Dinheiro e carreira

Dá para trabalhar na NASA sendo brasileiro?

Vaga de funcionário exige cidadania americana — mas existem três portas abertas a brasileiros, e uma cientista nascida no Rio está no JPL desde 1989.

Publicado em 6 min de leitura
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Engenheiros vestidos de macacão branco de sala limpa instalando o mastro do rover Perseverance numa bancada do laboratório do JPL
Foto: NASA/JPL-Caltech
Neste artigo
  1. A regra que vale para a vaga de funcionário
  2. Porta 1: o JPL, que é um laboratório da Caltech
  3. Porta 2: o programa de estudante visitante
  4. Porta 3: trabalhar com a NASA sem morar nos Estados Unidos
  5. A brasileira que está lá desde 1989
  6. O que realmente aumenta a chance

Dá, mas não pelo caminho que a maioria imagina. Para ser funcionário da NASA — servidor público federal americano — a própria agência avisa, na página oficial de carreiras: "na maioria dos casos, você precisa ser cidadão americano". Um passaporte brasileiro, sozinho, não abre essa porta.

O que quase ninguém conta é que existem três outras portas, oficiais e abertas a estrangeiros, e que brasileiros já entraram por elas. A prova viva trabalha há mais de trinta anos no laboratório que constrói os robôs de Marte, e nasceu no Rio de Janeiro.

Antes de seguir: este artigo não é sobre virar astronauta. Esse caminho tem regras próprias e está em Como se tornar astronauta sendo brasileiro. Aqui o assunto é o outro lado, muito maior em número de vagas: engenharia, ciência, operação de missão, análise de dados.

A regra que vale para a vaga de funcionário

A NASA é uma agência do governo dos Estados Unidos, e as vagas de servidor são publicadas no USAJOBS, o portal de empregos federais americano. A página de perguntas frequentes de carreiras da NASA é direta em dois pontos:

  • "Na maioria dos casos, você precisa ser cidadão americano para trabalhar na NASA."
  • Para quem não é, a sugestão da própria agência é procurar "oportunidades com um dos nossos parceiros internacionais ou parceiros da indústria".

Não há jeito de contornar isso com talento, diploma ou carta de recomendação. É uma regra de contratação de servidor público, do mesmo tipo que impede um estrangeiro de prestar concurso para a Polícia Federal brasileira. Também vale registrar que a NASA não guarda currículo em banco: só existe candidatura para vaga aberta e anunciada.

Para ter uma ideia do que fica de fora, é uma agência com dezenas de centros e programas espalhados pelos Estados Unidos. Mas é justamente na segunda porta que a coisa muda de figura.

Porta 1: o JPL, que é um laboratório da Caltech

Aqui está o detalhe que muda tudo. O Jet Propulsion Laboratory, o JPL, é o laboratório que construiu o Curiosity, o Perseverance, as Voyager e a Europa Clipper. Ele trabalha para a NASA, mas não é um órgão do governo: é operado pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, a Caltech. Quem trabalha lá é empregado de uma universidade privada, não servidor federal.

A consequência é concreta. Os programas de pós-doutorado do JPL dizem, com todas as letras, que "cidadãos americanos, residentes permanentes legais e estrangeiros são bem-vindos a se candidatar". A exigência de fundo é outra: ter concluído o doutorado nos últimos cinco anos.

Há duas ressalvas honestas. Primeira: o JPL é instalação federal, então o acesso depende de passar na verificação de segurança. Segunda: a NASA mantém uma lista de países designados cujos cidadãos não são aceitos sem residência permanente americana. O Brasil não está nessa lista — o que mantém a porta aberta para brasileiros, inclusive para quem tem dupla cidadania com países fora dela.

Engenheiros de macacão branco de sala limpa trabalhando em volta do rover Perseverance, com peças e ferramentas sobre bancadas
Engenheiros e técnicos instalam o mastro do rover Perseverance na sala limpa High Bay 1 do JPL, em junho de 2019. Equipes assim misturam funcionários da Caltech, bolsistas e visitantes de várias nacionalidades. Foto: NASA/JPL-Caltech

Porta 2: o programa de estudante visitante

Para quem ainda está na graduação ou na pós, existe o JPL Visiting Student Research Program, aberto explicitamente a "cidadãos americanos, residentes permanentes legais e estrangeiros". As regras publicadas:

Requisito O que exige
Curso Graduação ou pós em ciência, tecnologia, engenharia ou matemática
Nota Média acumulada mínima de 3,00 (numa escala de 0 a 4)
Dinheiro Comprovar pelo menos US$ 2.400 por mês de apoio financeiro durante a visita
Origem do dinheiro Bolsa ou prêmio de instituição de fora da NASA e do JPL
Prazo Não há data fixa: candidaturas o ano todo, por e-mail
Duração Flexível

O ponto que decide tudo é a terceira linha. O JPL não paga essa bolsa: você precisa chegar com dinheiro de outra fonte — governo, universidade ou fundação. US$ 2.400 por mês é um valor alto para um estudante brasileiro bancar sozinho, mas está na mesma ordem de grandeza das bolsas de doutorado-sanduíche e de intercâmbio que as agências de fomento brasileiras já concedem. Ou seja: a conta fecha com bolsa, não com economia pessoal.

Vale notar a diferença: os estágios de verão do próprio JPL são restritos a americanos e residentes permanentes. O programa de estudante visitante é o que existe para estrangeiros, e a confusão entre os dois faz muita gente desistir achando que não há caminho.

Porta 3: trabalhar com a NASA sem morar nos Estados Unidos

A terceira porta é a menos glamourosa e a mais acessível: participar de missões da NASA de dentro de uma universidade ou empresa, no Brasil ou em outro país.

Missões grandes são consórcios. Instrumentos vêm de vários países, os dados são públicos e os times científicos incluem pesquisadores de fora. Quem analisa dados de uma sonda e publica resultado com a equipe está trabalhando na missão, mesmo com vínculo em outro lugar. Foi esse caminho que a própria NASA indica no texto sobre parceiros internacionais, e ele é o único que não exige mudar de país.

Do lado brasileiro, essa é a função do programa espacial nacional, com a AEB e o INPE — assunto de O Brasil tem programa espacial? O que a AEB faz. As carreiras disponíveis aqui, sem passaporte extra, estão listadas em 7 carreiras espaciais para seguir sem sair do Brasil.

A brasileira que está lá desde 1989

Rosaly Lopes nasceu e cresceu no Rio de Janeiro. Fez graduação em Astronomia e doutorado em Ciências Planetárias na University College London, no Reino Unido, concluído em 1986. Entrou no JPL em 1989 como bolsista do Conselho Nacional de Pesquisa americano — exatamente a porta de pós-doutorado descrita acima — e em 1991 virou funcionária do laboratório, já na equipe da missão Galileo, que foi estudar Júpiter.

Entre 1996 e 2001 ela foi a responsável pelas observações de Io, a lua vulcânica de Júpiter, com um dos instrumentos da Galileo. Nesse período descobriu 71 vulcões ativos em Io, o que lhe rendeu registro no Guinness em 2006 como a pessoa que descobriu mais vulcões ativos em qualquer lugar. Depois trabalhou na missão Cassini, em Saturno, de 2002 a 2018, cuidando do radar que mapeou Titã. Hoje é Cientista da Diretoria de Ciência Planetária e pesquisadora sênior do JPL.

A trajetória dela é o roteiro inteiro em uma pessoa: doutorado forte fora do Brasil, bolsa de pós-doutorado como porta de entrada, missão específica como especialidade. O mundo de Io que ela ajudou a revelar está em Io: a lua mais vulcânica do Sistema Solar.

O que realmente aumenta a chance

Juntando as regras publicadas, o que pesa de verdade é bem concreto:

  • Pós-graduação na área certa. Quase todas as portas abertas a estrangeiros são acadêmicas: pós-doutorado, estudante visitante, colaboração científica. Sem mestrado ou doutorado, elas não se aplicam.
  • Inglês de trabalho, não de conversa. Artigo, reunião técnica e relatório, tudo em inglês.
  • Dinheiro de bolsa já aprovado, no caso do programa de estudante visitante. É o item que elimina mais candidatos.
  • Publicar. Quem contrata pós-doutorado olha o que a pessoa já produziu, não a nota do vestibular.
  • Escolher um nicho. Ninguém é contratado para "trabalhar na NASA". É contratado para analisar radar de Titã, ou calibrar um espectrômetro, ou escrever software de navegação.

Um diretor de voo sentado ao console no Centro de Controle de Missão, com telas de dados à frente e a placa "Flight Director" ao fundo
O diretor de voo Rick LaBrode em seu console no Centro de Controle de Missão, em Houston, durante a Expedição 13. Cargos de operação como esse são de servidor federal, e aí a cidadania americana é exigência. Foto: James Blair

Perguntas frequentes

Brasileiro pode ser contratado pela NASA?

Como servidor da agência, em regra não: a NASA informa que, na maioria dos casos, é preciso ser cidadão americano. Mas o JPL, que é operado pela Caltech, aceita candidaturas de estrangeiros para seus programas de pós-doutorado, e o programa de estudante visitante é aberto a estrangeiros.

Preciso de green card para estagiar no JPL?

Para os estágios de verão do JPL, sim: eles são restritos a cidadãos americanos e residentes permanentes. Para o programa de estudante visitante, não — ele aceita estrangeiros, desde que você comprove bolsa de pelo menos US$ 2.400 por mês vinda de fora da NASA.

Qual faculdade fazer para trabalhar na NASA?

Não existe curso único. Engenharias (aeroespacial, mecânica, elétrica, computação), física, astronomia, geologia e ciências da computação cobrem a maior parte das vagas técnicas. O que pesa mais é a pós-graduação e a especialidade, não o nome da graduação.

Existe algum brasileiro trabalhando na NASA hoje?

Sim. O caso mais documentado é o da cientista Rosaly Lopes, nascida no Rio de Janeiro, que está no Jet Propulsion Laboratory desde 1989 e hoje é Cientista da Diretoria de Ciência Planetária. A biografia dela está publicada no próprio site do laboratório.

Dá para trabalhar na NASA remoto, do Brasil?

Não como funcionário. Mas dá para trabalhar com a NASA do Brasil: os dados das missões são públicos, e pesquisadores de universidades brasileiras participam de times científicos e publicam resultados de missões da agência sem sair do país.

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