Curiosidades

Como se sabe que uma cratera é de impacto?

Vulcão também faz buraco redondo. Veja as três provas que os geólogos procuram para dizer que ali caiu uma pedra do espaço — e a melhor cratera do Brasil.

Publicado em 8 min de leitura
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Foto feita da Estação Espacial de uma paisagem canadense coberta de neve, com um lago em forma de anel claro no meio, a cratera de impacto de Manicouagan
Foto: NASA/Chris Williams
Neste artigo
  1. A pergunta não é boba: vulcão também faz buraco redondo
  2. A primeira pista é o desenho: o pico no meio
  3. A prova que está na pedra: os cones de estilhaçamento
  4. O quartzo que foi comprimido e não derreteu
  5. Por que quase não sobra cratera na Terra
  6. A melhor cratera do Brasil fica no Tocantins
  7. A cratera que vira lago, e a que vira usina

Para dizer que um buraco redondo na Terra é uma cratera de impacto, não basta ele ser redondo: vulcão, desmoronamento e até dissolução de calcário fazem buracos redondos. Os geólogos procuram três coisas, nesta ordem: o desenho do terreno visto de cima, com um pico no meio; marcas de choque gravadas na própria rocha, como os cones de estilhaçamento; e grãos minerais que foram comprimidos de um jeito que só uma batida em alta velocidade consegue produzir. Quando as três aparecem juntas, a conversa acaba. Este artigo explica como cada prova funciona — e mostra onde fica a cratera de impacto mais bem preservada do Brasil.

A pergunta não é boba: vulcão também faz buraco redondo

Quando alguém manda a foto de satélite de uma estrutura circular, a reação natural é "caiu alguma coisa ali". Mas o planeta tem várias maneiras de cavar um círculo. Uma cratera vulcânica é redonda. Uma caldeira, que é o que sobra quando a câmara de magma esvazia e o teto afunda, é redonda e grande. Um domo salino empurrando as camadas de cima por baixo produz um anel. Em região de calcário, água dissolvendo rocha por milhares de anos produz depressões circulares.

O caso da Spider, na região de Kimberley, na Austrália Ocidental, é exemplar — e é atual: a NASA publicou a imagem dela como Imagem do Dia em 13 de outubro de 2026, feita pelo instrumento OLI do satélite Landsat 9 em 20 de setembro de 2026. A estrutura é oval, com cerca de 13 por 11 quilômetros, e tem no centro um desenho de aranha, com "pernas" claras saindo para os lados. Durante anos houve quem defendesse uma origem vulcânica. Foi uma prova encontrada na rocha, e não o formato, que resolveu a discussão. Daqui a pouco chegamos a ela.

A primeira pista é o desenho: o pico no meio

Uma cratera pequena é só uma tigela. A partir de certo tamanho, acontece uma coisa contraintuitiva: o chão da cratera sobe de volta no meio.

A comparação mais honesta é a da pedra jogada num balde d'água. No instante da batida, a água abre um buraco; um segundo depois, uma coluna sobe do centro e espirra para cima. Numa cratera grande, a rocha faz exatamente isso — só que devagar demais para ser visto e rápido demais para o material escorrer de volta. O resultado é um pico central — em linguagem técnica, soerguimento central —, uma elevação no meio do buraco, formada pelo repique da rocha logo depois do choque. É isso que a NASA descreve na Spider: a parte central em forma de aranha, com cerca de 4 quilômetros de ponta a ponta, é provavelmente o que sobrou do pico central.

Imagem de satélite de uma região verde do Canadá com um lago em forma de anel quase perfeito e uma ilha no meio dele
A cratera de Manicouagan, no Quebec, vista pelo satélite Terra em 1º de junho de 2001. A ilha no meio do anel de água é o que sobrou do pico central. Foto: NASA/GSFC/LaRC/JPL, MISR Team

A Gosses Bluff, também na Austrália, é o caso-escola do que a erosão faz com o resto. A NASA conta que um asteroide ou cometa atingiu ali o que hoje são as Planícies Missionary, no Território do Norte, há 142 milhões de anos, abrindo uma cratera de 24 quilômetros de diâmetro. O que se vê hoje é um anel circular de morros — e o que ficou visível não é a borda da cratera original, é o miolo. O resto foi embora.

A prova que está na pedra: os cones de estilhaçamento

Esta é a prova que costuma fechar o caso no campo, e ela cabe na mão.

Quando uma pedra do espaço bate no chão a dezenas de milhares de quilômetros por hora, a energia entra na rocha como uma onda de choque, uma frente de pressão brutal que atravessa o material. Essa onda deixa uma assinatura: fraturas em forma de leque, que se abrem a partir de um ponto e formam um cone. São os cones de estilhaçamento (em inglês, shatter cones).

Se você já viu uma pedrinha bater no para-brisa do carro e deixar aquela marquinha cônica, com as linhas saindo do ponto de impacto, já viu a mesma física em escala pequena. A diferença é que no para-brisa a marca some com a troca do vidro, e na rocha ela fica por centenas de milhões de anos.

No caso da Spider, foi justamente isso que desempatou: a NASA conta que geólogos identificaram fraturas em forma de leque, que se formam sob choque intenso, como prova de impacto — e a hipótese vulcânica foi posta de lado. Nenhum vulcão produz esse padrão, porque nenhum vulcão aplica pressão desse jeito.

O quartzo que foi comprimido e não derreteu

A terceira prova é a confirmação de laboratório, e exige microscópio.

Quartzo é um mineral comum, o grão transparente que forma boa parte da areia. Sob o choque de um impacto, a estrutura interna do cristal se deforma em linhas paralelas microscópicas, sem que o mineral chegue a derreter. É o quartzo chocado. O detalhe que importa: a combinação de pressão altíssima aplicada em tempo curtíssimo não acontece em vulcanismo, nem em terremoto, nem em qualquer processo geológico lento. Praticamente só acontece em impacto.

A NASA explica que análises de laboratório de cristais de quartzo e zircão chocados retirados do arenito da Spider podem até ajudar a reconstruir o ângulo da batida — ou seja, a rocha guarda informação não só sobre o que aconteceu, mas sobre como aconteceu.

Foi material assim, espalhado longe do ponto da batida, que ajudou a fechar o caso mais famoso de todos: o da pedra que acabou com os dinossauros, contado em O asteroide que matou os dinossauros: o que se sabe.

Por que quase não sobra cratera na Terra

Se a Lua é um queijo furado e a Terra está no mesmo bairro do Sistema Solar, levando o mesmo tipo de bombardeio, por que é tão difícil achar cratera aqui?

Porque a Terra apaga. Chuva, rio e vento desmancham as bordas; placas tectônicas enfiam pedaços inteiros de crosta para baixo de outros; vegetação cobre; sedimento enterra. A Lua não tem nada disso, e por isso guarda tudo — o assunto está desenvolvido em Por que a Lua tem tantas crateras e a Terra não?.

É por isso que as crateras terrestres que sobram costumam estar em dois tipos de lugar: desertos muito secos, onde quase não chove, e escudos antigos muito estáveis, onde há centenas de milhões de anos nada se mexe. Quem quiser conferir quanta matéria ainda cai, todo santo dia, sem deixar marca nenhuma, encontra a conta em Quanta poeira espacial cai na Terra por dia?.

Estrutura Onde fica Tamanho Idade estimada
Serra da Cangalha Norte do Brasil cerca de 13 km de diâmetro cerca de 220 milhões de anos
Spider Kimberley, Austrália Ocidental 13 por 11 km (oval) entre 900 e 600 milhões de anos
Gosses Bluff Território do Norte, Austrália 24 km de diâmetro 142 milhões de anos
Manicouagan Quebec, Canadá "uma das maiores da Terra", pela NASA cerca de 214 milhões de anos
Barringer (Meteor Crater) Arizona, Estados Unidos 1.300 m de diâmetro e 174 m de profundidade —

A melhor cratera do Brasil fica no Tocantins

O Brasil tem a sua, e ela é boa.

A Serra da Cangalha é descrita pela NASA como a cratera de impacto mais bem preservada do Brasil. Fica no norte do país — as coordenadas que a própria agência publica na página caem no leste do Tocantins —, tem cerca de 13 quilômetros de diâmetro e se formou, segundo a estimativa dos geólogos citada pela NASA, quando um meteorito atingiu o local há aproximadamente 220 milhões de anos.

Ela se preservou porque está assentada sobre sedimentos praticamente não perturbados: é aquele caso do terreno estável onde nada se mexe há muito tempo. E tem as duas marcas que este artigo descreveu. A tigela mais interna é cercada por rochas que se erguem 420 metros acima do terreno em volta — um paredão da altura de um prédio de cerca de 140 andares. E, na área do pico central, foram encontrados blocos de madeira fossilizada.

A imagem que a NASA publicou da estrutura foi feita pelo instrumento ASTER, a bordo do satélite Terra, em 23 de junho de 2006.

A cratera que vira lago, e a que vira usina

O último caso é o que aparece duas vezes aqui: na foto de capa e logo acima.

A Manicouagan, na província de Quebec, no Canadá, é descrita pela NASA como uma das maiores crateras da Terra, formada por um impacto de meteorito há cerca de 214 milhões de anos. De cima, ela é inconfundível: um lago em forma de anel quase perfeito, com uma ilha no meio — a foto que abre o artigo foi feita da Estação Espacial, no inverno, com a neve realçando o contorno. O anel tem nome, Reservatório Manicouagan, e um destino prosaico — é parte de um sistema hidrelétrico importante para o abastecimento de energia de Quebec.

A ilha no meio do anel, aliás, é o mesmo fenômeno descrito lá em cima: o que sobrou do pico central, agora cercado de água.

Vale uma nota final de método. Nenhuma dessas estruturas foi declarada "de impacto" porque alguém olhou a foto e achou parecido. Em todas, o caminho foi o mesmo: o formato chamou a atenção, alguém foi até lá com um martelo, e a rocha contou o resto. E a diferença entre a pedra que risca o céu, a que chega ao chão e a que fica no espaço está desfeita em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.

Perguntas frequentes

Como os cientistas sabem que uma cratera foi feita por um meteorito?

Pela combinação de três evidências: a forma do terreno, com um pico central no meio das crateras grandes; marcas de onda de choque na rocha, como os cones de estilhaçamento, que são fraturas em forma de leque; e minerais deformados por pressão extrema aplicada em tempo curtíssimo, como o quartzo chocado. Nenhum processo vulcânico ou erosivo produz as duas últimas.

Qual é a maior cratera de impacto do Brasil?

A NASA não publica um ranking de tamanho das estruturas brasileiras, então não dá para cravar a maior com fonte primária. O que a agência publica é outra coisa: a Serra da Cangalha, no norte do país, é a cratera de impacto mais bem preservada do Brasil. Ela tem cerca de 13 quilômetros de diâmetro e se formou há aproximadamente 220 milhões de anos, segundo a estimativa dos geólogos citada pela NASA.

Por que a Terra tem tão poucas crateras se recebe tanta matéria do espaço?

Porque a Terra apaga as marcas. Chuva, vento e rios desmancham as bordas, a vegetação cobre, o sedimento enterra e as placas tectônicas reciclam pedaços inteiros de crosta. A Lua não tem atmosfera, água nem tectônica, então guarda praticamente tudo o que recebeu.

O que é um cone de estilhaçamento?

É uma fratura em forma de leque ou de cone que se abre na rocha quando uma onda de choque muito intensa a atravessa. É a mesma geometria da marquinha que uma pedrinha deixa no para-brisa do carro, em escala muito maior, e é considerada uma assinatura de impacto porque nenhum processo geológico comum aplica pressão desse jeito.

Dá para visitar uma cratera de impacto no Brasil?

A Serra da Cangalha fica em área rural do norte do país e não é um parque com estrutura turística montada como a cratera Barringer, no Arizona. A estrutura é grande o bastante para que, de dentro dela, a borda pareça apenas uma serra comum — crateras desse tamanho só se revelam de cima.

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