Marte e vida fora da Terra

Marte tem terremoto? O que a NASA ouviu por lá

Tem. A InSight registrou mais de 1.300 entre 2018 e 2022, o maior de magnitude 5 — e foi ouvindo esses tremores que descobrimos o interior do planeta.

Publicado em 7 min de leitura
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O sismômetro em forma de cúpula hexagonal da sonda InSight pousado no chão alaranjado de Marte, ainda preso ao braço robótico
Foto: NASA/JPL-Caltech
Neste artigo
  1. Como se escuta um planeta
  2. O recorde: magnitude 5 em 4 de maio de 2022
  3. Por que Marte treme, se não tem placas tectônicas
  4. Onde Marte treme mais
  5. O que os tremores revelaram do interior de Marte
  6. O núcleo ainda é líquido, e isso refina uma história que já contamos
  7. Como a poeira matou a missão

Marte tem terremoto, sim — e não é raro. Entre 2018 e 2022, a sonda InSight, da NASA, registrou mais de 1.300 tremores no planeta. O maior deles aconteceu em 4 de maio de 2022 e teve magnitude 5, com as vibrações atravessando Marte de um lado a outro por pelo menos seis horas. Foi o maior abalo já detectado em outro planeta.

Esses tremores não são só curiosidade sísmica. Foi ouvindo cada um deles que descobrimos o que existe dentro de Marte — a espessura da crosta, o tamanho do núcleo, se ele é líquido ou sólido. Antes da InSight, isso era chute informado.

Como se escuta um planeta

A InSight decolou em 5 de maio de 2018 e pousou em Marte em 26 de novembro de 2018, às 11h52min59s no horário do Pacífico — 17h52 no horário de Brasília, que naquela data estava em horário de verão. A descida é a parte mais perigosa de qualquer missão marciana, assunto de Como uma sonda pousa em Marte? Os 7 minutos de terror.

Ela não era um rover: ficou parada no mesmo lugar os quatro anos inteiros. A missão dela era outra. Em 19 de dezembro de 2018, o braço robótico pegou um instrumento do convés e o depositou com cuidado no chão. Era o SEIS, um sismômetro fornecido pela agência espacial francesa, e foi a primeira vez na história que um sismômetro foi colocado na superfície de outro planeta.

A ideia por trás disso é a mesma de bater com o nó do dedo numa parede para descobrir onde tem viga e onde é oco. Quando um tremor acontece, as ondas atravessam o planeta inteiro e saem do outro lado mudadas: mais rápidas onde a rocha é densa, desviadas onde há uma fronteira entre camadas, refletidas onde encontram líquido. Quem registra essas ondas chegando, e a que horas, consegue remontar por onde elas passaram.

Um detalhe que diverte: o nome do instrumento aparece de dois jeitos nas próprias páginas da NASA — Seismic Experiment for Interior Structure na ficha da missão e Seismic Explorations for Interior Structure na legenda de uma das fotos oficiais. A sigla, SEIS, é a mesma.

O recorde: magnitude 5 em 4 de maio de 2022

O grande abalo chegou no sol 1.222 da missão — "sol" é como se chama um dia marciano. Era 4 de maio de 2022.

Os maiores tremores registrados em Marte Quando Magnitude
O recorde 4 de maio de 2022 5
O recorde anterior 25 de agosto de 2021 4,2
Causado por queda de meteorito 2021 4

Magnitude, aqui, é a mesma medida usada nos noticiários de terremoto na Terra: um número que cresce conforme a energia liberada, e em que cada ponto a mais representa um abalo bem mais forte, não só um pouco maior. A NASA descreve o resultado assim: um tremor de magnitude 5 é de porte médio para os padrões da Terra, mas está perto do limite máximo que os cientistas esperavam encontrar em Marte durante a missão. Bruce Banerdt, o investigador principal da missão no Laboratório de Propulsão a Jato, resumiu a espera numa frase: "desde que pousamos o sismômetro, em dezembro de 2018, estávamos esperando 'o grandão'".

Existe uma pequena divergência de contagem nas publicações da agência, e vale registrá-la: o comunicado de maio de 2022 fala em "mais de 1.313" tremores detectados até ali, enquanto o balanço final da missão fala em "mais de 1.300" eventos sísmicos no total. Dos registros, pouco mais de 50 tiveram sinal limpo o bastante para que a equipe conseguisse dizer de onde vieram.

A sonda InSight fotografada por ela mesma logo depois do pouso, com os dois painéis solares circulares limpos abertos sobre o chão vermelho de Marte
A primeira selfie da InSight, montada a partir de onze fotos tiradas em 6 de dezembro de 2018, dez dias depois do pouso. Os painéis ainda estão limpos. Foto: NASA/JPL-Caltech

Por que Marte treme, se não tem placas tectônicas

Na Terra, quase todo terremoto nasce no encontro de duas placas da crosta que empurram uma à outra. Marte não tem esse sistema: a crosta dele é uma peça só, sem placas deslizando.

Então de onde vêm os tremores? A NASA aponta duas fontes. A principal é o calor e a pressão do interior do planeta, que vão abrindo fraturas na rocha conforme o planeta esfria e se contrai — é um planeta rachando devagar, de dentro para fora. A segunda fonte é externa: meteoritos batendo no chão.

E a segunda rendeu uma descoberta de brinde. Um tremor de magnitude 4 registrado em 2021 foi depois identificado como o resultado de um dos maiores impactos de meteorito já flagrados em Marte. Quando a sonda Mars Reconnaissance Orbiter foi fotografar o local de cima, achou blocos de gelo de água revirados pela batida, enterrados logo abaixo da superfície — e mais perto do equador marciano do que qualquer gelo encontrado até então. Isso importa muito para quem pensa em mandar gente: água perto do equador é água em lugar quente o bastante para pousar. O que já se sabe sobre o assunto está em Tem vida em Marte? O que os rovers já encontraram.

Onde Marte treme mais

Os tremores de melhor qualidade vieram quase todos do mesmo endereço: Cerberus Fossae, um conjunto de fraturas longas e paralelas no chão marciano.

Não é coincidência. Segundo a NASA, aquela região mostra sinais de vulcanismo geologicamente recente — dos últimos dois milhões de anos. Dois milhões de anos parece muito, mas em escala planetária é ontem: é como dizer que a casa ainda está assentando. Cerberus Fossae é o lugar onde Marte ainda se mexe.

O que os tremores revelaram do interior de Marte

Esta é a colheita científica da missão, e ela é grande:

Camada O que a InSight mediu
Crosta, embaixo da sonda 25 a 40 km de espessura, em três camadas internas
Camada mais de cima da crosta cerca de 10 km, menos densa que o resto
Litosfera (casca fria e rígida) cerca de 500 km de espessura
Manto superior sondado por ondas que desceram a uns 800 km
Núcleo derretido, com raio de cerca de 1.800 km

O número do núcleo também aparece com dois valores nas publicações da NASA — cerca de 1.800 km no balanço final da missão e 1.830 km em comunicados anteriores. Em qualquer dos dois, o resultado foi uma surpresa: o núcleo é bem maior do que se imaginava, e também menos denso. Menos denso quer dizer que não é ferro puro: há elementos mais leves misturados ao metal, e isso derruba o ponto de fusão, o que ajuda a explicar como ele continua líquido mesmo depois de bilhões de anos esfriando.

O núcleo ainda é líquido, e isso refina uma história que já contamos

Aqui vale uma observação honesta sobre o nosso próprio site.

Em Por que Marte perdeu a atmosfera (e a Terra não)? explicamos que Marte perdeu o campo magnético global porque o interior esfriou e o metal "parou de circular do jeito necessário". A InSight mostra que a frase precisa ser lida com cuidado: o núcleo de Marte não solidificou. Ele continua derretido. O que parou foi o movimento organizado capaz de funcionar como um dínamo, não o derretimento em si.

A mesma missão trouxe uma confirmação do outro lado da história. A InSight levou o primeiro magnetômetro já pousado em Marte, e ele mediu as rochas antigas da crosta, de 61 metros a alguns quilômetros de profundidade: elas estão dez vezes mais magnetizadas do que as medições feitas de órbita sugeriam. Ou seja, o campo magnético que Marte teve no passado deixou uma marca ainda mais forte do que se pensava.

Como a poeira matou a missão

A InSight não foi desligada por falta de ciência para fazer. Foi a poeira.

A sonda dependia de dois painéis solares, e Marte é um planeta empoeirado — o assunto de Tempestade de poeira em Marte: o filme errou?. Ano após ano, a camada de pó sobre os painéis engrossou e a energia disponível caiu. Em 7 de maio de 2022, três dias depois do tremor recorde, a energia ficou abaixo do limite que obriga a sonda a entrar em modo de segurança. A missão foi encerrada oficialmente em 15 de dezembro de 2022.

As duas selfies da sonda contam essa história sem precisar de texto: a primeira, de dezembro de 2018, com os painéis azuis e limpos; a última, de abril de 2022, com tudo cor de ferrugem.

A sonda InSight fotografada por ela mesma no fim da missão, com os painéis solares completamente cobertos de poeira vermelha
A última selfie da InSight, de 24 de abril de 2022. Comparada à primeira, mostra por que a missão acabou: os painéis solares sumiram debaixo da poeira. Foto: NASA/JPL-Caltech

Perguntas frequentes

Marte tem terremoto de verdade?

Tem. A sonda InSight registrou mais de 1.300 tremores entre dezembro de 2018 e o fim de 2022. Eles costumam ser mais fracos que os terremotos terrestres, e o maior de todos, em 4 de maio de 2022, foi de magnitude 5 — considerado de porte médio para os padrões da Terra.

Se Marte não tem placas tectônicas, por que ele treme?

Porque tremor não depende só de placas. Segundo a NASA, a maior parte dos abalos marcianos vem do calor e da pressão internos, que fraturam a rocha conforme o planeta esfria e encolhe. A outra fonte são meteoritos batendo na superfície, que também produzem ondas sísmicas registráveis.

O que tem dentro de Marte?

Pelas medições da InSight: uma crosta de 25 a 40 km dividida em três camadas, uma casca rígida de cerca de 500 km, um manto e um núcleo derretido com raio em torno de 1.800 km. O núcleo é maior e menos denso que o esperado, o que indica elementos leves misturados ao ferro.

Dá para ouvir um terremoto marciano?

Não com os ouvidos, no sentido comum. O sismômetro registra vibrações do solo, não som no ar — a diferença está explicada em Existe som no espaço? Por que ninguém ouve nada lá fora. A NASA converteu alguns desses registros para frequências audíveis e publicou os arquivos, mas o que se ouve é uma tradução, não a gravação direta de um barulho.

Por que a missão InSight acabou?

Por falta de energia. A sonda funcionava com painéis solares, e a poeira marciana foi se acumulando sobre eles ao longo de quatro anos até deixar de gerar o mínimo necessário. A NASA encerrou oficialmente a missão em 15 de dezembro de 2022, depois de a sonda já ter cumprido e estendido os objetivos originais.

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