Perguntas que todo mundo faz

O que foi o Mínimo de Maunder?

Entre 1645 e 1715 o Sol quase parou de fazer manchas e a Europa congelou. O que a NASA mediu, e por que isso não vai nos salvar do aquecimento.

Publicado em 7 min de leitura
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O disco do Sol sem nenhuma mancha escura, a cena que se repetiu por décadas durante o Mínimo de Maunder, aqui fotografada pela NASA em 2017
Foto: NASA/SDO
Neste artigo
  1. O que exatamente parou
  2. Como se sabe disso, se não existia fotografia
  3. O frio que ficou famoso
  4. O Sol escureceu — e escureceu bem pouco
  5. O paradoxo: pouco brilho, muito frio
  6. O que isso não quer dizer
  7. E no Brasil, deu para sentir?

O Mínimo de Maunder foi um período de cerca de 70 anos, entre 1645 e 1715, em que o Sol praticamente parou de produzir manchas solares. O tamanho da anomalia é fácil de sentir: num intervalo de 30 anos dentro desse período, os astrônomos da época registraram cerca de 50 manchas — quando o normal, em 30 anos, seria algo entre 40 mil e 50 mil. O período coincide com a fase mais fria da chamada Pequena Era Glacial, quando canais congelavam na Holanda e geleiras avançavam sobre vilarejos nos Alpes. A pergunta que todo mundo faz em seguida é se o Sol pode fazer isso de novo e esfriar o planeta. A resposta honesta, e é a própria NASA que dá, é mais interessante que o boato: o Sol escureceu muito pouco, e o frio europeu daquele século não se explica só por ele.

O que exatamente parou

Manchas solares são regiões mais frias e escuras da superfície do Sol, criadas por emaranhados do campo magnético dele. O número de manchas sobe e desce num vaivém de aproximadamente onze anos — o mecanismo inteiro está em O que é o ciclo solar de 11 anos?.

Esse vaivém já funcionava no século XVII. Depois de 1609, quando Galileu popularizou o telescópio, ele e outros astrônomos começaram a observar e desenhar os pontos escuros no Sol. Os desenhos de Galileu são de 1611 e mostram atividade já em queda. E então, a partir de 1645, as manchas mais visíveis praticamente sumiram. Voltaram por volta de 1715, e o ciclo de onze anos funciona normalmente desde então.

O Mínimo de Maunder em números
Período 1645 a 1715, cerca de 70 anos
Manchas observadas em 30 anos cerca de 50
Manchas esperadas em 30 anos de 40 mil a 50 mil
Queda no brilho total do Sol cerca de 0,25%
Efeito na temperatura média global poucos décimos de grau (0,3 a 0,4 °C)
Efeito no inverno europeu queda de 1 a 1,5 °C
Fonte NASA/GISS, estudo publicado na Science em dezembro de 2001

Como se sabe disso, se não existia fotografia

Esta é a pergunta certa a fazer, e ela tem uma resposta sólida. A fotografia só apareceria dois séculos depois, mas os astrônomos daquela época anotavam o que viam, com método e teimosia. Não existe, nem pode existir, foto do Sol daquele período — a imagem que abre este artigo é um Sol limpo de verdade, mas registrado pela NASA em 2017, perto do fundo do ciclo anterior, para mostrar como era a cena que se repetiu por décadas.

É por isso que a contagem de manchas é, segundo a NASA, o nosso registro mais longo de atividade solar. Os observadores do século XVII não deixaram de olhar para o Sol durante o Mínimo de Maunder — eles olharam e registraram que não havia nada para ver, que é uma informação diferente de "ninguém observou". Registros de vários astrônomos, de países diferentes, confirmam a escassez ao longo dos 70 anos.

Para o clima, os cientistas usam o que se chama de dados indiretos: anéis de crescimento de árvores, camadas de gelo perfuradas em geleiras, corais e registros históricos escritos. Cada anel de árvore guarda uma pista do ano em que se formou, mais ou menos como as camadas de um bolo contam a ordem em que foram assadas.

O disco do Sol em tom amarelado com um grande grupo de manchas escuras, mostrado também em detalhe ampliado
Um grande grupo de manchas registrado pelo Observatório de Dinâmica Solar da NASA em agosto de 2015, com o detalhe ampliado. É exatamente este tipo de cena que praticamente deixou de existir entre 1645 e 1715. Foto: NASA/GSFC/Solar Dynamics Observatory

O frio que ficou famoso

A Pequena Era Glacial é o nome dado a um período longo de frio no Hemisfério Norte, e o trecho entre meados do século XVII e o início do XVIII foi o mais severo: as temperaturas de superfície do Hemisfério Norte parecem ter chegado ao ponto mais baixo dos últimos mil anos.

As cenas que a NASA cita são concretas:

  • O acesso à Groenlândia ficou bloqueado pelo gelo de 1410 até a década de 1720.
  • Canais congelavam na Holanda de forma rotineira — é dessa época a pintura de gente patinando em canais que hoje quase nunca congelam.
  • Geleiras avançaram nos Alpes, destruindo fazendas isoladas e ameaçando vilarejos inteiros.
  • Em 1695, não havia mar aberto em nenhuma direção em volta da Islândia.

O número frio é este: os invernos europeus daquele período ficaram de 1 a 1,5 °C mais frios que a média. Parece pouco escrito assim, mas é a diferença entre um inverno comum e um inverno em que o rio vira pista de patinação.

O Sol escureceu — e escureceu bem pouco

Aqui está o dado que desmonta a versão sensacionalista. A redução na energia que o Sol emitiu durante o Mínimo de Maunder foi de cerca de um quarto de um por cento. A própria NASA registra que é difícil determinar esse valor com exatidão.

Vale traduzir 0,25% para a vida real: é como se, de cada R$ 100, sumissem 25 centavos. Ou como trocar uma lâmpada de 100 watts por uma de 99,75 watts — ninguém na sala perceberia.

Como o Sol é absurdamente potente (os números dele estão em O Sol em números: tamanho, temperatura, idade e distância), até uma fração dessas tem algum efeito. Mas a conclusão da NASA é direta: não é suficiente para mergulhar a Terra inteira em condições de Pequena Era Glacial. Nas simulações, a queda de brilho muda a temperatura média global em apenas poucos décimos de grau.

O paradoxo: pouco brilho, muito frio

Se o Sol escureceu tão pouco, por que o frio europeu foi tão forte? Foi isso que o grupo de Drew Shindell, do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA, tentou resolver com um modelo de computador, em trabalho publicado na revista Science em dezembro de 2001.

A resposta tem três degraus:

  1. Menos ultravioleta. Em períodos de baixa atividade, cai a quantidade de radiação ultravioleta emitida pelo Sol — e é ela que controla a formação de ozônio na estratosfera, a camada alta da atmosfera.
  2. A atmosfera alta muda e empurra a de baixo. "As mudanças no ozônio que modelamos foram a chave para produzir a resposta ampliada", disse Shindell. "As mudanças na atmosfera superior então descem até o clima da superfície."
  3. Os ventos desaceleram. Com menos diferença de aquecimento entre o equador e os polos, os ventos de oeste ficam mais lentos. Esses ventos são o que carrega ar morno do oceano para dentro dos continentes. Sem eles, o mar continua relativamente morno e a terra firme esfria.

É por isso que o efeito foi regional, e não global: o resfriamento sobre a Europa e a América do Norte foi de 5 a 10 vezes maior que a média do planeta. Os continentes ficaram frios enquanto os oceanos ficaram relativamente mornos, e a média mundial quase não se mexeu.

O que isso não quer dizer

Este é o ponto em que o assunto costuma descarrilhar na internet. De tempos em tempos circula a ideia de que um novo Mínimo de Maunder está chegando e vai cancelar o aquecimento global. Os dados acima já mostram o tamanho do problema dessa conta: mesmo o Mínimo de Maunder inteiro mexeu poucos décimos de grau na média global.

A frase está na própria NASA, dita por Shindell: "precisamos ter em mente que as variações na produção de energia do Sol tiveram um impacto muito menor no clima recente da Terra do que as ações humanas. O maior catalisador da mudança climática hoje são os gases de efeito estufa."

Vale registrar também uma honestidade sobre as fontes: as páginas da NASA que trazem esses números são de 2001 e 2002 e estão marcadas pela própria agência como material histórico, mantido no ar mas não mais atualizado. Os valores aqui são os que ela publicou na época, e reconstruções mais novas podem ajustá-los.

E no Brasil, deu para sentir?

A resposta honesta é que as fontes da NASA consultadas não respondem isso. Todas as evidências que elas citam — as geleiras, os canais, os invernos, os anéis de árvore, os registros escritos — vêm da Europa e da América do Norte, que é de onde vem o próprio nome Pequena Era Glacial. O modelo de Shindell descreve justamente um efeito de latitudes médias do Hemisfério Norte, ligado aos ventos de oeste de lá.

Ou seja: não dá para dizer, com base nessas fontes, o que aconteceu no clima brasileiro entre 1645 e 1715, e preferimos deixar a lacuna aberta a preenchê-la com chute. O que o Sol faz com a gente no dia a dia, esse sim bem documentado, está em Tempestade solar pode derrubar a internet e a energia? e no espetáculo descrito em Aurora boreal: o que é, por que acontece e se aparece no Brasil.

Perguntas frequentes

O que foi o Mínimo de Maunder?

Foi o período entre 1645 e 1715 em que o Sol quase parou de produzir manchas solares. Em 30 anos desse intervalo, astrônomos registraram cerca de 50 manchas, contra as 40 mil a 50 mil que seriam esperadas. Ele coincide com a fase mais fria da Pequena Era Glacial.

O Mínimo de Maunder causou a Pequena Era Glacial?

Não sozinho. A NASA calcula que o brilho do Sol caiu cerca de 0,25%, o que muda a temperatura média global em apenas poucos décimos de grau. O modelo da agência explica o frio europeu por um efeito indireto: menos ultravioleta altera o ozônio, isso desacelera os ventos de oeste e esfria os continentes do Hemisfério Norte de 5 a 10 vezes mais que a média mundial.

Um novo Mínimo de Maunder resolveria o aquecimento global?

Não. Mesmo o evento inteiro mexeu poucos décimos de grau na temperatura média do planeta. Segundo a NASA, as variações do Sol tiveram impacto muito menor no clima recente que as ações humanas, e o maior fator hoje são os gases de efeito estufa.

Já houve outros períodos sem manchas antes desse?

Sim. A mesma página da NASA lista outros três mínimos severos observados antes do de Maunder: o Mínimo de Oort (1010 a 1050), o Mínimo de Wolf (1280 a 1340) e o Mínimo de Spörer (1420 a 1530). O de Maunder é o mais bem documentado porque é o único que aconteceu depois da invenção do telescópio.

Como alguém sabe quantas manchas havia em 1650?

Pelos registros dos próprios astrônomos da época, que observavam o Sol com telescópio desde 1609 e anotavam o que viam. Os desenhos de Galileu são de 1611. A contagem de manchas é o registro mais longo de atividade solar que a humanidade tem.

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