Perguntas que todo mundo faz

Quantos anos tem a Terra? Como se mede a idade do planeta

A Terra tem 4,54 bilhões de anos. Como os cientistas chegaram ao número medindo meteoritos, por que não há rocha tão velha aqui e o que veio antes.

Publicado em 7 min de leitura
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A Terra parcialmente iluminada, em forma de crescente, sobre o fundo preto do espaço, fotografada pela tripulação da Apollo 11
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. Um número grande demais para caber na cabeça
  2. O relógio que existe dentro das rochas
  3. Por que a resposta veio de meteoritos, e não da Terra
  4. As pedras da Lua confirmam
  5. Como era a Terra recém-nascida
  6. Por que dá para confiar nesse número

A Terra tem 4,54 bilhões de anos, com uma margem de erro de cerca de 50 milhões de anos para mais ou para menos. O número não é chute nem média de opiniões: vem da medição de átomos radioativos em meteoritos e rochas, um método que funciona como um relógio que ninguém consegue adiantar ou atrasar. Este artigo explica como esse relógio funciona, por que a resposta veio de pedras que caíram do céu e não de pedras da própria Terra, e o que aconteceu no planeta nesse tempo todo.

Um número grande demais para caber na cabeça

4,54 bilhões de anos é 4.540.000.000 anos. Ninguém sente um número desses, então vale uma escala. Imagine que toda a história da Terra coubesse em um ano de calendário, com o planeta nascendo à meia-noite de 1º de janeiro:

Quando O que aconteceu
1º de janeiro A Terra se forma
Fim de fevereiro Primeiros sinais de vida (só micróbios)
Meados de novembro Primeiros animais com corpo visível
13 de dezembro Aparecem os dinossauros
26 de dezembro Os dinossauros somem
31 de dezembro, 23h37 Surgem os primeiros humanos parecidos com a gente
31 de dezembro, 23h59min59s Cabral chega ao Brasil

Todo o tempo desde a chegada de Cabral cabe no último segundo do ano. Toda a história escrita da humanidade cabe no último meio minuto.

O relógio que existe dentro das rochas

A ferramenta que mede isso se chama datação radiométrica, e a ideia é mais simples do que o nome. Alguns átomos são instáveis: com o tempo, eles se transformam em outros átomos, num ritmo que não muda com calor, pressão, água ou nada. O urânio-238, por exemplo, vira chumbo-206. Metade de qualquer quantidade de urânio-238 leva 4,47 bilhões de anos para se transformar. Esse tempo se chama meia-vida.

Pense numa ampulheta gigante. A areia de cima é o urânio; a de baixo, o chumbo. Quando um mineral se forma e endurece, a ampulheta é virada: ele prende urânio, mas quase nenhum chumbo. A partir daí, a areia cai num ritmo conhecido. Se você medir hoje quanto urânio ainda sobra e quanto chumbo já se acumulou, sabe há quanto tempo a ampulheta foi virada. Não importa se a rocha ficou enterrada, aquecida ou molhada: o ritmo do decaimento é o mesmo.

O mineral preferido para isso é o zircão, um cristal duro e minúsculo que aceita urânio na estrutura e rejeita chumbo. É o guardião de tempo ideal: quando se forma, começa quase zerado.

Por que a resposta veio de meteoritos, e não da Terra

Aqui está a parte que surpreende. Ninguém nunca encontrou uma rocha terrestre com 4,54 bilhões de anos. E ninguém vai encontrar. A Terra é um planeta vivo por dentro: as placas do chão se movem, mergulham, derretem e voltam à superfície como lava nova. A crosta original foi reciclada há muito tempo, como uma calçada que a prefeitura refez tantas vezes que não sobrou nenhum pedaço da primeira.

As rochas mais antigas que existem na superfície, no norte do Canadá, têm cerca de 4 bilhões de anos. Os zircões mais antigos, grãos soltos encontrados na Austrália, chegam a 4,4 bilhões. No Brasil, os terrenos mais velhos, na Bahia, em Minas Gerais e na Amazônia, passam de 3 bilhões de anos. Tudo isso mostra que o planeta é pelo menos assim velho, mas não dá a idade exata.

A resposta exata veio de fora. Em 1956, o geoquímico americano Clair Patterson mediu chumbo e urânio em fragmentos do meteorito que abriu a cratera de Barringer, no Arizona. Meteoritos são sobras da formação do Sistema Solar que nunca foram recicladas: são pedaços da mesma nuvem que formou a Terra, congelados no tempo. A ampulheta deles foi virada uma vez só, no começo de tudo. Patterson encontrou 4,55 bilhões de anos. Medições feitas desde então, com meteoritos diferentes e métodos diferentes, apontam sempre para o mesmo intervalo, e o valor aceito hoje é 4,54 bilhões, com incerteza de cerca de 1%.

Vista de satélite de uma planície seca e amarelada cortada por um rio sinuoso, com uma cratera redonda e escura, de bordas erguidas, no lado direito
A cratera de Barringer, no Arizona, vista por satélite: 1,2 km de diâmetro, aberta há 50 mil anos por um meteorito de ferro. Foi em fragmentos desse meteorito que Clair Patterson mediu, em 1956, a idade da Terra. Foto: NASA/JPL

Há uma história ao lado dessa. Para medir chumbo em quantidades tão pequenas, Patterson precisou construir o laboratório mais limpo do mundo, e descobriu que tudo ao redor estava contaminado com chumbo da gasolina. Ele passou o resto da vida brigando para tirar o chumbo da gasolina, e venceu. A idade da Terra e a gasolina sem chumbo vêm do mesmo homem.

As pedras da Lua confirmam

A prova final chegou com as missões Apollo, entre 1969 e 1972. As rochas trazidas da Lua, que não tem placas em movimento nem erosão, foram datadas entre 4,4 e 4,5 bilhões de anos, e a idade da própria Lua ficou em torno de 4,5 bilhões. Como a Lua se formou logo depois da Terra, provavelmente numa colisão gigante, os números se encaixam.

E encaixam com o Sol também. A idade da nossa estrela, calculada por outro método, a física de como ela queima o hidrogênio, dá cerca de 4,6 bilhões de anos: o Sol acendeu primeiro, e os planetas se formaram das sobras nas dezenas de milhões de anos seguintes. O que vai acontecer com ele daqui para a frente está em O Sol vai explodir? Quando e o que acontece com a gente.

Como era a Terra recém-nascida

Nos primeiros 500 milhões de anos, o planeta não parecia em nada com o de hoje. Era uma bola de rocha derretida, bombardeada por asteroides, sem oceanos e sem ar respirável. O dia durava umas seis horas, porque a Terra girava muito mais rápido; a Lua, recém-formada e muito mais perto, apareceria no céu várias vezes maior do que agora.

Os oceanos vieram depois, quando a superfície esfriou o bastante para a água parar de evaporar. A vida apareceu cedo, por volta de 3,7 bilhões de anos atrás, mas passou quase 3 bilhões de anos só como micróbios. O oxigênio que respiramos foi produzido por essas bactérias ao longo de bilhões de anos. Se a idade da Terra fosse um filme de duas horas, a parte com animais ocuparia os últimos 15 minutos, e os humanos, o último segundo.

Quem quiser sentir a escala de outro jeito pode ler Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?: os meteoritos que caem hoje na Terra, como o Bendegó, na Bahia, têm a mesma idade do planeta. Segurar um é segurar o começo do Sistema Solar.

Por que dá para confiar nesse número

Três razões, para quem gosta de desconfiar (e deve):

  • Métodos independentes concordam. Urânio-chumbo, potássio-argônio, rubídio-estrôncio e samário-neodímio são relógios diferentes, com velocidades diferentes, medidos em laboratórios diferentes. Todos dão a mesma idade para os meteoritos. Seria como quatro relógios de marcas diferentes marcando a mesma hora por coincidência.
  • O ritmo do decaimento foi testado à exaustão. Não muda com temperatura de milhares de graus, pressão de fundo de oceano ou campos magnéticos. É a mesma física que faz um reator nuclear e um exame de medicina nuclear funcionarem.
  • Encaixa com o resto. A idade do Sol, a idade da Lua, a idade das galáxias mais velhas e a idade do universo, 13,8 bilhões de anos, formam uma sequência coerente: nada é mais velho que o universo, e a Terra é jovem perto dele. Como se mede a idade do universo está em O que é o Big Bang? A explicação simples, sem fórmula.

Antes disso tudo, as estimativas eram bem diferentes. Em 1650, o bispo irlandês James Ussher somou as gerações da Bíblia e cravou que a Terra tinha sido criada em 4004 a.C. No século 19, o físico Lord Kelvin calculou, pelo resfriamento do planeta, algo entre 20 e 400 milhões de anos; ele errou porque a radioatividade, que aquece o interior da Terra, ainda não tinha sido descoberta. O número atual só apareceu depois de 1950. Ciência é isso: a resposta melhora quando a ferramenta melhora.

Perguntas frequentes

Quantos anos tem a Terra exatamente?

Cerca de 4,54 bilhões de anos, com margem de erro de uns 50 milhões de anos, ou seja, um pouco mais de 1%. O valor vem da datação radiométrica de meteoritos, que são sobras da formação do Sistema Solar e nunca foram recicladas como as rochas da Terra.

Como os cientistas sabem a idade da Terra?

Medindo átomos radioativos nas rochas. O urânio se transforma em chumbo num ritmo fixo e conhecido; comparando quanto urânio sobrou e quanto chumbo se formou num mineral, dá para saber quando ele endureceu. Aplicado a meteoritos, o método dá 4,54 bilhões de anos, e métodos independentes com outros elementos confirmam.

Qual é a rocha mais antiga da Terra?

As rochas inteiras mais antigas conhecidas ficam no norte do Canadá e têm cerca de 4 bilhões de anos. Grãos soltos de zircão encontrados na Austrália chegam a 4,4 bilhões. Nenhuma rocha terrestre tem a idade do planeta, porque a crosta original foi derretida e reciclada pelo movimento das placas.

Quantos anos tem o Sol?

Cerca de 4,6 bilhões de anos, um pouco mais que a Terra. O Sol acendeu primeiro e os planetas se formaram das sobras de gás e poeira ao redor dele, ao longo das dezenas de milhões de anos seguintes. Ele está mais ou menos na metade da vida.

A Terra é mais velha que o universo?

Não, e nem poderia. O universo tem 13,8 bilhões de anos; a Terra, 4,54 bilhões. Quando o nosso planeta se formou, o universo já tinha dois terços da idade atual, e gerações inteiras de estrelas já tinham nascido e morrido, produzindo os elementos de que a Terra e nós somos feitos.

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