Perguntas que todo mundo faz

Por que a Lua tem tantas crateras e a Terra não?

As duas apanharam igual durante 4,5 bilhões de anos. A diferença é que a Terra tem três apagadores e a Lua não tem nenhum. Veja o placar e as contas.

Publicado em 7 min de leitura
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Parte do globo da Lua vista de perto, com o terreno do lado oculto completamente coberto de crateras sobrepostas, sobre o fundo preto do espaço
Foto: NASA
Neste artigo
  1. A Lua é um caderno que ninguém apagou
  2. Os três apagadores que a Terra tem
  3. Como se faz uma cratera, em dois tempos
  4. Simples, complexa e bacia: os três tamanhos
  5. Tycho, a cratera que vale apontar o binóculo
  6. A maior cicatriz fica do lado que ninguém vê
  7. A melhor cratera da Terra fica no Arizona

A Lua tem tantas crateras porque nada lá apaga as marcas, e a Terra tem poucas porque tudo aqui apaga. As duas levaram pancada na mesma proporção durante os 4,5 bilhões de anos em que existem, vizinhas que são. A diferença não está em quem foi mais atingido: está em quem guardou a cicatriz.

Em números da NASA, a conta fica assim: a Terra tem cerca de 180 crateras de impacto conhecidas; a Lua tem muitos milhares, visíveis a olho nu desde o quintal de casa. A seguir, por que o placar é tão desigual, como uma cratera se forma e o que a diferença ensina sobre os dois mundos.

A Lua é um caderno que ninguém apagou

Imagine um caderno velho de escola e um quadro-branco de sala de aula. Os dois receberam a mesma quantidade de anotações ao longo dos anos. No caderno, está tudo lá: a lição do primeiro dia continua legível. No quadro, não sobrou nada, porque alguém passa o apagador toda aula.

A Lua é o caderno. Segundo a NASA, ela não tem praticamente nenhuma erosão, porque não tem atmosfera — sem vento, sem chuva, sem planta, nada desgasta a superfície. Não tem tectônica de placas há bilhões de anos, então o chão não é reciclado. E não tem vulcanismo há cerca de três bilhões de anos, então não existe lava nova para cobrir buraco antigo.

O exemplo que a própria NASA dá para mostrar o quanto isso é extremo: as pegadas deixadas pelos astronautas em 1971 continuam visíveis de órbita, mais de meio século depois. Nenhuma brisa passou por ali.

Por que a Lua não segurou uma atmosfera, com a conta que explica isso, está em Por que a Lua não tem atmosfera? A resposta em uma conta.

Os três apagadores que a Terra tem

Do lado de cá, três processos trabalham sem parar para sumir com as cicatrizes.

Apagador O que faz Prazo
Erosão Chuva, vento, rio, gelo e raiz quebram a rocha e nivelam o terreno Milhões de anos
Tectônica de placas A superfície se recicla: cria crosta nova e engole a velha Dezenas a centenas de milhões de anos
Vulcanismo Lava cobre o buraco como massa corrida Variável, e menos importante que os dois acima

A NASA destaca que, na Terra, erosão e tectônica são os dois pesos-pesados; o vulcanismo apaga menos. E o resultado é implacável: com tempo suficiente, a erosão reduz uma cratera a quase nada.

O exemplo citado pela agência é Manicouagan, no Canadá: um impacto de mais de 200 milhões de anos atrás cuja única pista hoje é o anel de lago que sobrou. Esse anel é justamente a foto que abre O asteroide que matou os dinossauros: o que se sabe, e é instrutivo que a melhor cratera antiga que temos para mostrar seja uma que virou lago.

Como se faz uma cratera, em dois tempos

A parte contraintuitiva: uma cratera quase nunca tem o tamanho da pedra que a fez. Ela é muito maior.

O que a NASA descreve são duas fases.

Na escavação, o objeto chega mais rápido que o som e entrega toda a energia de uma vez. Não é um objeto cavando um buraco com as mãos: é uma explosão. O material do chão é jogado para fora em todas as direções e abre a depressão inicial.

Na modificação, as ondas de choque continuam trabalhando: as paredes desabam, o fundo se acomoda e, em crateras grandes, o centro sobe de volta, como acontece com a gota que cai no leite e devolve um pico no meio.

O tamanho final depende do tamanho, da densidade e da velocidade do objeto, mais o tipo de terreno e o ângulo da batida. É por isso que a cratera de Chicxulub tem pelo menos 180 km de largura e a pedra que a abriu tinha uns 10 km — dezoito vezes menos.

Simples, complexa e bacia: os três tamanhos

A NASA separa as crateras lunares em três categorias, pelo tamanho, e cada uma tem uma cara diferente.

Tipo Largura Como é
Simples até cerca de 10 a 15 km Tigela redonda, fundo liso e arredondado
Complexa acima de 15 km Pico central, paredes em degraus, fundo mais plano
Bacia acima de 300 km Estrutura gigante, muitas vezes preenchida por lava

A Lua tem mais de 40 bacias, e a maioria delas se formou em uma mesma época: há cerca de 3,9 bilhões de anos, no período que os cientistas chamam de Bombardeio Pesado Tardio — uma fase em que o Sistema Solar interior apanhou muito mais do que apanha hoje. A bacia grande mais jovem é a Orientale, com cerca de 3,8 bilhões de anos.

Vale guardar esses 3,9 bilhões de anos, porque eles mudam a leitura da paisagem: quando você olha a Lua, está vendo, na maior parte, o registro de uma única temporada violenta que acabou antes de a vida complexa existir na Terra.

Tycho, a cratera que vale apontar o binóculo

Se existe uma cratera para conhecer pelo nome, é Tycho, no hemisfério sul lunar. A NASA a descreve como alvo muito popular entre astrônomos amadores, e os números explicam por quê.

Aqui aparece uma daquelas divergências que este site prefere mostrar a esconder: a página da NASA sobre crateras lunares dá a Tycho 85 km de diâmetro, e a legenda oficial da imagem feita pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter dá 82 km. Os dois são da NASA. A diferença é pequena e vem de onde se decide que a borda começa, num terreno que não tem borda nítida.

O resto da ficha vem da mesma legenda, de uma imagem feita em 10 de junho de 2011: o fundo da cratera está 4,7 km abaixo da borda — mais da metade da altura do Everest, que tem 8,849 km — e o conjunto de picos no centro se levanta 2 km acima do fundo, espalhado por cerca de 15 km de largura.

A idade de Tycho é outro dado que ajuda a sentir o tempo lunar: cerca de 110 milhões de anos. Em escala geológica terrestre, é recente — os dinossauros já andavam por aqui. Na Lua, "recente" significa que ela ainda tem os raios claros de material ejetado espalhados em volta, que não tiveram tempo de escurecer.

Vista de perto do pico central de uma cratera lunar ao nascer do sol, com montanhas claras projetando uma sombra longa e triangular sobre o fundo escuro da cratera
O conjunto de picos no centro da cratera Tycho, fotografado pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter em 10 de junho de 2011, com o Sol baixo. O pico sobe 2 km acima do fundo da cratera e tem cerca de 15 km de ponta a ponta. Foto: NASA/GSFC

A maior cicatriz fica do lado que ninguém vê

A maior estrutura de impacto da Lua não aparece daqui. É a Bacia Aitken do Polo Sul, com cerca de 2.500 km de largura e 13 km de profundidade, no lado oculto — uma marca que cobre quase um quarto do satélite.

Para dar escala brasileira: 2.500 km é quase a distância em linha reta entre São Paulo e Manaus, que dá 2.689 km (conta nossa, pela fórmula de Haversine). Um único impacto abriu uma cicatriz desse comprimento.

O lado oculto, aliás, é visivelmente mais craterado que o lado que vemos, e o motivo tem a ver com lava: a face voltada para a Terra recebeu grandes derrames que cobriram boa parte dos buracos antigos, formando as manchas escuras que a gente chama de "mares". O outro lado não teve esse alívio. A história completa está em O que existe do lado oculto da Lua? — e a foto que abre este artigo é exatamente esse terreno, registrado pela tripulação da Artemis II em 6 de abril de 2026.

A melhor cratera da Terra fica no Arizona

Para ver na Terra algo parecido com uma cratera lunar, é preciso procurar uma bem jovem, antes que os apagadores façam o serviço. A mais famosa é a cratera Barringer, também chamada de Meteor Crater, no deserto do Arizona, a 30 km a oeste de Winslow.

Os números, pela ficha da NASA: 1.300 metros de diâmetro e 174 metros de profundidade. Ou seja, um buraco com a largura de treze campos de futebol enfileirados e a profundidade de um prédio de quase sessenta andares, cavado em arenito plano.

Se Barringer estivesse na Lua, seria uma cratera "simples" bem comum, nem das maiores. Na Terra, é uma atração turística justamente porque é rara: o deserto seco preservou o que a chuva teria desmanchado em qualquer outro lugar.

Vista de cima do deserto do Arizona, com vegetação esverdeada, linhas finas de drenagem e, à direita, um buraco circular escuro com borda clara
A cratera Barringer, no Arizona, é o buraco circular na parte direita da imagem. Ela tem 1.300 metros de diâmetro e 174 metros de profundidade, e só se preservou tão bem porque está num deserto seco. Foto: NASA/JPL

E se a diferença entre meteoro, meteorito e asteroide ainda embaralha na hora de contar essa história, ela está desfeita em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.

Perguntas frequentes

Quantas crateras tem a Lua?

A NASA fala em muitos milhares de crateras visíveis, sem dar um número fechado, porque a conta depende do tamanho mínimo que se decide contar, e há crateras de todos os tamanhos. O que é contado com precisão são as grandes, e só de bacias com mais de 300 km a Lua tem mais de quarenta.

Por que a Terra tem tão poucas crateras?

Porque erosão, tectônica de placas e vulcanismo apagam as marcas. A NASA contabiliza cerca de 180 crateras de impacto conhecidas na Terra, e várias delas só são identificadas por medições de subsolo, porque na superfície não sobrou desenho nenhum.

A Lua ainda recebe impactos hoje?

Sim. Os impactos continuam acontecendo nos dois mundos, só que em ritmo muito menor do que no Bombardeio Pesado Tardio, há cerca de 3,9 bilhões de anos. A diferença é que na Terra a maioria dos objetos pequenos se desfaz na atmosfera antes de chegar ao chão, e na Lua, sem atmosfera, tudo chega inteiro.

Dá para ver as crateras da Lua com binóculo?

Dá, e o melhor momento não é a Lua cheia. Com a Lua em fase crescente ou minguante, o Sol ilumina a superfície de lado e as crateras ganham sombras longas que saltam aos olhos. Na Lua cheia, a luz vem de frente e a superfície fica achatada visualmente.

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