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ESCAPADE: as sondas que voltam à Terra para ir a Marte

Duas sondas gêmeas da NASA esperam perto do ponto L2 e, em novembro de 2026, passam raspando na Terra para serem atiradas até Marte. O que elas vão medir.

Publicado em 7 min de leitura
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Uma das duas sondas ESCAPADE da NASA montada em sala limpa, com painel solar aberto e manta térmica dourada, antes do lançamento para Marte
Foto: NASA/Kim Shiflett
Neste artigo
  1. O que é a ESCAPADE, em três linhas
  2. Por que duas naves, e não uma
  3. O que elas levam a bordo
  4. O que já sabemos, e o que falta
  5. Por que o caminho é tão torto
  6. O que acontece quando chegarem
  7. Por que isso importa para quem nunca vai a Marte

Em algum momento de novembro de 2026, duas sondas idênticas da NASA vão passar raspando pela Terra — não para voltar para casa, mas para roubar um empurrão da gravidade do nosso planeta e serem atiradas na direção de Marte. É a missão ESCAPADE, e o plano dela é dos mais estranhos já executados: em vez de sair daqui direto para Marte, as duas sondas foram lançadas em novembro de 2025, ficaram esperando quase um ano num ponto tranquilo do espaço, e só agora a Terra e Marte se alinham para o chute final. A chegada está prevista para setembro de 2027.

O que elas vão fazer lá é responder a uma pergunta que a gente já contou por aqui pela metade: como, exatamente, o Sol arranca a atmosfera de Marte.

O que é a ESCAPADE, em três linhas

ESCAPADE é a sigla de Escape and Plasma Acceleration and Dynamics Explorers, que dá algo como "exploradores do escape e da dinâmica e aceleração de plasma". São duas naves idênticas, pequenas, construídas para entrar em órbita de Marte ao mesmo tempo e medir a mesma coisa em dois lugares diferentes.

Segundo a NASA, esta é a primeira missão coordenada de duas naves a entrar em órbita de outro planeta. É esse "duas ao mesmo tempo" que justifica a missão inteira, e é isso que a gente explica logo abaixo.

Ficha da missão
Lançamento 13 de novembro de 2025, às 17h55 de Brasília
Foguete New Glenn, da Blue Origin (segundo voo do foguete)
Naves Duas, idênticas
Massa de cada uma 209 kg secas; 535 kg com combustível
Custo total Menos de US$ 80 milhões
Manobra na Terra Prevista para novembro de 2026
Chegada a Marte Prevista para setembro de 2027
Início da ciência Previsto para junho de 2028
Duração total prevista 3 anos e 7 meses
Quem comanda Universidade da Califórnia em Berkeley, com a NASA

Repare no custo: menos de 80 milhões de dólares pelas duas juntas. É pouco mais do que o preço de tabela de um único lançamento de um foguete Falcon 9, que é de US$ 70 milhões, como mostramos em Quanto custa lançar um foguete. Duas sondas interplanetárias pelo preço de uma carona.

As duas sondas gêmeas da missão ESCAPADE lado a lado numa sala limpa, com painéis solares dobrados e revestimento térmico prateado e dourado
As duas naves são idênticas de propósito: só medindo o mesmo fenômeno em dois pontos ao mesmo tempo dá para separar o que muda no espaço do que muda no tempo. Foto: NASA/Kim Shiflett

Por que duas naves, e não uma

Esta é a parte bonita da missão, e ela é fácil de entender com um exemplo daqui.

Imagine que você quer saber se está chovendo mais forte no centro da cidade ou no bairro. Você sai de carro do bairro para o centro medindo a chuva pela janela. No centro, o pluviômetro marca mais. Mas aí vem a dúvida: choveu mais no centro, ou simplesmente a chuva apertou enquanto você dirigia? Com um carro só, não tem como saber.

Com dois carros, um parado no bairro e outro no centro, no mesmo instante, a resposta aparece na hora.

É exatamente esse o problema de toda sonda solitária em volta de outro planeta. Quando ela mede uma mudança no vento solar ou no campo magnético, não dá para saber se a mudança aconteceu no espaço ou no tempo. A ESCAPADE resolve isso com duas naves que se posicionam em órbitas combinadas — inclusive, numa das fases, uma seguindo a outra no mesmo caminho, como um cordão de contas. Uma mede o que chega; a outra mede o que sobra.

O que elas levam a bordo

Cada nave carrega quatro tipos de instrumento, e nenhum deles é uma câmera de paisagem:

  • Analisador eletrostático (Universidade da Califórnia em Berkeley): conta as partículas carregadas que passam e mede a energia de cada uma.
  • Magnetômetro (Centro Goddard da NASA): mede o campo magnético no lugar exato onde a nave está.
  • Sonda de Langmuir (Universidade Aeronáutica Embry-Riddle): mede a densidade e a temperatura do plasma, que é o gás eletricamente carregado da alta atmosfera.
  • Câmeras de luz visível e infravermelha (Universidade do Norte do Arizona).

Juntando tudo: elas medem o vento que sopra, o escudo magnético que deveria segurá-lo e o ar que está sendo levado, nos dois pontos ao mesmo tempo.

O que já sabemos, e o que falta

Marte já teve rios, lagos e uma atmosfera espessa. Hoje a pressão lá é menos de 1% da nossa. A explicação principal é que o planeta perdeu o campo magnético global que o protegia, e o vento solar — a corrente de partículas que o Sol sopra sem parar, a mais de um milhão e meio de quilômetros por hora — passou a arrancar o ar de cima, molécula por molécula.

A sonda MAVEN, da NASA, mediu a velocidade desse roubo em 2015: cerca de 100 gramas de gás por segundo. O raciocínio completo, com a conta de por que 100 gramas por segundo bastaram para secar um planeta inteiro, está em Por que Marte perdeu a atmosfera (e a Terra não)?.

O que falta é o mecanismo detalhado. Marte não tem campo magnético global, mas tem pedaços de crosta magnetizada espalhados, o que cria o que os cientistas chamam de magnetosfera híbrida: nem o escudo redondo e organizado da Terra, nem a ausência total de proteção. É um sistema bagunçado, e é nele que o vento solar entra. A ESCAPADE foi feita para mapear essa bagunça — onde o vento penetra, por onde o ar escapa e quanto a coisa piora quando o Sol tem um ataque de mau humor.

Por que o caminho é tão torto

Aqui está a parte que mais confunde quem lê a notícia. Por que uma sonda lançada da Terra em 2025 vai para Marte só em 2027, passando pela Terra de novo no meio?

A resposta começa em Quanto tempo leva para chegar a Marte: as janelas para Marte abrem a cada 26 meses, quando os dois planetas ficam na posição certa. Fora da janela, a viagem fica cara demais em combustível — e uma missão de menos de 80 milhões de dólares não tem combustível sobrando.

A ESCAPADE deveria ter partido na janela de 2024, e não partiu. Em vez de esperar em terra até a janela seguinte, ela foi lançada em novembro de 2025 para um lugar específico: as redondezas do ponto L2, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros daqui, no lado da Terra oposto ao Sol. (A NASA, nas notas em inglês, arredonda para "um milhão de milhas".) É o mesmo endereço do telescópio James Webb, e o motivo de ele ser tão conveniente está em O que é o ponto L2, onde ficam os telescópios: ali uma nave acompanha a Terra em volta do Sol praticamente de graça.

As duas ficaram esperando ali, em "modo de espera", com os instrumentos ligados desde fevereiro de 2026 medindo o vento solar de brinde no caminho. Quando a Terra e Marte se alinharem, elas voltam, passam perto do nosso planeta e usam a gravidade dele como um estilingue. Dez meses depois, Marte.

Foguete New Glenn decolando de Cabo Canaveral entre as torres da plataforma, envolto em fumaça branca, com o céu azul ao fundo
O lançamento em 13 de novembro de 2025. Foi o segundo voo do foguete New Glenn, da Blue Origin, e a primeira vez que ele levou uma carga interplanetária. Foto: Blue Origin

O que acontece quando chegarem

Chegar não é parar. Uma nave que vem de longe está rápida demais para ser capturada por um planeta, e precisa frear na hora certa para entrar em órbita — o passo a passo está em Como uma sonda entra em órbita de outro planeta?.

As duas chegam com poucos dias de diferença uma da outra, previsto para setembro de 2027. Depois vêm meses de ajuste até que fiquem na formação de trabalho. Só então, previsto para junho de 2028, começa a campanha científica de verdade.

Vale a ressalva de sempre: cronograma espacial atrasa. A própria ESCAPADE já perdeu uma janela inteira. Todas as datas daqui para a frente são previsão, não compromisso.

Por que isso importa para quem nunca vai a Marte

Duas razões concretas.

A primeira é que entender como Marte perdeu o ar é entender o que faz um planeta ser habitável ou não. Marte e a Terra começaram parecidos. Um virou deserto congelado; o outro virou isto aqui. Se a diferença foi o campo magnético, isso muda o jeito de procurar vida em planetas de outras estrelas.

A segunda é mais imediata: a ESCAPADE também funciona como estação meteorológica espacial. Ela mede as tempestades solares no caminho entre a Terra e Marte — a mesma coisa que ameaça satélites, redes elétricas e, um dia, astronautas em viagem. É assunto de Tempestade solar pode derrubar a internet e a energia?.

Perguntas frequentes

O que é a missão ESCAPADE da NASA?

São duas sondas idênticas que vão entrar em órbita de Marte para medir como o vento solar arranca a atmosfera do planeta. Foram lançadas em 13 de novembro de 2025 num foguete New Glenn e custaram menos de US$ 80 milhões as duas juntas, o que é muito barato para uma missão interplanetária.

Quando a ESCAPADE chega a Marte?

A chegada está prevista para setembro de 2027, depois de uma passagem pela Terra em novembro de 2026 para ganhar impulso. A campanha científica principal está prevista para começar em junho de 2028. Como todo cronograma espacial, essas datas podem mudar.

Por que a NASA mandou duas sondas iguais?

Porque uma sonda sozinha não consegue distinguir uma mudança que aconteceu no espaço de uma mudança que aconteceu no tempo. Com duas naves medindo em pontos diferentes no mesmo instante, dá para separar as duas coisas. É a primeira vez que duas naves coordenadas entram em órbita de outro planeta.

Por que as sondas voltam para perto da Terra antes de ir a Marte?

Porque elas foram lançadas fora da janela de viagem para Marte, que só abre a cada 26 meses. Elas ficaram esperando perto do ponto L2, a 1,5 milhão de km daqui, até que a Terra e Marte se alinhassem. Na passagem pela Terra, a gravidade do nosso planeta funciona como um estilingue e dá o impulso que falta.

Marte ainda está perdendo atmosfera hoje?

Está. A sonda MAVEN mediu uma perda de cerca de 100 gramas de gás por segundo, o que dá 8,6 toneladas por dia. Parece pouco, e é mesmo — mas ao longo de bilhões de anos essa conta seca um planeta. A ESCAPADE vai detalhar por onde exatamente esse gás escapa.

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