Perguntas que todo mundo faz

Por que Vênus tem fases e Marte não?

Só os planetas mais perto do Sol que a Terra mostram fases completas. Vênus vai de 0,6% a 100% iluminado; Marte nunca desce de 89%. Veja o porquê.

Publicado em 7 min de leitura
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Mercúrio visto como uma lasca fina iluminada de um lado só, com crateras visíveis na borda, sobre o fundo preto do espaço
Foto: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington
Neste artigo
  1. A regra, em uma frase
  2. Os números, planeta por planeta
  3. O detalhe que faz Vênus mudar de tamanho
  4. Mercúrio faz o mesmo, e é ainda mais extremo
  5. Por que isso derrubou a Terra do centro do universo
  6. Dá para ver as fases de Vênus daqui?

Vênus tem fases, iguais às da Lua, e Marte praticamente não tem — e o motivo é só um: Vênus está mais perto do Sol que a Terra, e Marte está mais longe. Planetas que orbitam dentro da órbita terrestre podem passar entre nós e o Sol, e quando isso acontece nós vemos o lado escuro deles. Planetas que orbitam fora da nossa órbita nunca conseguem ficar nessa posição, então estão sempre com a face voltada para nós quase toda iluminada.

Os números medem bem o tamanho da diferença. Ao longo de 2026 e 2027, Vênus varia de 0,6% a 100% da face iluminada vista da Terra. Marte, no mesmo período, nunca desce de 89%. Júpiter não desce de 99%.

A regra, em uma frase

Imagine uma lâmpada no meio de uma sala escura — é o Sol. Uma bola qualquer na sala está sempre com metade iluminada e metade escura. O que muda é de que ângulo você olha para essa bola.

Se a bola está entre você e a lâmpada, você está vendo o lado escuro: ela parece apagada. Se a bola está do lado oposto da sala, com a lâmpada atrás de você, você vê o lado todo aceso: ela parece cheia. E em posições intermediárias você vê pedaços: meia bola, uma lasca.

Agora a parte que resolve a pergunta. Você está preso a um círculo no chão em volta da lâmpada — a órbita da Terra. Uma bola dentro do seu círculo pode ficar em qualquer posição em relação a você, inclusive bem entre você e a lâmpada. Uma bola fora do seu círculo nunca consegue chegar entre você e a lâmpada: por mais que ela ande, ela está sempre do lado de fora, e você sempre a vê mais ou menos pelo mesmo lado que o Sol ilumina.

É exatamente essa a diferença entre Vênus e Marte. A mesma lógica que faz a Lua ter fases, aliás, explicada em Por que a Lua tem fases? A explicação simples e as datas — e a Lua tem fases completas porque ela também gira em volta de nós, podendo ficar em qualquer posição.

Os números, planeta por planeta

A tabela abaixo foi calculada por nós a partir das efemérides do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, varrendo os anos de 2026 e 2027 e anotando o mínimo e o máximo de cada planeta visto da Terra.

Planeta Onde fica Face iluminada: mínimo Máximo
Mercúrio dentro da órbita da Terra 0,1% 100%
Vênus dentro da órbita da Terra 0,6% 100%
Marte fora 89,2% 100%
Júpiter fora 99,1% 100%
Saturno fora 99,7% 100%

A separação é limpa: os dois planetas internos percorrem a escala inteira, de quase nada a cheio. Os três externos ficam presos perto do topo.

Repare também que Marte é o único externo com uma variação perceptível — ele chega a 89%, o que dá um disco visivelmente giboso, levemente achatado de um lado, como uma lua a dois dias da cheia. É pouco, mas é visível em telescópio, e é exatamente o que se esperaria: Marte é o planeta externo mais próximo de nós, e por isso é o que mais consegue "sair do eixo" do alinhamento com o Sol. Quanto mais longe o planeta, mais perfeito o alinhamento e mais redondo o disco.

O globo de Vênus em duas versões lado a lado, branco e amarelado, coberto por nuvens lisas sem nenhum detalhe de superfície
Vênus fotografado pela sonda Mariner 10 em 1974, aqui em duas versões do mesmo registro: à esquerda em cor aproximadamente natural, à direita com contraste realçado para mostrar as faixas de nuvem. De perto, uma sonda vê o planeta cheio — a fase é um efeito do ponto de vista da Terra. Foto: NASA/JPL-Caltech

O detalhe que faz Vênus mudar de tamanho

Há uma segunda coisa acontecendo ao mesmo tempo, e ela é tão marcante quanto a fase.

Quando Vênus passa entre nós e o Sol, ele não está só mostrando o lado escuro: ele está também muito mais perto da Terra. E quando está do outro lado do Sol, cheio, está muito mais longe. O resultado é que o tamanho aparente dele no céu muda de forma dramática.

Vênus Marte
Menor diâmetro aparente em 2026–2027 9,6 segundos de arco 3,9 segundos de arco
Maior diâmetro aparente 61,1 segundos de arco 13,8 segundos de arco
Quantas vezes muda 6,4× 3,5×

Vênus fica mais de seis vezes mais largo no céu quando está em fase de lasca fina do que quando está cheio. Em telescópio, isso é impossível de não notar: o planeta parece uma moedinha redonda e brilhante numa época do ano e uma foice grande e pálida em outra.

Esses dois efeitos se cancelam em parte — a fase fina devolve pouca luz, mas o disco é grande — e é por isso que Vênus continua ofuscante durante quase todo o seu ciclo. Ele é o terceiro objeto mais brilhante do céu, depois do Sol e da Lua.

O ciclo completo de Vênus, de nova a cheia e de volta, leva 584 dias, segundo a NASA — bem mais que o mês da nossa Lua. O momento em que ele passa entre nós e o Sol, em 2026, foi em 24 de outubro, e é a razão pela qual ele some do céu da tarde naquele mês, assunto de Vênus sai do céu da tarde em outubro de 2026: quando volta.

Mercúrio faz o mesmo, e é ainda mais extremo

A foto de capa deste artigo não é de Vênus: é Mercúrio, fotografado pela sonda MESSENGER em 2008, em fase de lasca fina. É uma das imagens mais diretas que existem do fenômeno — um planeta que não é lua nenhuma, mostrando uma foice perfeita.

Mercúrio é o caso mais extremo da tabela, chegando a 0,1% da face iluminada. Faz sentido: ele é o planeta mais interno, o mais próximo do Sol, e portanto o que mais radicalmente muda de ângulo em relação a nós.

O problema de Mercúrio não é a fase, é vê-lo. Como ele nunca se afasta muito do Sol no céu, só aparece baixo no horizonte, no fim da tarde ou antes do amanhecer, sempre no clarão do crepúsculo. O guia de como encontrá-lo está em Como ver Mercúrio no céu em outubro de 2026.

Por que isso derrubou a Terra do centro do universo

Aqui está a parte da história que faz esse assunto ser mais do que uma curiosidade de telescópio.

Em 1610, Galileu Galilei apontou uma luneta para Vênus e acompanhou o planeta por meses. Ele viu as fases — e viu, principalmente, que Vênus ficava cheio.

No modelo antigo, com a Terra no centro e todos os corpos girando em volta dela, Vênus estava sempre entre a Terra e o Sol. Nesse arranjo, ele nunca poderia aparecer cheio daqui: para vermos a face toda iluminada, o Sol teria de estar atrás dele, do nosso ponto de vista — e nesse modelo isso era geometricamente impossível. Vênus deveria oscilar entre nova e, no máximo, um quarto.

Galileu viu Vênus cheio e pequeno, e depois foice e grande. Isso só funciona de um jeito: Vênus dá voltas em torno do Sol, não em torno da Terra. A NASA registra o episódio sem meias palavras, chamando a observação das fases de Vênus de a prova científica decisiva a favor do modelo com o Sol no centro.

É um exemplo bonito de como a astronomia funciona: não foi um argumento filosófico que derrubou o modelo antigo, foi uma lasca de luz num planeta. Outras provas construídas do mesmo jeito, por observação direta, estão em Como sabemos que a Terra é redonda? As provas simples.

Dá para ver as fases de Vênus daqui?

Dá — e é mais fácil do que a maioria das pessoas imagina.

A olho nu, não: Vênus é só um ponto brilhante, por mais que você force a vista. O que algumas pessoas de visão muito aguçada relatam enxergar nas fases mais finas é um leve alongamento, nada parecido com uma foice.

Com binóculo firme, apoiado em algo ou com tripé, a fase fina já aparece. É um dos melhores alvos para quem acabou de comprar o primeiro equipamento, porque não exige céu escuro nem conhecimento de constelação: basta apontar para o ponto mais brilhante do fim de tarde ou da madrugada.

Com telescópio pequeno, a fase fica evidente, e o mais interessante é acompanhar por semanas e ver o formato mudar. O que você não vai ver, em nenhum equipamento, é qualquer detalhe da superfície: Vênus é coberto por uma camada de nuvem permanente e opaca, do tipo que mantém o planeta mais quente que Mercúrio, como conta Por que Vênus é mais quente que Mercúrio?. O disco é liso, branco e sem marca nenhuma — a fase é a única coisa que muda.

Para escolher equipamento sem gastar errado, o guia é Melhor telescópio para iniciantes: guia de compra no Brasil.

Perguntas frequentes

Marte tem fases?

Tem, mas fracas demais para chamar de fase no sentido comum. Pelo nosso cálculo, em 2026 e 2027 Marte não desce de 89,2% da face iluminada. Isso produz um disco levemente giboso, achatado de um lado, visível em telescópio — mas nunca uma meia-lua e muito menos uma foice.

Por que os planetas externos não têm fases?

Porque eles orbitam fora da órbita da Terra e, por isso, nunca ficam entre nós e o Sol. Vistos daqui, estão sempre aproximadamente do mesmo lado que a luz solar os ilumina. Quanto mais distante o planeta, mais perfeito esse alinhamento: Saturno não desce de 99,7% de face iluminada.

Vênus fica invisível quando está em fase nova?

Fica, mas não por estar escuro, e sim por estar na mesma direção do Sol no céu, perdido no brilho dele. É o que acontece por volta de 24 de outubro de 2026. Ele reaparece algumas semanas depois, do outro lado, como estrela da manhã.

Quando Vênus fica mais brilhante?

Não é quando está cheio nem quando está mais perto. É num ponto intermediário, em que o disco já está bem grande e ainda há face iluminada suficiente para render — tipicamente quando ele está perto de um quarto de face visível. É por isso que Vênus brilha mais em algumas épocas do ano do que em outras.

Galileu descobriu as fases de Vênus?

Foi ele quem as observou pela primeira vez com um telescópio, em 1610, e quem entendeu o que elas significavam. A existência de Vênus e os movimentos dele no céu eram conhecidos desde a Antiguidade, mas ninguém tinha visto a forma do disco antes da luneta.

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