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Grande Nuvem de Magalhães: o que é e como ver do Brasil

É uma galáxia inteira, vizinha da nossa, visível a olho nu só do hemisfério sul. Onde procurar, a que altura ela fica na sua cidade e o que tem dentro.

Publicado em 8 min de leitura
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A Grande Nuvem de Magalhães como uma mancha de luz difusa num céu cheio de estrelas, acima da faixa alaranjada da atmosfera da Terra
Foto: NASA/Don Pettit
Neste artigo
  1. O que é, exatamente
  2. Por que só o hemisfério sul enxerga
  3. Como achar no céu, sem aplicativo
  4. O que tem lá dentro: a Nebulosa da Tarântula
  5. A supernova de 1987, a mais próxima em quatro séculos
  6. A irmã menor
  7. De onde veio o nome

A Grande Nuvem de Magalhães é uma galáxia inteira, vizinha da Via Láctea, e ela aparece a olho nu no céu do Brasil como uma mancha esbranquiçada parecida com um pedaço de nuvem que nunca sai do lugar. Fica a cerca de 160 mil anos-luz daqui, tem umas 15 mil de extensão e é a maior das galáxias-satélite que orbitam a nossa. Para vê-la você precisa de duas coisas: estar no hemisfério sul — o que já resolve a vida de quase todo brasileiro — e de um céu escuro, longe da luz da cidade.

Este é um daqueles casos em que quem nasceu no Brasil tem sorte. Boa parte da humanidade, incluindo toda a Europa, os Estados Unidos, o Japão e a China, nunca viu essa galáxia e nunca vai ver sem pegar um avião.

O que é, exatamente

Galáxia é um amontoado gigante de estrelas, gás e poeira, preso pela própria gravidade. A nossa, a Via Láctea, tem centenas de bilhões de estrelas e o formato de um disco em espiral de uns 100 mil anos-luz de ponta a ponta. A Grande Nuvem de Magalhães é bem menor e mais bagunçada: a NASA a descreve como uma galáxia pequena e irregular, ou seja, sem o desenho arrumado de braços em espiral. Se quiser entender essa classificação, ela está em Tipos de galáxias: espiral, elíptica e irregular.

Ela não está só passando: é uma galáxia-satélite, presa pela gravidade da Via Láctea, dando uma volta lenta em torno da nossa. E é a mais massuda de todas as satélites que temos.

Sobre a distância, vale um aviso honesto. A NASA publica dois números diferentes em páginas diferentes: a Astronomy Picture of the Day diz "cerca de 160 mil anos-luz", e a página do Hubble diz "quase 200 mil anos-luz". As duas estão certas dentro do que cada método de medida entrega, e a nuvem é grande o bastante para que a "distância" dependa de que parte dela se mede. Neste texto usamos 160 mil, que é o valor mais citado e o que já aparece nos nossos outros artigos.

Mesmo assim, 160 mil anos-luz é um número que não entra na cabeça sozinho. Um ano-luz são 9,46 trilhões de quilômetros — a conta está em O que é um ano-luz? A medida do universo com exemplos simples. A luz que sai da Grande Nuvem hoje chega à Terra quando já tiver passado mais tempo do que a espécie humana inteira existe.

Por que só o hemisfério sul enxerga

A Grande Nuvem fica na constelação do Dourado, bem perto do polo sul celeste — o ponto do céu em torno do qual tudo parece girar, para quem está no sul. A declinação dela, que é a "latitude no céu", é de −69,8 graus.

A regra é simples: quanto mais ao sul você estiver, mais alto ela sobe. Calculamos a altura máxima que a Grande Nuvem alcança em cada cidade brasileira:

Cidade Altura máxima Ela se põe?
Boa Vista 17,4° sim, e mal aparece
Belém 21,7° sim
Manaus 23,4° sim
Fortaleza 24,0° sim
Recife 28,3° sim
Salvador 33,2° sim
Brasília 36,0° sim
Belo Horizonte 40,2° sim, por pouco
Rio de Janeiro 43,2° não, nunca se põe
São Paulo 43,8° não, nunca se põe
Curitiba 45,7° não, nunca se põe
Porto Alegre 50,3° não, nunca se põe
Chuí 53,9° não, nunca se põe

Existe uma linha divisória exata, e ela corta o Brasil: a partir de 20,2 graus de latitude sul, a Grande Nuvem vira circumpolar — nunca se põe, fica no céu as 24 horas do dia, todos os dias do ano. Belo Horizonte, a 19,9 graus, fica a menos de meio grau do lado de fora e vê a nuvem roçar o horizonte. Do Rio para o sul, ela está sempre lá.

Isso não quer dizer que dá para ver sempre, claro: de dia o Sol apaga tudo. Mas significa que, em qualquer noite escura do ano, ela está em algum lugar acima do horizonte de quem mora em São Paulo, Curitiba ou Porto Alegre.

Como achar no céu, sem aplicativo

O método mais fácil usa duas referências que todo brasileiro consegue achar.

Primeiro, ache o sul. O jeito clássico é pelo Cruzeiro do Sul, e o passo a passo está em Como achar o Cruzeiro do Sul (e o sul) no céu.

Depois, ache Canopus, a segunda estrela mais brilhante do céu inteiro, um ponto branco-amarelado bem chamativo na direção sul. A Grande Nuvem fica entre Canopus e o ponto do polo sul celeste, um pouco fora da linha reta que liga os dois. Se você traçar essa linha com o dedo e vasculhar a região em volta dela, vai passar por cima da nuvem.

O que você vai ver não é impressionante à primeira vista, e é bom saber disso antes: uma mancha pálida, sem contorno definido, e grande: com os 15 mil anos-luz de extensão e os 160 mil de distância que a NASA publica, ela ocupa 5,4 graus do céu — o equivalente a dez Luas cheias enfileiradas, ou a metade de um punho fechado com o braço esticado. Muita gente olha direto para ela achando que é nuvem de verdade e só percebe quando nota que as nuvens do céu andaram e aquela não. Com o canto do olho ela fica mais evidente que olhando de frente, porque a visão periférica é mais sensível à luz fraca.

As três condições que mandam: céu sem Lua, longe da cidade e 20 minutos sem olhar para tela nenhuma para a vista se adaptar. Na cidade grande, esqueça — nem a Via Láctea aparece. Os melhores lugares do país estão listados em Turismo astronômico: onde ver o céu mais estrelado do Brasil.

Uma região da Grande Nuvem de Magalhães vista pelo Hubble, com estrelas azuis brilhantes sobre um fundo de gás rosado e filamentos escuros de poeira
Um berçário de estrelas dentro da Grande Nuvem de Magalhães, fotografado pelo Hubble. As cores vêm do gás aquecido pelas estrelas novas; as manchas escuras são poeira bloqueando a luz de trás. Foto: NASA/GSFC

O que tem lá dentro: a Nebulosa da Tarântula

A Grande Nuvem não é só uma mancha uniforme. Dentro dela existe o maior e mais brilhante berçário de estrelas da nossa vizinhança cósmica: a Nebulosa da Tarântula, também chamada de 30 Doradus.

Ela tem cerca de mil anos-luz de diâmetro e está fabricando estrelas num ritmo que não existe em lugar nenhum da Via Láctea. Para ter ideia do tamanho: mil anos-luz é um décimo do diâmetro inteiro da Grande Nuvem, e mais de cem vezes a distância entre o Sol e a estrela vizinha mais próxima. É uma única região de formação de estrelas, e ela sozinha é maior que qualquer coisa parecida na Via Láctea.

Num céu bem escuro, gente com vista boa consegue notar a Tarântula como um pontinho um pouco mais denso na borda da Grande Nuvem. Com um binóculo comum ela já fica evidente. O que é uma nebulosa e por que ela brilha está explicado em O que é uma nebulosa? Tipos, como se formam e como ver.

A supernova de 1987, a mais próxima em quatro séculos

Em fevereiro de 1987, uma estrela explodiu na Grande Nuvem de Magalhães. Ficou conhecida como SN 1987A e é, até hoje, a supernova mais próxima dos tempos modernos — a primeira visível a olho nu desde 1604, antes mesmo de existir telescópio.

Ela só podia ser vista do hemisfério sul, porque só de lá a Grande Nuvem aparece — mais um capítulo em que o céu do sul saiu na frente. Horas antes de a luz chegar, detectores no Japão e nos Estados Unidos pegaram uma rajada de neutrinos, partículas fantasmas que escapam do núcleo da estrela em colapso antes da luz conseguir sair. Foi a primeira vez na história que a humanidade "viu" uma supernova por outro meio que não a luz.

É por isso que essa galáxia importa para a ciência e não só para a paisagem: ela está perto o bastante para estudarmos estrela por estrela, e é grande o bastante para ter de tudo. O que acontece numa explosão dessas está contado em Betelgeuse vai explodir? O que muda no céu quando acontecer.

A irmã menor

Um pouco mais longe no céu existe a Pequena Nuvem de Magalhães, a cerca de 200 mil anos-luz. É menor, mais pálida e mais difícil, mas num céu escuro as duas aparecem juntas, separadas por um bom pedaço de céu, como se fossem dois retalhos soltos da Via Láctea.

As duas Nuvens de Magalhães como manchas claras num campo denso de estrelas, com parte da estrutura da Estação Espacial em primeiro plano
As duas juntas, fotografadas da Estação Espacial Internacional. A maior, no centro, é a Grande Nuvem; a menor, à esquerda, é a Pequena. No céu do Brasil elas aparecem assim, só que mais pálidas, porque a atmosfera atrapalha. Foto: NASA/JSC

E não são só duas. A Via Láctea tem dezenas de galáxias pequenas em volta; as Nuvens são apenas as duas que a vista humana alcança. O quadro geral da nossa galáxia e da vizinhança está em O que é a Via Láctea e como ver a nossa galáxia do Brasil.

De onde veio o nome

O nome homenageia Fernão de Magalhães, o navegador português que comandou o início da primeira viagem ao redor do mundo, entre 1519 e 1522. A tripulação passou meses no hemisfério sul e teve tempo de sobra para estudar um céu que nenhum europeu conhecia direito, e as duas manchas ficaram registradas nos relatos da expedição.

Vale dizer o óbvio: as Nuvens não foram descobertas ali. Os povos que sempre viveram no hemisfério sul — no Brasil, na Austrália, na África austral, no Pacífico — enxergavam aquelas duas manchas desde sempre e tinham nomes e histórias próprios para elas, muito antes de qualquer caravela. O nome que pegou nos livros foi o europeu, como em quase tudo na nomenclatura astronômica.

Perguntas frequentes

Dá para ver uma galáxia a olho nu do Brasil?

Dá, e três delas. A nossa própria Via Láctea, vista de dentro, como uma faixa atravessando o céu; a Grande Nuvem de Magalhães; e, com mais dificuldade, a Pequena Nuvem. Todas exigem céu escuro, longe da cidade e sem Lua.

Qual é a melhor época do ano para ver a Grande Nuvem de Magalhães?

De novembro a fevereiro ela fica alta no céu já no começo da noite, que é o horário mais confortável. Do Rio de Janeiro para o sul, porém, ela nunca se põe: em qualquer mês do ano dá para vê-la, bastando esperar a hora em que ela está mais alta.

A Grande Nuvem de Magalhães faz parte da Via Láctea?

Não. É outra galáxia, separada, com estrelas próprias. Ela apenas orbita a Via Láctea, presa pela gravidade da nossa, como uma lua gigantesca feita de bilhões de estrelas.

Por que ela parece uma nuvem?

Porque está tão longe que as estrelas individuais não se separam para o olho humano: a luz de todas elas chega junta e borrada, formando uma mancha difusa. Com telescópio, a mancha se resolve em estrelas, uma a uma.

O que é a Nebulosa da Tarântula?

É a maior região de formação de estrelas da nossa vizinhança, dentro da Grande Nuvem de Magalhães, com cerca de mil anos-luz de diâmetro. O nome vem do formato dos filamentos de gás, que lembram pernas de aranha nas fotos de telescópio.

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