Para dizer que um buraco redondo na Terra é uma cratera de impacto, não basta ele ser redondo: vulcão, desmoronamento e até dissolução de calcário fazem buracos redondos. Os geólogos procuram três coisas, nesta ordem: o desenho do terreno visto de cima, com um pico no meio; marcas de choque gravadas na própria rocha, como os cones de estilhaçamento; e grãos minerais que foram comprimidos de um jeito que só uma batida em alta velocidade consegue produzir. Quando as três aparecem juntas, a conversa acaba. Este artigo explica como cada prova funciona — e mostra onde fica a cratera de impacto mais bem preservada do Brasil.
A pergunta não é boba: vulcão também faz buraco redondo
Quando alguém manda a foto de satélite de uma estrutura circular, a reação natural é "caiu alguma coisa ali". Mas o planeta tem várias maneiras de cavar um círculo. Uma cratera vulcânica é redonda. Uma caldeira, que é o que sobra quando a câmara de magma esvazia e o teto afunda, é redonda e grande. Um domo salino empurrando as camadas de cima por baixo produz um anel. Em região de calcário, água dissolvendo rocha por milhares de anos produz depressões circulares.
O caso da Spider, na região de Kimberley, na Austrália Ocidental, é exemplar — e é atual: a NASA publicou a imagem dela como Imagem do Dia em 13 de outubro de 2026, feita pelo instrumento OLI do satélite Landsat 9 em 20 de setembro de 2026. A estrutura é oval, com cerca de 13 por 11 quilômetros, e tem no centro um desenho de aranha, com "pernas" claras saindo para os lados. Durante anos houve quem defendesse uma origem vulcânica. Foi uma prova encontrada na rocha, e não o formato, que resolveu a discussão. Daqui a pouco chegamos a ela.
A primeira pista é o desenho: o pico no meio
Uma cratera pequena é só uma tigela. A partir de certo tamanho, acontece uma coisa contraintuitiva: o chão da cratera sobe de volta no meio.
A comparação mais honesta é a da pedra jogada num balde d'água. No instante da batida, a água abre um buraco; um segundo depois, uma coluna sobe do centro e espirra para cima. Numa cratera grande, a rocha faz exatamente isso — só que devagar demais para ser visto e rápido demais para o material escorrer de volta. O resultado é um pico central — em linguagem técnica, soerguimento central —, uma elevação no meio do buraco, formada pelo repique da rocha logo depois do choque. É isso que a NASA descreve na Spider: a parte central em forma de aranha, com cerca de 4 quilômetros de ponta a ponta, é provavelmente o que sobrou do pico central.

A Gosses Bluff, também na Austrália, é o caso-escola do que a erosão faz com o resto. A NASA conta que um asteroide ou cometa atingiu ali o que hoje são as Planícies Missionary, no Território do Norte, há 142 milhões de anos, abrindo uma cratera de 24 quilômetros de diâmetro. O que se vê hoje é um anel circular de morros — e o que ficou visível não é a borda da cratera original, é o miolo. O resto foi embora.
A prova que está na pedra: os cones de estilhaçamento
Esta é a prova que costuma fechar o caso no campo, e ela cabe na mão.
Quando uma pedra do espaço bate no chão a dezenas de milhares de quilômetros por hora, a energia entra na rocha como uma onda de choque, uma frente de pressão brutal que atravessa o material. Essa onda deixa uma assinatura: fraturas em forma de leque, que se abrem a partir de um ponto e formam um cone. São os cones de estilhaçamento (em inglês, shatter cones).
Se você já viu uma pedrinha bater no para-brisa do carro e deixar aquela marquinha cônica, com as linhas saindo do ponto de impacto, já viu a mesma física em escala pequena. A diferença é que no para-brisa a marca some com a troca do vidro, e na rocha ela fica por centenas de milhões de anos.
No caso da Spider, foi justamente isso que desempatou: a NASA conta que geólogos identificaram fraturas em forma de leque, que se formam sob choque intenso, como prova de impacto — e a hipótese vulcânica foi posta de lado. Nenhum vulcão produz esse padrão, porque nenhum vulcão aplica pressão desse jeito.
O quartzo que foi comprimido e não derreteu
A terceira prova é a confirmação de laboratório, e exige microscópio.
Quartzo é um mineral comum, o grão transparente que forma boa parte da areia. Sob o choque de um impacto, a estrutura interna do cristal se deforma em linhas paralelas microscópicas, sem que o mineral chegue a derreter. É o quartzo chocado. O detalhe que importa: a combinação de pressão altíssima aplicada em tempo curtíssimo não acontece em vulcanismo, nem em terremoto, nem em qualquer processo geológico lento. Praticamente só acontece em impacto.
A NASA explica que análises de laboratório de cristais de quartzo e zircão chocados retirados do arenito da Spider podem até ajudar a reconstruir o ângulo da batida — ou seja, a rocha guarda informação não só sobre o que aconteceu, mas sobre como aconteceu.
Foi material assim, espalhado longe do ponto da batida, que ajudou a fechar o caso mais famoso de todos: o da pedra que acabou com os dinossauros, contado em O asteroide que matou os dinossauros: o que se sabe.
Por que quase não sobra cratera na Terra
Se a Lua é um queijo furado e a Terra está no mesmo bairro do Sistema Solar, levando o mesmo tipo de bombardeio, por que é tão difícil achar cratera aqui?
Porque a Terra apaga. Chuva, rio e vento desmancham as bordas; placas tectônicas enfiam pedaços inteiros de crosta para baixo de outros; vegetação cobre; sedimento enterra. A Lua não tem nada disso, e por isso guarda tudo — o assunto está desenvolvido em Por que a Lua tem tantas crateras e a Terra não?.
É por isso que as crateras terrestres que sobram costumam estar em dois tipos de lugar: desertos muito secos, onde quase não chove, e escudos antigos muito estáveis, onde há centenas de milhões de anos nada se mexe. Quem quiser conferir quanta matéria ainda cai, todo santo dia, sem deixar marca nenhuma, encontra a conta em Quanta poeira espacial cai na Terra por dia?.
| Estrutura | Onde fica | Tamanho | Idade estimada |
|---|---|---|---|
| Serra da Cangalha | Norte do Brasil | cerca de 13 km de diâmetro | cerca de 220 milhões de anos |
| Spider | Kimberley, Austrália Ocidental | 13 por 11 km (oval) | entre 900 e 600 milhões de anos |
| Gosses Bluff | Território do Norte, Austrália | 24 km de diâmetro | 142 milhões de anos |
| Manicouagan | Quebec, Canadá | "uma das maiores da Terra", pela NASA | cerca de 214 milhões de anos |
| Barringer (Meteor Crater) | Arizona, Estados Unidos | 1.300 m de diâmetro e 174 m de profundidade | — |
A melhor cratera do Brasil fica no Tocantins
O Brasil tem a sua, e ela é boa.
A Serra da Cangalha é descrita pela NASA como a cratera de impacto mais bem preservada do Brasil. Fica no norte do país — as coordenadas que a própria agência publica na página caem no leste do Tocantins —, tem cerca de 13 quilômetros de diâmetro e se formou, segundo a estimativa dos geólogos citada pela NASA, quando um meteorito atingiu o local há aproximadamente 220 milhões de anos.
Ela se preservou porque está assentada sobre sedimentos praticamente não perturbados: é aquele caso do terreno estável onde nada se mexe há muito tempo. E tem as duas marcas que este artigo descreveu. A tigela mais interna é cercada por rochas que se erguem 420 metros acima do terreno em volta — um paredão da altura de um prédio de cerca de 140 andares. E, na área do pico central, foram encontrados blocos de madeira fossilizada.
A imagem que a NASA publicou da estrutura foi feita pelo instrumento ASTER, a bordo do satélite Terra, em 23 de junho de 2006.
A cratera que vira lago, e a que vira usina
O último caso é o que aparece duas vezes aqui: na foto de capa e logo acima.
A Manicouagan, na província de Quebec, no Canadá, é descrita pela NASA como uma das maiores crateras da Terra, formada por um impacto de meteorito há cerca de 214 milhões de anos. De cima, ela é inconfundível: um lago em forma de anel quase perfeito, com uma ilha no meio — a foto que abre o artigo foi feita da Estação Espacial, no inverno, com a neve realçando o contorno. O anel tem nome, Reservatório Manicouagan, e um destino prosaico — é parte de um sistema hidrelétrico importante para o abastecimento de energia de Quebec.
A ilha no meio do anel, aliás, é o mesmo fenômeno descrito lá em cima: o que sobrou do pico central, agora cercado de água.
Vale uma nota final de método. Nenhuma dessas estruturas foi declarada "de impacto" porque alguém olhou a foto e achou parecido. Em todas, o caminho foi o mesmo: o formato chamou a atenção, alguém foi até lá com um martelo, e a rocha contou o resto. E a diferença entre a pedra que risca o céu, a que chega ao chão e a que fica no espaço está desfeita em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.




