Perguntas que todo mundo faz

Por que Júpiter não é uma estrela?

Júpiter tem os mesmos ingredientes do Sol, mas faltou massa. Veja quantas vezes maior ele precisaria ser para acender e por que ele já esquenta sozinho.

Publicado em 7 min de leitura
Compartilhar:
Júpiter visto pelo telescópio Hubble, com as faixas de nuvens claras e alaranjadas e a Grande Mancha Vermelha num dos lados
Foto: Amy Simon Cornell U., Reta Beebe NMSU, Heidi Hammel Space Science Institute, MIT
Neste artigo
  1. O que separa um planeta de uma estrela
  2. Dois números da NASA, e os dois servem
  3. O meio-termo que quase ninguém conhece: as anãs marrons
  4. Júpiter já produz calor próprio, só que não por fusão
  5. Ele tem os ingredientes do Sol, e isso não é coincidência
  6. "E se Júpiter virasse uma estrela?" — a pergunta que não se sustenta

Júpiter não é uma estrela porque faltou massa — e faltou muita. Ele tem os mesmos ingredientes do Sol, principalmente hidrogênio e hélio, mas, nas palavras da própria NASA, "não cresceu o suficiente para acender". Para ligar a fusão nuclear e virar uma estrela de verdade, Júpiter precisaria ser cerca de 80 vezes mais massudo do que é.

Isso não é um detalhe. Oitenta vezes a massa de Júpiter é mais do que vinte e cinco mil Terras de material extra. Chamar Júpiter de "estrela fracassada" dá a impressão de que ele quase conseguiu. Não chegou nem perto.

O que separa um planeta de uma estrela

Uma estrela é, antes de tudo, um forno nuclear. No centro dela, a gravidade aperta tanto o hidrogênio que núcleos de átomos se fundem uns nos outros, formando hélio e liberando energia. É essa energia que faz a estrela brilhar por conta própria.

Planeta não faz isso. O brilho de Júpiter que você vê no céu é luz do Sol refletida, exatamente como acontece com a Lua.

A fronteira entre as duas categorias não é um gosto pessoal de astrônomo: é um número físico. Para a fusão de hidrogênio começar e se sustentar, o núcleo precisa passar de uma pressão e de uma temperatura mínimas, e isso só acontece quando o corpo tem pelo menos 0,08 vez a massa do Sol.

Usando as fichas planetárias da NASA, dá para traduzir esse limite em "júpiteres". A ficha do Sol dá massa de 1.988.400 × 10²⁴ kg, e a de Júpiter, 1.898,13 × 10²⁴ kg. Dividindo, o Sol tem 1.048 vezes a massa de Júpiter (conta nossa). Então 0,08 vez a massa do Sol dá, arredondando, 84 massas de Júpiter — que é exatamente de onde sai o "cerca de 80 vezes" que a NASA publica.

Dois números da NASA, e os dois servem

Vale um aviso de honestidade, porque quem pesquisar vai esbarrar nos dois.

Em um material, a NASA diz que "são necessárias cerca de 80 vezes a massa de Júpiter para que ele chegasse ao ponto de virar um sol". Em outro, diz que Júpiter precisaria de "mais de 70 vezes a massa atual" para iniciar a fusão.

Os dois estão certos, e a diferença é a fronteira ser borrada. O limite exato depende da composição química do corpo — quanto hélio e quanto de elementos pesados ele tem — e varia de uns 70 e poucos a uns 90 em massas de Júpiter, conforme o modelo. A literatura costuma arredondar em 80, e é o número que usamos aqui.

Objeto Massa (em massas de Júpiter) Acende?
Terra 0,003 Não
Júpiter 1 Não
Limite entre planeta e anã marrom ~13 Queima só o deutério, um hidrogênio pesado
Anã marrom típica 13 a 80 Queima deutério, não hidrogênio comum
Limite para virar estrela ~80 A partir daqui, sim
Sol 1.048 Sim, há 4,6 bilhões de anos

Ilustração comparando os tamanhos do Sol, de uma estrela de baixa massa, de uma anã marrom, de Júpiter e da Terra, lado a lado
Ilustração da NASA com a sequência de tamanhos: Sol, estrela de baixa massa, anã marrom, Júpiter e Terra. Repare que a anã marrom e Júpiter são quase do mesmo tamanho, apesar de a anã marrom ter dezenas de vezes mais massa. Foto: NASA/JPL-Caltech/UCB

O meio-termo que quase ninguém conhece: as anãs marrons

Entre o maior planeta e a menor estrela existe uma terceira categoria, e ela resolve boa parte da confusão.

Anã marrom é um corpo massudo demais para ser planeta e leve demais para ser estrela. A faixa é de 13 a 80 massas de Júpiter. Ela não consegue fundir hidrogênio comum, mas consegue fundir deutério, uma versão pesada do hidrogênio que tem um nêutron a mais no núcleo e que se funde em condições mais brandas. É por isso que às vezes se diz que anãs marrons "quase" são estrelas: elas até fundem alguma coisa, só não a coisa principal, e não por muito tempo.

O detalhe mais curioso está na ilustração acima: uma anã marrom, com dezenas de vezes a massa de Júpiter, tem mais ou menos o mesmo tamanho dele. Acrescentar massa a um corpo desses não o faz inchar — faz o interior se comprimir mais, e o diâmetro quase não muda. É como empilhar peso sobre um colchão de espuma: a altura da pilha cresce bem menos do que o peso que você põe em cima.

Júpiter já produz calor próprio, só que não por fusão

Aqui vem a parte que surpreende: Júpiter não é um corpo frio e inerte. Ele esquenta sozinho.

A prova está na ficha planetária da NASA, em duas linhas que raramente são lidas juntas:

  • Temperatura de corpo negro: 109,9 K. É a temperatura que Júpiter teria se fosse aquecido apenas pelo Sol.
  • Temperatura medida no nível de 1 bar: 165 K. É a temperatura real na camada onde a pressão é igual à da atmosfera da Terra ao nível do mar.

O planeta está mais quente do que a conta solar prevê. Sobra calor, e esse calor vem de dentro.

A origem não é fusão nuclear. A explicação aceita é a contração: Júpiter ainda estaria encolhendo lentamente sob o próprio peso e, como gás comprimido esquenta, essa compressão vagarosa libera energia há bilhões de anos. É o mesmo mecanismo que aqueceu o caroço central que viraria o Sol, contado em Como se formou o Sistema Solar? A história, passo a passo — só que em Júpiter ele nunca chegou longe o bastante para acender nada. O planeta está, em câmera lenta, fazendo o que uma estrela faz antes de ligar, e parado nesse ponto desde então.

Tem mais um dado que ajuda a entender o quanto Júpiter depende de si mesmo: lá, a luz do Sol chega com apenas 50,26 watts por metro quadrado, contra 1.361 W/m² aqui na Terra. Ou seja, Júpiter recebe 3,7% da luz solar que recebemos (conta nossa).

Ele tem os ingredientes do Sol, e isso não é coincidência

A composição da atmosfera de Júpiter, segundo a ficha da NASA, é de 89,8% de hidrogênio molecular e 10,2% de hélio — porcentagens por volume —, com traços de metano, amônia e água. O Sol é dominado pelos mesmos dois elementos, com 73% de hidrogênio e 25% de hélio em massa. As duas contas não são comparáveis direto, porque uma mede quantas moléculas e a outra quantos quilos, mas o recado é o mesmo: os dois são, essencialmente, bolas de hidrogênio e hélio.

Isso não é acaso. Os dois se formaram da mesma nuvem, ao mesmo tempo, com o mesmo material — história que contamos em Como se formou o Sistema Solar? A história, passo a passo. O Sol ficou com mais de 99% de toda a matéria disponível. Júpiter ficou com a maior parte do que sobrou: segundo a NASA, ele tem mais que o dobro do material de todos os outros corpos do Sistema Solar somados.

A diferença entre virar uma estrela e virar um planeta foi, literalmente, uma questão de quem chegou primeiro na fila do gás. Se quiser ver o tamanho dessa diferença em números, vale Júpiter: o maior planeta do Sistema Solar em números.

"E se Júpiter virasse uma estrela?" — a pergunta que não se sustenta

Essa ideia aparece bastante, em geral ligada a filmes de ficção. Ela esbarra num problema de aritmética.

Para chegar às 80 massas de Júpiter, seria preciso acrescentar 79 Júpiteres de material. Todo o resto do Sistema Solar junto — Saturno, Netuno, Urano, todos os planetas rochosos, todas as luas, todos os asteroides e cometas — soma menos da metade de um Júpiter. Não existe no Sistema Solar nem perto da matéria necessária. Seria preciso trazer massa de fora.

E, se por algum milagre isso acontecesse, o céu da Terra não ficaria dramaticamente diferente. Uma estrela com 80 massas de Júpiter é uma anã vermelha, o tipo mais fraco e mais comum que existe. À distância em que Júpiter está, ela apareceria como um ponto muito brilhante — bem mais que Vênus — mas não traria nem calor relevante nem um segundo dia. A Terra continuaria com noites.

Para calibrar essa intuição de tamanhos e brilhos, vale Qual é a maior estrela do universo? E por que o Sol é pequeno.

Perguntas frequentes

Por que Júpiter não é uma estrela?

Porque não tem massa suficiente para ligar a fusão nuclear no núcleo. Ele tem os mesmos ingredientes do Sol — hidrogênio e hélio —, mas precisaria ter cerca de 80 vezes mais massa do que tem para que a pressão e a temperatura internas chegassem ao ponto de fundir hidrogênio. O Sol tem 1.048 vezes a massa de Júpiter.

Júpiter é uma estrela fracassada?

O apelido é comum, mas engana, porque sugere que ele quase conseguiu. Faltaram 79 vezes a própria massa. O nome correto para o degrau logo acima dos planetas gigantes é anã marrom, que tem de 13 a 80 massas de Júpiter e funde deutério, não hidrogênio comum. Júpiter está muito abaixo até desse limite.

Júpiter emite luz própria?

Luz visível, praticamente não: o que você enxerga no céu é luz do Sol refletida nas nuvens dele. Mas ele emite calor próprio. A ficha da NASA mostra que a temperatura medida no nível de 1 bar (165 K) é maior que a temperatura de corpo negro (109,9 K), que seria a esperada se o Sol fosse a única fonte. Esse calor extra vem da contração lenta do planeta, não de fusão nuclear.

O que é uma anã marrom?

É um corpo com massa entre 13 e 80 vezes a de Júpiter, massudo demais para ser chamado de planeta e leve demais para ser estrela. Ela funde deutério, uma forma pesada do hidrogênio, mas nunca chega a fundir hidrogênio comum de forma sustentada. Curiosamente, anãs marrons têm tamanho parecido com o de Júpiter, porque a massa extra comprime o interior em vez de inchar o corpo.

E se Júpiter explodisse ou virasse uma estrela, o que aconteceria com a Terra?

Nada disso pode acontecer: não existe no Sistema Solar matéria suficiente para levar Júpiter às 80 massas necessárias, e planetas gigantes gasosos não explodem. Num cenário hipotético em que ele acendesse, viraria uma anã vermelha fraca, que apareceria como um ponto muito brilhante no céu, sem trazer calor relevante nem acabar com a noite na Terra.

Gostou? Compartilhe: WhatsAppFacebookTelegramX

Leia também

Mais em Perguntas
  • Perguntas

    Por que não existe gravidade artificial de verdade?

    A gravidade artificial não é ficção: a física permite, e a receita é conhecida desde o começo do século XX. Basta girar a nave. O problema é o tamanho. Para produzir no chão…

    ·7 min de leitura
  • Perguntas

    O que é o limite de Roche?

    O limite de Roche é a distância mínima que um corpo pode chegar de um planeta sem se despedaçar. Mais perto do que isso, a diferença de puxão da gravidade do planeta entre um…

    ·8 min de leitura
  • Perguntas

    As três leis de Kepler explicadas sem matemática

    As três leis de Kepler descrevem como qualquer coisa gira em volta de outra no espaço, e cabem em três frases: a órbita tem formato de elipse, e não de círculo; o planeta anda…

    ·8 min de leitura
  • Perguntas

    O brilho do ar (airglow): por que o céu nunca escurece

    Vá para o lugar mais escuro que você conseguir, numa noite sem Lua, longe de qualquer cidade. Espere a vista se acostumar. Mesmo ali, o céu não fica preto. Sobra sempre um…

    ·8 min de leitura