Talvez. E essa é a resposta honesta desde junho de 2025, quando um estudo novo derrubou o consenso que valia havia treze anos. Até então a NASA dizia, com todas as letras, que a Via Láctea e a galáxia de Andrômeda iam bater de frente daqui a 4 bilhões de anos. Hoje a própria NASA publica que a chance de as duas se encontrarem nos próximos 10 bilhões de anos é de mais ou menos 50% — cara ou coroa — e que a probabilidade daquela batida frontal em 4 ou 5 bilhões de anos é de apenas 2%. Nada disso é motivo de medo: mesmo no cenário mais violento, nenhuma estrela bate em outra, e a Terra já não existirá para assistir.
O que a NASA dizia até 2025
Em 31 de maio de 2012, a NASA anunciou o resultado que virou frase feita na internet. Usando o telescópio Hubble, uma equipe liderada por Roeland van der Marel e Sangmo Tony Sohn, do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial, mediu uma coisa muito difícil: o movimento de lado de Andrômeda no céu.
Que ela está vindo na nossa direção já se sabia havia quase um século, como o próprio Sohn observou. Isso é fácil de medir, porque a luz de um objeto que se aproxima fica ligeiramente mais azulada, do mesmo jeito que a sirene de uma ambulância fica mais aguda quando ela vem em sua direção. O que ninguém sabia era se Andrômeda vinha em cheio ou se passaria de raspão, e isso depende do movimento lateral, que é minúsculo à distância de 2,5 milhões de anos-luz.
O Hubble resolveu observando as mesmas regiões da galáxia repetidamente ao longo de cinco a sete anos e comparando as posições. O resultado: o movimento lateral é quase zero, Andrômeda vem direto, a mais de 400 mil km/h, e o encontro seria em 4 bilhões de anos, com a fusão completa 2 bilhões de anos depois. Sohn resumiu na época que, depois de quase um século de especulação, havia enfim um quadro claro do destino das duas.
Esse é o número que circula em todo lugar até hoje, inclusive em O que é a Via Láctea e como ver a nossa galáxia do Brasil, escrito antes da revisão.
O que mudou: 100 mil simulações e duas galáxias esquecidas
Em 2 de junho de 2025, uma equipe liderada por Till Sawala, da Universidade de Helsinque, publicou na revista Nature Astronomy um resultado que a própria NASA divulgou com um título que diz tudo: o Hubble lança dúvida sobre a certeza da colisão.
A equipe rodou 100 mil simulações variando 22 grandezas dentro das margens de erro conhecidas — massas, velocidades, direções. E acrescentou à conta duas galáxias que os cálculos anteriores tratavam como detalhe: a Grande Nuvem de Magalhães, que é satélite da Via Láctea e visível a olho nu de todo o Brasil, e a M33, satélite de Andrômeda.
A diferença que elas fazem é maior do que o tamanho delas sugere. A Grande Nuvem de Magalhães puxa a Via Láctea para um lado, mudando levemente a direção da nossa corrida; a M33 puxa Andrômeda para o outro. E, como a distância entre as duas galáxias é gigantesca, um desvio pequeno hoje vira um erro enorme daqui a bilhões de anos — o mesmo motivo pelo qual não se prevê o tempo com um mês de antecedência. Escrevemos sobre a vizinha do hemisfério sul em A Grande Nuvem de Magalhães, a galáxia que só o hemisfério sul vê.
Resultado: cerca de metade das simulações termina em fusão dentro de 10 bilhões de anos, e a outra metade termina com as duas galáxias passando longe e continuando cada uma o seu caminho.
Lado a lado, as duas respostas da NASA:
| Previsão de 2012 | Estudo de 2025 | |
|---|---|---|
| Quem assina | Van der Marel e Sohn, com o Hubble | Till Sawala, Universidade de Helsinque |
| Publicado em | 31 de maio de 2012 | 2 de junho de 2025, na Nature Astronomy |
| Método | Medida do movimento lateral de Andrômeda | 100 mil simulações variando 22 grandezas |
| Galáxias na conta | Via Láctea e Andrômeda | Mais a Grande Nuvem de Magalhães e a M33 |
| Vai colidir? | Sim, de frente | Cerca de 50% de chance em 10 bilhões de anos |
| Quando | Em 4 bilhões de anos, fusão em 6 | Sem data fechada; 2% de chance em 4 a 5 bilhões |
Por que ninguém morre nessa batida
Aqui está a parte que desarma o pânico, e ela vale nos dois cenários. Quando duas galáxias colidem, as estrelas não se chocam. A NASA foi explícita sobre isso já em 2012: as estrelas dentro de cada galáxia estão tão distantes umas das outras que nenhuma delas encosta em outra durante o encontro. O que acontece é que elas são jogadas em órbitas novas em volta de um centro novo.
Para sentir a escala: se o Sol fosse uma laranja de 7 centímetros em São Paulo, a estrela mais próxima dele seria outra laranja a uns 2.000 km dali — mais ou menos em Recife. Entre as duas, nada. Agora imagine duas nuvens dessas laranjas atravessando uma à outra. A chance de duas se tocarem é praticamente zero.
O que colide de verdade são as nuvens de gás, que são enormes e ocupam o espaço entre as estrelas. Elas se comprimem, e gás comprimido vira berçário: o céu ficaria, nas palavras da NASA, em chamas de formação de estrelas novas. Uma colisão de galáxias não destrói; ela fabrica.
É assim que fica uma galáxia atropelada
Isso não é teoria. Galáxias se atropelam o tempo todo no universo, e o Hubble já fotografou dezenas de casos em pleno processo. O par da foto de capa deste artigo, chamado Arp 273, é um desses: a galáxia maior teve os braços espirais esticados e torcidos até virar uma forma de rosa pela passagem da menor, que está logo abaixo dela.

Olhar para Arp 273 é olhar para o nosso possível futuro em câmera lenta — só que "câmera lenta" aqui significa que cada quadro do filme dura milhões de anos. A forma final, quando duas galáxias espirais terminam de se fundir, costuma ser uma galáxia elíptica: uma bola de luz sem braços e sem desenho, porque a bagunça do encontro apaga a estrutura em disco. Os tipos de galáxia e o que diferencia uma espiral de uma elíptica estão em Tipos de galáxias: espiral, elíptica, irregular e as outras.
Por que a Terra não vai estar lá para ver
Se a pergunta por trás da busca é "isso vai acabar com a gente?", a resposta é que outra coisa acaba com a gente muito antes, e não tem nada a ver com Andrômeda.
A mesma página da NASA lembra os dois prazos que realmente importam para a vida daqui. A Terra deve se tornar inabitável em cerca de 1 bilhão de anos, porque o Sol vai ficando gradualmente mais luminoso e a essa altura terá fervido os oceanos. E o Sol se apaga em torno de 5 bilhões de anos, ao fim do combustível dele.
Compare com a colisão: 4 bilhões de anos no cenário antigo, até 10 bilhões no novo. Ou seja, a Terra já estará estéril há bilhões de anos quando as duas galáxias se encontrarem, se é que se encontram. O que vai acontecer com o Sol está detalhado em O Sol vai explodir? O que realmente vai acontecer.
Uma última escala, porque bilhão é um número que a gente repete sem sentir. A Terra tem 4,54 bilhões de anos. Ou seja: mesmo no cenário mais rápido, o encontro com Andrômeda está mais longe no futuro do que a formação do nosso planeta está no passado. No cenário novo, pode estar duas vezes mais longe.
Como se mede uma coisa dessas
Vale explicar por que uma previsão tão distante pode mudar de um ano para o outro, porque isso não é sinal de que a ciência é frágil — é o contrário.
Prever o encontro de duas galáxias é um problema de gravidade com muitas peças. Você precisa saber a massa de cada uma (incluindo a matéria escura, que não se vê e responde pela maior parte do peso), a velocidade com que se aproximam, a direção exata e quem mais está puxando de lado. A velocidade de aproximação é fácil; a direção é dificílima, e foi ela que o Hubble mediu em 2012. As massas ainda têm margens grandes.
Quando Sawala e a equipe dele colocaram todas essas incertezas na máquina de uma vez, em vez de usar o valor central de cada uma, o resultado deixou de ser uma previsão e virou uma distribuição de probabilidades. Isso é um avanço, não um recuo: a resposta ficou menos bonita e mais verdadeira. A matéria invisível que domina essa conta é tema de O que é matéria escura.
E o instrumento que fez a medida de 2012 continua trabalhando. Cada década de observação aperta um pouco mais os números — e a resposta pode muito bem mudar de novo.




