Perguntas que todo mundo faz

O que é a zona habitável de uma estrela?

É a faixa de distância onde pode haver água líquida. Veja onde ela fica no Sistema Solar, como calcular em qualquer estrela e por que ela engana.

Publicado em 7 min de leitura
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O telescópio espacial Kepler, embrulhado em manta dourada, numa sala limpa, com dois técnicos de macacão branco ao lado
Foto: NASA/JPL-Caltech/Ball Aerospace
Neste artigo
  1. Onde fica a zona habitável do Sol
  2. A conta que move a zona de lugar
  3. Nas anãs vermelhas, a zona fica colada na estrela
  4. Estar na zona não é ser habitável
  5. Como se descobre um planeta na zona
  6. O que ainda falta

A zona habitável de uma estrela é a faixa de distâncias em que um planeta pode ter água líquida na superfície: nem tão perto que a água ferva e evapore, nem tão longe que congele para sempre. É por isso que ela também é chamada de zona Goldilocks, em referência à menina do conto que só aceitava o mingau que não estava nem quente nem frio demais.

A definição parece simples, e é. O que quase ninguém conta é que estar na zona habitável não significa ser habitável — e o Sistema Solar tem dois exemplos na nossa cara que provam isso.

Onde fica a zona habitável do Sol

O melhor jeito de entender a nossa é olhar os vizinhos. A Terra está a 1 unidade astronômica do Sol, ou 149,6 milhões de km. Vênus está a 0,72 UA e Marte a 1,52 UA — os dois relativamente perto, na escala do Sistema Solar, e os dois inabitáveis.

As estimativas mais usadas colocam a borda interna da zona habitável do Sol perto de 0,95 UA e a externa entre 1,4 e 1,7 UA, conforme o modelo de atmosfera que se adota. Esses limites são estimativa e não consenso fechado: eles mudam conforme a quantidade de nuvens, de gás carbônico e de vapor de água que se supõe no planeta. O que é fato observado é que a Terra está confortavelmente dentro, Vênus está fora pelo lado quente e Marte está na borda ou logo além dela, pelo lado frio.

Vale reparar que a zona habitável é uma faixa larga em termos absolutos: entre 0,95 e 1,5 UA cabem uns 80 milhões de km. Mas ela é estreita em termos relativos — a Terra está a apenas 5% do limite interno.

A conta que move a zona de lugar

A zona habitável não é um lugar fixo no espaço: ela depende de quanta luz a estrela emite. E a regra é simples, porque a luz se espalha pela superfície de uma esfera que cresce com o quadrado da distância.

Consequência prática: para um planeta receber a mesma quantidade de luz que a Terra recebe, a distância dele até a estrela, medida em unidades astronômicas, é a raiz quadrada do brilho da estrela em relação ao Sol.

Uma estrela quatro vezes mais brilhante que o Sol? A "distância da Terra" ali fica em 2 UA. Uma estrela cem vezes mais brilhante? 10 UA, mais longe que Saturno. Uma estrela com um milésimo da luz do Sol? A raiz quadrada de 0,001 é 0,032 — um trigésimo da nossa distância, ou seja, doze vezes mais perto do que Mercúrio está do Sol.

E é exatamente aí que a maior parte dos planetas conhecidos na zona habitável se encontra.

Estrela Planeta Distância da estrela Duração do ano Comparação
Sol Vênus 0,72 UA 225 dias quente demais, 465 °C
Sol Terra 1 UA 365 dias dentro da zona
Sol Marte 1,52 UA 687 dias frio demais, −59 °C na média
Proxima Centauri (anã vermelha) Proxima Centauri b 0,0485 UA 11,2 dias 8 vezes mais perto que Mercúrio
TRAPPIST-1 (anã vermelha) TRAPPIST-1 e 0,0293 UA 6,1 dias 13 vezes mais perto que Mercúrio

Distâncias e períodos dos planetas fora do Sistema Solar vêm do catálogo de exoplanetas da NASA. As comparações com Mercúrio, que orbita a 0,387 UA, são cálculo nosso.

Dá para virar a conta do avesso e descobrir a estrela a partir do planeta. Se o TRAPPIST-1 e, a 0,0293 UA, recebe mais ou menos a luz que a Terra recebe, então a estrela dele tem de emitir cerca de 0,00086 da luz do Sol — algo como 1 parte em 1.200. É uma estrela que, posta no lugar do Sol, faria o nosso meio-dia parecer um fim de tarde muito nublado.

Ilustração de uma estrela anã vermelha soltando labaredas, com um planeta escuro ao lado
Ilustração da NASA de uma anã vermelha em erupção. Um planeta na zona habitável dessas estrelas fica tão perto que leva o impacto inteiro de cada explosão. Foto: NASA/ESA/STScI/G. Bacon

Nas anãs vermelhas, a zona fica colada na estrela

As anãs vermelhas são o tipo mais comum de estrela da Via Láctea, e é por isso que a maioria dos planetas achados na zona habitável orbita uma delas. Elas também são as mais fáceis de investigar: como são pequenas e fracas, um planeta passando na frente bloqueia uma fração maior da luz e repete a passagem a cada poucos dias.

O preço vem em três parcelas, e a NASA lista as três:

  1. Radiação. Um planeta na zona habitável de uma anã vermelha recebe níveis extremos de raios X e ultravioleta, que a NASA descreve como podendo ser centenas de milhares de vezes mais intensos do que os que chegam à Terra.
  2. Erupções. Essas estrelas soltam labaredas violentas, capazes de esterilizar um planeta próximo onde a vida estivesse apenas começando.
  3. Rotação travada. Tão perto da estrela, a maré trava o planeta, que passa a mostrar sempre a mesma face — um lado de dia eterno, outro de noite eterna. Se houver atmosfera densa, o calor se distribui e a faixa do crepúsculo pode ser habitável; sem atmosfera, o lado frio vira uma armadilha de gelo.

As anãs laranja, de tipo K, aparecem como a aposta mais interessante: são mais calmas que as vermelhas, mais comuns que as estrelas como o Sol e queimam de forma estável por dezenas de bilhões de anos — tempo de sobra para a vida aparecer, considerando que a Terra levou cerca de um bilhão.

Estar na zona não é ser habitável

Aqui está o ponto que quase todo título de notícia esconde, e o Sistema Solar é a melhor prova.

Vênus tem quase o tamanho da Terra e está à distância certa para ser temperado, e ainda assim a superfície bate 465 °C com uma atmosfera 92 vezes mais pesada que a nossa, quase toda de gás carbônico. O motivo não é a distância, é o efeito estufa descontrolado — a história está em Por que Vênus é mais quente que Mercúrio?.

Marte está na borda externa e ficou seco pelo caminho oposto: perdeu a atmosfera para o vento solar e hoje tem uma pressão de apenas 6,4 milibares, menos de 1% da nossa. Com pressão assim, água líquida nem chega a existir na superfície: ela passa direto de gelo para vapor. O processo está em Por que Marte perdeu a atmosfera (e a Terra não)?.

Ou seja: dois planetas na vizinhança da zona habitável do Sol, e nenhum dos dois com água líquida. Quem decide é a atmosfera, e a zona habitável só diz onde vale a pena procurar.

Como se descobre um planeta na zona

Ninguém fotografa um planeta desses. O que se mede é a sombra que ele faz ao passar na frente da estrela ou o bamboleio que provoca nela. O telescópio Kepler, da NASA, foi construído justamente para isso: ficou de 2009 a 2018 olhando fixamente para um pedaço de céu com 150 mil estrelas e confirmou mais de 2.700 planetas. O TESS, lançado em 2018, faz a varredura das estrelas brilhantes mais próximas. Os métodos estão explicados em Como descobrem planetas fora do Sistema Solar?.

O passo seguinte é o mais difícil: descobrir se aquele planeta tem ar, e de que tipo. O telescópio James Webb consegue analisar a luz da estrela que atravessa a atmosfera do planeta durante a passagem, e já deu um resultado desanimador no sistema mais famoso: os dados indicam que o TRAPPIST-1 d não tem atmosfera densa. As observações dos planetas mais externos do mesmo sistema, entre eles o e, são as mais aguardadas da área. A lista dos melhores candidatos está em Os planetas mais parecidos com a Terra já descobertos.

O planeta Vênus inteiro em tons de laranja, montado a partir de dados de radar
Vênus visto pelo radar da sonda Magellan, que atravessa as nuvens. O planeta está quase na zona habitável do Sol e mesmo assim tem 465 °C na superfície: a distância certa não basta. Foto: NASA/JPL

O que ainda falta

Mais de 6 mil planetas fora do Sistema Solar já foram confirmados, e alguns deles estão na zona habitável de suas estrelas. Nenhum foi confirmado como habitável, porque para isso seria preciso detectar a atmosfera e medir sua composição — oxigênio, metano, vapor de água — e os telescópios de hoje só conseguem isso para os casos mais favoráveis.

A resposta definitiva deve vir de instrumentos ainda em construção ou em projeto, como o telescópio gigante europeu no deserto do Atacama, no Chile, e o observatório que a NASA planeja para a década de 2040, desenhado para fotografar diretamente planetas do tamanho da Terra.

Até lá, "planeta na zona habitável" continua sendo o que sempre foi: um bom endereço, não uma casa com gente dentro.

Perguntas frequentes

O que é a zona habitável de uma estrela?

É a faixa de distâncias ao redor de uma estrela em que um planeta com atmosfera adequada pode manter água líquida na superfície. Mais perto, a água evapora; mais longe, congela. Como o critério é a água líquida, a zona depende do brilho da estrela, e não do tamanho ou da idade dela.

A Terra está no meio da zona habitável?

A Terra está dentro, mas não exatamente no centro. As estimativas mais usadas colocam a borda interna perto de 0,95 unidade astronômica, ou seja, a apenas 5% da nossa órbita. A borda externa é mais incerta, entre 1,4 e 1,7 UA, dependendo do modelo de atmosfera adotado.

Por que os planetas na zona habitável costumam ter anos de poucos dias?

Porque a maioria orbita anãs vermelhas, que emitem uma fração mínima da luz do Sol. Para receber o mesmo calor que a Terra recebe, o planeta precisa ficar dezenas de vezes mais perto, e uma órbita tão pequena se completa em dias. O TRAPPIST-1 e, por exemplo, dá uma volta completa em 6,1 dias.

Um planeta na zona habitável tem vida?

Não necessariamente, e provavelmente na maioria dos casos não. A zona habitável só garante a distância; quem decide a temperatura real é a atmosfera. Vênus é o contraexemplo perfeito: está quase na zona habitável do Sol e tem 465 °C na superfície.

Qual é o planeta mais parecido com a Terra na zona habitável?

Os candidatos mais estudados são o TRAPPIST-1 e, a 40 anos-luz, com 0,92 vez o raio da Terra e um ano de 6,1 dias, e o Proxima Centauri b, a pouco mais de 4 anos-luz, com 1,055 vez a massa da Terra. Os dois orbitam anãs vermelhas, e de nenhum se sabe ainda se tem atmosfera.

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