Em algum momento de novembro de 2026, duas sondas idênticas da NASA vão passar raspando pela Terra — não para voltar para casa, mas para roubar um empurrão da gravidade do nosso planeta e serem atiradas na direção de Marte. É a missão ESCAPADE, e o plano dela é dos mais estranhos já executados: em vez de sair daqui direto para Marte, as duas sondas foram lançadas em novembro de 2025, ficaram esperando quase um ano num ponto tranquilo do espaço, e só agora a Terra e Marte se alinham para o chute final. A chegada está prevista para setembro de 2027.
O que elas vão fazer lá é responder a uma pergunta que a gente já contou por aqui pela metade: como, exatamente, o Sol arranca a atmosfera de Marte.
O que é a ESCAPADE, em três linhas
ESCAPADE é a sigla de Escape and Plasma Acceleration and Dynamics Explorers, que dá algo como "exploradores do escape e da dinâmica e aceleração de plasma". São duas naves idênticas, pequenas, construídas para entrar em órbita de Marte ao mesmo tempo e medir a mesma coisa em dois lugares diferentes.
Segundo a NASA, esta é a primeira missão coordenada de duas naves a entrar em órbita de outro planeta. É esse "duas ao mesmo tempo" que justifica a missão inteira, e é isso que a gente explica logo abaixo.
| Ficha da missão | |
|---|---|
| Lançamento | 13 de novembro de 2025, às 17h55 de Brasília |
| Foguete | New Glenn, da Blue Origin (segundo voo do foguete) |
| Naves | Duas, idênticas |
| Massa de cada uma | 209 kg secas; 535 kg com combustível |
| Custo total | Menos de US$ 80 milhões |
| Manobra na Terra | Prevista para novembro de 2026 |
| Chegada a Marte | Prevista para setembro de 2027 |
| Início da ciência | Previsto para junho de 2028 |
| Duração total prevista | 3 anos e 7 meses |
| Quem comanda | Universidade da Califórnia em Berkeley, com a NASA |
Repare no custo: menos de 80 milhões de dólares pelas duas juntas. É pouco mais do que o preço de tabela de um único lançamento de um foguete Falcon 9, que é de US$ 70 milhões, como mostramos em Quanto custa lançar um foguete. Duas sondas interplanetárias pelo preço de uma carona.

Por que duas naves, e não uma
Esta é a parte bonita da missão, e ela é fácil de entender com um exemplo daqui.
Imagine que você quer saber se está chovendo mais forte no centro da cidade ou no bairro. Você sai de carro do bairro para o centro medindo a chuva pela janela. No centro, o pluviômetro marca mais. Mas aí vem a dúvida: choveu mais no centro, ou simplesmente a chuva apertou enquanto você dirigia? Com um carro só, não tem como saber.
Com dois carros, um parado no bairro e outro no centro, no mesmo instante, a resposta aparece na hora.
É exatamente esse o problema de toda sonda solitária em volta de outro planeta. Quando ela mede uma mudança no vento solar ou no campo magnético, não dá para saber se a mudança aconteceu no espaço ou no tempo. A ESCAPADE resolve isso com duas naves que se posicionam em órbitas combinadas — inclusive, numa das fases, uma seguindo a outra no mesmo caminho, como um cordão de contas. Uma mede o que chega; a outra mede o que sobra.
O que elas levam a bordo
Cada nave carrega quatro tipos de instrumento, e nenhum deles é uma câmera de paisagem:
- Analisador eletrostático (Universidade da Califórnia em Berkeley): conta as partículas carregadas que passam e mede a energia de cada uma.
- Magnetômetro (Centro Goddard da NASA): mede o campo magnético no lugar exato onde a nave está.
- Sonda de Langmuir (Universidade Aeronáutica Embry-Riddle): mede a densidade e a temperatura do plasma, que é o gás eletricamente carregado da alta atmosfera.
- Câmeras de luz visível e infravermelha (Universidade do Norte do Arizona).
Juntando tudo: elas medem o vento que sopra, o escudo magnético que deveria segurá-lo e o ar que está sendo levado, nos dois pontos ao mesmo tempo.
O que já sabemos, e o que falta
Marte já teve rios, lagos e uma atmosfera espessa. Hoje a pressão lá é menos de 1% da nossa. A explicação principal é que o planeta perdeu o campo magnético global que o protegia, e o vento solar — a corrente de partículas que o Sol sopra sem parar, a mais de um milhão e meio de quilômetros por hora — passou a arrancar o ar de cima, molécula por molécula.
A sonda MAVEN, da NASA, mediu a velocidade desse roubo em 2015: cerca de 100 gramas de gás por segundo. O raciocínio completo, com a conta de por que 100 gramas por segundo bastaram para secar um planeta inteiro, está em Por que Marte perdeu a atmosfera (e a Terra não)?.
O que falta é o mecanismo detalhado. Marte não tem campo magnético global, mas tem pedaços de crosta magnetizada espalhados, o que cria o que os cientistas chamam de magnetosfera híbrida: nem o escudo redondo e organizado da Terra, nem a ausência total de proteção. É um sistema bagunçado, e é nele que o vento solar entra. A ESCAPADE foi feita para mapear essa bagunça — onde o vento penetra, por onde o ar escapa e quanto a coisa piora quando o Sol tem um ataque de mau humor.
Por que o caminho é tão torto
Aqui está a parte que mais confunde quem lê a notícia. Por que uma sonda lançada da Terra em 2025 vai para Marte só em 2027, passando pela Terra de novo no meio?
A resposta começa em Quanto tempo leva para chegar a Marte: as janelas para Marte abrem a cada 26 meses, quando os dois planetas ficam na posição certa. Fora da janela, a viagem fica cara demais em combustível — e uma missão de menos de 80 milhões de dólares não tem combustível sobrando.
A ESCAPADE deveria ter partido na janela de 2024, e não partiu. Em vez de esperar em terra até a janela seguinte, ela foi lançada em novembro de 2025 para um lugar específico: as redondezas do ponto L2, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros daqui, no lado da Terra oposto ao Sol. (A NASA, nas notas em inglês, arredonda para "um milhão de milhas".) É o mesmo endereço do telescópio James Webb, e o motivo de ele ser tão conveniente está em O que é o ponto L2, onde ficam os telescópios: ali uma nave acompanha a Terra em volta do Sol praticamente de graça.
As duas ficaram esperando ali, em "modo de espera", com os instrumentos ligados desde fevereiro de 2026 medindo o vento solar de brinde no caminho. Quando a Terra e Marte se alinharem, elas voltam, passam perto do nosso planeta e usam a gravidade dele como um estilingue. Dez meses depois, Marte.

O que acontece quando chegarem
Chegar não é parar. Uma nave que vem de longe está rápida demais para ser capturada por um planeta, e precisa frear na hora certa para entrar em órbita — o passo a passo está em Como uma sonda entra em órbita de outro planeta?.
As duas chegam com poucos dias de diferença uma da outra, previsto para setembro de 2027. Depois vêm meses de ajuste até que fiquem na formação de trabalho. Só então, previsto para junho de 2028, começa a campanha científica de verdade.
Vale a ressalva de sempre: cronograma espacial atrasa. A própria ESCAPADE já perdeu uma janela inteira. Todas as datas daqui para a frente são previsão, não compromisso.
Por que isso importa para quem nunca vai a Marte
Duas razões concretas.
A primeira é que entender como Marte perdeu o ar é entender o que faz um planeta ser habitável ou não. Marte e a Terra começaram parecidos. Um virou deserto congelado; o outro virou isto aqui. Se a diferença foi o campo magnético, isso muda o jeito de procurar vida em planetas de outras estrelas.
A segunda é mais imediata: a ESCAPADE também funciona como estação meteorológica espacial. Ela mede as tempestades solares no caminho entre a Terra e Marte — a mesma coisa que ameaça satélites, redes elétricas e, um dia, astronautas em viagem. É assunto de Tempestade solar pode derrubar a internet e a energia?.




