Marte tem terremoto, sim — e não é raro. Entre 2018 e 2022, a sonda InSight, da NASA, registrou mais de 1.300 tremores no planeta. O maior deles aconteceu em 4 de maio de 2022 e teve magnitude 5, com as vibrações atravessando Marte de um lado a outro por pelo menos seis horas. Foi o maior abalo já detectado em outro planeta.
Esses tremores não são só curiosidade sísmica. Foi ouvindo cada um deles que descobrimos o que existe dentro de Marte — a espessura da crosta, o tamanho do núcleo, se ele é líquido ou sólido. Antes da InSight, isso era chute informado.
Como se escuta um planeta
A InSight decolou em 5 de maio de 2018 e pousou em Marte em 26 de novembro de 2018, às 11h52min59s no horário do Pacífico — 17h52 no horário de Brasília, que naquela data estava em horário de verão. A descida é a parte mais perigosa de qualquer missão marciana, assunto de Como uma sonda pousa em Marte? Os 7 minutos de terror.
Ela não era um rover: ficou parada no mesmo lugar os quatro anos inteiros. A missão dela era outra. Em 19 de dezembro de 2018, o braço robótico pegou um instrumento do convés e o depositou com cuidado no chão. Era o SEIS, um sismômetro fornecido pela agência espacial francesa, e foi a primeira vez na história que um sismômetro foi colocado na superfície de outro planeta.
A ideia por trás disso é a mesma de bater com o nó do dedo numa parede para descobrir onde tem viga e onde é oco. Quando um tremor acontece, as ondas atravessam o planeta inteiro e saem do outro lado mudadas: mais rápidas onde a rocha é densa, desviadas onde há uma fronteira entre camadas, refletidas onde encontram líquido. Quem registra essas ondas chegando, e a que horas, consegue remontar por onde elas passaram.
Um detalhe que diverte: o nome do instrumento aparece de dois jeitos nas próprias páginas da NASA — Seismic Experiment for Interior Structure na ficha da missão e Seismic Explorations for Interior Structure na legenda de uma das fotos oficiais. A sigla, SEIS, é a mesma.
O recorde: magnitude 5 em 4 de maio de 2022
O grande abalo chegou no sol 1.222 da missão — "sol" é como se chama um dia marciano. Era 4 de maio de 2022.
| Os maiores tremores registrados em Marte | Quando | Magnitude |
|---|---|---|
| O recorde | 4 de maio de 2022 | 5 |
| O recorde anterior | 25 de agosto de 2021 | 4,2 |
| Causado por queda de meteorito | 2021 | 4 |
Magnitude, aqui, é a mesma medida usada nos noticiários de terremoto na Terra: um número que cresce conforme a energia liberada, e em que cada ponto a mais representa um abalo bem mais forte, não só um pouco maior. A NASA descreve o resultado assim: um tremor de magnitude 5 é de porte médio para os padrões da Terra, mas está perto do limite máximo que os cientistas esperavam encontrar em Marte durante a missão. Bruce Banerdt, o investigador principal da missão no Laboratório de Propulsão a Jato, resumiu a espera numa frase: "desde que pousamos o sismômetro, em dezembro de 2018, estávamos esperando 'o grandão'".
Existe uma pequena divergência de contagem nas publicações da agência, e vale registrá-la: o comunicado de maio de 2022 fala em "mais de 1.313" tremores detectados até ali, enquanto o balanço final da missão fala em "mais de 1.300" eventos sísmicos no total. Dos registros, pouco mais de 50 tiveram sinal limpo o bastante para que a equipe conseguisse dizer de onde vieram.

Por que Marte treme, se não tem placas tectônicas
Na Terra, quase todo terremoto nasce no encontro de duas placas da crosta que empurram uma à outra. Marte não tem esse sistema: a crosta dele é uma peça só, sem placas deslizando.
Então de onde vêm os tremores? A NASA aponta duas fontes. A principal é o calor e a pressão do interior do planeta, que vão abrindo fraturas na rocha conforme o planeta esfria e se contrai — é um planeta rachando devagar, de dentro para fora. A segunda fonte é externa: meteoritos batendo no chão.
E a segunda rendeu uma descoberta de brinde. Um tremor de magnitude 4 registrado em 2021 foi depois identificado como o resultado de um dos maiores impactos de meteorito já flagrados em Marte. Quando a sonda Mars Reconnaissance Orbiter foi fotografar o local de cima, achou blocos de gelo de água revirados pela batida, enterrados logo abaixo da superfície — e mais perto do equador marciano do que qualquer gelo encontrado até então. Isso importa muito para quem pensa em mandar gente: água perto do equador é água em lugar quente o bastante para pousar. O que já se sabe sobre o assunto está em Tem vida em Marte? O que os rovers já encontraram.
Onde Marte treme mais
Os tremores de melhor qualidade vieram quase todos do mesmo endereço: Cerberus Fossae, um conjunto de fraturas longas e paralelas no chão marciano.
Não é coincidência. Segundo a NASA, aquela região mostra sinais de vulcanismo geologicamente recente — dos últimos dois milhões de anos. Dois milhões de anos parece muito, mas em escala planetária é ontem: é como dizer que a casa ainda está assentando. Cerberus Fossae é o lugar onde Marte ainda se mexe.
O que os tremores revelaram do interior de Marte
Esta é a colheita científica da missão, e ela é grande:
| Camada | O que a InSight mediu |
|---|---|
| Crosta, embaixo da sonda | 25 a 40 km de espessura, em três camadas internas |
| Camada mais de cima da crosta | cerca de 10 km, menos densa que o resto |
| Litosfera (casca fria e rígida) | cerca de 500 km de espessura |
| Manto superior | sondado por ondas que desceram a uns 800 km |
| Núcleo | derretido, com raio de cerca de 1.800 km |
O número do núcleo também aparece com dois valores nas publicações da NASA — cerca de 1.800 km no balanço final da missão e 1.830 km em comunicados anteriores. Em qualquer dos dois, o resultado foi uma surpresa: o núcleo é bem maior do que se imaginava, e também menos denso. Menos denso quer dizer que não é ferro puro: há elementos mais leves misturados ao metal, e isso derruba o ponto de fusão, o que ajuda a explicar como ele continua líquido mesmo depois de bilhões de anos esfriando.
O núcleo ainda é líquido, e isso refina uma história que já contamos
Aqui vale uma observação honesta sobre o nosso próprio site.
Em Por que Marte perdeu a atmosfera (e a Terra não)? explicamos que Marte perdeu o campo magnético global porque o interior esfriou e o metal "parou de circular do jeito necessário". A InSight mostra que a frase precisa ser lida com cuidado: o núcleo de Marte não solidificou. Ele continua derretido. O que parou foi o movimento organizado capaz de funcionar como um dínamo, não o derretimento em si.
A mesma missão trouxe uma confirmação do outro lado da história. A InSight levou o primeiro magnetômetro já pousado em Marte, e ele mediu as rochas antigas da crosta, de 61 metros a alguns quilômetros de profundidade: elas estão dez vezes mais magnetizadas do que as medições feitas de órbita sugeriam. Ou seja, o campo magnético que Marte teve no passado deixou uma marca ainda mais forte do que se pensava.
Como a poeira matou a missão
A InSight não foi desligada por falta de ciência para fazer. Foi a poeira.
A sonda dependia de dois painéis solares, e Marte é um planeta empoeirado — o assunto de Tempestade de poeira em Marte: o filme errou?. Ano após ano, a camada de pó sobre os painéis engrossou e a energia disponível caiu. Em 7 de maio de 2022, três dias depois do tremor recorde, a energia ficou abaixo do limite que obriga a sonda a entrar em modo de segurança. A missão foi encerrada oficialmente em 15 de dezembro de 2022.
As duas selfies da sonda contam essa história sem precisar de texto: a primeira, de dezembro de 2018, com os painéis azuis e limpos; a última, de abril de 2022, com tudo cor de ferrugem.





