Existe, e tem coisa bem grande. No chão da Lua estão seis bases de módulo lunar do tamanho de um carro, três jipes elétricos estacionados para sempre, pacotes de experimentos científicos, ferramentas, botas, sacos de lixo de verdade e os restos de dezenas de sondas que caíram ali — algumas por acidente, muitas de propósito. A sonda LRO, da NASA, fotografou tudo isso de cima, com resolução suficiente para ver as pegadas dos astronautas ao lado dos equipamentos.
E uma parte desse "lixo" continua trabalhando. Há mais de cinquenta anos.
Por que sobrou tanta coisa
A razão é de engenharia, e explica o item mais pesado da lista.
O módulo lunar das missões Apollo era dividido em dois andares. O de baixo, o estágio de descida, tinha o motor que freava a nave até o chão, as pernas, o combustível e os compartimentos de carga. O de cima, o estágio de subida, era a cabine onde os astronautas ficavam — e era só essa parte que voltava.
O de baixo servia de plataforma de lançamento e ficava lá. Deixar aquilo para trás não era desleixo: era a forma de não precisar carregar de volta o peso que já tinha cumprido sua função. Cada quilo que sobe da Lua precisa de combustível, e cada quilo de combustível precisa de mais combustível para ter sido levado até lá.
Pela mesma lógica, tudo o que não precisava voltar não voltou. Nas últimas missões, quando os astronautas traziam dezenas de quilos de pedra lunar, a conta ficava ainda mais apertada: cada quilo de pedra que subia precisava de um quilo de outra coisa deixado para trás. Jogaram fora mochilas de suporte de vida, botas, câmeras, ferramentas e os sacos com o lixo orgânico das semanas de viagem.
| O que ficou | Quantos | Observação |
|---|---|---|
| Estágios de descida do módulo lunar | 6 | Um por missão que pousou, de 11 a 17 |
| Jipes lunares elétricos | 3 | Apollo 15, 16 e 17 |
| Pacotes de experimentos (ALSEP) | 5 | Apollo 12 a 17; o da Apollo 11 era um conjunto menor |
| Refletores a laser | 4 | Apollo 11, 14 e 15, mais um no jipe soviético Lunokhod 2 |
| Bandeiras americanas | 6 | A da Apollo 11 caiu com o sopro da decolagem |
Os jipes, com os rastros ainda visíveis
As três últimas missões Apollo levaram um jipe lunar — um veículo elétrico aberto, de quatro rodas, com pneus feitos de malha de arame em vez de borracha. Os três ficaram lá, estacionados onde foram abandonados pela última vez.
Na Apollo 17, a dupla Eugene Cernan e Harrison Schmitt rodou mais de 35 quilômetros com o deles. Trinta e cinco quilômetros não impressionam na BR-101; impressionam muito num carrinho sem teto, movido a bateria, dirigido por dois homens de traje pressurizado, sobre um terreno que ninguém tinha visto de perto antes e sem nenhuma oficina num raio de 384 mil quilômetros.
O detalhe que mais impressiona nas fotos da LRO é que os rastros continuam lá. Como não há vento nem chuva na Lua, as marcas dos pneus e as pegadas das botas permanecem exatamente onde foram feitas. Nas imagens de órbita, as trilhas aparecem como linhas finas e escuras ligando o módulo lunar aos pontos onde a tripulação trabalhou — um mapa das caminhadas de 1972 ainda desenhado no chão, meio século depois.

O lixo que ainda trabalha
Aqui está a parte boa da história.
Três missões Apollo deixaram no chão um painel de refletores de canto — prismas de vidro de quartzo com uma propriedade útil: eles devolvem a luz exatamente na direção de onde ela veio, em vez de espalhá-la. É o mesmo princípio do olho de gato na traseira de uma bicicleta. A Apollo 11 e a Apollo 14 deixaram 100 prismas cada uma; a Apollo 15 deixou 300. Há ainda um quarto painel, de fabricação francesa, instalado no jipe-robô soviético Lunokhod 2.
Quatro observatórios — no Novo México, na França, na Itália e na Alemanha — disparam lasers nesses painéis e cronometram quanto tempo a luz leva para ir e voltar. Com isso, a distância Terra–Lua é medida com precisão de poucos milímetros.
O charme da coisa é a simplicidade: os painéis não têm eletrônica e não precisam de energia. São pedaços de vidro. É exatamente por isso que são o único experimento da Apollo ainda em operação — não há bateria para acabar nem circuito para queimar.
E eles entregaram resultado de verdade. Foi medindo essas idas e voltas que se descobriu que a Lua se afasta de nós 3,8 centímetros por ano — o número e o que ele significa estão em Como a Lua se formou? A batida que criou o nosso satélite. Foi também assim que se comprovou que a Lua tem núcleo fluido e que ela se deforma até 15 centímetros para cima e para baixo a cada mês, espremida pela gravidade da Terra. A física por trás desse aperto é a mesma de O que é maré? Por que o mar sobe e desce.
Os outros experimentos não tiveram a mesma sorte, e não foi por defeito: as cinco estações ALSEP ainda funcionavam, com um a três instrumentos vivos em cada uma, quando a NASA desligou o programa em 30 de setembro de 1977 para economizar o custo de ficar recebendo os dados. Os aparelhos estão lá até hoje, mudos, à espera de ninguém.
O que caiu de propósito
Boa parte do material na Lua não foi deixado: foi arremessado.
Jogar uma sonda contra a Lua é um jeito barato de fazer ciência. Quando ela bate, levanta uma nuvem de material do subsolo que instrumentos em órbita podem analisar — você consegue olhar debaixo da superfície sem cavar.
Foi assim com a LCROSS, em 9 de outubro de 2009: a NASA lançou o estágio superior do foguete contra uma cratera do polo sul que nunca recebe luz do Sol, e analisou a poeira levantada. Foi um dos resultados que confirmaram a presença de gelo de água lá embaixo, assunto de Tem água na Lua? Onde está o gelo e quanto tem.
E foi assim com as sondas gêmeas da missão GRAIL, apelidadas Ebb e Flow, que mapearam a gravidade da Lua e, com o combustível no fim, foram dirigidas contra uma montanha perto do polo norte em 17 de dezembro de 2012. Missões em órbita baixa da Lua acabam caindo de um jeito ou de outro; fazê-las cair num lugar escolhido evita que atinjam por acaso um sítio histórico.
Além desses, há os impactos não planejados — sondas que falharam e se espatifaram — e os estágios de foguete das próprias Apollo, derrubados de propósito para que os sismômetros deixados pelos astronautas registrassem o tremor e revelassem a estrutura interna da Lua. Essa parte está contada em A Lua tem terremoto? O que os sismômetros da Apollo ouviram.
Ninguém vai limpar, e tem motivo jurídico
A pergunta natural é de quem é a responsabilidade. A resposta está no Tratado do Espaço de 1967, e é curiosa.
O tratado diz que nenhum país pode se apropriar da Lua — ninguém é dono do chão. Mas diz também, no artigo VIII, que a propriedade de um objeto não muda por ele estar no espaço. Ou seja: os Estados Unidos não são donos do Mar da Tranquilidade, mas continuam sendo donos do módulo Eagle que está parado nele. O mesmo vale para a Rússia e os restos soviéticos.
Na prática, isso cria uma situação sem paralelo: objetos com dono conhecido, espalhados por um território que não é de ninguém, sem nenhuma regra sobre quem recolhe. O arranjo completo está em Quem é o dono da Lua? O que o tratado diz.
Uma observação honesta: circulam pela internet números de "toneladas de lixo na Lua". Não encontramos esse total em fonte primária, e por isso ele não aparece aqui. O que é possível afirmar com documentação é o que está na tabela acima, mais as dezenas de veículos que impactaram a superfície ao longo de sessenta anos.
Por que isso começa a importar agora
Por décadas o assunto foi curiosidade. Virou questão prática por dois motivos.
O primeiro é histórico. Os sítios da Apollo são os únicos lugares fora da Terra onde seres humanos já pisaram. As pegadas de Neil Armstrong continuam lá, intactas, e vão continuar por um tempo longuíssimo, porque não existe vento nem chuva para apagá-las. Com novos países e empresas pousando na Lua, existe risco real de um módulo novo descer perto demais e cobrir tudo de poeira — e poeira lunar, soprada por um motor de pouso, viaja longe e bate forte, porque não há ar para freá-la. O problema do pó é o de A poeira da Lua: o maior inimigo das missões lunares.
O segundo é operacional. Se a próxima fase da exploração lunar é uma base fixa, e não visitas de três dias, a quantidade de material abandonado deixa de ser anedota e vira logística: equipamento quebrado, embalagem, resíduo humano. Na Terra isso vira aterro. Na Lua, por enquanto, vira paisagem.




