Quando um telescópio espacial é desligado, os dados dele não são desligados junto. Eles vão para um arquivo público, ficam lá para sempre e podem ser baixados de graça por qualquer pessoa — inclusive por você, do Brasil, sem pedir autorização a ninguém.
A conta total é grande: a Diretoria de Missões Científicas da NASA administra mais de 150 petabytes de dados científicos, espalhados por 54.532 conjuntos de dados em 10 arquivos públicos, que atendem mais de 53 milhões de usuários por ano. Os números são do relatório oficial de métricas da agência referente ao ano fiscal de 2024, publicado em março de 2026.
Quanto é um petabyte, em coisas que você conhece
Petabyte é uma palavra que não diz nada sozinha, então vamos ancorar.
Um petabyte é 1 milhão de gigabytes. Se o seu celular tem 128 GB, seriam necessários cerca de 8.000 celulares como o seu para guardar um único petabyte. Para os 150 petabytes da NASA, seriam 1,2 milhão de celulares — mais celulares do que habitantes tem a cidade de Florianópolis.
Num jeito mais caseiro de pensar: um filme em alta definição ocupa uns 4 gigabytes. Os 150 petabytes dariam para guardar uns 37 milhões de filmes. Assistindo sem parar, dia e noite, uma pessoa levaria mais de 8 mil anos para ver tudo.
E isso está crescendo rápido. O mesmo relatório projeta que, em 2030, o acervo passe de 529 mil terabytes — mais de três vezes o tamanho de hoje.
Os 10 arquivos, e o que cada um guarda
Os dados não ficam num lugar só. Eles são separados por assunto, e cada divisão científica da agência tem os seus.
| Divisão | Quanto guarda | Arquivos |
|---|---|---|
| Ciências da Terra | 127.665 TB | Earthdata (EOSDIS) |
| Astrofísica | 15.700 TB | HEASARC, MAST e IRSA |
| Ciências biológicas e físicas | 240 TB | OSDR e PSI |
| Heliofísica (o Sol) | 3.151 TB | SDAC e SPDF |
| Ciências planetárias | 3.860 TB | PDS e Astromat |
O que salta aos olhos nessa tabela é o desequilíbrio: a observação da Terra sozinha responde por mais de 80% de tudo. Faz sentido quando se pensa no que esses satélites fazem — eles fotografam o planeta inteiro, várias vezes por dia, todos os dias, há décadas. Só essa divisão cresce 28 mil terabytes por ano. Quem são esses satélites está em Quantos satélites observam a Terra o tempo todo?.
Repare também numa curiosidade: a astrofísica tem 46 conjuntos de dados e as ciências planetárias têm 27.460. Não é que a astrofísica produza menos; é que cada "conjunto" dela é enorme, reunindo um telescópio inteiro, enquanto no mundo planetário cada instrumento de cada sonda em cada fase da missão vira um item separado.
Os nomes importam na hora de procurar. O HEASARC guarda o que foi observado em raios X e raios gama; o MAST, o que foi visto em luz visível, ultravioleta e infravermelho próximo — é lá que mora o acervo do Hubble; e o PDS, o Sistema de Dados Planetários, guarda o que as sondas mandaram dos planetas, dividido em nós temáticos: atmosferas, imagens e cartografia, geociências, anéis e luas, corpos pequenos, plasma planetário e navegação.
O que o "aberto" quer dizer na prática
Aberto, aqui, tem graus. E a regra muda conforme a divisão — o que é útil saber antes de perder tempo.
Nas ciências planetárias, na heliofísica e nas ciências biológicas, o acesso é totalmente aberto, sem cadastro nenhum. A página do PDS diz explicitamente que não há custo para obter os dados ou as ferramentas dele, e que os arquivos podem ser exportados para fora dos Estados Unidos.
Na astrofísica, exige-se login só para os dados em embargo. Esse embargo é o período de uso exclusivo: quando um astrônomo ganha tempo de telescópio, ele costuma ter alguns meses de acesso exclusivo ao que pediu, para escrever o trabalho dele antes de todo mundo. Vencido o prazo, cai no arquivo aberto como o resto.
Nas ciências da Terra, o login é obrigatório para tudo — não para barrar ninguém, mas para a agência conseguir contar quem usa e dar suporte. O próprio relatório reconhece que os usuários acham esse cadastro "incômodo e intrusivo", nas palavras registradas ali, e que o sistema precisa ser modernizado. É um nível de autocrítica raro num documento oficial.

Por que guardar dado velho vale a pena
A pergunta é justa: para que manter, por décadas e às custas do contribuinte, o que um telescópio aposentado mediu?
Porque o céu muda, e quem mede o passado é o arquivo. Quando uma estrela explode hoje, a primeira coisa que um astrônomo faz é procurar nos arquivos como aquele pedaço de céu estava antes — e só existe "antes" se alguém guardou. Nenhum telescópio novo consegue ir buscar a luz de 1998.
Porque instrumento velho responde pergunta nova. Os dados do Hubble que estão no MAST foram coletados para responder às perguntas dos anos 1990 e 2000. Muitos foram reanalisados depois com métodos que não existiam na época e renderam resultados que ninguém imaginava na hora de apontar o telescópio. A história do aparelho está em Telescópio Hubble: o que é e o que ele já descobriu.
Porque dá para juntar o que estava separado. A foto que ilustra esta seção existe por causa disso: alguém baixou o acervo do Hubble sobre a galáxia M106, montou o miolo com ele e preencheu as bordas com observações feitas do chão. Nenhum telescópio sozinho produziria aquela imagem.
E porque custa pouco perto do resto. O telescópio Swift, encerrado em outubro de 2026 depois de quase 22 anos, deixou um arquivo público e uma montanha de artigos científicos escritos a partir dele; o que essa pesquisa toda custa para ser mantida não chega perto do que custou construir e lançar a nave. A história do fim dele está em Acabou o Swift, o telescópio que caçava explosões.
O dado e o ferro-velho são coisas diferentes
Vale separar duas coisas que costumam ser confundidas.
Quando uma missão termina, o aparelho tem um destino — é desligado, empurrado para uma órbita de descarte ou derrubado de propósito na atmosfera, com relatório final e arquivo de engenharia (desenhos, manuais, histórico de defeitos). Esse roteiro está contado em O que a NASA faz com um satélite quando ele se aposenta.
Os dados científicos seguem outro caminho, independente desse. Eles já foram transmitidos para a Terra ao longo de toda a missão, pedaço por pedaço — às vezes a taxas ridiculamente baixas, como se vê em Como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui — e já estavam guardados muito antes de a nave morrer. Por isso o fim do aparelho não é o fim do acervo: a nave pode ter virado cinza na reentrada enquanto tudo que ela viu continua intacto num servidor.




