A Lua treme, sim. E não foi uma descoberta de agora: os astronautas da Apollo deixaram sismômetros no solo lunar entre 1969 e 1972, e esses aparelhos ficaram ligados até 30 de setembro de 1977, ouvindo o chão da Lua sem parar por quase oito anos.
O que eles ouviram surpreendeu. Existem quatro tipos diferentes de tremor lunar, por quatro causas diferentes, e o mais forte deles chega a 5,5 graus na mesma escala usada nos noticiários de terremoto aqui na Terra. Pior: enquanto um terremoto terrestre forte sacode tudo por um ou dois minutos, um abalo lunar pode durar mais de dez minutos. A Lua, quando é golpeada, não para de vibrar tão cedo.
Como se põe um sismômetro na Lua
O primeiro foi de Buzz Aldrin, na Apollo 11, em julho de 1969. Ele aparece na foto de capa deste artigo carregando duas caixas, uma em cada mão: numa delas ia o sismômetro.
Era um conjunto chamado EASEP, montado a poucos metros do módulo lunar e alimentado por dois painéis de células solares, que dão para ver abertos como duas asas na foto abaixo. As missões seguintes levaram uma versão maior e mais duradoura, alimentada por energia nuclear, e foi essa rede — montada nos pousos das Apollo 12, 14, 15 e 16 — que ficou de pé até 1977.

A ficha técnica do aparelho da Apollo 12, publicada pelo centro de dados da NASA, dá a medida do cuidado envolvido.
| A ficha do sismômetro da Apollo 12 | |
|---|---|
| Massa | 11,5 kg |
| Tamanho | cilindro de 23 cm por 29 cm |
| Material principal | berílio |
| Consumo | 4,3 a 7,4 watts |
| Menor movimento detectável | 0,3 nanômetro |
| Em operação | 19/11/1969 a 30/09/1977 |
Ele era feito principalmente de berílio e cabia num cilindro do tamanho de um balde pequeno, consumindo menos energia que uma lâmpada de geladeira.
E a sensibilidade é o número que impressiona de verdade: os sismômetros conseguiam detectar movimentos do solo de 0,3 nanômetro. Um nanômetro é um milionésimo de milímetro. Para ter ideia, 0,3 nanômetro é da ordem do tamanho de um punhado de átomos — o aparelho sentia o chão da Lua se deslocar por uma distância menor que a espessura de uma molécula. É por isso que ele precisava ser nivelado por controle remoto, com motores comandados da Terra.
Havia um detalhe divertido e irritante: o aparelho registrava sacolejos todos os dias ao amanhecer e ao anoitecer lunar. Não eram tremores de verdade. Era a própria manta térmica de mylar do instrumento, e o cabo que o ligava à estação central, dilatando e contraindo com a mudança brutal de temperatura.
Os quatro tipos de tremor lunar
Cada um tem uma causa diferente, e os dois primeiros são os que mais contam.
| Tipo | Onde nasce | Causa |
|---|---|---|
| Profundo | centenas de km de profundidade | a gravidade da Terra puxando e esticando a Lua |
| Raso | 20 a 30 km de profundidade | a Lua encolhendo enquanto esfria |
| De impacto | na superfície ou perto dela | meteoroides batendo na Lua |
| Térmico | bem na superfície | rocha dilatando do frio da noite para o calor do dia |
O profundo é o mais comum, e ele é, literalmente, culpa nossa. A Terra puxa a Lua, a Lua puxa a Terra, e essa puxada estica as estruturas internas do satélite — o mesmo mecanismo que levanta as marés no nosso mar, explicado em O que é maré? Por que o mar sobe e desce. Só que aqui a massa esticada é rocha, não água, e ela responde quebrando.
O raso é o mais forte, e a causa dele é a mais inesperada da lista.
A Lua está encolhendo, e é por isso que ela racha
Esta é a parte que costuma espantar quem ouve pela primeira vez.
A Lua ainda está perdendo calor. Ela se formou quente, num ambiente caótico de bombardeio de asteroides, e desde então vem esfriando. E o que esfria, encolhe. Como a casca de fora é quebradiça, ela não acompanha a retração do miolo: ela racha, e um pedaço da crosta se parte e sobe por cima do pedaço vizinho, formando um degrau. Geólogos chamam isso de falha de empurrão.
A analogia que a própria NASA usa é a de uma uva virando passa, e ela funciona bem: a polpa murcha e a casca enruga.
O número do encolhimento é modesto e, por isso mesmo, revelador: nos últimos várias centenas de milhões de anos, o diâmetro da Lua diminuiu cerca de 50 metros. É pouco — mas um corpo de 3.475 km de diâmetro encolhendo 50 metros é o suficiente para rachar a crosta inteira e gerar tremores de até 5,5 graus.
Essas rachaduras não são teoria. Elas foram vistas pelos astronautas da Apollo e continuam sendo fotografadas pela sonda que mapeia a Lua até hoje. Uma delas, na parede da cratera Slipher, perto do polo norte lunar, forma um paredão de cerca de 20 metros de altura — quase um prédio de cinco andares, erguido pela Lua se espremendo.
E a frase importante: os sinais indicam que ela continua encolhendo hoje.
Por que um tremor lunar dura tanto
Dez minutos de vibração é muito tempo. Na Terra, mesmo um terremoto grande se acalma em poucos minutos.
A diferença está no que existe debaixo dos pés. A crosta da Terra é cheia de água, de rocha porosa e de camadas que absorvem energia — as ondas se espalham e morrem rápido, como um grito dentro de um quarto acarpetado.
A Lua é seca. Não há água nenhuma para amortecer as vibrações, e o material da superfície é um entulho de pedra fragmentada, acumulado por bilhões de anos de impacto. O resultado é que a energia fica ricocheteando lá dentro, sem lugar para se dissipar — como um grito dentro de um ginásio vazio, que volta e volta. É daí que vem a descrição consagrada de que a Lua "ressoa como um sino" quando levam uma pancada.
Os cientistas da Apollo aproveitaram esse efeito de propósito. Eles jogaram pedaços de foguete na Lua para fazê-la vibrar: os estágios gastos do foguete Saturno e os módulos lunares já usados foram derrubados contra a superfície, em pontos e velocidades conhecidos. Como se sabia exatamente a massa e a velocidade de cada um, dava para calcular a energia da pancada e usar o resultado como calibração dos aparelhos. Foi batendo na Lua com lixo espacial controlado que se aprendeu a interpretar o que ela estava dizendo.
O que os tremores revelaram sobre o miolo da Lua
Esse é o verdadeiro motivo de ter levado sismômetros, e não só curiosidade.
Ouvir tremores é o único jeito de enxergar dentro de um mundo sem furá-lo. As ondas de um abalo atravessam o corpo inteiro e saem do outro lado modificadas: mais rápidas onde a rocha é densa, desviadas onde há fronteira entre camadas, barradas onde encontram material líquido. Quem registra a hora exata em que cada onda chegou a cada estação consegue remontar por onde elas passaram.
É a mesma lógica de bater com o nó do dedo numa parede para descobrir onde tem viga e onde é oco — só que em escala planetária e com quatro "ouvidos" espalhados pela face visível da Lua.
A ideia foi tão bem-sucedida que virou padrão. Quase cinquenta anos depois, a NASA repetiu a receita em outro mundo: a sonda InSight pousou um sismômetro em Marte em 2018 e ouviu mais de 1.300 tremores por lá, história contada em Marte tem terremoto? O que a NASA ouviu por lá. A InSight costuma ser lembrada como o primeiro sismômetro em outro planeta — e a palavra planeta é o que faz a frase ficar correta, porque na Lua já havia um desde 1969.
O que isso significa para quem vai voltar lá
A pergunta tem consequência prática agora, e não daqui a um século.
Os programas que pretendem instalar bases tripuladas na Lua vão precisar escolher onde pousar e onde construir. Tremor de 5,5 grau que dura dez minutos não derruba uma estrutura bem projetada, mas é exatamente o tipo de informação que decide o projeto — e as falhas de empurrão, que são as cicatrizes desses tremores, estão mapeadas da órbita. Construir em cima de uma delas é má ideia.
É mais um item na lista de coisas que a Lua ainda tem a dizer, junto com a água em gelo dos polos, assunto de Tem água na Lua? Onde está o gelo e quanto tem, e o que exatamente existe do outro lado, em O que existe do lado oculto da Lua?.




