Perguntas que todo mundo faz

Tipos de galáxias: espiral, elíptica e irregular

As formas que as galáxias assumem, o que cada uma revela sobre a história dela e em qual delas a gente mora. Com fotos reais do Hubble.

Publicado em 7 min de leitura
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A galáxia espiral M83 vista de frente, com braços enrolados azulados salpicados de manchas rosadas e um miolo amarelado
Foto: NASA/GSFC
Neste artigo
  1. O desenho que Edwin Hubble fez em 1926
  2. Espirais: as que ainda estão fabricando estrelas
  3. A barra que atravessa o centro (e que a nossa galáxia tem)
  4. Elípticas: bolas de luz sem detalhe nenhum
  5. Lenticulares: o tipo do meio
  6. Irregulares: as que não se encaixam
  7. As galáxias ativas, que não são uma forma
  8. Resumo em uma tabela

As galáxias se dividem, na prática, em três formas principais: as espirais, que têm braços enrolados e um miolo brilhante; as elípticas, que são bolas ou ovais de luz sem nenhum detalhe; e as irregulares, que não têm forma nenhuma que se possa descrever. A nossa, a Via Láctea, é uma espiral — e, mais especificamente, uma espiral barrada, com uma barra de estrelas atravessando o centro.

Essa classificação não é decoração. A forma de uma galáxia conta o que aconteceu com ela: se ainda fabrica estrelas novas, se já bateu em alguma vizinha, se tem gás sobrando ou se gastou tudo. É a coisa mais parecida com uma certidão de nascimento que um astrônomo consegue ler de longe.

O desenho que Edwin Hubble fez em 1926

A classificação que se usa até hoje foi proposta pelo astrônomo americano Edwin Hubble em 1926 — o mesmo que dá nome ao telescópio espacial. Ele organizou as galáxias num diagrama que ficou conhecido como diapasão de Hubble, porque o desenho lembra um diapasão, aquele garfo de metal que os afinadores de piano batem para tirar uma nota.

O cabo do garfo tem as elípticas; onde ele se abre em dois dentes ficam as espirais, comuns num dente e barradas no outro. Os códigos são estes:

Código Que galáxia é
E0 a E7 Elíptica, de quase redonda (E0) a bem achatada (E7)
S0 Lenticular: tem bojo e disco, não tem braços
Sa, Sb, Sc Espiral, dos braços bem enrolados (a) aos bem abertos (c)
SBa, SBb, SBc O mesmo, com barra atravessando o centro
Irr Irregular: não entra no diagrama

A letra final das espirais diz o quanto os braços estão apertados, e o tamanho do bojo central acompanha: quanto mais enrolados os braços, maior o miolo.

Vale um aviso que a própria NASA faz na legenda do diagrama: o diapasão não é uma linha do tempo. Por muito tempo se imaginou que as galáxias "nasciam" elípticas e viravam espirais, ou o contrário. Hoje sabe-se que a evolução das galáxias é bem mais complicada do que isso — e a ideia original de Hubble é tratada como uma simplificação útil, não como uma sequência de estágios.

Espirais: as que ainda estão fabricando estrelas

São as galáxias das fotos de pôster, e a foto de capa deste artigo é uma delas. Uma espiral tem três partes: um bojo central, meio esférico e amarelado; um disco fino onde ficam os braços; e um halo difuso em volta, com aglomerados de estrelas velhas.

Os braços não são estruturas sólidas que giram junto com as estrelas — se fossem, teriam se enrolado e sumido há bilhões de anos, porque a parte de dentro do disco gira mais rápido que a de fora. A explicação aceita é que eles são ondas de compressão, regiões onde o gás fica momentaneamente mais denso. O gás comprimido desaba e forma estrelas novas, e é por isso que os braços são azulados e salpicados de manchas rosadas: o azul são estrelas jovens e quentes, o rosa é gás de hidrogênio brilhando em berçários de estrelas, assunto de O que é uma nebulosa? Tipos, como se formam e como ver.

É uma boa analogia pensar num engarrafamento: o congestionamento fica parado no mesmo trecho da estrada por horas, mas os carros dentro dele estão sempre entrando e saindo. Os braços são o engarrafamento; as estrelas são os carros.

A barra que atravessa o centro (e que a nossa galáxia tem)

Cerca de dois terços das galáxias espirais são do tipo barrada: em vez de os braços saírem direto do bojo, eles saem das pontas de uma barra reta de estrelas que corta o centro.

A Via Láctea é uma delas. Isso é difícil de perceber de dentro, porque moramos no meio do disco e vemos a nossa própria galáxia de perfil — o assunto está em O que é a Via Láctea e como ver a nossa galáxia do Brasil. Foi preciso mapear o movimento e a distância das estrelas por décadas para descobrir que existe uma barra ali.

Uma galáxia espiral barrada, com uma faixa reta de estrelas atravessando o centro e dois braços saindo das pontas dessa faixa
Uma espiral barrada fotografada pelo Hubble. Repare que os braços não saem do miolo: eles começam nas duas pontas da barra. A Via Láctea tem uma estrutura assim, e a gente mora dentro de um dos braços. Foto: NASA/GSFC

Elípticas: bolas de luz sem detalhe nenhum

Uma galáxia elíptica não tem braços, não tem disco e quase não tem poeira. É uma nuvem lisa de estrelas, mais brilhante no meio e desbotando para as bordas, com formato que vai de redondo a bem achatado.

A diferença de fundo em relação às espirais é o gás. Numa espiral, sobra gás frio no disco para continuar fabricando estrelas. Numa elíptica, o gás acabou ou foi aquecido demais, e a fabricação parou. O que resta é uma população de estrelas velhas e avermelhadas, que dá àquela luz um tom amarelado.

As elípticas são menos comuns que as espirais, mas incluem as maiores galáxias conhecidas, no centro de grandes aglomerados. A explicação mais aceita para isso é que elas se formam de fusões: quando duas espirais colidem ao longo de bilhões de anos, os discos organizados se desfazem e o que sobra é uma bola de estrelas em órbitas desordenadas.

Uma galáxia elíptica, um oval liso de luz esbranquiçada que fica mais fraco em direção às bordas, contra um fundo preto com galáxias distantes
Uma elíptica vista pelo Hubble: nenhum braço, nenhuma faixa de poeira, nenhum detalhe. Só um oval de luz. Os pontinhos avermelhados espalhados no fundo são outras galáxias, muito mais distantes. Foto: NASA/GSFC

Lenticulares: o tipo do meio

A lenticular (S0) é descrita pela NASA como um cruzamento entre espiral e elíptica: ela tem o bojo central e o disco típicos de uma espiral, mas não tem braços. Vista de perfil, parece uma lente — daí o nome.

São um bom lembrete de que a natureza não se importa com as nossas gavetas. O diapasão de Hubble tem caixinhas bem definidas; as galáxias reais vivem nos cantos entre elas.

Irregulares: as que não se encaixam

Uma parte das galáxias simplesmente não tem forma reconhecível. São as irregulares: manchas de estrelas sem bojo, sem disco, sem simetria. A NASA descreve formatos que vão de palitos de dente a anéis e a simples agrupamentos de estrelas.

Duas coisas costumam produzir uma irregular: ser pequena demais para que a gravidade organize o conjunto, ou ter sido deformada por um encontro com uma galáxia maior. As duas vizinhas mais famosas do céu do Brasil, as Nuvens de Magalhães, são irregulares — e a maior delas mostra sinais de estar sendo puxada pela Via Láctea.

As irregulares anãs são as menores galáxias que existem, com massas que a NASA situa entre 100 milhões e 10 bilhões de vezes a massa do Sol. Para dar escala: a Via Láctea inteira tem algo como 100 a 400 bilhões de estrelas.

Uma galáxia irregular, uma mancha azulada e desorganizada de estrelas sem braços nem centro definido, com estrelas brilhantes em primeiro plano
Uma galáxia irregular pelo Hubble. Não há braços, não há bojo, não há simetria: é um borrão de estrelas jovens. Galáxias assim costumam ser pequenas, e muitas foram deformadas pela gravidade de uma vizinha maior. Foto: NASA/GSFC

As galáxias ativas, que não são uma forma

Existe uma categoria que atravessa todas as outras e que vale conhecer, porque ela aparece muito em notícia. Cerca de 10% das galáxias conhecidas são ativas: o centro delas brilha mais de 100 vezes mais que todas as estrelas da galáxia somadas.

Isso não é uma forma, é um estado. A causa é o buraco negro supermassivo do centro engolindo matéria, e o disco de gás em volta dele esquentando a ponto de ofuscar a galáxia inteira — física explicada em Um buraco negro pode engolir a Terra?.

Os casos mais extremos são os quasares. A NASA registra mais de 1 milhão deles identificados; o mais distante conhecido está a cerca de 13 bilhões de anos-luz, e o mais próximo, chamado Markarian 231, a cerca de 600 milhões de anos-luz. A fase de quasar parece durar só uns 10 milhões de anos, o que é um piscar de olhos na vida de uma galáxia.

Resumo em uma tabela

Tipo Como reconhecer Fabrica estrelas novas?
Espiral (S) Braços enrolados saindo do bojo Sim, nos braços
Espiral barrada (SB) Braços saindo das pontas de uma barra Sim, nos braços
Lenticular (S0) Bojo e disco, mas sem braços Pouco ou nada
Elíptica (E0 a E7) Oval liso, sem detalhe Quase nada
Irregular Sem forma definida Sim, muitas vezes bastante

Perguntas frequentes

Quantos tipos de galáxias existem?

Na classificação mais usada são três formas principais — espiral, elíptica e irregular —, com a lenticular como tipo intermediário e a espiral barrada como subgrupo das espirais. Além disso existem as galáxias ativas, que não são uma forma e sim um estado: o centro delas brilha muito mais que o resto.

Qual é o tipo da Via Láctea?

A Via Láctea é uma galáxia espiral barrada. Tem um disco com braços, um bojo central e uma barra de estrelas atravessando o meio. Como moramos dentro do disco, só conseguimos vê-la de perfil, como uma faixa de luz cruzando o céu.

Qual é a diferença entre uma galáxia espiral e uma elíptica?

A espiral tem disco, braços e gás frio de sobra, então continua fabricando estrelas novas — por isso os braços são azulados. A elíptica é um oval liso, sem braços e praticamente sem gás, então quase não forma estrelas novas e é dominada por estrelas velhas e avermelhadas.

Por que os braços das galáxias espirais não se enrolam até sumir?

Porque eles não são estruturas fixas girando junto com as estrelas. Os braços são regiões onde o gás fica temporariamente mais comprimido, e as estrelas entram e saem deles o tempo todo, como carros atravessando um engarrafamento que fica parado no mesmo trecho da estrada.

Dá para ver outras galáxias a olho nu do Brasil?

Dá três. As duas Nuvens de Magalhães, que são irregulares, só se veem do hemisfério sul e são fáceis em céu escuro. E Andrômeda, que é espiral: a declinação dela é de cerca de +41°, o que a faz subir uns 25 graus no céu de São Paulo e uns 50 graus em Boa Vista, sempre para o lado norte. Nas três é preciso céu escuro, longe das luzes da cidade.

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