Dinheiro e carreira

A piscina onde a NASA ensaia caminhada espacial

São 23 milhões de litros e 12 metros de fundo. Entenda por que cada hora de caminhada espacial custa sete horas de treino debaixo da água.

Publicado em 8 min de leitura
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Dois astronautas de traje espacial branco submersos na piscina de treinamento, com um mergulhador de preto ao fundo
Foto: Mark Sowa
Neste artigo
  1. Uma piscina que é um prédio deitado
  2. Por que água, e não um avião ou um cabo
  3. O que a piscina não consegue imitar
  4. Sete horas de piscina para cada hora lá fora
  5. O que está no fundo da piscina
  6. A piscina também serve para a Lua
  7. Como se entra nessa piscina

Toda caminhada espacial é ensaiada antes, dentro de uma piscina gigante em Houston. Ela se chama Laboratório de Flutuabilidade Neutra, tem 23 milhões de litros de água e 12 metros de profundidade, e guarda no fundo réplicas em tamanho real de pedaços da Estação Espacial. A regra de ouro do lugar é brutal: para cada hora de trabalho do lado de fora da nave, o astronauta passa cerca de sete horas submerso. E o assunto está em alta porque a NASA abriu inscrições para novos astronautas em 7 de novembro de 2026, com prazo até 3 de dezembro — quem passar vai parar nessa água.

Uma piscina que é um prédio deitado

Os números da NASA para a piscina são estes:

Medida Valor
Comprimento 61,5 metros (202 pés)
Largura 31,1 metros (102 pés)
Profundidade 12,2 metros (40 pés)
Volume 6,2 milhões de galões
Água Doce e clorada
Temperatura 28,9 a 30 °C

Seis vírgula dois milhões de galões não dizem nada para ninguém no Brasil, então convertemos: são aproximadamente 23,5 milhões de litros. Uma piscina olímpica, com seus 50 metros de comprimento, 25 de largura e 2 de profundidade, leva 2,5 milhões de litros — ou seja, cabem mais de nove piscinas olímpicas ali dentro.

Os 12,2 metros de fundo equivalem a um prédio de quatro andares, de cabeça para baixo. Se você jogasse um sobrado de dois pavimentos lá dentro, ele sumiria com folga.

Um aviso de honestidade sobre esse volume, porque páginas diferentes da NASA publicam números diferentes. A página da instalação em Houston diz 6,2 milhões de galões, que dão os 23,5 milhões de litros acima. Outros textos da agência publicam 22,7 milhões de litros, que correspondem a 6,0 milhões de galões. A diferença é de arredondamento entre versões, e nós ficamos com o valor da página da própria instalação. A conta pelas medidas confirma a ordem de grandeza: 61,5 × 31,1 × 12,2 dá cerca de 23,3 milhões de litros, o que bate com o número maior.

Por que água, e não um avião ou um cabo

A pergunta óbvia é por que a NASA escolheu uma piscina para imitar o espaço, que é justamente o lugar sem água.

A resposta está no nome da instalação: flutuabilidade neutra. Um corpo dentro da água pode afundar, boiar ou ficar parado onde foi deixado. Esse terceiro caso é a flutuabilidade neutra, e é o que a equipe persegue: eles penduram pesos de chumbo e flutuadores de espuma no traje do astronauta, pouco a pouco, até que ele nem suba nem desça. A partir daí, largado a oito metros de fundo, ele fica ali.

Visto de fora, é a cara da ausência de peso. E, diferentemente de um voo parabólico de avião, que dá vinte e poucos segundos de queda livre por vez, a piscina dá horas seguidas. Para ensaiar uma tarefa que vai durar seis horas lá em cima, só a água serve.

Por que os astronautas flutuam de verdade em órbita — que é um fenômeno diferente deste — está explicado em O que é gravidade? E por que os astronautas flutuam.

O que a piscina não consegue imitar

Aqui mora a parte que quase nenhuma reportagem conta, e ela é importante para não dar ao leitor uma ideia errada.

A água imita a ausência de peso, mas não é ausência de peso. Duas diferenças mandam no treino:

A primeira é o arrasto. Água é grossa. Mover um braço dentro dela custa esforço e, principalmente, a água freia o movimento sozinha. No vácuo não há nada freando: se o astronauta empurrar uma caixa, ela sai andando e não para. Ou seja, a piscina é mais fácil que o espaço em termos de controle, e mais difícil em termos de esforço.

A segunda é o próprio peso do corpo. Lá em cima, o astronauta não sente peso nenhum. Na piscina, o conjunto está equilibrado, mas o corpo dele continua sendo puxado para baixo dentro do traje. Se ele está de cabeça para baixo, ele sente que está de cabeça para baixo, e o sangue vai para a cabeça. Depois de horas, dói.

Por isso há limites rígidos de tempo: os astronautas costumam ficar até seis horas seguidas na água num dia de treino, e os mergulhadores de apoio, até cinco.

Astronauta sorrindo, com capuz de comunicação e parte superior do traje espacial branco, sentado na borda da piscina de treinamento
Um astronauta aguarda o início de uma sessão de treino na beira do tanque, em 2008, já com o capuz de comunicação e a parte de cima do traje. A água da piscina aparece ao fundo, à esquerda. Foto: NASA/JSC

Sete horas de piscina para cada hora lá fora

A conta que a NASA usa é mais ou menos esta: sete horas de treino na água para cada hora de caminhada espacial programada.

Vale registrar que a própria agência publica variações. Algumas páginas dão a proporção de sete para um; uma ficha técnica de 2015 fala em cerca de dez horas de piscina por hora no espaço; e um texto histórico descreve a média como sendo de sete a dez horas. Usamos o sete por ser o número mais repetido nas páginas da agência, mas o leitor deve ler isso como uma faixa, não como uma constante.

Faça a multiplicação e o tamanho do esforço aparece. Uma caminhada espacial típica dura de seis a sete horas. A sete por um, isso dá entre 42 e 49 horas de piscina — mais de uma semana de trabalho em período integral, para uma única saída. E esse ensaio não é feito uma vez: é repetido até a sequência de movimentos virar automática.

Por que todo esse ensaio é tão caro de errar fica claro quando se vê o que mais o astronauta precisa fazer antes de abrir a escotilha, incluindo horas respirando oxigênio puro para limpar o nitrogênio do sangue, em Por que o astronauta respira oxigênio puro antes de sair?.

O que está no fundo da piscina

Não é uma piscina vazia. No fundo ficam réplicas em tamanho real de equipamentos espaciais, incluindo partes da Estação Espacial. O astronauta não treina "flutuar": ele treina aquele parafuso, naquele painel, naquele corrimão, na posição exata em que vai encontrá-los a 400 km de altura.

Em volta dele trabalha uma equipe de mergulhadores profissionais certificados, que ajustam os pesos, filmam, posicionam ferramentas e cuidam da segurança. O laboratório usa tanto mergulho autônomo com cilindro quanto ar fornecido da superfície, com ar comum e com nitrox, e mantém uma câmara hiperbárica no próprio local — aquela usada para tratar acidentes de descompressão. Há ainda uma câmara de altitude, sala de atendimento médico e uma sala limpa classe ISO 8 para manutenção dos trajes, além de uma oficina que fabrica e conserta as réplicas.

Astronauta de traje espacial branco com o capacete fechado, visto de perto, pouco antes de entrar na água
Um candidato a astronauta se prepara para o treino submerso em Houston, em novembro de 2018. O traje usado na piscina é uma versão de treinamento do mesmo modelo que voa. Foto: Robert Markowitz - NASA - Johnso

A piscina também serve para a Lua

Um detalhe do material da NASA sobre a instalação aponta para o futuro: ela declara ter experiência extensa em manipular a flutuabilidade para simular gravidade total ou parcial.

Isso é mais do que parece. Mexendo nos pesos e flutuadores, a mesma piscina que imita a ausência de peso pode imitar a gravidade da Lua, que é cerca de um sexto da nossa. Em vez de deixar o astronauta neutro, deixa-se ele levemente pesado — e ele passa a caminhar no fundo com o peso aparente que teria lá. Para um programa que pretende botar gente de volta na superfície lunar, treinar a caminhada antes, aqui embaixo, é exatamente o que essa água permite.

Vale notar que nem toda ideia de saída espacial passa pela piscina do mesmo jeito. Existem conceitos que mudam a própria forma de vestir o traje e sair, como o descrito em O que é um suitport, o traje que fica do lado de fora.

Como se entra nessa piscina

Em 7 de novembro de 2026, a NASA anunciou a abertura de inscrições para a próxima turma de astronautas. O prazo para enviar a documentação completa vai até as 23h59 do dia 3 de dezembro de 2026 no horário do leste dos Estados Unidos — o que corresponde a 1h59 da madrugada de 4 de dezembro em Brasília, meia-noite e 59 em Manaus e Cuiabá, e 23h59 do dia 3 no Acre.

Os requisitos publicados incluem cidadania americana, mestrado em uma área de ciências, tecnologia, engenharia ou matemática — com caminhos alternativos como dois anos de doutorado, diploma de medicina ou a Escola de Pilotos de Prova —, pelo menos três anos de experiência profissional depois do diploma e aprovação no exame médico de voo de longa duração. Pilotos precisam comprovar um mínimo de horas, como 750 horas de comando em jatos de alto desempenho.

A escala dá a dimensão da disputa: na rodada anterior, aberta em 2024, a NASA recebeu mais de 8 mil inscrições e escolheu 10 candidatos em 2025. Essa turma está agora cumprindo quase dois anos de treinamento. A próxima seleção é esperada para o fim de 2027.

A exigência de cidadania americana é o ponto em que a maior parte dos leitores brasileiros para — e existem outros caminhos, que estão reunidos em Como se tornar astronauta sendo brasileiro. Os detalhes de salário e de como funciona o resto da seleção estão em Quanto ganha um astronauta da NASA (e como é a seleção).

Perguntas frequentes

Onde fica a piscina em que a NASA treina caminhada espacial?

No Laboratório de Flutuabilidade Neutra, perto do Centro Espacial Johnson, em Houston, no Texas. Ela tem 61,5 metros de comprimento, 31,1 de largura, 12,2 de profundidade e cerca de 23,5 milhões de litros de água doce clorada, mantida entre 28,9 e 30 °C.

Quantas horas de treino cada caminhada espacial exige?

A proporção mais citada pela NASA é de cerca de sete horas de piscina para cada hora de caminhada espacial, e algumas publicações da própria agência falam em sete a dez. Como uma saída costuma durar de seis a sete horas, o ensaio passa facilmente de 40 horas.

Treinar na água é igual a estar sem peso?

Não. A água imita bem a sensação de flutuar, mas ela freia os movimentos, o que não acontece no vácuo, e o corpo continua sentindo o próprio peso dentro do traje. Por isso o treino é limitado a cerca de seis horas seguidas por dia.

O que tem no fundo da piscina?

Réplicas em tamanho real de equipamentos espaciais, inclusive partes da Estação Espacial. O astronauta ensaia a tarefa exata que vai executar, nas mesmas posições, acompanhado por uma equipe de mergulhadores profissionais.

Brasileiro pode se inscrever para astronauta da NASA?

Não para o corpo de astronautas da NASA, que exige cidadania americana. As inscrições abertas em 7 de novembro de 2026, com prazo até 3 de dezembro, trazem esse requisito. Existem outros caminhos possíveis para brasileiros, por cidadania europeia ou acordos entre governos.

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