Curiosidades

Como se descobre a idade do resto de uma supernova

Sem ninguém ter anotado a explosão, a idade sai de medir o quanto a nuvem cresceu entre duas fotos. Veja os três métodos e onde cada um falha.

Publicado em 8 min de leitura
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A nuvem colorida que sobrou da explosão de Cassiopeia A, com um brilho roxo no centro e filamentos alaranjados, cercada de estrelas
Foto: NASA/GSFC
Neste artigo
  1. O que sobra depois da explosão
  2. Método 1: alguém anotou no caderno
  3. O caso sem caderno nenhum: Cassiopeia A
  4. Método 2: fotografar duas vezes e medir o crescimento
  5. Por que essa conta dá sempre um número pequeno demais
  6. Método 3: a temperatura do gás
  7. Até onde cada método chega

Quando uma estrela explode, sobra uma nuvem que cresce para sempre. Para saber quando aquela explosão aconteceu, os astrônomos usam três caminhos: procurar alguém que tenha anotado o clarão no céu séculos atrás; fotografar a nuvem duas vezes, com anos de intervalo, e medir o quanto ela cresceu; ou medir a temperatura do gás, que diz com que velocidade a onda de choque ainda está empurrando. O primeiro é o mais confiável e quase nunca está disponível. O segundo é o cavalo de batalha. E, como você vai ver, ele tem um defeito embutido que sempre faz a conta errar para o mesmo lado.

O que sobra depois da explosão

Quando uma estrela grande chega ao fim e explode, ela joga para fora as camadas que a formavam, a velocidades de milhares de quilômetros por segundo. O que fica se chama resto de supernova, ou remanescente: uma casca de gás quente correndo pelo espaço, empurrando o que encontra pela frente. O que acontece com o caroço que sobra no meio está contado em O que sobra quando uma estrela morre?.

A NASA separa esses restos em três feitios.

Casca. O material empurra o gás entre as estrelas e forma um anel. Parece um anel, e não uma bolha cheia, por um efeito simples de perspectiva: olhando para a borda de uma bolha, a linha de visão atravessa muito mais gás do que olhando para o meio dela. É o mesmo motivo pelo qual uma bolha de sabão tem a borda mais marcada que o centro. O exemplo clássico é a Laço do Cisne.

Tipo Caranguejo. Aqui não há anel, e sim um borrão. A luz vem de elétrons acelerados pelo pulsar que ficou no centro — o farol giratório explicado em O que é um pulsar? O farol que virou GPS da galáxia. O exemplo que dá nome ao grupo é a Nebulosa do Caranguejo.

Composto. Os dois ao mesmo tempo, e o que você vê depende do tipo de luz com que olha: parece casca no rádio e caranguejo em raios X, ou o contrário.

A nuvem azul e filamentosa do resto de supernova Laço do Cisne, com fios finos de gás formando um arco sobre um fundo preto cheio de estrelas
Um pedaço da Laço do Cisne, fotografada em luz ultravioleta — a cor azul é escolha de quem montou a imagem, não a cor real. É o exemplo de resto do tipo casca, a uns 1.500 anos-luz daqui. Foto: NASA/JPL-Caltech

Método 1: alguém anotou no caderno

O jeito mais preciso de datar um resto de supernova é o menos astronômico de todos: achar o registro histórico da noite em que a estrela apareceu.

Astrônomos chineses, coreanos, japoneses e árabes mantinham cadernos de céu há mais de mil anos e anotavam o surgimento do que chamavam de "estrela convidada". Quando se consegue casar um desses registros com um resto de supernova no mesmo pedaço do céu, a idade deixa de ser estimativa e vira conta de subtração.

É o caso dos quatro episódios reunidos em As supernovas que a humanidade viu a olho nu. A Nebulosa do Caranguejo, por exemplo, é o resto da explosão de 1054, tem cerca de mil anos, se expande a aproximadamente 1.450 km/s e já mede uns cinco anos-luz de raio.

O problema é duplo. Primeiro, isso só funciona para restos com menos de alguns milhares de anos — antes disso não havia quem escrevesse. Segundo, e pior: a própria NASA avisa que historiadores nem sempre têm certeza de que uma "estrela convidada" foi mesmo uma supernova, nem de qual resto corresponde a qual registro.

A nuvem quase esférica do resto da supernova de Tycho, em tons de verde, amarelo e vermelho com uma borda azul, sobre um campo de estrelas
O resto da supernova que Tycho Brahe viu em 1572, numa imagem que combina infravermelho e raios X. Este é um caso fácil: a data da explosão está escrita em livro. Foto: MPIA/NASA/Calar Alto Observatory

O caso sem caderno nenhum: Cassiopeia A

A foto de capa deste artigo mostra o exemplo que torna o assunto interessante.

Cassiopeia A é o resto de supernova mais brilhante do céu em ondas de rádio. Pelo tamanho e pela velocidade da nuvem, a explosão teria acontecido por volta de 1680 — ou seja, já no tempo dos telescópios, quando havia astrônomos profissionais olhando para cima e anotando tudo.

E ninguém anotou. A NASA é direta sobre isso: os astrônomos acham que a explosão aconteceu em torno de 1680, mas não existem registros históricos verificáveis que confirmem.

Há um candidato frágil. Em 16 de agosto de 1680, o astrônomo inglês John Flamsteed registrou uma estrela fraca perto daquela posição, que ele catalogou como "3 Cassiopeiae" e que nunca mais foi vista por ninguém. O problema é que a posição anotada está a cerca de 10 minutos de arco do resto — uma distância muito maior do que o erro típico dele no resto do catálogo. A hipótese mais aceita é que ele tenha misturado as medidas de duas estrelas diferentes.

A explicação mais provável para o silêncio é desanimadora e simples: a explosão pode ter sido fraca demais. Uma análise estima que ela talvez não tenha passado da magnitude +2 no auge — brilho de uma estrela comum, do tipo que ninguém olha duas vezes.

Sem caderno, só resta medir.

Método 2: fotografar duas vezes e medir o crescimento

A ideia é de quem já mediu a altura de uma criança na parede da cozinha: marque hoje, marque de novo daqui a um tempo, divida a diferença pelo intervalo.

Na prática, tira-se uma imagem do resto, espera-se alguns anos e tira-se outra, com o mesmo telescópio e o mesmo enquadramento. A nuvem cresceu um pouquinho. Dividindo o crescimento pelo tempo entre as fotos, sai a taxa de expansão em porcentagem por ano. E, se a nuvem sempre cresceu nesse ritmo, basta perguntar quanto tempo ela levaria para ir de zero até o tamanho de hoje.

O material didático da NASA usa um exemplo de conta: se um resto cresceu 5% em 20 anos, a taxa é de 0,25% ao ano, e ir de zero a 100% levaria cerca de 400 anos.

Para Cassiopeia A, as medidas existem e são boas. Um estudo que comparou imagens de 1951 a 1999 achou uma expansão de 0,296% ao ano. Medidas mais recentes, com outro telescópio, deram praticamente o mesmo: 0,294% ao ano.

Por que essa conta dá sempre um número pequeno demais

Aqui está o defeito embutido, e ele é fácil de entender.

A nuvem está freando. Ela não corre pelo vazio absoluto: empurra o gás ralo que existe entre as estrelas, e empurrar custa velocidade. Ou seja, ela era mais rápida no passado do que é hoje.

Se você usa a velocidade de hoje para calcular quanto tempo a nuvem levou para chegar ao tamanho atual, você usa um número baixo demais e, portanto, chega a um tempo longo demais. A idade verdadeira é menor que a calculada.

É como estimar há quanto tempo um carro saiu de São Paulo medindo a velocidade dele agora, na chegada a Campinas, no meio do trânsito: se ele veio a 100 km/h na estrada e está a 20 km/h agora, a conta feita com os 20 km/h vai dizer que ele saiu muito antes do que saiu.

Por isso a NASA ensina a enunciar o resultado como um limite, não como uma data: o certo é dizer que a explosão aconteceu há menos de tantos anos.

Em Cassiopeia A, as idades calculadas por caminhos diferentes ficam entre 309 e 364 anos, dependendo de quais imagens e de qual parte da nuvem se usa. A diferença entre os extremos é de mais de meio século — e isso num dos restos mais estudados do céu.

Método 3: a temperatura do gás

O terceiro caminho dispensa esperar anos entre duas fotos, e é o que telescópios como o de Telescópio Chandra: o que ele enxerga que ninguém mais vê tornaram possível.

A lógica: a onda de choque esquenta o gás que atravessa, e quanto mais rápido o choque, mais quente o gás fica. Medindo a temperatura em raios X, chega-se à velocidade do choque, e da velocidade sai uma estimativa de idade.

A vantagem é que funciona com uma única observação. A desvantagem está no nome do próprio método: a NASA alerta que ele é fácil, mas pouco preciso, porque há outros processos esquentando e esfriando aquele gás que nada têm a ver com a velocidade do choque.

Na prática, ele serve de conferência para o método da expansão, não de substituto.

Até onde cada método chega

Método Como funciona Até que idade serve Precisão
Registro histórico achar a anotação da "estrela convidada" alguns milhares de anos a melhor, quando existe
Expansão medida comparar fotos separadas por anos cerca de 10.000 anos boa, mas dá idade alta demais
Temperatura em raios X medir o gás aquecido pelo choque cerca de 100.000 anos baixa

Passados uns 100 mil anos, nenhum dos três funciona: o resto desacelerou tanto, e se diluiu tanto, que se mistura ao gás comum entre as estrelas e deixa de ser um objeto separado. A nuvem não some — ela vira matéria-prima da próxima geração de estrelas, caminho descrito em O que é uma nebulosa? Tipos, como se formam e como ver.

Perguntas frequentes

Como se mede a idade de um resto de supernova?

Por três caminhos: procurando um registro histórico da explosão, comparando fotos do resto tiradas com anos de diferença para medir o quanto ele cresceu, ou medindo em raios X a temperatura do gás aquecido pela onda de choque. Quando existe registro histórico, ele vence os outros dois.

Por que a conta da expansão dá uma idade errada?

Porque a nuvem está freando contra o gás entre as estrelas. A conta usa a velocidade de hoje, que é menor que a do passado, e por isso devolve um tempo maior que o real. O jeito honesto de apresentar o resultado é dizer que a explosão foi há menos de tantos anos.

Quantos anos tem Cassiopeia A?

Não há resposta exata. As estimativas feitas por caminhos diferentes ficam entre cerca de 309 e 364 anos, apontando para uma explosão por volta de 1680. Como não existe registro histórico verificável daquela supernova, a data não pode ser fechada.

Por que ninguém viu a explosão de Cassiopeia A?

A hipótese mais aceita é que ela tenha sido fraca demais para chamar atenção: uma análise estima que talvez não tenha passado da magnitude +2, brilho de uma estrela comum. Também pesa a poeira entre nós e ela, que absorve luz visível.

Qual é o resto de supernova mais conhecido?

A Nebulosa do Caranguejo, resto da explosão registrada em 1054 por astrônomos asiáticos. Ela tem cerca de mil anos, se expande a aproximadamente 1.450 km/s e serve de referência para quase todos os estudos de restos de supernova.

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