O Planeta Nove ainda não foi encontrado, mas há uma pista forte de que existe. Desde 2016, astrônomos notaram que alguns dos objetos mais distantes do Sistema Solar têm órbitas alinhadas de um jeito que parece obra de algo grande puxando todos eles: um planeta com 5 a 10 vezes a massa da Terra, entre 400 e 800 vezes mais longe do Sol do que nós, dando uma volta a cada 10 ou 20 mil anos. Ninguém o viu. Em 2025, apareceu um candidato em imagens antigas de infravermelho, ainda sem confirmação. E um telescópio novo no Chile, o Observatório Vera Rubin, começou em 2025 a varrer o céu de um jeito que deve achá-lo, ou provar que ele não está lá, nos próximos anos. Este artigo explica a pista, o candidato, as alternativas e por que isso não tem nada a ver com Nibiru.
Por que alguém desconfiaria de um planeta invisível
A história começa com Netuno. Em 1846, ele foi descoberto não por acaso, mas por cálculo: Urano se desviava da órbita prevista, e o matemático francês Urbain Le Verrier calculou onde deveria estar o planeta que o puxava. Um telescópio apontou para lá e encontrou Netuno a menos de um grau do previsto. Foi a primeira vez que a gravidade revelou um mundo antes dos olhos.
O Planeta Nove é uma tentativa de repetir o truque. Além de Netuno existe o Cinturão de Kuiper, um anel de corpos gelados do qual Plutão é o mais famoso. Mais longe ainda, há objetos raros com órbitas enormes e muito ovais, que se afastam a centenas de vezes a distância da Terra ao Sol. O primeiro deles, Sedna, foi descoberto em 2003.
Em 2016, os astrônomos Konstantin Batygin e Mike Brown, do Caltech, notaram uma coisa estranha nesses objetos: seis deles tinham órbitas apontando para o mesmo lado do espaço e inclinadas do mesmo jeito. Se as órbitas fossem aleatórias, a chance de isso acontecer era de 0,007%. A explicação mais simples que encontraram foi um planeta grande, numa órbita distante, "pastoreando" esses objetos com a gravidade ao longo de bilhões de anos, como um cão de fazenda que mantém as ovelhas de um lado do pasto.
Brown, aliás, é o mesmo astrônomo que descobriu Éris e provocou o rebaixamento de Plutão, contado em Por que Plutão não é mais um planeta? A história completa. Ele gosta de dizer que tirou um planeta e agora quer devolver outro.
Como seria o Planeta Nove
Se as contas de 2016, refinadas desde então, estiverem certas:
| O que | Estimativa |
|---|---|
| Massa | 5 a 10 vezes a da Terra (entre a Terra e Netuno) |
| Tipo | Provavelmente um mundo gelado com atmosfera espessa, como uma versão menor de Netuno |
| Distância média do Sol | 400 a 800 unidades astronômicas (a Terra fica a 1; Netuno, a 30; a Voyager 1, a cerca de 170) |
| Ano | 10 a 20 mil anos terrestres |
| Temperatura | Cerca de −230 °C |
| Brilho visto daqui | Milhares de vezes mais fraco que Plutão |
A distância é o problema. A 600 unidades astronômicas, o Sol pareceria uma estrela brilhante, e o planeta refletiria uma luz fraquíssima, espalhada por um pedaço enorme de céu onde ele poderia estar. É procurar uma bola de gude preta num estádio escuro, sabendo só que ela está "em algum lugar da arquibancada". Um planeta assim seria brilhante o suficiente para os grandes telescópios verem, mas eles cobrem um pedaço pequeno de céu por vez, e a busca leva anos.

O candidato de 2025
Em 2025, um grupo de astrônomos de Taiwan procurou o planeta de outro jeito: em vez de luz refletida, buscou o calor que ele emitiria, em infravermelho, comparando imagens de dois satélites antigos, o IRAS, de 1983, e o AKARI, de 2006. Um planeta distante se moveria pouquíssimo entre as duas datas, mas se moveria. Eles encontraram um ponto que aparece nas duas imagens em posições ligeiramente diferentes, compatível com um objeto mais massivo que Netuno a algo entre 500 e 700 unidades astronômicas.
É um candidato, não uma descoberta. Pode ser coincidência entre duas fontes diferentes, ou ruído. Para confirmar, é preciso apontar um telescópio para a posição prevista e ver o objeto se mover ao longo de meses. Até setembro de 2026 essa confirmação não veio, e o próprio Brown observou que a órbita implicada pelo candidato não bate com a que explicaria o alinhamento dos objetos distantes. Ou seja: se for real, pode ser outro planeta, não o Nove. O Sistema Solar externo é grande o bastante para mais de uma surpresa.
As alternativas: talvez não exista
A ciência exige considerar que a pista esteja errada, e há três formas de isso acontecer.
A primeira é o viés de observação. Os objetos distantes são achados por telescópios que olham para certas partes do céu em certas épocas; se todos os seis foram encontrados olhando para o mesmo lado, o alinhamento pode ser artefato da busca, e não da natureza. Novos levantamentos, mais uniformes, reduziram essa preocupação, mas não a eliminaram: o número de objetos ainda é pequeno, e alguns novos não se encaixam tão bem no padrão.
A segunda é que o alinhamento seja produzido de outro jeito: por um disco de muitos corpos pequenos cuja gravidade somada faria o mesmo efeito, ou por uma estrela que passou perto do Sistema Solar há bilhões de anos e bagunçou as órbitas.
A terceira é a mais exótica: alguns físicos propuseram que o objeto poderia ser um buraco negro primordial do tamanho de uma laranja com a massa de cinco Terras. Não há razão para preferir essa hipótese a um planeta comum, mas ela mostra o quanto ainda é aberto.
O que não é alternativa é Nibiru. A ideia de um planeta escondido que se aproxima da Terra para causar catástrofe é invenção da internet e não tem relação com o Planeta Nove, que, se existir, está a centenas de vezes a distância da Terra ao Sol, sem nunca chegar perto de nós. Um planeta assim já teria sido notado pela gravidade, como o próprio Netuno foi. O que a ciência de verdade monitora perto da Terra está em Um asteroide vai atingir a Terra? O que a NASA monitora de verdade.
O telescópio que deve decidir: Vera Rubin
Desde 2025 funciona no norte do Chile o Observatório Vera Rubin, com a maior câmera digital já construída, de 3.200 megapixels. Ele fotografa o céu inteiro visível do sul a cada três ou quatro noites, durante dez anos. Nas primeiras semanas de teste, em 2025, já encontrou mais de 11 mil asteroides novos e centenas de objetos além de Netuno.
Para o Planeta Nove, isso muda tudo por dois caminhos. Se o planeta está no brilho e na distância previstos, o Rubin deve simplesmente vê-lo, movendo-se devagar entre uma foto e outra, na maior parte das posições possíveis. E, mesmo que não o veja, o telescópio vai descobrir centenas de objetos distantes novos: se as órbitas deles continuarem alinhadas, a pista fica muito mais forte; se se espalharem ao acaso, a hipótese cai. Brown estimou, em 2026, que a resposta deve vir em um ou dois anos de operação. É a previsão de quem tem interesse na resposta, então vale como "previsto para", não como promessa.
Enquanto isso, o Sistema Solar oficialmente continua com oito planetas, como explicado em Quantos planetas tem o Sistema Solar? A ordem e os dados. Se o Nove aparecer, será o primeiro planeta descoberto desde 1846, e será preciso escolher um nome. Brown e Batygin já disseram que não querem que seja "Planeta Nove".




