Curiosidades

Existe lixo na Lua? O que os humanos deixaram lá

Seis bases de módulo lunar, três jipes abandonados com rastros e espelhos que ainda funcionam. O que a sonda LRO fotografou no chão da Lua.

Publicado em 8 min de leitura
Compartilhar:
Imagem da sonda LRO mostrando o local de pouso da Apollo 11 na Lua, com setas e legendas apontando a base do módulo Eagle e os experimentos deixados no chão
Foto: NASA/GSFC/Arizona State University
Neste artigo
  1. Por que sobrou tanta coisa
  2. Os jipes, com os rastros ainda visíveis
  3. O lixo que ainda trabalha
  4. O que caiu de propósito
  5. Ninguém vai limpar, e tem motivo jurídico
  6. Por que isso começa a importar agora

Existe, e tem coisa bem grande. No chão da Lua estão seis bases de módulo lunar do tamanho de um carro, três jipes elétricos estacionados para sempre, pacotes de experimentos científicos, ferramentas, botas, sacos de lixo de verdade e os restos de dezenas de sondas que caíram ali — algumas por acidente, muitas de propósito. A sonda LRO, da NASA, fotografou tudo isso de cima, com resolução suficiente para ver as pegadas dos astronautas ao lado dos equipamentos.

E uma parte desse "lixo" continua trabalhando. Há mais de cinquenta anos.

Por que sobrou tanta coisa

A razão é de engenharia, e explica o item mais pesado da lista.

O módulo lunar das missões Apollo era dividido em dois andares. O de baixo, o estágio de descida, tinha o motor que freava a nave até o chão, as pernas, o combustível e os compartimentos de carga. O de cima, o estágio de subida, era a cabine onde os astronautas ficavam — e era só essa parte que voltava.

O de baixo servia de plataforma de lançamento e ficava lá. Deixar aquilo para trás não era desleixo: era a forma de não precisar carregar de volta o peso que já tinha cumprido sua função. Cada quilo que sobe da Lua precisa de combustível, e cada quilo de combustível precisa de mais combustível para ter sido levado até lá.

Pela mesma lógica, tudo o que não precisava voltar não voltou. Nas últimas missões, quando os astronautas traziam dezenas de quilos de pedra lunar, a conta ficava ainda mais apertada: cada quilo de pedra que subia precisava de um quilo de outra coisa deixado para trás. Jogaram fora mochilas de suporte de vida, botas, câmeras, ferramentas e os sacos com o lixo orgânico das semanas de viagem.

O que ficou Quantos Observação
Estágios de descida do módulo lunar 6 Um por missão que pousou, de 11 a 17
Jipes lunares elétricos 3 Apollo 15, 16 e 17
Pacotes de experimentos (ALSEP) 5 Apollo 12 a 17; o da Apollo 11 era um conjunto menor
Refletores a laser 4 Apollo 11, 14 e 15, mais um no jipe soviético Lunokhod 2
Bandeiras americanas 6 A da Apollo 11 caiu com o sopro da decolagem

Os jipes, com os rastros ainda visíveis

As três últimas missões Apollo levaram um jipe lunar — um veículo elétrico aberto, de quatro rodas, com pneus feitos de malha de arame em vez de borracha. Os três ficaram lá, estacionados onde foram abandonados pela última vez.

Na Apollo 17, a dupla Eugene Cernan e Harrison Schmitt rodou mais de 35 quilômetros com o deles. Trinta e cinco quilômetros não impressionam na BR-101; impressionam muito num carrinho sem teto, movido a bateria, dirigido por dois homens de traje pressurizado, sobre um terreno que ninguém tinha visto de perto antes e sem nenhuma oficina num raio de 384 mil quilômetros.

O detalhe que mais impressiona nas fotos da LRO é que os rastros continuam lá. Como não há vento nem chuva na Lua, as marcas dos pneus e as pegadas das botas permanecem exatamente onde foram feitas. Nas imagens de órbita, as trilhas aparecem como linhas finas e escuras ligando o módulo lunar aos pontos onde a tripulação trabalhou — um mapa das caminhadas de 1972 ainda desenhado no chão, meio século depois.

Imagem de órbita do local de pouso da Apollo 15, com legendas apontando o pacote de experimentos, o refletor a laser, a base do módulo Falcon e o jipe lunar, além das trilhas deixadas pelas rodas
O sítio da Apollo 15 visto pela LRO. Dá para ver a base do módulo Falcon, o jipe lunar estacionado à direita e as trilhas escuras das rodas ligando um ponto ao outro. O círculo marca o refletor a laser, que funciona até hoje. Foto: NASA/GSFC/Arizona State University

O lixo que ainda trabalha

Aqui está a parte boa da história.

Três missões Apollo deixaram no chão um painel de refletores de canto — prismas de vidro de quartzo com uma propriedade útil: eles devolvem a luz exatamente na direção de onde ela veio, em vez de espalhá-la. É o mesmo princípio do olho de gato na traseira de uma bicicleta. A Apollo 11 e a Apollo 14 deixaram 100 prismas cada uma; a Apollo 15 deixou 300. Há ainda um quarto painel, de fabricação francesa, instalado no jipe-robô soviético Lunokhod 2.

Quatro observatórios — no Novo México, na França, na Itália e na Alemanha — disparam lasers nesses painéis e cronometram quanto tempo a luz leva para ir e voltar. Com isso, a distância Terra–Lua é medida com precisão de poucos milímetros.

O charme da coisa é a simplicidade: os painéis não têm eletrônica e não precisam de energia. São pedaços de vidro. É exatamente por isso que são o único experimento da Apollo ainda em operação — não há bateria para acabar nem circuito para queimar.

E eles entregaram resultado de verdade. Foi medindo essas idas e voltas que se descobriu que a Lua se afasta de nós 3,8 centímetros por ano — o número e o que ele significa estão em Como a Lua se formou? A batida que criou o nosso satélite. Foi também assim que se comprovou que a Lua tem núcleo fluido e que ela se deforma até 15 centímetros para cima e para baixo a cada mês, espremida pela gravidade da Terra. A física por trás desse aperto é a mesma de O que é maré? Por que o mar sobe e desce.

Os outros experimentos não tiveram a mesma sorte, e não foi por defeito: as cinco estações ALSEP ainda funcionavam, com um a três instrumentos vivos em cada uma, quando a NASA desligou o programa em 30 de setembro de 1977 para economizar o custo de ficar recebendo os dados. Os aparelhos estão lá até hoje, mudos, à espera de ninguém.

O que caiu de propósito

Boa parte do material na Lua não foi deixado: foi arremessado.

Jogar uma sonda contra a Lua é um jeito barato de fazer ciência. Quando ela bate, levanta uma nuvem de material do subsolo que instrumentos em órbita podem analisar — você consegue olhar debaixo da superfície sem cavar.

Foi assim com a LCROSS, em 9 de outubro de 2009: a NASA lançou o estágio superior do foguete contra uma cratera do polo sul que nunca recebe luz do Sol, e analisou a poeira levantada. Foi um dos resultados que confirmaram a presença de gelo de água lá embaixo, assunto de Tem água na Lua? Onde está o gelo e quanto tem.

E foi assim com as sondas gêmeas da missão GRAIL, apelidadas Ebb e Flow, que mapearam a gravidade da Lua e, com o combustível no fim, foram dirigidas contra uma montanha perto do polo norte em 17 de dezembro de 2012. Missões em órbita baixa da Lua acabam caindo de um jeito ou de outro; fazê-las cair num lugar escolhido evita que atinjam por acaso um sítio histórico.

Além desses, há os impactos não planejados — sondas que falharam e se espatifaram — e os estágios de foguete das próprias Apollo, derrubados de propósito para que os sismômetros deixados pelos astronautas registrassem o tremor e revelassem a estrutura interna da Lua. Essa parte está contada em A Lua tem terremoto? O que os sismômetros da Apollo ouviram.

Ninguém vai limpar, e tem motivo jurídico

A pergunta natural é de quem é a responsabilidade. A resposta está no Tratado do Espaço de 1967, e é curiosa.

O tratado diz que nenhum país pode se apropriar da Lua — ninguém é dono do chão. Mas diz também, no artigo VIII, que a propriedade de um objeto não muda por ele estar no espaço. Ou seja: os Estados Unidos não são donos do Mar da Tranquilidade, mas continuam sendo donos do módulo Eagle que está parado nele. O mesmo vale para a Rússia e os restos soviéticos.

Na prática, isso cria uma situação sem paralelo: objetos com dono conhecido, espalhados por um território que não é de ninguém, sem nenhuma regra sobre quem recolhe. O arranjo completo está em Quem é o dono da Lua? O que o tratado diz.

Uma observação honesta: circulam pela internet números de "toneladas de lixo na Lua". Não encontramos esse total em fonte primária, e por isso ele não aparece aqui. O que é possível afirmar com documentação é o que está na tabela acima, mais as dezenas de veículos que impactaram a superfície ao longo de sessenta anos.

Por que isso começa a importar agora

Por décadas o assunto foi curiosidade. Virou questão prática por dois motivos.

O primeiro é histórico. Os sítios da Apollo são os únicos lugares fora da Terra onde seres humanos já pisaram. As pegadas de Neil Armstrong continuam lá, intactas, e vão continuar por um tempo longuíssimo, porque não existe vento nem chuva para apagá-las. Com novos países e empresas pousando na Lua, existe risco real de um módulo novo descer perto demais e cobrir tudo de poeira — e poeira lunar, soprada por um motor de pouso, viaja longe e bate forte, porque não há ar para freá-la. O problema do pó é o de A poeira da Lua: o maior inimigo das missões lunares.

O segundo é operacional. Se a próxima fase da exploração lunar é uma base fixa, e não visitas de três dias, a quantidade de material abandonado deixa de ser anedota e vira logística: equipamento quebrado, embalagem, resíduo humano. Na Terra isso vira aterro. Na Lua, por enquanto, vira paisagem.

Perguntas frequentes

Quanto lixo tem na Lua?

Não existe um total confiável em fonte primária, e por isso não publicamos um número. O que é documentado: seis estágios de descida de módulos lunares, três jipes elétricos, cinco pacotes de experimentos ALSEP, quatro painéis de refletores a laser, seis bandeiras, além de ferramentas, mochilas e sacos descartados, e os restos de dezenas de sondas que impactaram a superfície desde 1959.

As bandeiras americanas ainda estão de pé na Lua?

As imagens da LRO mostram as sombras das bandeiras em cinco dos seis sítios. A da Apollo 11 foi derrubada pelo sopro do motor na hora da decolagem, e Buzz Aldrin disse ter visto a queda pela janela. As que continuam de pé passaram décadas sob radiação solar direta e provavelmente estão descoloridas.

Os equipamentos deixados na Lua ainda funcionam?

Só os refletores a laser, porque são pedaços de vidro sem eletrônica e sem bateria. Quatro observatórios ainda disparam lasers neles e medem a distância Terra–Lua com precisão de poucos milímetros. Os demais experimentos foram desligados em 30 de setembro de 1977, quando a NASA encerrou o programa ALSEP.

Por que os astronautas não trouxeram o equipamento de volta?

Por causa do peso. Cada quilo que sobe da superfície lunar consome combustível, e o combustível também precisou ser levado até lá. Deixar para trás tudo o que já tinha cumprido sua função era a maneira de abrir espaço para as amostras de rocha, que eram o objetivo científico das missões.

Alguém pode ir lá buscar as coisas deixadas na Lua?

Juridicamente, não é simples. O Tratado do Espaço de 1967 diz que nenhum país é dono do solo lunar, mas que a propriedade dos objetos continua com quem os colocou lá. Então os módulos e jipes da Apollo seguem sendo dos Estados Unidos, mesmo parados num território que não pertence a ninguém.

Gostou? Compartilhe: WhatsAppFacebookTelegramX
  • Curiosidades

    Quantos G um astronauta aguenta no lançamento?

    Menos do que a maioria das pessoas imagina. O ônibus espacial era projetado para não passar de 3,0 G durante a subida, e as cápsulas atuais, que voltaram ao formato dos…

    ·6 min de leitura
  • Curiosidades

    O que é o espectro eletromagnético?

    O espectro eletromagnético é a lista completa de todos os tipos de luz que existem no universo, organizados do mais "esticado" ao mais "apertado". E a parte que os seus olhos…

    ·6 min de leitura
  • Curiosidades

    Por que astronautas fotografam a Terra à mão?

    Porque o olho humano escolhe, e o satélite não. Um satélite de observação cumpre um trajeto fixo, aponta para baixo na hora marcada e registra o que estiver ali, com ou sem…

    ·6 min de leitura
  • Curiosidades

    O que foi a corrida espacial? De Sputnik a Apollo 11

    A corrida espacial foi a disputa entre Estados Unidos e União Soviética para chegar primeiro a cada marco da exploração do espaço, entre o fim dos anos 1950 e meados dos anos…

    ·7 min de leitura