Perguntas que todo mundo faz

O que é antimatéria? A explicação simples, sem fórmula

Antimatéria é matéria com a carga trocada, e ela existe de verdade. As trovoadas da Terra fabricam antimatéria, e a NASA já flagrou isso.

Publicado em 8 min de leitura
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Topo de uma nuvem de tempestade em forma de bigorna erguendo-se acima da camada de nuvens, fotografado do espaço, com a faixa azul da atmosfera e o preto do espaço ao fundo
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. Matéria com o sinal trocado
  2. O encontro: tudo vira luz
  3. Por que a aniquilação é tão violenta
  4. As trovoadas brasileiras estão fabricando antimatéria
  5. A nuvem de antimatéria no centro da galáxia
  6. O maior mistério: por que sobrou matéria?
  7. Dá para usar antimatéria como combustível?

Antimatéria é matéria igualzinha à comum, só que com a carga elétrica trocada. Para cada partícula que existe, existe uma gêmea de mesma massa e carga oposta: o elétron, que tem carga negativa, tem como par o pósitron, idêntico em tudo menos no sinal, que é positivo. E não é ficção científica: antimatéria é fabricada todos os dias aqui na Terra, inclusive por trovoadas comuns, e a NASA já flagrou isso com um telescópio espacial.

O que torna o assunto estranho é a segunda metade da história. Quando uma partícula encontra a antipartícula dela, as duas somem — e viram pura energia.

Matéria com o sinal trocado

Pense num elétron, a partícula de carga negativa que orbita os átomos e que, correndo por um fio, é o que a gente chama de eletricidade. O pósitron tem exatamente a mesma massa do elétron, exatamente o mesmo comportamento, e carga positiva.

A mesma lógica vale para o resto da lista:

Partícula comum Carga Antipartícula Carga
Elétron negativa Pósitron positiva
Próton positiva Antipróton negativa
Nêutron neutra Antinêutron neutra (mudam as partes internas)
Átomo de hidrogênio neutro Anti-hidrogênio neutro

O anti-hidrogênio da última linha não é hipótese: juntando um antipróton e um pósitron, cientistas já montaram átomos inteiros de antimatéria em laboratório.

Uma confusão comum vale desfazer agora: antimatéria não é a mesma coisa que matéria escura, nem que "energia negativa". Antimatéria tem massa positiva e energia positiva, e pesa igual à matéria comum. A parte invisível do universo é outro assunto, contado em Matéria escura: o que é a parte invisível do universo.

O encontro: tudo vira luz

Quando um elétron esbarra num pósitron, os dois desaparecem. No lugar deles aparecem dois raios gama — luz de altíssima energia. Esse processo se chama aniquilação, e ele tem uma assinatura muito específica: cada um dos raios gama sai com energia de 511 mil elétron-volts.

Esse número é o crachá da antimatéria. Quando um telescópio de raios gama detecta um brilho exatamente em 511 keV, ele sabe que ali, naquele instante, elétrons e pósitrons estão se encontrando. É assim que a NASA caça antimatéria no universo sem precisar ir até lá.

O caminho inverso também existe e se chama produção de pares: um raio gama suficientemente energético, passando perto de um átomo, pode se transformar num elétron e num pósitron. Energia virando matéria e antimatéria, sempre aos pares. É literalmente a conta do E = mc² funcionando nos dois sentidos.

Por que a aniquilação é tão violenta

Aqui está a parte que impressiona, e ela se entende por comparação.

O Sol produz energia por fusão nuclear: a cada segundo ele transforma 600 milhões de toneladas de hidrogênio em 596 milhões de toneladas de hélio, e as 4 milhões de toneladas que faltam viraram luz e calor, como contamos em O Sol em números: tamanho, temperatura, idade e distância. Dividindo um pelo outro: a fusão converte em energia 0,67% da massa que entra. Menos de um por cento, e isso já é o motor de uma estrela.

Na aniquilação, a conversão é de 100%. Nada sobra de matéria: tudo o que entrou vira radiação.

Ou seja: grama por grama, a aniquilação rende cerca de 150 vezes mais energia do que a fusão nuclear que mantém o Sol aceso.

Em números absolutos: um grama de matéria encontrando um grama de antimatéria libera cerca de 1,8 × 10¹⁴ joules, que são aproximadamente 50 milhões de quilowatt-hora — a mesma unidade que aparece na conta de luz da sua casa. Tudo isso a partir de duas gramas, menos do que pesa qualquer moeda do seu bolso.

As trovoadas brasileiras estão fabricando antimatéria

Esta é a parte que parece invenção e não é.

Dentro de uma nuvem de tempestade, as correntes elétricas são tão fortes que a nuvem funciona como um acelerador de partículas. Ela chega a disparar jatos de raios gama para cima, chamados de flashes de raios gama terrestres — pulsos brevíssimos que duram frações de milésimo de segundo. A estimativa da NASA é de cerca de 500 desses flashes por dia no mundo inteiro. O Brasil, que é campeão mundial de incidência de raios, participa bastante dessa conta.

Nuvens de tempestade vistas de cima, da órbita da Terra, com a curvatura do planeta e torres de nuvem projetando sombras compridas
Topos de nuvens de tempestade vistos da órbita. É de dentro de torres como estas que saem os flashes de raios gama e os feixes de pósitrons detectados pelo telescópio Fermi. Foto: NASA/Jeff Williams

Em 2011, a NASA anunciou que o telescópio espacial Fermi havia detectado algo a mais: esses flashes vêm acompanhados de feixes de antimatéria. Entre agosto de 2008 e o fim de 2010, o Fermi registrou 130 desses eventos.

O caso mais claro foi em 14 de dezembro de 2009. O Fermi estava sobrevoando o Egito quando detectou a assinatura de 511 keV — pósitrons se aniquilando contra o próprio corpo do telescópio. Só que não havia tempestade nenhuma embaixo dele. A tempestade estava na Zâmbia, a cerca de 4.500 quilômetros dali — mais do que separa Boa Vista, em Roraima, do Chuí, no extremo sul do Rio Grande do Sul, que são 4.100 km em linha reta (conta nossa).

O que aconteceu: a tempestade cuspiu um feixe de pósitrons a uns 15 km de altura, e as partículas subiram guiadas pelo campo magnético da Terra, como se o campo fosse um trilho. Elas atravessaram meio planeta por fora, bateram no Fermi, aniquilaram-se — e, por um instante, o telescópio virou ele mesmo uma fonte de raios gama e enxergou o próprio brilho. Duas levas de pósitrons chegaram separadas por 23 milésimos de segundo.

Ou seja: enquanto você lê isto, alguma tempestade em algum lugar está jogando antimatéria para o espaço.

A nuvem de antimatéria no centro da galáxia

Mais longe, a coisa fica maior. Em 1997, usando o observatório Compton de raios gama, uma equipe liderada por William R. Purcell, da Universidade Northwestern, encontrou uma nuvem de antimatéria acima do centro da Via Láctea — detectada, de novo, pelo brilho de 511 keV de pósitrons se aniquilando.

Ilustração da Via Láctea vista de fora, com o disco de estrelas e duas bolhas arroxeadas gigantes saindo para cima e para baixo do centro
Ilustração da NASA: as bolhas de raios gama que o telescópio Fermi descobriu saindo do centro da Via Láctea. É na mesma região central que foi detectada a nuvem de antimatéria de 1997. Imagem de ilustração, não é uma fotografia. Foto: NASA/GSFC

Até hoje ninguém sabe ao certo de onde vem. As hipóteses que a NASA listou na época incluem explosões em série de estrelas na região central, jatos de material vindos do buraco negro gigante que mora ali, ou a fusão de duas estrelas de nêutrons. Nas palavras de Charles Dermer, do Laboratório de Pesquisa Naval: "É como achar um cômodo novo na casa em que você mora desde criança. E o cômodo não está vazio — tem algum motor ou caldeira ali fazendo gás quente cheio de antimatéria se aniquilando." O centro da galáxia, aliás, é assunto de O que é a Via Láctea e como ver a nossa galáxia do Brasil.

O maior mistério: por que sobrou matéria?

Aqui está a pergunta que incomoda os físicos de verdade.

Se energia sempre vira matéria e antimatéria aos pares, o Big Bang deveria ter produzido quantidades iguais das duas. E aí as duas deveriam ter se aniquilado inteirinhas, deixando um universo só com luz e nada mais — sem estrelas, sem planetas, sem você.

Não foi o que aconteceu. Sobrou matéria, e o universo inteiro que vemos é feito dela. Isso significa que, por algum motivo que ninguém explicou até hoje, a natureza tem uma preferência minúscula por matéria — pequena o bastante para que quase tudo se aniquilasse, e grande o bastante para que sobrasse o suficiente para fazer galáxias. É dessas sobras que tudo é feito, inclusive você.

Essa assimetria é um dos buracos abertos mais importantes da física. Não é que falte a resposta de um detalhe: falta a explicação de por que existe alguma coisa em vez de nada. O resto da história do começo do universo está em O que é o Big Bang? A explicação simples, sem fórmula.

Dá para usar antimatéria como combustível?

Em teoria, é o combustível perfeito: conversão de 100% da massa em energia, nada se compara. Em engenharia, é o oposto de prático, por três motivos.

Fabricar custa um absurdo. Antimatéria não é extraída, é fabricada partícula por partícula em aceleradores, gastando muito mais energia do que a que ela devolveria. Nenhum laboratório do mundo produziu até hoje mais do que uma quantidade minúscula.

Guardar é pior ainda. Antimatéria não pode encostar em nada — nem no recipiente. Qualquer contato com matéria comum, e os dois somem. A única forma conhecida de armazenar é suspender as partículas no vácuo com campos magnéticos, e isso consome energia o tempo todo.

E ela não dura. Num lugar com matéria em volta, a antimatéria desaparece quase instantaneamente.

É por isso que antimatéria aparece em filme como combustível de nave e, na vida real, aparece em hospital: a tomografia PET — a sigla significa, em inglês, tomografia por emissão de pósitrons — funciona injetando no paciente uma substância que emite pósitrons. Eles se aniquilam com elétrons do corpo e produzem exatamente aqueles raios gama de 511 keV, que o aparelho detecta para montar a imagem. Se alguém da sua família já fez um PET-scan, já foi examinado por antimatéria.

Perguntas frequentes

Antimatéria existe mesmo ou é ficção científica?

Existe, é medida em laboratório desde os anos 1930 e é produzida de rotina em aceleradores de partículas e em hospitais. A NASA detecta antimatéria no espaço pelo brilho de raios gama de 511 mil elétron-volts, que é a assinatura de elétrons e pósitrons se aniquilando.

O que acontece se antimatéria encostar em matéria?

As duas desaparecem e viram energia, em forma de raios gama. É o único processo conhecido que converte 100% da massa em energia — a fusão nuclear que alimenta o Sol converte menos de 1%.

Antimatéria é a mesma coisa que matéria escura?

Não. Antimatéria tem massa e carga, emite luz ao se aniquilar e já foi fabricada em laboratório. Matéria escura não emite nem absorve luz, nunca foi detectada diretamente e é um problema em aberto. São dois assuntos diferentes que só se parecem no nome misterioso.

Tem antimatéria aqui na Terra?

Tem, o tempo todo e em quantidades minúsculas. Trovoadas produzem feixes de pósitrons — a NASA registrou 130 desses eventos com o telescópio Fermi entre 2008 e 2010. Raios cósmicos vindos do espaço também produzem antimatéria ao bater na atmosfera, e aparelhos de tomografia PET usam pósitrons em exames médicos.

Por que o universo é feito de matéria e não de antimatéria?

Ninguém sabe, e essa é uma das perguntas abertas mais importantes da física. O Big Bang deveria ter criado as duas em quantidades iguais, e elas deveriam ter se aniquilado por completo. Sobrou matéria, o que indica um desequilíbrio pequeníssimo a favor dela, ainda sem explicação confirmada.

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