Cinco máquinas construídas por seres humanos estão indo embora do Sistema Solar e nunca mais vão voltar: as duas Voyager, as duas Pioneer e a New Horizons. Nenhuma delas tem combustível para frear, nenhuma tem destino marcado e três delas já estão mudas. A mais distante, a Voyager 1, está a 25,7 bilhões de quilômetros do Sol e se afasta 1,46 milhão de quilômetros por dia.
Existe um marco com data marcada agora: em 18 de novembro de 2026, a Voyager 1 completa um dia-luz de distância da Terra. Nenhum objeto feito por gente chegou tão longe, e é a primeira vez que um passa dessa marca.
As cinco, e onde cada uma está agora
Todos os números abaixo foram calculados no sistema Horizons, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, para 25 de setembro de 2026.
| Nave | Saiu em | Distância do Sol | Velocidade | A luz leva |
|---|---|---|---|---|
| Voyager 1 | 5/9/1977 | 171,9 UA (25,7 bi km) | 16,9 km/s (60.905 km/h) | 23 h 51 min |
| Voyager 2 | 20/8/1977 | 144,0 UA (21,6 bi km) | 15,3 km/s (54.950 km/h) | 19 h 56 min |
| Pioneer 10 | 3/3/1972 | 141,9 UA (21,2 bi km) | 11,9 km/s (42.660 km/h) | 19 h 38 min |
| Pioneer 11 | 6/4/1973 | 117,9 UA (17,6 bi km) | 11,1 km/s (40.111 km/h) | 16 h 19 min |
| New Horizons | 19/1/2006 | 65,7 UA (9,8 bi km) | 13,6 km/s (48.888 km/h) | 9 h 04 min |
"UA" é a unidade astronômica: a distância média da Terra ao Sol, cerca de 150 milhões de quilômetros. Para dar tamanho a esses números, os 25,7 bilhões de quilômetros da Voyager 1 dariam 641 mil voltas ao redor da Terra, ou 172 viagens de ida e volta até o Sol.
E as velocidades, por mais absurdas que pareçam, são pequenas para o que há pela frente: na velocidade da Voyager 1, cobrir a distância até Proxima Centauri, a estrela mais próxima do Sol, levaria cerca de 75 mil anos. A explicação de por que essas distâncias são assim está em O que é um ano-luz? A medida do universo com exemplos simples.
18 de novembro de 2026: um dia-luz
A Voyager 1 está prestes a cruzar uma marca que ninguém cruzou. Um dia-luz é a distância que a luz percorre em 24 horas: 25.902.068.371 quilômetros, ou 173,1 UA.
A NASA publica que ela atinge esse ponto em 18 de novembro de 2026. Refizemos a conta aqui, interpolando a distância entre a Terra e a nave no Horizons com passos de seis horas, e o cruzamento cai em 18 de novembro às 10h17 (horário universal), ou 7h17 da manhã de Brasília — a data bate com a da NASA no dia, e o horário é nosso acréscimo.
Duas ressalvas honestas. A primeira é que a distância é medida a partir da Terra, e a Terra se mexe: ao longo de um ano ela vai e volta 300 milhões de quilômetros na própria órbita. Conferimos se isso faz a marca ser cruzada e descruzada, e não faz — a Voyager 1 se afasta 534 milhões de quilômetros por ano, mais do que a Terra consegue tirar. Depois de 18 de novembro, a marca fica para trás de vez.
A segunda é que a Voyager 1 já tem artigo próprio aqui, com o disco de ouro, o recado em português e o que ainda funciona a bordo: Onde está a Voyager 1 hoje? A nave mais distante de nós.

Quem ainda fala e quem já se calou
| Nave | Último sinal | Situação hoje |
|---|---|---|
| Pioneer 10 | 3 de março de 2002 | Muda. O sinal ficou no limite de recepção das antenas |
| Pioneer 11 | 30 de setembro de 1995 | Muda. O gerador não dava mais energia para nenhum instrumento |
| Voyager 1 | — | Transmitindo |
| Voyager 2 | — | Transmitindo |
| New Horizons | — | Transmitindo |
O caso da Pioneer 10 tem uma coincidência bonita: o último sinal plenamente recebido foi em 3 de março de 2002, exatamente trinta anos depois do lançamento, dia por dia. Ela saiu da Terra em 3 de março de 1972, pesando 258 kg secos e com um gerador de 165 watts — a potência de duas lâmpadas antigas. A Pioneer 11, irmã dela, calou-se em 30 de setembro de 1995, quando o gerador já não dava energia para ligar nenhum experimento.
As duas Voyager continuam falando depois de 49 anos, mas com o mínimo. A NASA vem desligando instrumento por instrumento para esticar a energia: na Voyager 1, o subsistema de raios cósmicos foi desligado em 25 de fevereiro de 2025 e o de partículas carregadas de baixa energia em 17 de abril de 2026; na Voyager 2, o de partículas saiu em 24 de março de 2025 e o de plasma em 26 de setembro de 2024. Na Voyager 1 restam ligados dois instrumentos: o magnetômetro, que mede o campo magnético, e o de ondas de plasma, que mede a densidade do gás entre as estrelas. A Voyager 2 tem três: esses dois e o de raios cósmicos, que ia ser desligado em 2026 e foi salvo por uma troca de aparelhos que a NASA anunciou em 4 de agosto de 2026, com ganho de pelo menos mais um ano. As câmeras estão desligadas desde 1990.
A razão de tudo isso estar acabando devagar em vez de acabar de uma vez está em Por que as sondas da NASA usam energia nuclear?, e a proeza de ainda conseguir ouvir um sussurro dessa distância, em Como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui.
A mais rápida não é a que saiu mais rápido
Aqui está o detalhe contraintuitivo da tabela. A New Horizons deixou a Terra mais rápido do que qualquer outra nave da história — e hoje é só a terceira mais veloz das cinco, atrás das duas Voyager.
A explicação é o número de caronas. A New Horizons pegou um estilingue gravitacional, em Júpiter. A Voyager 1 pegou dois, em Júpiter e em Saturno, e a Voyager 2 pegou quatro, em Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Cada passagem dessas rouba um pedaço da velocidade do planeta em volta do Sol e devolve à nave; o mecanismo está explicado em Sonda Juice passa perto da Terra em 28 de setembro.
Há ainda um segundo efeito, mais sutil: as cinco estão desacelerando. Elas já escaparam da gravidade do Sol, mas o Sol continua puxando para trás, cada vez mais fraco. A New Horizons, que é a mais próxima, é também a que ainda perde velocidade mais depressa — em 2017 ela ia a 14,3 km/s, e hoje vai a 13,6. As Voyager, muito mais longe, quase não sentem mais nada.

Para onde cada uma está indo
Nenhuma das cinco foi apontada para uma estrela. A direção de voo de cada uma é o resto do último empurrão que ela levou — é para onde a trajetória sobrou. Calculamos essas direções a partir dos vetores de velocidade do Horizons e conferimos contra a constelação em que cada nave aparece no céu:
| Nave | Rumo, em constelação |
|---|---|
| Voyager 1 | Ofiúco |
| Voyager 2 | Pavão |
| Pioneer 10 | Touro |
| Pioneer 11 | Águia, na divisa com o Escudo |
| New Horizons | Sagitário |
O Pavão e o Sagitário são constelações do céu do Sul, bem visíveis do Brasil; Ofiúco e Águia aparecem baixas no Norte em noites de inverno.
Antes de qualquer estrela, porém, há um obstáculo de tamanho: a Nuvem de Oort, a casca de trilhões de corpos gelados que envolve o Sistema Solar e de onde vêm os cometas de período longo, descrita em O que existe depois de Netuno? Kuiper e a Nuvem de Oort. Pelas estimativas atuais, a Voyager 1 leva cerca de 300 anos só para alcançar a borda de dentro dela e algo como 30 mil anos para atravessá-la inteira. As outras quatro levarão mais.
O que ainda pode ser descoberto
Pode parecer que três naves mudas e duas quase mudas não servem mais para nada. Não é o caso — e o motivo é que não existe substituto em construção.
As duas Voyager são os únicos aparelhos humanos medindo, de dentro, o meio entre as estrelas: densidade de plasma, campo magnético, partículas vindas de fora. Nenhum telescópio faz isso, porque não dá para medir um lugar de longe. Quando elas se calarem, a humanidade fica sem nenhum sensor no espaço interestelar por décadas.
A New Horizons ainda tem energia e ainda tem o que fazer: ela continua atravessando o Cinturão de Kuiper e mede a poeira e o brilho de fundo de um ponto em que nenhum outro instrumento está. Como ela chegou onde chegou está em Quanto tempo leva para chegar a Plutão, Urano e Netuno?.
E as duas Pioneer, mudas, ainda fazem uma coisa: continuam lá. São as duas primeiras máquinas que a espécie humana pôs numa trajetória de escape, e vão durar mais do que qualquer construção da Terra — sem ar, sem água e sem quase nada para erodi-las, elas devem permanecer praticamente intactas por centenas de milhões de anos.




