Curiosidades

As 5 naves que estão saindo do Sistema Solar para sempre

Duas Voyager, duas Pioneer e a New Horizons nunca mais voltam. Veja onde cada uma está hoje, quais ainda falam e para que lado do céu estão indo.

Publicado em Atualizado em 8 min de leitura
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Uma sonda espacial com uma grande antena em forma de prato sendo encaixada no topo de um foguete dentro de um galpão, com cerca de oito técnicos em volta dando escala
Foto: NASA/Ames
Neste artigo
  1. As cinco, e onde cada uma está agora
  2. 18 de novembro de 2026: um dia-luz
  3. Quem ainda fala e quem já se calou
  4. A mais rápida não é a que saiu mais rápido
  5. Para onde cada uma está indo
  6. O que ainda pode ser descoberto

Cinco máquinas construídas por seres humanos estão indo embora do Sistema Solar e nunca mais vão voltar: as duas Voyager, as duas Pioneer e a New Horizons. Nenhuma delas tem combustível para frear, nenhuma tem destino marcado e três delas já estão mudas. A mais distante, a Voyager 1, está a 25,7 bilhões de quilômetros do Sol e se afasta 1,46 milhão de quilômetros por dia.

Existe um marco com data marcada agora: em 18 de novembro de 2026, a Voyager 1 completa um dia-luz de distância da Terra. Nenhum objeto feito por gente chegou tão longe, e é a primeira vez que um passa dessa marca.

As cinco, e onde cada uma está agora

Todos os números abaixo foram calculados no sistema Horizons, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, para 25 de setembro de 2026.

Nave Saiu em Distância do Sol Velocidade A luz leva
Voyager 1 5/9/1977 171,9 UA (25,7 bi km) 16,9 km/s (60.905 km/h) 23 h 51 min
Voyager 2 20/8/1977 144,0 UA (21,6 bi km) 15,3 km/s (54.950 km/h) 19 h 56 min
Pioneer 10 3/3/1972 141,9 UA (21,2 bi km) 11,9 km/s (42.660 km/h) 19 h 38 min
Pioneer 11 6/4/1973 117,9 UA (17,6 bi km) 11,1 km/s (40.111 km/h) 16 h 19 min
New Horizons 19/1/2006 65,7 UA (9,8 bi km) 13,6 km/s (48.888 km/h) 9 h 04 min

"UA" é a unidade astronômica: a distância média da Terra ao Sol, cerca de 150 milhões de quilômetros. Para dar tamanho a esses números, os 25,7 bilhões de quilômetros da Voyager 1 dariam 641 mil voltas ao redor da Terra, ou 172 viagens de ida e volta até o Sol.

E as velocidades, por mais absurdas que pareçam, são pequenas para o que há pela frente: na velocidade da Voyager 1, cobrir a distância até Proxima Centauri, a estrela mais próxima do Sol, levaria cerca de 75 mil anos. A explicação de por que essas distâncias são assim está em O que é um ano-luz? A medida do universo com exemplos simples.

18 de novembro de 2026: um dia-luz

A Voyager 1 está prestes a cruzar uma marca que ninguém cruzou. Um dia-luz é a distância que a luz percorre em 24 horas: 25.902.068.371 quilômetros, ou 173,1 UA.

A NASA publica que ela atinge esse ponto em 18 de novembro de 2026. Refizemos a conta aqui, interpolando a distância entre a Terra e a nave no Horizons com passos de seis horas, e o cruzamento cai em 18 de novembro às 10h17 (horário universal), ou 7h17 da manhã de Brasília — a data bate com a da NASA no dia, e o horário é nosso acréscimo.

Duas ressalvas honestas. A primeira é que a distância é medida a partir da Terra, e a Terra se mexe: ao longo de um ano ela vai e volta 300 milhões de quilômetros na própria órbita. Conferimos se isso faz a marca ser cruzada e descruzada, e não faz — a Voyager 1 se afasta 534 milhões de quilômetros por ano, mais do que a Terra consegue tirar. Depois de 18 de novembro, a marca fica para trás de vez.

A segunda é que a Voyager 1 já tem artigo próprio aqui, com o disco de ouro, o recado em português e o que ainda funciona a bordo: Onde está a Voyager 1 hoje? A nave mais distante de nós.

Uma sonda espacial pendurada por cabos sendo baixada dentro de uma carenagem cilíndrica dentro de um galpão de montagem, em preto e branco, com um técnico de macacão claro no chão
A Voyager 2 sendo fechada dentro da carenagem do foguete em 2 de agosto de 1977, 18 dias antes do lançamento. A pessoa no canto inferior dá a escala. Foto: NASA/JPL-Caltech/KSC

Quem ainda fala e quem já se calou

Nave Último sinal Situação hoje
Pioneer 10 3 de março de 2002 Muda. O sinal ficou no limite de recepção das antenas
Pioneer 11 30 de setembro de 1995 Muda. O gerador não dava mais energia para nenhum instrumento
Voyager 1 — Transmitindo
Voyager 2 — Transmitindo
New Horizons — Transmitindo

O caso da Pioneer 10 tem uma coincidência bonita: o último sinal plenamente recebido foi em 3 de março de 2002, exatamente trinta anos depois do lançamento, dia por dia. Ela saiu da Terra em 3 de março de 1972, pesando 258 kg secos e com um gerador de 165 watts — a potência de duas lâmpadas antigas. A Pioneer 11, irmã dela, calou-se em 30 de setembro de 1995, quando o gerador já não dava energia para ligar nenhum experimento.

As duas Voyager continuam falando depois de 49 anos, mas com o mínimo. A NASA vem desligando instrumento por instrumento para esticar a energia: na Voyager 1, o subsistema de raios cósmicos foi desligado em 25 de fevereiro de 2025 e o de partículas carregadas de baixa energia em 17 de abril de 2026; na Voyager 2, o de partículas saiu em 24 de março de 2025 e o de plasma em 26 de setembro de 2024. Na Voyager 1 restam ligados dois instrumentos: o magnetômetro, que mede o campo magnético, e o de ondas de plasma, que mede a densidade do gás entre as estrelas. A Voyager 2 tem três: esses dois e o de raios cósmicos, que ia ser desligado em 2026 e foi salvo por uma troca de aparelhos que a NASA anunciou em 4 de agosto de 2026, com ganho de pelo menos mais um ano. As câmeras estão desligadas desde 1990.

A razão de tudo isso estar acabando devagar em vez de acabar de uma vez está em Por que as sondas da NASA usam energia nuclear?, e a proeza de ainda conseguir ouvir um sussurro dessa distância, em Como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui.

A mais rápida não é a que saiu mais rápido

Aqui está o detalhe contraintuitivo da tabela. A New Horizons deixou a Terra mais rápido do que qualquer outra nave da história — e hoje é só a terceira mais veloz das cinco, atrás das duas Voyager.

A explicação é o número de caronas. A New Horizons pegou um estilingue gravitacional, em Júpiter. A Voyager 1 pegou dois, em Júpiter e em Saturno, e a Voyager 2 pegou quatro, em Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Cada passagem dessas rouba um pedaço da velocidade do planeta em volta do Sol e devolve à nave; o mecanismo está explicado em Sonda Juice passa perto da Terra em 28 de setembro.

Há ainda um segundo efeito, mais sutil: as cinco estão desacelerando. Elas já escaparam da gravidade do Sol, mas o Sol continua puxando para trás, cada vez mais fraco. A New Horizons, que é a mais próxima, é também a que ainda perde velocidade mais depressa — em 2017 ela ia a 14,3 km/s, e hoje vai a 13,6. As Voyager, muito mais longe, quase não sentem mais nada.

Uma sonda espacial dourada com uma grande antena em forma de prato, no canto esquerdo de uma sala limpa, com técnicos de macacão branco e azul em volta
A New Horizons (à esquerda, embrulhada em manta dourada) no Centro Espacial Kennedy em novembro de 2005, dois meses antes de partir para Plutão. Foto: NASA/KSC

Para onde cada uma está indo

Nenhuma das cinco foi apontada para uma estrela. A direção de voo de cada uma é o resto do último empurrão que ela levou — é para onde a trajetória sobrou. Calculamos essas direções a partir dos vetores de velocidade do Horizons e conferimos contra a constelação em que cada nave aparece no céu:

Nave Rumo, em constelação
Voyager 1 Ofiúco
Voyager 2 Pavão
Pioneer 10 Touro
Pioneer 11 Águia, na divisa com o Escudo
New Horizons Sagitário

O Pavão e o Sagitário são constelações do céu do Sul, bem visíveis do Brasil; Ofiúco e Águia aparecem baixas no Norte em noites de inverno.

Antes de qualquer estrela, porém, há um obstáculo de tamanho: a Nuvem de Oort, a casca de trilhões de corpos gelados que envolve o Sistema Solar e de onde vêm os cometas de período longo, descrita em O que existe depois de Netuno? Kuiper e a Nuvem de Oort. Pelas estimativas atuais, a Voyager 1 leva cerca de 300 anos só para alcançar a borda de dentro dela e algo como 30 mil anos para atravessá-la inteira. As outras quatro levarão mais.

O que ainda pode ser descoberto

Pode parecer que três naves mudas e duas quase mudas não servem mais para nada. Não é o caso — e o motivo é que não existe substituto em construção.

As duas Voyager são os únicos aparelhos humanos medindo, de dentro, o meio entre as estrelas: densidade de plasma, campo magnético, partículas vindas de fora. Nenhum telescópio faz isso, porque não dá para medir um lugar de longe. Quando elas se calarem, a humanidade fica sem nenhum sensor no espaço interestelar por décadas.

A New Horizons ainda tem energia e ainda tem o que fazer: ela continua atravessando o Cinturão de Kuiper e mede a poeira e o brilho de fundo de um ponto em que nenhum outro instrumento está. Como ela chegou onde chegou está em Quanto tempo leva para chegar a Plutão, Urano e Netuno?.

E as duas Pioneer, mudas, ainda fazem uma coisa: continuam lá. São as duas primeiras máquinas que a espécie humana pôs numa trajetória de escape, e vão durar mais do que qualquer construção da Terra — sem ar, sem água e sem quase nada para erodi-las, elas devem permanecer praticamente intactas por centenas de milhões de anos.

Perguntas frequentes

Qual é a nave mais distante da Terra?

A Voyager 1, lançada em 5 de setembro de 1977. Em 25 de setembro de 2026 ela estava a 171,9 vezes a distância da Terra ao Sol, ou 25,7 bilhões de quilômetros, e em 18 de novembro de 2026 completa um dia-luz de distância.

Quantas naves estão saindo do Sistema Solar?

Cinco: Voyager 1, Voyager 2, Pioneer 10, Pioneer 11 e New Horizons. Todas estão em trajetória de escape, ou seja, nenhuma delas voltará. Três estão mudas e duas Voyager mais a New Horizons ainda transmitem.

A Pioneer 10 ainda funciona?

Não. O último sinal plenamente recebido foi em 3 de março de 2002, exatamente trinta anos depois do lançamento. O sinal dela chegava tão fraco que ficou no limite de recepção das antenas da NASA. A Pioneer 11 se calou antes, em 30 de setembro de 1995.

Qual dessas naves é a mais rápida?

A Voyager 1, a cerca de 16,9 km/s em relação ao Sol, o equivalente a 60.905 km/h. Curiosamente, a New Horizons foi a que deixou a Terra mais rápido, mas hoje está em terceiro, porque as Voyager ganharam mais empurrões de gravidade nos planetas pelo caminho.

Alguma delas vai chegar a outra estrela?

Nenhuma foi apontada para uma estrela, e as distâncias tornam isso quase irrelevante: na velocidade da Voyager 1, cobrir a distância até a estrela mais próxima levaria cerca de 75 mil anos. Antes disso elas ainda têm de atravessar a Nuvem de Oort, o que leva dezenas de milhares de anos.

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