O New Glenn é o foguete grande da Blue Origin, a empresa espacial de Jeff Bezos. Ele leva 45 toneladas para a órbita baixa da Terra, tem sete motores BE-4 no primeiro estágio e esse primeiro estágio foi projetado para voltar e voar pelo menos 25 vezes. Em 29 de setembro de 2026, a NASA acrescentou ao seu contrato de lançamentos outra versão dele, chamada New Glenn 9×4 — o que significa, na prática, que a agência passa a poder comprar voos desse modelo para missões futuras.
Atenção a uma palavra importante dessa frase: poder comprar. A NASA não encomendou nenhum lançamento nem marcou data de voo. Entender essa diferença é entender a notícia inteira.
O que a NASA fez em 29 de setembro de 2026
O comunicado é o de número C26-013 e tem três linhas de conteúdo. A NASA usou uma cláusula do contrato chamada on-ramp — literalmente, "rampa de acesso" — para incluir o New Glenn 9×4 no NASA Launch Services II, o contrato guarda-chuva pelo qual a agência compra lançamentos.
A analogia que funciona aqui é a do cadastro de fornecedores de uma prefeitura. Entrar no cadastro não significa que a prefeitura comprou alguma coisa de você; significa que, daqui em diante, você pode disputar as licitações que aparecerem. É exatamente isso: o 9×4 ficou disponível para o Escritório do Programa de Serviços de Lançamento da NASA usar em missões futuras.
A cláusula de on-ramp existe para que o contrato não congele no tempo. Uma vez por ano, empresas novas podem entrar e empresas que já estão lá dentro podem acrescentar foguetes que ainda não constavam. A Blue Origin já estava no NLS II desde dezembro de 2020, com o New Glenn original; o que entrou agora foi a variante 9×4.
| O contrato NLS II, em números | |
|---|---|
| Tipo | Múltiplos fornecedores, quantidade e entrega indefinidas |
| Período para fazer pedidos | até junho de 2030 |
| Período total de execução | até dezembro de 2032 |
| Quem administra | Programa de Serviços de Lançamento, no Centro Espacial Kennedy |
| Para quem serve | Voo humano, ciência, pesquisa e tecnologia — e outras agências do governo americano, como a NOAA |
O que é o New Glenn
A ficha abaixo vem da própria página do Programa de Serviços de Lançamento da NASA, que lista os foguetes que a agência pode contratar.
| Ficha do New Glenn (versão já contratada) | |
|---|---|
| Carga para a órbita baixa da Terra | 45 toneladas |
| Carga para a órbita de transferência geoestacionária | mais de 13 toneladas |
| Motores do primeiro estágio | sete, do modelo BE-4 |
| Reúso previsto do primeiro estágio | mínimo de 25 voos |
| Classificação | foguete orbital de carga pesada, de configuração única |
Quarenta e cinco toneladas é muita coisa. O ônibus espacial americano, que foi o cavalo de batalha da NASA por três décadas, levava 25 toneladas à órbita baixa — o New Glenn carrega quase o dobro disso. Em carro popular, daria para empilhar uns quarenta e cinco deles lá em cima.
A "órbita de transferência geoestacionária" do segundo número é a trajetória em que se solta um satélite de comunicação para que ele mesmo complete a subida até os 36 mil km de altura, onde fica parado sobre o mesmo ponto do planeta. É a órbita dos satélites de TV e de internet por satélite.

O que significa "9×4", e o que a NASA não disse
Aqui vale uma honestidade que falta na maioria das notícias sobre o assunto: o comunicado da NASA não descreve o que muda no 9×4. Ele só identifica o serviço pelo nome.
O padrão de nomes da indústria é contar motores — primeiro estágio por segundo estágio —, e a versão em voo tem sete motores embaixo. A leitura provável, portanto, é que o 9×4 traga mais motores em cada estágio e, com isso, mais capacidade de carga. Mas isso é leitura, não é fato publicado pela agência, e por isso fica marcado assim aqui.
O que não está na notícia, e convém dizer com todas as letras:
- A NASA não atribuiu nenhuma missão ao 9×4.
- A NASA não anunciou data de primeiro voo dessa versão.
- A NASA não disse que a versão 9×4 já voou.
Cronograma de foguete novo é a promessa mais quebrada do setor espacial. Vale a mesma regra que usamos para qualquer missão: enquanto não há data oficial, não há data.
O primeiro estágio volta — e isso já é rotina do setor
A parte mais cara de um foguete é o primeiro estágio, o pedação de baixo com todos os motores. Por sessenta anos ele foi jogado fora a cada voo. Quem mudou isso foi a SpaceX, e a história de como se pousa um foguete de pé está em Por que o foguete da SpaceX pousa em pé.
A Blue Origin entrou nessa disputa com o New Glenn. O primeiro estágio desce e pousa numa embarcação no oceano Atlântico, e conseguiu isso em novembro de 2025, na segunda tentativa de voo do foguete. A meta de projeto declarada — mínimo de 25 voos por estágio — é o número que explica por que todo mundo quer reusar: um foguete que voa 25 vezes dilui o custo de fabricação por 25 lançamentos, e é daí que vem a queda de preço por quilo levado ao espaço, contada em Quanto custa lançar um foguete.
O que ele já fez pela NASA
O New Glenn não é um projeto de papel. Em 13 de novembro de 2025, ele levou ao espaço as duas sondas ESCAPADE, da NASA, que vão estudar como o vento solar arranca a atmosfera de Marte. Foi o segundo voo do foguete e a primeira carga interplanetária dele. A missão está contada em ESCAPADE: as sondas que voltam à Terra para ir a Marte.
Esse voo é o argumento prático a favor da inclusão do 9×4: a agência não estava apostando num nome desconhecido, e sim ampliando o catálogo de um foguete que já entregou carga científica.
Onde ele se encaixa entre os foguetes grandes
| Foguete | Carga para a órbita baixa | Situação |
|---|---|---|
| New Glenn | 45 toneladas | Voando; a versão 9×4 acaba de entrar no contrato da NASA |
| Falcon Heavy | quase 64 toneladas | Voando, da SpaceX |
| Starship | 100 a 150 toneladas (meta de projeto) | Em desenvolvimento, da SpaceX |
| Ônibus espacial (aposentado) | 25 toneladas | Voou de 1981 a 2011 |
A leitura da tabela é direta: o New Glenn é um foguete pesado de verdade, maior que tudo que a NASA teve por décadas, e ainda assim menor que os dois extremos da SpaceX. Ele não compete com a Starship: o maior foguete do mundo, explicado em tamanho bruto — compete por ser grande o suficiente para quase tudo que a NASA precisa lançar, com um estágio que volta.
Ter dois ou três fornecedores capazes de carga pesada muda o jogo para a agência: significa poder negociar preço e não ficar parada quando um dos foguetes sai de operação por investigação de falha.




