O Mínimo de Maunder foi um período de cerca de 70 anos, entre 1645 e 1715, em que o Sol praticamente parou de produzir manchas solares. O tamanho da anomalia é fácil de sentir: num intervalo de 30 anos dentro desse período, os astrônomos da época registraram cerca de 50 manchas — quando o normal, em 30 anos, seria algo entre 40 mil e 50 mil. O período coincide com a fase mais fria da chamada Pequena Era Glacial, quando canais congelavam na Holanda e geleiras avançavam sobre vilarejos nos Alpes. A pergunta que todo mundo faz em seguida é se o Sol pode fazer isso de novo e esfriar o planeta. A resposta honesta, e é a própria NASA que dá, é mais interessante que o boato: o Sol escureceu muito pouco, e o frio europeu daquele século não se explica só por ele.
O que exatamente parou
Manchas solares são regiões mais frias e escuras da superfície do Sol, criadas por emaranhados do campo magnético dele. O número de manchas sobe e desce num vaivém de aproximadamente onze anos — o mecanismo inteiro está em O que é o ciclo solar de 11 anos?.
Esse vaivém já funcionava no século XVII. Depois de 1609, quando Galileu popularizou o telescópio, ele e outros astrônomos começaram a observar e desenhar os pontos escuros no Sol. Os desenhos de Galileu são de 1611 e mostram atividade já em queda. E então, a partir de 1645, as manchas mais visíveis praticamente sumiram. Voltaram por volta de 1715, e o ciclo de onze anos funciona normalmente desde então.
| O Mínimo de Maunder em números | |
|---|---|
| Período | 1645 a 1715, cerca de 70 anos |
| Manchas observadas em 30 anos | cerca de 50 |
| Manchas esperadas em 30 anos | de 40 mil a 50 mil |
| Queda no brilho total do Sol | cerca de 0,25% |
| Efeito na temperatura média global | poucos décimos de grau (0,3 a 0,4 °C) |
| Efeito no inverno europeu | queda de 1 a 1,5 °C |
| Fonte | NASA/GISS, estudo publicado na Science em dezembro de 2001 |
Como se sabe disso, se não existia fotografia
Esta é a pergunta certa a fazer, e ela tem uma resposta sólida. A fotografia só apareceria dois séculos depois, mas os astrônomos daquela época anotavam o que viam, com método e teimosia. Não existe, nem pode existir, foto do Sol daquele período — a imagem que abre este artigo é um Sol limpo de verdade, mas registrado pela NASA em 2017, perto do fundo do ciclo anterior, para mostrar como era a cena que se repetiu por décadas.
É por isso que a contagem de manchas é, segundo a NASA, o nosso registro mais longo de atividade solar. Os observadores do século XVII não deixaram de olhar para o Sol durante o Mínimo de Maunder — eles olharam e registraram que não havia nada para ver, que é uma informação diferente de "ninguém observou". Registros de vários astrônomos, de países diferentes, confirmam a escassez ao longo dos 70 anos.
Para o clima, os cientistas usam o que se chama de dados indiretos: anéis de crescimento de árvores, camadas de gelo perfuradas em geleiras, corais e registros históricos escritos. Cada anel de árvore guarda uma pista do ano em que se formou, mais ou menos como as camadas de um bolo contam a ordem em que foram assadas.

O frio que ficou famoso
A Pequena Era Glacial é o nome dado a um período longo de frio no Hemisfério Norte, e o trecho entre meados do século XVII e o início do XVIII foi o mais severo: as temperaturas de superfície do Hemisfério Norte parecem ter chegado ao ponto mais baixo dos últimos mil anos.
As cenas que a NASA cita são concretas:
- O acesso à Groenlândia ficou bloqueado pelo gelo de 1410 até a década de 1720.
- Canais congelavam na Holanda de forma rotineira — é dessa época a pintura de gente patinando em canais que hoje quase nunca congelam.
- Geleiras avançaram nos Alpes, destruindo fazendas isoladas e ameaçando vilarejos inteiros.
- Em 1695, não havia mar aberto em nenhuma direção em volta da Islândia.
O número frio é este: os invernos europeus daquele período ficaram de 1 a 1,5 °C mais frios que a média. Parece pouco escrito assim, mas é a diferença entre um inverno comum e um inverno em que o rio vira pista de patinação.
O Sol escureceu — e escureceu bem pouco
Aqui está o dado que desmonta a versão sensacionalista. A redução na energia que o Sol emitiu durante o Mínimo de Maunder foi de cerca de um quarto de um por cento. A própria NASA registra que é difícil determinar esse valor com exatidão.
Vale traduzir 0,25% para a vida real: é como se, de cada R$ 100, sumissem 25 centavos. Ou como trocar uma lâmpada de 100 watts por uma de 99,75 watts — ninguém na sala perceberia.
Como o Sol é absurdamente potente (os números dele estão em O Sol em números: tamanho, temperatura, idade e distância), até uma fração dessas tem algum efeito. Mas a conclusão da NASA é direta: não é suficiente para mergulhar a Terra inteira em condições de Pequena Era Glacial. Nas simulações, a queda de brilho muda a temperatura média global em apenas poucos décimos de grau.
O paradoxo: pouco brilho, muito frio
Se o Sol escureceu tão pouco, por que o frio europeu foi tão forte? Foi isso que o grupo de Drew Shindell, do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA, tentou resolver com um modelo de computador, em trabalho publicado na revista Science em dezembro de 2001.
A resposta tem três degraus:
- Menos ultravioleta. Em períodos de baixa atividade, cai a quantidade de radiação ultravioleta emitida pelo Sol — e é ela que controla a formação de ozônio na estratosfera, a camada alta da atmosfera.
- A atmosfera alta muda e empurra a de baixo. "As mudanças no ozônio que modelamos foram a chave para produzir a resposta ampliada", disse Shindell. "As mudanças na atmosfera superior então descem até o clima da superfície."
- Os ventos desaceleram. Com menos diferença de aquecimento entre o equador e os polos, os ventos de oeste ficam mais lentos. Esses ventos são o que carrega ar morno do oceano para dentro dos continentes. Sem eles, o mar continua relativamente morno e a terra firme esfria.
É por isso que o efeito foi regional, e não global: o resfriamento sobre a Europa e a América do Norte foi de 5 a 10 vezes maior que a média do planeta. Os continentes ficaram frios enquanto os oceanos ficaram relativamente mornos, e a média mundial quase não se mexeu.
O que isso não quer dizer
Este é o ponto em que o assunto costuma descarrilhar na internet. De tempos em tempos circula a ideia de que um novo Mínimo de Maunder está chegando e vai cancelar o aquecimento global. Os dados acima já mostram o tamanho do problema dessa conta: mesmo o Mínimo de Maunder inteiro mexeu poucos décimos de grau na média global.
A frase está na própria NASA, dita por Shindell: "precisamos ter em mente que as variações na produção de energia do Sol tiveram um impacto muito menor no clima recente da Terra do que as ações humanas. O maior catalisador da mudança climática hoje são os gases de efeito estufa."
Vale registrar também uma honestidade sobre as fontes: as páginas da NASA que trazem esses números são de 2001 e 2002 e estão marcadas pela própria agência como material histórico, mantido no ar mas não mais atualizado. Os valores aqui são os que ela publicou na época, e reconstruções mais novas podem ajustá-los.
E no Brasil, deu para sentir?
A resposta honesta é que as fontes da NASA consultadas não respondem isso. Todas as evidências que elas citam — as geleiras, os canais, os invernos, os anéis de árvore, os registros escritos — vêm da Europa e da América do Norte, que é de onde vem o próprio nome Pequena Era Glacial. O modelo de Shindell descreve justamente um efeito de latitudes médias do Hemisfério Norte, ligado aos ventos de oeste de lá.
Ou seja: não dá para dizer, com base nessas fontes, o que aconteceu no clima brasileiro entre 1645 e 1715, e preferimos deixar a lacuna aberta a preenchê-la com chute. O que o Sol faz com a gente no dia a dia, esse sim bem documentado, está em Tempestade solar pode derrubar a internet e a energia? e no espetáculo descrito em Aurora boreal: o que é, por que acontece e se aparece no Brasil.




