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O que é um aglomerado globular (e como ver do Brasil)

Uma bola com milhões de estrelas velhas que orbita a Via Láctea por fora. O que é, no que difere do Sete-Estrelo e como achar Ômega Centauri e 47 Tucanae.

Publicado em 9 min de leitura
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O aglomerado globular Ômega Centauri, uma bola apertada de milhares de pontos de luz com o miolo esbranquiçado, visto pelo telescópio Spitzer
Foto: NASA/JPL-Caltech/NOAO/AURA/NSF
Neste artigo
  1. A diferença entre o "bolinho" e a "bola"
  2. O quanto é "apertado", em números
  3. Por que são todos tão velhos
  4. Ômega Centauri: o mais brilhante do céu inteiro
  5. 47 Tucanae: o segundo, e é o da vez agora
  6. Quando olhar, do Brasil
  7. O que você vai ver de verdade
  8. Onde eles ficam na nossa galáxia

Um aglomerado globular é uma bola de estrelas: centenas de milhares, às vezes milhões delas, presas umas às outras pela própria gravidade, todas velhíssimas, todas apertadas num volume pequeno para o padrão do espaço. Ele não fica dentro do disco da nossa galáxia, onde mora o Sol — fica por fora, no halo, dando voltas em torno do centro da Via Láctea como uma abelha em volta da colmeia. E, para a sorte de quem mora no Brasil, os dois mais bonitos do céu inteiro só se veem bem do hemisfério sul: Ômega Centauri e 47 Tucanae. Os dois são visíveis a olho nu em céu escuro, e um binóculo comum já resolve os dois.

A diferença entre o "bolinho" e a "bola"

Se você já leu por aqui sobre O que é o Sete-Estrelo, as Plêiades, e como ver, conhece o outro tipo de aglomerado: o aglomerado aberto. As Plêiades são um punhado de estrelas jovens, nascidas juntas da mesma nuvem de gás há uns 100 milhões de anos, ainda passeando pelo disco da galáxia e destinadas a se separar.

O aglomerado globular é o oposto disso em quase tudo. Ele é muito mais velho, muito mais cheio e muito mais apertado. E não vai se desmanchar: a gravidade do próprio conjunto é forte o bastante para mantê-lo inteiro por bilhões de anos.

Aglomerado aberto Aglomerado globular
Exemplo no céu do Brasil Plêiades (Sete-Estrelo) Ômega Centauri
Número de estrelas Dezenas a alguns milhares Centenas de milhares a milhões
Idade típica Milhões de anos Cerca de 10 bilhões de anos
Onde fica No disco da galáxia No halo, fora do disco
Formato Irregular, frouxo Bola quase perfeita
Futuro Vai se dispersar Continua junto
Quantos a Via Láctea tem Milhares Cerca de 150 conhecidos

Uma imagem do dia a dia ajuda: o aglomerado aberto é a turma que sai junta de uma festa e, quadra a quadra, vai se separando pelas ruas da cidade. O aglomerado globular é a multidão apertada no meio de um show, onde ninguém consegue sair do lugar mesmo se quiser.

Ilustração da Via Láctea vista de cima, com os braços em espiral azulados e o miolo amarelado
Ilustração da NASA que mostra o disco da Via Láctea visto de cima. Os aglomerados globulares não ficam nesse disco: eles orbitam bem acima e bem abaixo dele. Foto: NASA/JPL-Caltech

O quanto é "apertado", em números

Aqui vale fazer a conta, porque "apertado" sozinho não diz nada.

Ômega Centauri tem, segundo a NASA, cerca de 10 milhões de estrelas numa bola de aproximadamente 450 anos-luz de diâmetro. Na vizinhança do Sol, uma dúzia de estrelas ocupa uma bolha de 10 anos-luz de raio. Fazendo as duas contas e comparando (conta nossa), o aglomerado tem, na média, umas 70 vezes mais estrelas por volume que a nossa região da galáxia. E essa é a média: no miolo dele a diferença é muito maior, porque as estrelas se amontoam no centro.

Traduzindo para a nossa realidade: aqui, a estrela mais próxima do Sol está a 4,2 anos-luz. Lá dentro, uma estrela tem dezenas de vizinhas nesse mesmo raio. O céu noturno de um planeta no meio de um aglomerado globular seria uma coisa que ninguém na Terra jamais viu.

Por que são todos tão velhos

Todos os aglomerados globulares conhecidos são antigos — perto de 10 bilhões de anos, contra os 4,6 bilhões de anos do Sistema Solar. Eles se formaram quando a Via Láctea ainda estava se montando, antes de o disco existir do jeito que existe hoje.

Isso tem uma consequência visual direta: as estrelas azuis e quentes, que vivem pouco e queimam rápido, já morreram todas. Sobraram as pequenas e amarelas, e as gigantes vermelhas que são o estágio final das médias, como explicamos em O que sobra quando uma estrela morre?. Por isso a cor geral de um aglomerado globular numa foto puxa para o dourado, e não para o azul do Sete-Estrelo.

Por muito tempo, os astrônomos acharam que todas as estrelas de um aglomerado desses tinham nascido no mesmo momento. Observações mais recentes do Hubble mostraram que os maiores têm mais de uma geração de estrelas, com composições químicas diferentes. Ômega Centauri é o caso mais extremo: ele tem estrelas de várias idades, o que não é normal. Isso alimenta uma suspeita que a NASA registra na própria ficha do objeto: ele pode não ser um aglomerado de verdade, e sim o núcleo do que sobrou de uma galáxia anã que a Via Láctea engoliu e descascou. É uma hipótese em aberto, não um fato fechado.

Ômega Centauri: o mais brilhante do céu inteiro

Ele fica na constelação do Centauro, a 17 mil anos-luz daqui, e tem brilho aparente de magnitude 3,7 — dentro do alcance do olho nu num céu escuro, longe da cidade. É o aglomerado globular mais brilhante que existe no céu da Terra.

A história dele é ótima: Ptolomeu o catalogou há quase 2.000 anos achando que era uma estrela. Só em 1677 Edmond Halley percebeu que aquilo era um borrão, e não um ponto, e o classificou como "objeto nebuloso". A identificação correta, como um aglomerado de estrelas, veio com John Herschel em 1836. Levou quase dezessete séculos para a humanidade entender o que estava vendo.

Objeto Constelação Distância Brilho (magnitude) Estrelas
Ômega Centauri Centauro 17.000 anos-luz 3,7 ~10 milhões
47 Tucanae Tucano 16.700 anos-luz 4,0 Centenas de milhares

47 Tucanae: o segundo, e é o da vez agora

O 47 Tucanae fica a 16.700 anos-luz, na constelação do Tucano, e tem magnitude 4,0: é o segundo aglomerado globular mais brilhante do céu, atrás só do Ômega Centauri. Ele foi descoberto pelo astrônomo francês Nicolas-Louis de Lacaille em 1751, durante a temporada dele no Cabo da Boa Esperança — nenhum europeu do hemisfério norte poderia tê-lo achado antes, porque de lá ele simplesmente não aparece.

Aqui entra uma divergência honesta de número, do tipo que aparece toda hora quando se checa a fonte. Sobre quantas estrelas ele tem, a NASA publica "centenas de milhares" numa página, "pelo menos meio milhão" em outra, e a agência espacial europeia fala em "até um milhão". Ninguém contou uma a uma: o número sai de modelos que estimam a massa total e a dividem pela massa média de uma estrela, e modelos diferentes dão respostas diferentes. Quando você ler um número exato para isso em algum lugar, desconfie.

Quando olhar, do Brasil

Os dois nunca somem do céu brasileiro ao mesmo tempo, mas cada um tem a sua temporada. Calculamos aqui a hora em que cada um passa pelo ponto mais alto do céu de São Paulo, mês a mês, e o resultado é limpo:

Mês Ômega Centauri no alto 47 Tucanae no alto
Abril 00h00 11h (de dia)
Maio 22h02 09h (de dia)
Junho 19h56 07h (de dia)
Setembro 14h (de dia) 00h54
Outubro 12h (de dia) 22h56
Novembro 10h (de dia) 20h50
Dezembro 08h (de dia) 18h52

Horários de Brasília, calculados para São Paulo. Em outras cidades a diferença é de poucos minutos.

Ou seja: de abril a junho é a vez do Ômega Centauri, e de outubro a dezembro é a vez do 47 Tucanae. Agora, no fim de setembro e em outubro, o 47 Tucanae é o alvo: por volta das 22h ele está a 41 graus de altura em São Paulo e no Rio, quase exatamente no sul, e a 47 graus em Porto Alegre. Em Belém e em Manaus ele fica baixo, entre 19 e 21 graus, o que já exige um horizonte sul limpo.

Uma vantagem que quase ninguém conta: de Belo Horizonte para baixo, o 47 Tucanae é circumpolar — ele nunca se põe, gira em torno do ponto sul do céu a noite inteira, o ano inteiro. Quem mora no Rio, em São Paulo, em Curitiba ou em Porto Alegre tem esse aglomerado disponível todas as noites do ano; o que muda é só a hora em que ele fica alto. É o mesmo truque de orientação que a gente usa em Como achar o Cruzeiro do Sul (e o sul) no céu.

Um aglomerado pequeno e frouxo de estrelas brilhantes sobre um fundo cheio de outras estrelas mais fracas
Este NÃO é um aglomerado globular: é o NGC 299, um aglomerado aberto na Pequena Nuvem de Magalhães, fotografado pelo Hubble. Compare o quanto ele é frouxo com a bola da foto de capa. Foto: NASA/GSFC

O que você vai ver de verdade

Sejamos honestos com a expectativa, porque essa é a parte em que a maioria dos textos mente.

  • A olho nu, em céu escuro: um pontinho meio borrado, que não pisca como as estrelas piscam. Se você não souber onde procurar, vai passar batido. Num céu de cidade grande, com iluminação pública, provavelmente nem isso.
  • Com binóculo 10x50: uma bolinha de algodão, redonda, claramente diferente de uma estrela. Ômega Centauri é bem maior que a Lua cheia no céu; o 47 Tucanae também é grande.
  • Com telescópio pequeno (70 a 114 mm): a borda começa a se quebrar em pontinhos individuais. É o momento em que a ficha cai.
  • Com telescópio de 150 mm ou mais: centenas de estrelas separadas, do centro até a borda. É considerado um dos melhores espetáculos do céu do sul, e é de graça.

Se você ainda está escolhendo equipamento, vale ler Melhor telescópio para iniciantes: guia de compra no Brasil antes de gastar. E, se o plano é sair da cidade para ver isso direito, Turismo astronômico: onde ver o céu mais estrelado do Brasil tem os lugares.

Onde eles ficam na nossa galáxia

Os aglomerados globulares não acompanham o disco da Via Láctea. Eles orbitam o centro da galáxia em trajetórias muito inclinadas, passando bem acima e bem abaixo do plano onde ficam os braços em espiral — e muitos deles giram na direção contrária à do resto da galáxia, o que é uma pista forte de que vieram de fora, capturados de galáxias menores.

A Via Láctea tem hoje cerca de 150 aglomerados globulares conhecidos, e a NASA registra que talvez existam uns 200 no total. No começo da história da galáxia podem ter sido milhares: muitos foram destruídos ao longo de bilhões de anos, despedaçados por encontros com o centro galáctico ou uns com os outros. Os que restaram são sobreviventes. Quem quiser entender melhor o desenho geral da nossa galáxia pode ler O que é a Via Láctea e como ver a nossa galáxia do Brasil.

Perguntas frequentes

O que é um aglomerado globular?

É um conjunto de centenas de milhares a milhões de estrelas velhas, presas pela própria gravidade numa bola quase perfeita, que orbita uma galáxia por fora do disco dela. A Via Láctea tem cerca de 150 conhecidos. Eles têm perto de 10 bilhões de anos, o que faz deles algumas das estruturas mais antigas que existem.

Qual é a diferença entre aglomerado aberto e aglomerado globular?

O aberto é jovem, tem de dezenas a alguns milhares de estrelas, fica no disco da galáxia e vai se dispersar com o tempo — as Plêiades são o exemplo clássico. O globular é velho, tem centenas de milhares ou milhões de estrelas, fica no halo, por fora do disco, e continua junto por bilhões de anos.

Dá para ver Ômega Centauri a olho nu?

Dá, em céu escuro e longe das luzes da cidade. Ele tem magnitude 3,7 e aparece como um pontinho difuso, meio borrado. De qualquer lugar do Brasil ele é visível, e a melhor época é de abril a junho, quando passa alto no céu no começo da noite.

Qual aglomerado globular dá para ver agora do Brasil?

Em outubro, novembro e dezembro, o melhor é o 47 Tucanae, na constelação do Tucano. Por volta das 22h de outubro ele está a cerca de 41 graus de altura no céu de São Paulo e do Rio, quase exatamente no sul. De Belo Horizonte para baixo ele nunca se põe.

Por que só o hemisfério sul vê os melhores aglomerados globulares?

Por acaso da geografia do céu. Os dois mais brilhantes, Ômega Centauri e 47 Tucanae, ficam bem ao sul na esfera celeste, e por isso nunca sobem no céu da Europa e da maior parte dos Estados Unidos. O 47 Tucanae só foi catalogado em 1751, quando um astrônomo francês foi até o Cabo da Boa Esperança para olhar o céu do sul.

Horários de eventos astronômicos variam conforme sua cidade e o fuso horário. Confirme sempre num aplicativo de céu ou no site do Observatório Nacional antes de sair para observar.

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