrar uma coisa, porque ela importa: as páginas públicas da NASA descrevem o problema sem publicar quantos propulsores exatamente falharam. Números que circulam por aí não vêm da agência, e por isso não entram aqui.

A decisão de 24 de agosto de 2024

Depois de quase três meses de teste, a NASA escolheu trazer a nave vazia. O administrador da agência na época, Bill Nelson, resumiu assim: "Um voo de teste, por natureza, não é seguro nem rotineiro. A decisão de manter Butch e Suni a bordo da Estação Espacial e trazer a Starliner da Boeing para casa sem tripulação é resultado do nosso compromisso com a segurança."

Cápsula Starliner descendo contra o céu azul, pendurada em três grandes paraquedas listrados de vermelho, branco e azul
A Starliner desce sob três paraquedas principais no teste sem tripulação de maio de 2022. Foi assim, com este mesmo sistema, que ela voltou vazia em setembro de 2024. Foto: NASA/Bill Ingalls

Em 6 de setembro de 2024 a Starliner desacoplou sozinha, fez a queima de saída de órbita e pousou no deserto, pendurada em paraquedas e amortecida por bolsas de ar. Funcionou. A ironia não passou despercebida: a nave fez exatamente o que diziam que ela talvez não conseguisse fazer. Mas "provavelmente funciona" é um padrão aceitável para carga e inaceitável para gente — e é essa a diferença que a decisão marcou.

Como eles voltaram de verdade

A NASA não mandou uma nave de resgate. Fez algo mais barato e mais sensato: mudou a tripulação da viagem que já estava marcada.

A Crew-9, da SpaceX, subiria em setembro de 2024 com quatro pessoas. Subiu com duas, deixando dois assentos vazios. Wilmore e Williams foram incorporados à tripulação da Estação, viraram tripulantes de Expedição de verdade — fazendo experimentos, manutenção e caminhadas espaciais, como qualquer outro — e voltaram com a Crew-9 no fim do rodízio normal, em 18 de março de 2025, amerissando perto de Tallahassee.

Se você quer entender o que acontece nesses minutos finais, está tudo em Como os astronautas voltam para a Terra, passo a passo. E o sistema de turmas que permitiu encaixar os dois é explicado em O que é uma Expedição da Estação Espacial?.

Os números finais da missão, publicados pela NASA: 286 dias no espaço, 4.576 voltas na Terra e 121.347.491 milhas percorridas — cerca de 195 milhões de quilômetros, mais do que a distância da Terra ao Sol, que é de 150 milhões.

"Presos" é a palavra certa?

Essa é a parte em que quase toda manchete errou, e vale a conversa.

Não, eles nunca estiveram sem rota de volta. Desde o primeiro dia havia naves acopladas à Estação com assentos de emergência, e a partir de setembro de 2024 havia dois lugares com o nome deles numa Dragon. O que não existia era um jeito de voltar antes da hora sem bagunçar o rodízio inteiro da Estação e deixar o laboratório sem tripulação treinada.

Por outro lado, chamar aquilo de "missão estendida" também é maquiagem. Eles subiram com roupa para oito dias. Passaram o Natal e a virada do ano a 400 km de casa. O corpo deles pagou o preço de nove meses em gravidade quase zero — perda de osso e de músculo, líquido subindo para a cabeça, visão alterada —, que é o assunto de Os recordes de permanência no espaço (e o que o corpo sofre).

A palavra honesta talvez seja retidos: tinham como voltar, não tinham como voltar quando queriam.

O que a NASA e a Boeing dizem agora

Em 28 de setembro de 2026, as duas anunciaram o plano para a nave voltar ao ar. O que foi divulgado:

  • A investigação do problema terminou com 61 recomendações.
  • A Boeing fez modificações térmicas no módulo de serviço, mexeu no projeto das válvulas dos propulsores e mudou propulsores do módulo da tripulação, baterias e o sistema de paraquedas.
  • O próximo voo, a Starliner-1, será sem tripulação e servirá de avaliação de engenharia, levando carga. A janela citada é dezembro de 2026 ou janeiro de 2027.
  • O retorno de astronautas na nave está previsto para 2028, na Starliner-2. Nas palavras do atual administrador da NASA, Jared Isaacman: "Nosso plano atual é levar astronautas de volta na Starliner-2 até 2028."
  • Há ainda uma troca de foguete pela frente: o Atlas V está nos últimos voos, e a NASA vai trabalhar com a Boeing e a United Launch Alliance para certificar o foguete Vulcan.

Como sempre, cronograma de foguete escorrega. A própria Starliner-1 já foi remarcada mais de uma vez, e "previsto para" aqui quer dizer exatamente isso.

Por que essa história importa para quem não liga para a Boeing

Porque ela é um caso raro de uma decisão difícil tomada do jeito certo, à vista de todo mundo. Havia pressão comercial, havia constrangimento público, e a agência escolheu o caminho que deixava dois astronautas longe de casa por mais nove meses em vez do caminho que poderia dar errado uma vez só.

E porque ela escancara o motivo de a Estação precisar de mais de uma nave. Enquanto a Starliner estava parada, a Dragon fez todo o serviço — mas se o defeito tivesse aparecido do outro lado, não haveria plano B americano. A Estação, aliás, tem data para acabar, e o que vem depois está em A Estação Espacial vai cair? O fim da ISS em 2030.

Perguntas frequentes

Os astronautas ficaram presos no espaço?

Não no sentido de estarem sem saída. Desde o começo havia naves acopladas à Estação com assentos de emergência, e a partir de setembro de 2024 dois lugares da Crew-9 estavam reservados para eles. O que não havia era como voltar antes do rodízio normal da tripulação. Eles subiram para oito dias e ficaram 286.

Quanto tempo Butch Wilmore e Suni Williams ficaram no espaço?

286 dias, de 5 de junho de 2024 a 18 de março de 2025, segundo a NASA. Nesse período deram 4.576 voltas na Terra e percorreram cerca de 195 milhões de quilômetros.

A Starliner conseguiu pousar?

Sim. Em 6 de setembro de 2024 ela desacoplou sozinha, saiu de órbita e pousou no deserto do Novo México, de paraquedas, sem ninguém a bordo. O pouso correu bem — o que não elimina o risco que a NASA quis evitar, porque um sistema que falha de vez em quando pode funcionar numa tentativa e não na seguinte.

Quando a Starliner volta a voar?

A NASA e a Boeing anunciaram em 28 de setembro de 2026 que o próximo voo, a Starliner-1, será sem tripulação, com janela prevista para dezembro de 2026 ou janeiro de 2027. O retorno de astronautas está previsto para 2028. São datas previstas, e cronogramas espaciais atrasam com frequência.

Por que a NASA não mandou uma nave só para buscar os dois?

Porque não era necessário e seria caríssimo. Já havia um voo marcado, a Crew-9, que subiria de qualquer jeito. A agência simplesmente tirou dois astronautas daquela tripulação e deixou os assentos vagos para Wilmore e Williams, que entraram no rodízio normal da Estação e voltaram no fim dele.

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