Quatro vezes nos últimos mil anos apareceu uma estrela nova no céu — uma luz onde não havia nada, forte o bastante para ser vista de dia, que ficou lá por semanas ou meses e depois sumiu. Os registros são de 1006, 1054, 1572 e 1604. Hoje sabemos o que era: supernova, a explosão de uma estrela, perto o suficiente para ser vista sem instrumento nenhum. Desde 1604 não acontece outra na nossa galáxia. Esta é a história das quatro, do que sobrou de cada uma, e do motivo de a última ter chegado quatro anos cedo demais.
O que era uma "estrela convidada"
Os astrônomos chineses tinham um nome para o fenômeno: estrela convidada. Alguém que chega, fica um tempo e vai embora. Eles anotavam a data, a posição no céu e o brilho, e esses registros são hoje documento científico de primeira linha — é por eles que sabemos a idade exata de alguns restos de explosão que vemos no céu.
Vale entender a escala do que estavam vendo. Uma supernova é o fim violento de uma estrela: em alguns dias, ela pode brilhar mais que uma galáxia inteira. A de 1054 chegou a brilhar, segundo a NASA, como 400 milhões de sóis. O que torna isso visível daqui é só a distância — e, nos casos abaixo, a estrela que explodiu estava na nossa vizinhança.
A honestidade também está na fonte: a própria NASA avisa que historiadores nem sempre conseguem ter certeza de que uma "estrela convidada" registrada era uma supernova, ou de que era a mesma que deixou determinado resto de explosão. Os registros antigos são evidência boa, não certeza absoluta.
1006: a mais brilhante que alguém já viu
Em 1º de maio de 1006, ou perto disso, observadores da África à Europa e ao Extremo Oriente registraram a chegada da luz de uma explosão a quase 7.000 anos-luz daqui. Foi uma anã branca — o caroço quente que sobra de uma estrela como o Sol — que se detonou.
O resultado, descrito pela NASA, é difícil de superar: ela foi provavelmente a estrela mais brilhante já vista por seres humanos. Ultrapassou Vênus e virou o objeto mais brilhante do céu noturno, perdendo só para a Lua. Ficou visível de dia por semanas, e continuou visível a olho nu por pelo menos dois anos e meio antes de apagar.
Depois sumiu da história. Só nos anos 1960 radioastrônomos encontraram, exatamente na posição anotada, um anel de material quase circular com quase 30 minutos de arco de diâmetro — ou seja, do tamanho aparente da Lua cheia no céu. Pelo tamanho do anel e pelo tempo decorrido, dava para calcular a velocidade da onda de choque: cerca de 32 milhões de km/h.

1054: a que virou a Nebulosa do Caranguejo
No verão de 1054 — verão do hemisfério norte —, astrônomos na China e no Japão registraram outra estrela convidada, esta na direção da constelação de Touro. Ela apareceu seis vezes mais brilhante que Vênus e ficou visível durante o dia por vários meses.
Depois foi esquecida por uns 700 anos, até os telescópios chegarem. Quando chegaram, os astrônomos encontraram, no lugar da estrela que sumira, uma nebulosa de filamentos que batizaram de Nebulosa do Caranguejo, a 6.500 anos-luz. No centro dela está o cadáver da estrela: uma esfera ultradensa de nêutrons girando trinta vezes por segundo, descoberta no fim dos anos 1960 e contada em O que é um pulsar? O farol que virou GPS da galáxia.
Um detalhe arrepiante do comunicado da NASA sobre essa explosão: se ela tivesse acontecido a 50 anos-luz daqui, em vez de 6.500, teria irradiado a Terra e eliminado a maior parte das formas de vida. O que separa um espetáculo de uma catástrofe, nesse caso, é só a distância. O mecanismo da explosão e o que sobra dela estão em O que sobra quando uma estrela morre?.
1572: a estrela de Tycho
No começo de novembro de 1572, apareceu uma estrela nova na constelação de Cassiopeia. A NASA a descreve como a supernova mais brilhante vista a olho nu em mais de 400 anos — ou seja, nada depois dela chegou perto.
Ela ficou conhecida como "supernova de Tycho" por causa do astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, que ganhou renome pelo estudo detalhado que fez do objeto. É o primeiro da lista que ficou com o nome de uma pessoa.
O resto daquela explosão ainda está lá, e hoje ele trabalha para a ciência de um jeito que Tycho não poderia imaginar. O telescópio espacial Fermi mostrou que os destroços brilham em raios gama, a forma mais energética de luz — uma pista no quebra-cabeça da origem dos raios cósmicos, as partículas que cruzam a galáxia a quase a velocidade da luz e cujo caminho de volta é impossível de rastrear, porque campos magnéticos as entortam. Gama, não: o raio gama vem em linha reta da fonte. O assunto está em O que são raios cósmicos?.

1604: a última da nossa galáxia
Em 9 de outubro de 1604, observadores foram surpreendidos por uma estrela nova no céu do oeste, rivalizando em brilho com os planetas vizinhos. Entre eles estava Johannes Kepler, mais conhecido por ter descoberto as leis do movimento dos planetas.
Esta é, até hoje, a última supernova vista explodindo na nossa própria Via Láctea. E tem uma ironia cruel no calendário: quem a observou "só podia usar os olhos para estudá-la", como diz a NASA, porque o telescópio só seria inventado quatro anos depois. A humanidade chegou atrasada por quatro anos ao melhor evento astronômico de mil anos.
O que sobrou é uma bolha de gás e poeira com 14 anos-luz de largura, que continua se expandindo a 2.000 quilômetros por segundo — a foto que abre este artigo. Três telescópios espaciais olharam para ela e cada um viu uma coisa diferente: em luz visível, o Hubble mostra onde a onda de choque está batendo no gás mais denso ao redor; em infravermelho, o Spitzer mostra a poeira microscópica aquecida por esse mesmo choque; e o Chandra acrescenta os raios X. O que a casca carrega é material riquíssimo em ferro, arrancado de dentro da estrela que explodiu.
1987: a mais recente, e o hemisfério sul viu de camarote
Em 23 de fevereiro de 1987 apareceu outra, e ela foi um acontecimento mundial. Chamada SN 1987A, brilhou com a potência de 100 milhões de sóis por vários meses.
Mas há uma diferença decisiva: ela não foi na nossa galáxia. Aconteceu na Grande Nuvem de Magalhães, uma galáxia vizinha a cerca de 160 mil anos-luz — e essa galáxia só é visível do hemisfério sul. Quem teve a melhor vista do mundo foi gente como nós, no Brasil, na Austrália, no Chile, enquanto o hemisfério norte dependia de telefonema. A Nuvem continua lá, a olho nu, em noite escura, e dá para achá-la com as instruções de Grande Nuvem de Magalhães: o que é e como ver do Brasil.
A NASA chama a SN 1987A de a explosão de supernova mais próxima observada em quase 400 anos — a conta sendo feita justamente a partir de 1604.
A lista, de uma olhada
As quatro da nossa galáxia, mais a de 1987, que foi na galáxia vizinha:
| Ano | Onde no céu | O que a fonte diz do brilho | O que sobrou |
|---|---|---|---|
| 1006 | Vista da África ao Extremo Oriente | Provavelmente a estrela mais brilhante já vista; visível de dia por semanas | Anel de resto a ~7.000 anos-luz |
| 1054 | Constelação de Touro | Seis vezes mais brilhante que Vênus; visível de dia por meses | Nebulosa do Caranguejo, com um pulsar no meio |
| 1572 | Constelação de Cassiopeia | A mais brilhante a olho nu em mais de 400 anos | Resto que brilha em raios gama |
| 1604 | Céu do oeste | Rivalizava com o brilho dos planetas | Bolha de 14 anos-luz, ainda a 2.000 km/s |
| 1987 | Grande Nuvem de Magalhães | 100 milhões de sóis, por meses | Anel de gás, observado desde então |
Por que faz mais de 400 anos que não aparece outra
A pergunta inevitável: por que a estrela convidada parou de aparecer?
A resposta honesta é que ninguém garante que ela parou — garantimos que ninguém viu. Nossa galáxia é um disco enorme e empoeirado, e nós moramos dentro dele, olhando de lado. A maior parte da Via Láctea está escondida atrás de nuvens de poeira que barram a luz visível, como explica O que é a Via Láctea e como ver a nossa galáxia do Brasil. Uma estrela pode ter explodido do outro lado do disco sem que nada disso chegasse aos nossos olhos.
O que mudou, e muito, é que hoje não precisamos de olhos. Telescópios de raios X, infravermelho e rádio atravessam a poeira, detectores de neutrinos avisam antes da luz e redes automáticas varrem o céu toda noite. A próxima provavelmente será detectada por máquina, e só depois alguém vai olhar.
Isso não quer dizer que não haja candidata à vista. Há uma, famosa, grande e vermelha no ombro de Órion, e o que acontece no dia em que ela for está em Betelgeuse vai explodir? O que muda no céu quando acontecer.




