Perguntas que todo mundo faz

O que é um buraco negro? A explicação simples

Um buraco negro é matéria tão apertada que nem a luz escapa. Veja o que é, os tipos, o tamanho real e como os astrônomos acham uma coisa invisível.

Publicado em 8 min de leitura
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Simulação de um buraco negro devorando uma estrela: uma faixa de gás alaranjado se estica em espiral e se afunila num ponto, sobre fundo preto
Foto: NASA/JPL-Caltech/JHU/UCSC
Neste artigo
  1. A fronteira que dá nome à coisa
  2. Que tamanho tem um buraco negro?
  3. Um detalhe que quase ninguém conta: a gravidade não aumenta
  4. Os quatro tipos, do pequeno ao absurdo
  5. Como se enxerga o que não dá para ver
  6. Os recordes conhecidos

Um buraco negro é uma quantidade enorme de matéria espremida num espaço pequeno demais — tão espremida que a gravidade ali não deixa nem a luz ir embora. É por isso que ele é negro: nada do que entra consegue voltar para contar como é lá dentro, nem o raio de luz mais rápido do universo. E, apesar do nome, não é um buraco. Não é um vazio, não é uma porta, não é um ralo. É o oposto disso: é coisa demais no lugar de menos.

A NASA faz questão de desfazer esse engano logo de cara, e vale repetir: buracos negros "não são realmente buracos". São concentrações gigantescas de matéria empacotadas em espaços muito pequenos. Este artigo explica o que isso significa na prática, quais são os tipos, que tamanho eles têm de verdade e — a parte mais interessante — como alguém consegue estudar um objeto que, por definição, não pode ser visto.

A fronteira que dá nome à coisa

Todo buraco negro tem uma fronteira chamada horizonte de eventos. É o ponto a partir do qual não há mais volta: quem cruza, fica.

Cuidado com a imagem mental errada. O horizonte de eventos não é uma superfície, como o chão da Terra ou a casca brilhante do Sol. Você não bateria em nada. A NASA o descreve como "uma fronteira que contém toda a matéria que forma o buraco negro" — uma linha invisível no espaço vazio, marcando onde a conta da gravidade passa de um certo limite.

Que limite é esse? O da velocidade de escape: a velocidade que um objeto precisa ter para vencer a gravidade de um corpo e nunca mais cair de volta. Na Terra, são cerca de 40 mil km/h, e essa ideia está explicada em O que é velocidade de escape? O limite para sair da Terra. Dentro do horizonte de eventos, a velocidade de escape seria maior que a da luz. E como nada chega nessa marca, nada sai.

É aí que a palavra "negro" ganha sentido literal. Não é que o objeto seja escuro: é que a luz que entra fica presa lá.

Que tamanho tem um buraco negro?

Aqui está o número que mais surpreende quem pergunta: buracos negros são minúsculos para a quantidade de matéria que carregam.

O tamanho do horizonte de eventos depende só da massa, e a conta é direta. Fizemos essa conta com a fórmula padrão da física, e o resultado para o Sol é o valor conhecido há décadas: se o Sol inteiro virasse um buraco negro, o horizonte de eventos teria cerca de 3 quilômetros de raio. Uma bola de 6 km de ponta a ponta, que dá para atravessar a pé em pouco mais de uma hora, guardando uma estrela de 1,4 milhão de quilômetros de diâmetro.

Com a Terra é pior. A mesma conta dá menos de 9 milímetros de raio: o planeta inteiro caberia numa bola de gude, e a gravidade dela seguiria sendo exatamente a mesma que a Terra tem hoje a essa distância.

Objeto Raio do horizonte de eventos (conta nossa)
A Terra cerca de 9 milímetros
O Sol cerca de 3 quilômetros
Um buraco negro de 10 massas solares cerca de 30 quilômetros
Sagitário A*, 4 milhões de massas solares cerca de 12 milhões de quilômetros

Mesmo o monstro do meio da nossa galáxia, com 4 milhões de vezes a massa do Sol segundo a NASA, tem um horizonte de eventos que caberia com folga dentro da órbita de Mercúrio. Ele é descomunal em massa e modesto em tamanho — e é exatamente essa combinação que torna a gravidade dele tão brutal.

O centro da Via Láctea visto pelo Hubble em infravermelho, um campo denso de milhares de estrelas azuis e alaranjadas cortado por faixas escuras de poeira
O centro da nossa galáxia, fotografado pelo Hubble em luz infravermelha para atravessar a poeira. Sagitário A* está bem no meio desta imagem — e é invisível. O que se vê são as estrelas que giram em volta dele. Foto: NASA/GSFC

Um detalhe que quase ninguém conta: a gravidade não aumenta

Existe um medo comum, e ele não tem fundamento: a ideia de que um buraco negro "suga" tudo em volta, como um aspirador.

Não suga. A gravidade de um corpo depende da massa dele e da distância até ele — e nenhuma das duas muda quando a matéria é espremida. A própria NASA usa esse exemplo: se o Sol fosse trocado por um buraco negro de mesma massa, o Sistema Solar ficaria muito mais frio, mas os planetas continuariam nas mesmas órbitas, girando do mesmo jeito.

O que muda é que agora dá para chegar muito mais perto do centro. Hoje, a 700 mil quilômetros do meio do Sol, você esbarra na superfície. Com um buraco negro no lugar, poderia descer até 3 km do centro — e é lá, pertíssimo, que a gravidade vira algo fora de escala. O perigo não é a sucção; é a proximidade. O desdobramento disso está em Um buraco negro pode engolir a Terra?.

Os quatro tipos, do pequeno ao absurdo

A NASA separa os buracos negros por massa, e cada faixa tem uma história de origem diferente.

Estelares. Têm de algumas a algumas centenas de vezes a massa do Sol. Nascem quando uma estrela de 20 massas solares ou mais fica sem combustível e o miolo dela desaba. Estrelas um pouco menores que esse limite viram estrela de nêutrons, e a diferença entre os dois destinos está em O que sobra quando uma estrela morre?. O menor já identificado tem 3,8 massas solares. Na Via Láctea há cerca de 50 confirmados ou suspeitos — mas a estimativa da NASA é que existam até 100 milhões deles por aqui, quase todos invisíveis porque não têm nada por perto para engolir.

Supermassivos. De centenas de milhares a bilhões de massas solares. Ficam no centro das galáxias, e a maioria das galáxias do tamanho da nossa tem um. O da Via Láctea é Sagitário A*, com 4 milhões de massas solares. O mais pesado já observado é o do quasar TON 618, com 66 bilhões de vezes a massa do Sol. Como eles ficaram tão grandes ainda é debate aberto: alguns já existiam no primeiro bilhão de anos depois do Big Bang, cedo demais para terem crescido comendo aos poucos.

Intermediários. A faixa do meio, de umas 100 até centenas de milhares de massas solares. São os mais difíceis de achar, a ponto de serem apelidados de "elo perdido". Devem se formar quando buracos negros estelares colidem e se somam ao longo de bilhões de anos. O melhor candidato conhecido, com cerca de 50 mil massas solares, atende pelo nome pouco romântico de 3XMM J215022.4−055108.

Primordiais. Esses são teoria pura, sem nenhuma confirmação. A ideia é que, no primeiro segundo de vida do universo, bolsões de matéria quente teriam sido densos o bastante para desabar sozinhos, sem precisar de estrela nenhuma. Se existirem, teriam massas que vão de muito menos que um clipe de papel a muito mais que o Sol.

Como se enxerga o que não dá para ver

Essa é a pergunta boa. E a resposta é que ninguém vê o buraco negro: vê-se o estrago que ele faz na vizinhança. São quatro métodos principais, todos já usados.

1. A comida brilhando. Gás e poeira que caem em direção ao buraco negro não entram direto: formam um disco de acreção, um redemoinho achatado que gira em volta. O atrito nesse redemoinho esquenta o gás a ponto de ele emitir luz em várias faixas, inclusive raios X. É o mesmo princípio da água rodando antes de entrar no ralo — só que esquentando até brilhar. Telescópios de raios X como o Telescópio Chandra: o que ele enxerga que ninguém mais vê existem em boa parte por causa disso.

Ilustração de uma galáxia espiral vista de lado, com dois jatos de luz amarela saindo do centro em direções opostas
Ilustração da NASA: nem tudo que cai acaba entrando. Parte do gás é cuspida de volta em dois jatos que saem do centro da galáxia e podem atravessar milhares de anos-luz. Foto: NASA/JPL-Caltech

2. As estrelas dançando em volta de nada. Astrônomos acompanharam por anos o movimento de estrelas no centro da Via Láctea e viram todas girando em torno de um ponto onde não havia nada visível. Pela velocidade delas, dá para calcular a massa do que está no meio: 4 milhões de sóis num espaço pequeno. Esse trabalho rendeu o Prêmio Nobel de Física de 2020.

3. O tranco no espaço. Quando dois buracos negros se chocam e viram um só, a batida sacode o próprio tecido do espaço e manda ondas gravitacionais para todo lado — e existem detectores na Terra capazes de sentir essa trepidação. A explicação está em O que são ondas gravitacionais?.

4. A lente de aumento. A gravidade entorta a trajetória da luz que passa de raspão. Um buraco negro solitário, sem nada para comer, denuncia a própria posição ao deformar a imagem das estrelas que estão atrás dele — a NASA compara o efeito ao de um espelho de parque de diversões. Ele está detalhado em O que é uma lente gravitacional? A lupa do universo.

Os recordes conhecidos

Alguns números da NASA que ajudam a dimensionar a coisa:

Recorde Qual é Marca
Mais próximo da Terra Gaia BH1 cerca de 1.500 anos-luz
Mais distante já detectado no centro do quasar QSO J0313-1806 cerca de 13 bilhões de anos-luz
Menor já identificado companheiro de uma estrela 3,8 massas solares
Mais pesado já observado TON 618 66 bilhões de massas solares
Mais rápido GRS 1915+105 mais de 1.000 rotações por segundo

Vale a pena parar no último. Todos os buracos negros giram, e esse gira mais de mil vezes por segundo. Um objeto com a massa de várias estrelas rodando mais rápido que o motor de um carro em alta rotação não é uma imagem fácil de montar na cabeça — e é real.

E os 1.500 anos-luz do Gaia BH1 merecem contexto, porque esse "mais próximo" assusta sem motivo. A estrela mais próxima de nós depois do Sol está a 4,2 anos-luz. O vizinho mais próximo entre os buracos negros está 350 vezes mais longe que isso. A escala está em O que é um ano-luz? A medida do universo com exemplos simples.

Perguntas frequentes

O que é um buraco negro, em poucas palavras?

É matéria concentrada num espaço tão pequeno que a gravidade ali não permite que nada saia, nem a luz. A fronteira a partir da qual não há mais volta se chama horizonte de eventos. Apesar do nome, não é um vazio nem um buraco: é o contrário, é matéria demais num lugar pequeno demais.

Um buraco negro suga tudo que está perto?

Não. A gravidade dele depende da massa e da distância, exatamente como a de qualquer estrela. Se o Sol virasse um buraco negro da mesma massa, segundo a NASA os planetas continuariam nas mesmas órbitas — só ficaria tudo muito mais frio. O que um buraco negro permite é chegar muito mais perto do centro de massa, e é lá que a gravidade fica extrema.

Qual é o tamanho de um buraco negro?

Menor do que quase todo mundo imagina. Pela conta padrão da física, um buraco negro com a massa do Sol teria um horizonte de eventos de cerca de 3 km de raio, e um com a massa da Terra teria menos de 9 milímetros. Mesmo Sagitário A*, com 4 milhões de massas solares, tem um horizonte de eventos que caberia dentro da órbita de Mercúrio.

Se nem a luz escapa, como é que os astrônomos sabem que existem?

Por quatro caminhos indiretos: o gás que cai neles esquenta e brilha em raios X; estrelas visíveis giram em torno de pontos invisíveis e entregam a massa do que está lá; colisões entre buracos negros produzem ondas gravitacionais detectáveis na Terra; e a gravidade deles entorta a luz das estrelas que estão atrás, funcionando como uma lente.

Quantos buracos negros existem na nossa galáxia?

Confirmados ou fortemente suspeitos, cerca de 50 do tipo estelar. Mas a estimativa da NASA é que a Via Láctea tenha até 100 milhões deles. A diferença entre os dois números não é erro: a imensa maioria está isolada, sem nada por perto para engolir, e por isso não emite nenhum sinal que dê para captar daqui.

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