O asteroide que matou os dinossauros caiu há cerca de 66 milhões de anos na ponta da península de Yucatán, no México. Tinha mais de 10 quilômetros de diâmetro — mais alto que o Everest — e vinha a mais de 25 km por segundo, ou 90 mil km/h. A batida abriu um buraco de pelo menos 180 km de largura e 900 metros de profundidade, chamado hoje de cratera de Chicxulub. E, ao contrário do que todo filme mostra, não foi o impacto que matou os dinossauros: foi o escuro que veio depois.
Este artigo usa só o que a NASA publica. Isso inclui uma coisa que pouca gente conta: as páginas da própria agência não concordam entre si sobre o tamanho da pedra, o tamanho do buraco e quantas espécies morreram. Em vez de escolher um número em silêncio, mostramos todos.
A pedra: entre 10 e 20 km, a 90 mil km/h
Comece pela escala, porque ela é difícil de sentir. Uma pedra de 10 km de diâmetro, posta em pé no chão, seria mais alta que o Everest, que tem 8,849 km — e o nosso artigo Monte Olimpo: a maior montanha do Sistema Solar usa o mesmo número como régua.
Agora a velocidade. Um avião de carreira cruza a uns 900 km/h. O asteroide chegou a mais de 90 mil km/h, cem vezes mais rápido. Nessa velocidade, ele atravessou os 100 km de atmosfera em cerca de quatro segundos — tempo curto demais para o ar frear qualquer coisa daquele tamanho.
Quanto é 10 km exatamente? Depende da página. Veja:
| Fonte da NASA | Tamanho do asteroide |
|---|---|
| Comunicado do JPL, 1994 | 10 a 20 km |
| Comunicado do JPL, 1998 | 10 a 14 km |
| Página do Instituto de Astrobiologia | 10 a 19 km (6 a 12 milhas) |
| Texto publicado pela NASA em 2001 | "mais de 10 km" |
Nenhuma está errada. Ninguém mediu a pedra: ela se vaporizou no impacto. O tamanho é calculado de trás para a frente, a partir do buraco, da energia estimada e da quantidade de material espalhado — e cada modelo dá uma faixa um pouco diferente.
A energia liberada, segundo o texto que a NASA publica sobre a perfuração científica da cratera, equivale a dez mil vezes todo o arsenal nuclear do mundo.
O buraco que ela deixou, e por que você não consegue vê-lo
A página de fatos sobre asteroides da NASA descreve a cratera de Chicxulub como tendo 180 km de largura e 900 m de profundidade. Para ter noção, 180 km é metade do caminho entre São Paulo e o Rio de Janeiro em linha reta.
Outros textos da agência falam em cerca de 200 km, e o comunicado mais antigo, de 1994, dá uma faixa de 180 a 300 km. A diferença existe porque uma cratera desse porte não tem uma borda só: tem anéis, e depende de qual anel você chama de "a cratera".
E aqui está a parte frustrante: não dá para ver. A cratera está enterrada sob cerca de 1 quilômetro de sedimento do fundo do mar e da plataforma de Yucatán. Quem passar de avião sobre Mérida não vê nada. O que existe na superfície é um arco de poços naturais de água, os cenotes, acompanhando a borda enterrada.

Para enxergar como é uma cratera desse tipo, é preciso procurar outra. A foto que abre este artigo é a de Manicouagan, no Canadá: um anel aberto há 214 milhões de anos, hoje ocupado por um lago em forma de rosca e bem visível da órbita porque ali o gelo e a rocha não cobriram a cicatriz.
Como descobriram, e quem achou primeiro
A ideia de que um impacto acabou com os dinossauros foi proposta em 1980 por uma equipe da Universidade da Califórnia em Berkeley, liderada pelo físico Luis Alvarez, prêmio Nobel, e pelo filho dele, o geólogo Walter Alvarez. Na época a hipótese foi recebida com muita desconfiança: parecia catastrofismo.
A cratera, porém, já tinha sido encontrada — por gente que procurava outra coisa. Os geofísicos Antonio Camargo-Zanoguera e Glen Penfield detectaram a estrutura circular enquanto mapeavam Yucatán em busca de petróleo, para a estatal mexicana Pemex. Chegaram a perfurar ali, sem achar óleo nenhum. Só no começo dos anos 1990, com a análise das amostras guardadas daquelas perfurações, ficou claro que aquele anel enterrado era a cratera que a hipótese dos Alvarez previa.
Depois vieram as provas espalhadas pela região. Uma expedição liderada por Adriana Ocampo, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, e por Kevin Pope encontrou material ejetado em Alvaro Obregón, a cerca de 225 km da borda, e, em Belize, a cerca de 467 km, esférulas de vidro verde — gotas de rocha derretida que voaram pelo ar e se solidificaram antes de cair.
O que matou os dinossauros não foi a batida
Este é o ponto que os filmes erram. A explosão, o terremoto e a onda gigante mataram o que estava por perto. O que acabou com a vida no planeta inteiro foi outra coisa: o céu fechou.
O chão de Yucatán é rico em gipsita e outros minerais cheios de enxofre. A batida vaporizou essa rocha e jogou na atmosfera, segundo os cálculos que a NASA publica, entre 35 e 770 bilhões de toneladas de enxofre, mais centenas de bilhões de toneladas de gás carbônico e vapor d'água. Enxofre no ar vira aerossol, e aerossol reflete luz.
O resultado, descrito pelo comunicado do JPL: cerca de meio ano de escuridão total e uma queda de temperatura que levou o planeta inteiro para perto do congelamento, com os efeitos ambientais durando uma década.
Sem luz, as plantas param. Sem plantas, os herbívoros morrem. Sem herbívoros, os carnívoros vão junto. É uma extinção que começa pela base da cadeia alimentar, e por isso ela pegou o oceano com a mesma força que pegou a terra firme.
Quem sobreviveu foi o pequeno, o que comia qualquer coisa e o que conseguia se esconder. Entre eles, os nossos antepassados.
Quantas espécies morreram? Quatro respostas
| Fonte da NASA | Proporção de espécies extintas |
|---|---|
| Página de fatos sobre asteroides | mais de 70% |
| Comunicado do JPL, 1998 | cerca de 75% |
| Instituto de Astrobiologia | pelo menos 50% |
| Texto publicado pela NASA em 2001 | mais de 50% da fauna e flora |
De novo, não é descuido. Contar espécies extintas há 66 milhões de anos significa contar fósseis, e o registro fóssil é incompleto por natureza: bichos de casca dura e vida no mar raso deixam muito mais rastro do que bichos pequenos de floresta. Dependendo de quais grupos entram na conta, o número se move.
Vale registrar outra divergência, menor e mais curiosa: todas as páginas da NASA que consultamos dizem 65 milhões de anos. O valor mais aceito hoje, e o que este site usa, é 66 milhões. A diferença vem de uma nova datação da fronteira geológica, feita depois que aquelas páginas foram escritas.
Com que frequência cai uma pedra dessas
A própria NASA dá a estatística, e ela é tranquilizadora:
| Tamanho do asteroide | Com que frequência atinge a Terra | O que faz |
|---|---|---|
| 50 m | a cada mil anos | estrago local |
| 140 m | a cada 20 mil anos | cratera de 1 a 2 km; destrói uma região |
| 1 km | a cada 700 mil anos | cratera de 10 km; devastação global |
| 10 km | a cada 100 milhões de anos | cratera de 100 km; extinção em massa |
Ou seja: a pedra de Chicxulub é o tipo de evento que acontece uma vez a cada cem milhões de anos, e o último foi há 66 milhões. Mais importante que a estatística, porém, é que hoje existe quem vigie o céu, e já existe um teste de desvio de asteroide feito na prática. Isso está em Um asteroide vai atingir a Terra? O que a NASA monitora de verdade e em Sonda Hera chega ao asteroide que a NASA acertou.

Era um asteroide mesmo, ou um cometa?
As páginas da NASA alternam entre "asteroide" e "asteroide ou cometa", e a diferença não é acadêmica: um cometa chega mais rápido e é feito de gelo e poeira, enquanto um asteroide é pedra ou metal. A distinção entre os dois está em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.
Pelo que a agência publica, o candidato mais provável continua sendo um asteroide vindo do cinturão entre Marte e Júpiter, assunto de Cinturão de Asteroides: o que é e por que não virou planeta. Mas a hipótese do cometa nunca foi descartada por completo, e é honesto dizer isso.




