Medos e assuntos virais

O asteroide que matou os dinossauros: o que se sabe

Uma pedra de mais de 10 km caiu no México a 90 mil km/h e abriu uma cratera de 180 km. O que a NASA publica — e onde ela discorda de si mesma.

Publicado em 7 min de leitura
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A cratera de impacto circular de Manicouagan, no Canadá, vista da Estação Espacial como um anel branco de gelo no meio da floresta
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. A pedra: entre 10 e 20 km, a 90 mil km/h
  2. O buraco que ela deixou, e por que você não consegue vê-lo
  3. Como descobriram, e quem achou primeiro
  4. O que matou os dinossauros não foi a batida
  5. Quantas espécies morreram? Quatro respostas
  6. Com que frequência cai uma pedra dessas
  7. Era um asteroide mesmo, ou um cometa?

O asteroide que matou os dinossauros caiu há cerca de 66 milhões de anos na ponta da península de Yucatán, no México. Tinha mais de 10 quilômetros de diâmetro — mais alto que o Everest — e vinha a mais de 25 km por segundo, ou 90 mil km/h. A batida abriu um buraco de pelo menos 180 km de largura e 900 metros de profundidade, chamado hoje de cratera de Chicxulub. E, ao contrário do que todo filme mostra, não foi o impacto que matou os dinossauros: foi o escuro que veio depois.

Este artigo usa só o que a NASA publica. Isso inclui uma coisa que pouca gente conta: as páginas da própria agência não concordam entre si sobre o tamanho da pedra, o tamanho do buraco e quantas espécies morreram. Em vez de escolher um número em silêncio, mostramos todos.

A pedra: entre 10 e 20 km, a 90 mil km/h

Comece pela escala, porque ela é difícil de sentir. Uma pedra de 10 km de diâmetro, posta em pé no chão, seria mais alta que o Everest, que tem 8,849 km — e o nosso artigo Monte Olimpo: a maior montanha do Sistema Solar usa o mesmo número como régua.

Agora a velocidade. Um avião de carreira cruza a uns 900 km/h. O asteroide chegou a mais de 90 mil km/h, cem vezes mais rápido. Nessa velocidade, ele atravessou os 100 km de atmosfera em cerca de quatro segundos — tempo curto demais para o ar frear qualquer coisa daquele tamanho.

Quanto é 10 km exatamente? Depende da página. Veja:

Fonte da NASA Tamanho do asteroide
Comunicado do JPL, 1994 10 a 20 km
Comunicado do JPL, 1998 10 a 14 km
Página do Instituto de Astrobiologia 10 a 19 km (6 a 12 milhas)
Texto publicado pela NASA em 2001 "mais de 10 km"

Nenhuma está errada. Ninguém mediu a pedra: ela se vaporizou no impacto. O tamanho é calculado de trás para a frente, a partir do buraco, da energia estimada e da quantidade de material espalhado — e cada modelo dá uma faixa um pouco diferente.

A energia liberada, segundo o texto que a NASA publica sobre a perfuração científica da cratera, equivale a dez mil vezes todo o arsenal nuclear do mundo.

O buraco que ela deixou, e por que você não consegue vê-lo

A página de fatos sobre asteroides da NASA descreve a cratera de Chicxulub como tendo 180 km de largura e 900 m de profundidade. Para ter noção, 180 km é metade do caminho entre São Paulo e o Rio de Janeiro em linha reta.

Outros textos da agência falam em cerca de 200 km, e o comunicado mais antigo, de 1994, dá uma faixa de 180 a 300 km. A diferença existe porque uma cratera desse porte não tem uma borda só: tem anéis, e depende de qual anel você chama de "a cratera".

E aqui está a parte frustrante: não dá para ver. A cratera está enterrada sob cerca de 1 quilômetro de sedimento do fundo do mar e da plataforma de Yucatán. Quem passar de avião sobre Mérida não vê nada. O que existe na superfície é um arco de poços naturais de água, os cenotes, acompanhando a borda enterrada.

As luzes das cidades da península de Yucatán vistas do alto à noite, com riscos de estrelas no céu acima
A península de Yucatán à noite, fotografada da Estação Espacial a 415 km de altura. A cratera está debaixo dessas luzes, enterrada sob cerca de 1 km de sedimento. Foto: NASA/JSC

Para enxergar como é uma cratera desse tipo, é preciso procurar outra. A foto que abre este artigo é a de Manicouagan, no Canadá: um anel aberto há 214 milhões de anos, hoje ocupado por um lago em forma de rosca e bem visível da órbita porque ali o gelo e a rocha não cobriram a cicatriz.

Como descobriram, e quem achou primeiro

A ideia de que um impacto acabou com os dinossauros foi proposta em 1980 por uma equipe da Universidade da Califórnia em Berkeley, liderada pelo físico Luis Alvarez, prêmio Nobel, e pelo filho dele, o geólogo Walter Alvarez. Na época a hipótese foi recebida com muita desconfiança: parecia catastrofismo.

A cratera, porém, já tinha sido encontrada — por gente que procurava outra coisa. Os geofísicos Antonio Camargo-Zanoguera e Glen Penfield detectaram a estrutura circular enquanto mapeavam Yucatán em busca de petróleo, para a estatal mexicana Pemex. Chegaram a perfurar ali, sem achar óleo nenhum. Só no começo dos anos 1990, com a análise das amostras guardadas daquelas perfurações, ficou claro que aquele anel enterrado era a cratera que a hipótese dos Alvarez previa.

Depois vieram as provas espalhadas pela região. Uma expedição liderada por Adriana Ocampo, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, e por Kevin Pope encontrou material ejetado em Alvaro Obregón, a cerca de 225 km da borda, e, em Belize, a cerca de 467 km, esférulas de vidro verde — gotas de rocha derretida que voaram pelo ar e se solidificaram antes de cair.

O que matou os dinossauros não foi a batida

Este é o ponto que os filmes erram. A explosão, o terremoto e a onda gigante mataram o que estava por perto. O que acabou com a vida no planeta inteiro foi outra coisa: o céu fechou.

O chão de Yucatán é rico em gipsita e outros minerais cheios de enxofre. A batida vaporizou essa rocha e jogou na atmosfera, segundo os cálculos que a NASA publica, entre 35 e 770 bilhões de toneladas de enxofre, mais centenas de bilhões de toneladas de gás carbônico e vapor d'água. Enxofre no ar vira aerossol, e aerossol reflete luz.

O resultado, descrito pelo comunicado do JPL: cerca de meio ano de escuridão total e uma queda de temperatura que levou o planeta inteiro para perto do congelamento, com os efeitos ambientais durando uma década.

Sem luz, as plantas param. Sem plantas, os herbívoros morrem. Sem herbívoros, os carnívoros vão junto. É uma extinção que começa pela base da cadeia alimentar, e por isso ela pegou o oceano com a mesma força que pegou a terra firme.

Quem sobreviveu foi o pequeno, o que comia qualquer coisa e o que conseguia se esconder. Entre eles, os nossos antepassados.

Quantas espécies morreram? Quatro respostas

Fonte da NASA Proporção de espécies extintas
Página de fatos sobre asteroides mais de 70%
Comunicado do JPL, 1998 cerca de 75%
Instituto de Astrobiologia pelo menos 50%
Texto publicado pela NASA em 2001 mais de 50% da fauna e flora

De novo, não é descuido. Contar espécies extintas há 66 milhões de anos significa contar fósseis, e o registro fóssil é incompleto por natureza: bichos de casca dura e vida no mar raso deixam muito mais rastro do que bichos pequenos de floresta. Dependendo de quais grupos entram na conta, o número se move.

Vale registrar outra divergência, menor e mais curiosa: todas as páginas da NASA que consultamos dizem 65 milhões de anos. O valor mais aceito hoje, e o que este site usa, é 66 milhões. A diferença vem de uma nova datação da fronteira geológica, feita depois que aquelas páginas foram escritas.

Com que frequência cai uma pedra dessas

A própria NASA dá a estatística, e ela é tranquilizadora:

Tamanho do asteroide Com que frequência atinge a Terra O que faz
50 m a cada mil anos estrago local
140 m a cada 20 mil anos cratera de 1 a 2 km; destrói uma região
1 km a cada 700 mil anos cratera de 10 km; devastação global
10 km a cada 100 milhões de anos cratera de 100 km; extinção em massa

Ou seja: a pedra de Chicxulub é o tipo de evento que acontece uma vez a cada cem milhões de anos, e o último foi há 66 milhões. Mais importante que a estatística, porém, é que hoje existe quem vigie o céu, e já existe um teste de desvio de asteroide feito na prática. Isso está em Um asteroide vai atingir a Terra? O que a NASA monitora de verdade e em Sonda Hera chega ao asteroide que a NASA acertou.

Superfície cinzenta e cheia de crateras do asteroide Eros, com uma região de sela no centro, sobre fundo preto
O asteroide Eros fotografado pela sonda NEAR Shoemaker em 22 de março de 2000, a 208 km de distância. Eros tem cerca de 34 km de comprimento, o triplo do que caiu em Yucatán. Foto: NASA/JPL/JHUAPL

Era um asteroide mesmo, ou um cometa?

As páginas da NASA alternam entre "asteroide" e "asteroide ou cometa", e a diferença não é acadêmica: um cometa chega mais rápido e é feito de gelo e poeira, enquanto um asteroide é pedra ou metal. A distinção entre os dois está em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.

Pelo que a agência publica, o candidato mais provável continua sendo um asteroide vindo do cinturão entre Marte e Júpiter, assunto de Cinturão de Asteroides: o que é e por que não virou planeta. Mas a hipótese do cometa nunca foi descartada por completo, e é honesto dizer isso.

Perguntas frequentes

De que tamanho era o asteroide que matou os dinossauros?

As páginas da NASA dão faixas diferentes, todas acima de 10 km: de 10 a 20 km num comunicado de 1994, de 10 a 14 km num de 1998. A pedra se vaporizou no impacto, então o tamanho é calculado a partir da cratera e da energia estimada, nunca medido.

Onde fica a cratera do asteroide que matou os dinossauros?

Na ponta da península de Yucatán, no México, centrada perto da localidade de Puerto Chicxulub, não muito longe de Mérida. Metade dela está sob o mar. A estrutura inteira está enterrada sob cerca de 1 km de sedimento, então não é possível vê-la do chão nem do ar.

Os dinossauros morreram na hora do impacto?

Não. A explosão matou o que estava na região. A extinção global veio do que aconteceu depois: poeira e enxofre bloquearam a luz do Sol por cerca de meio ano, a temperatura despencou para perto do congelamento e os efeitos duraram uma década. Sem luz, as plantas pararam, e a cadeia alimentar ruiu de baixo para cima.

Pode acontecer de novo?

Pode, mas a estatística da NASA aponta um impacto desse porte a cada cem milhões de anos. A diferença em relação ao tempo dos dinossauros é que hoje há telescópios catalogando os asteroides próximos e já houve um teste real de desvio de rota, com a missão DART, em 2022.

Por que a NASA fala em 65 milhões de anos e este site fala em 66?

As páginas da agência que tratam do assunto foram escritas entre 1994 e 2001, quando a fronteira geológica entre o Cretáceo e o período seguinte era datada em 65 milhões de anos. Medições posteriores ajustaram esse limite para cerca de 66 milhões, que é o valor mais usado hoje.

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