A Lua tem tantas crateras porque nada lá apaga as marcas, e a Terra tem poucas porque tudo aqui apaga. As duas levaram pancada na mesma proporção durante os 4,5 bilhões de anos em que existem, vizinhas que são. A diferença não está em quem foi mais atingido: está em quem guardou a cicatriz.
Em números da NASA, a conta fica assim: a Terra tem cerca de 180 crateras de impacto conhecidas; a Lua tem muitos milhares, visíveis a olho nu desde o quintal de casa. A seguir, por que o placar é tão desigual, como uma cratera se forma e o que a diferença ensina sobre os dois mundos.
A Lua é um caderno que ninguém apagou
Imagine um caderno velho de escola e um quadro-branco de sala de aula. Os dois receberam a mesma quantidade de anotações ao longo dos anos. No caderno, está tudo lá: a lição do primeiro dia continua legível. No quadro, não sobrou nada, porque alguém passa o apagador toda aula.
A Lua é o caderno. Segundo a NASA, ela não tem praticamente nenhuma erosão, porque não tem atmosfera — sem vento, sem chuva, sem planta, nada desgasta a superfície. Não tem tectônica de placas há bilhões de anos, então o chão não é reciclado. E não tem vulcanismo há cerca de três bilhões de anos, então não existe lava nova para cobrir buraco antigo.
O exemplo que a própria NASA dá para mostrar o quanto isso é extremo: as pegadas deixadas pelos astronautas em 1971 continuam visíveis de órbita, mais de meio século depois. Nenhuma brisa passou por ali.
Por que a Lua não segurou uma atmosfera, com a conta que explica isso, está em Por que a Lua não tem atmosfera? A resposta em uma conta.
Os três apagadores que a Terra tem
Do lado de cá, três processos trabalham sem parar para sumir com as cicatrizes.
| Apagador | O que faz | Prazo |
|---|---|---|
| Erosão | Chuva, vento, rio, gelo e raiz quebram a rocha e nivelam o terreno | Milhões de anos |
| Tectônica de placas | A superfície se recicla: cria crosta nova e engole a velha | Dezenas a centenas de milhões de anos |
| Vulcanismo | Lava cobre o buraco como massa corrida | Variável, e menos importante que os dois acima |
A NASA destaca que, na Terra, erosão e tectônica são os dois pesos-pesados; o vulcanismo apaga menos. E o resultado é implacável: com tempo suficiente, a erosão reduz uma cratera a quase nada.
O exemplo citado pela agência é Manicouagan, no Canadá: um impacto de mais de 200 milhões de anos atrás cuja única pista hoje é o anel de lago que sobrou. Esse anel é justamente a foto que abre O asteroide que matou os dinossauros: o que se sabe, e é instrutivo que a melhor cratera antiga que temos para mostrar seja uma que virou lago.
Como se faz uma cratera, em dois tempos
A parte contraintuitiva: uma cratera quase nunca tem o tamanho da pedra que a fez. Ela é muito maior.
O que a NASA descreve são duas fases.
Na escavação, o objeto chega mais rápido que o som e entrega toda a energia de uma vez. Não é um objeto cavando um buraco com as mãos: é uma explosão. O material do chão é jogado para fora em todas as direções e abre a depressão inicial.
Na modificação, as ondas de choque continuam trabalhando: as paredes desabam, o fundo se acomoda e, em crateras grandes, o centro sobe de volta, como acontece com a gota que cai no leite e devolve um pico no meio.
O tamanho final depende do tamanho, da densidade e da velocidade do objeto, mais o tipo de terreno e o ângulo da batida. É por isso que a cratera de Chicxulub tem pelo menos 180 km de largura e a pedra que a abriu tinha uns 10 km — dezoito vezes menos.
Simples, complexa e bacia: os três tamanhos
A NASA separa as crateras lunares em três categorias, pelo tamanho, e cada uma tem uma cara diferente.
| Tipo | Largura | Como é |
|---|---|---|
| Simples | até cerca de 10 a 15 km | Tigela redonda, fundo liso e arredondado |
| Complexa | acima de 15 km | Pico central, paredes em degraus, fundo mais plano |
| Bacia | acima de 300 km | Estrutura gigante, muitas vezes preenchida por lava |
A Lua tem mais de 40 bacias, e a maioria delas se formou em uma mesma época: há cerca de 3,9 bilhões de anos, no período que os cientistas chamam de Bombardeio Pesado Tardio — uma fase em que o Sistema Solar interior apanhou muito mais do que apanha hoje. A bacia grande mais jovem é a Orientale, com cerca de 3,8 bilhões de anos.
Vale guardar esses 3,9 bilhões de anos, porque eles mudam a leitura da paisagem: quando você olha a Lua, está vendo, na maior parte, o registro de uma única temporada violenta que acabou antes de a vida complexa existir na Terra.
Tycho, a cratera que vale apontar o binóculo
Se existe uma cratera para conhecer pelo nome, é Tycho, no hemisfério sul lunar. A NASA a descreve como alvo muito popular entre astrônomos amadores, e os números explicam por quê.
Aqui aparece uma daquelas divergências que este site prefere mostrar a esconder: a página da NASA sobre crateras lunares dá a Tycho 85 km de diâmetro, e a legenda oficial da imagem feita pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter dá 82 km. Os dois são da NASA. A diferença é pequena e vem de onde se decide que a borda começa, num terreno que não tem borda nítida.
O resto da ficha vem da mesma legenda, de uma imagem feita em 10 de junho de 2011: o fundo da cratera está 4,7 km abaixo da borda — mais da metade da altura do Everest, que tem 8,849 km — e o conjunto de picos no centro se levanta 2 km acima do fundo, espalhado por cerca de 15 km de largura.
A idade de Tycho é outro dado que ajuda a sentir o tempo lunar: cerca de 110 milhões de anos. Em escala geológica terrestre, é recente — os dinossauros já andavam por aqui. Na Lua, "recente" significa que ela ainda tem os raios claros de material ejetado espalhados em volta, que não tiveram tempo de escurecer.

A maior cicatriz fica do lado que ninguém vê
A maior estrutura de impacto da Lua não aparece daqui. É a Bacia Aitken do Polo Sul, com cerca de 2.500 km de largura e 13 km de profundidade, no lado oculto — uma marca que cobre quase um quarto do satélite.
Para dar escala brasileira: 2.500 km é quase a distância em linha reta entre São Paulo e Manaus, que dá 2.689 km (conta nossa, pela fórmula de Haversine). Um único impacto abriu uma cicatriz desse comprimento.
O lado oculto, aliás, é visivelmente mais craterado que o lado que vemos, e o motivo tem a ver com lava: a face voltada para a Terra recebeu grandes derrames que cobriram boa parte dos buracos antigos, formando as manchas escuras que a gente chama de "mares". O outro lado não teve esse alívio. A história completa está em O que existe do lado oculto da Lua? — e a foto que abre este artigo é exatamente esse terreno, registrado pela tripulação da Artemis II em 6 de abril de 2026.
A melhor cratera da Terra fica no Arizona
Para ver na Terra algo parecido com uma cratera lunar, é preciso procurar uma bem jovem, antes que os apagadores façam o serviço. A mais famosa é a cratera Barringer, também chamada de Meteor Crater, no deserto do Arizona, a 30 km a oeste de Winslow.
Os números, pela ficha da NASA: 1.300 metros de diâmetro e 174 metros de profundidade. Ou seja, um buraco com a largura de treze campos de futebol enfileirados e a profundidade de um prédio de quase sessenta andares, cavado em arenito plano.
Se Barringer estivesse na Lua, seria uma cratera "simples" bem comum, nem das maiores. Na Terra, é uma atração turística justamente porque é rara: o deserto seco preservou o que a chuva teria desmanchado em qualquer outro lugar.

E se a diferença entre meteoro, meteorito e asteroide ainda embaralha na hora de contar essa história, ela está desfeita em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.




