Perguntas que todo mundo faz

Quantas galáxias existem no universo?

A resposta honesta é uma faixa de 200 bilhões a 2 trilhões, e os dois números vêm de medições diferentes. Veja como se conta o que ninguém consegue ver.

Publicado em 8 min de leitura
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O Campo Profundo do Hubble, um retângulo de céu preto coberto por centenas de galáxias de formas e cores diferentes
Foto: NASA/JPL/STScI Hubble Deep Field Team
Neste artigo
  1. Por que "no universo observável", e não "no universo"
  2. O truque que inventou a contagem: apontar para o nada
  3. O Campo Ultraprofundo: quase 10 mil galáxias num alfinete
  4. 2016: o número pula para 2 trilhões
  5. 2021: uma sonda a 6 bilhões de km discorda
  6. Então, qual é a resposta?
  7. E cada galáxia tem quantas estrelas?
  8. O que o James Webb muda nisso

A resposta curta é uma faixa larga e incômoda: entre 200 bilhões e 2 trilhões de galáxias no universo observável. Não é preguiça de quem responde. É que ninguém contou, e não há como contar: a maior parte dessas galáxias é fraca demais para qualquer telescópio que exista hoje. O número sai de estimativa, e duas estimativas feitas por caminhos diferentes deram resultados que diferem por dez vezes.

Este artigo conta como se chega a um número desses, por que os dois lados discordam e o que essa discordância revela. Porque a parte interessante aqui não é o número: é o método.

Por que "no universo observável", e não "no universo"

Primeiro é preciso acertar a pergunta.

A luz viaja rápido, mas não infinitamente rápido, e o universo tem uma idade: cerca de 13,8 bilhões de anos. Isso significa que só conseguimos ver aquilo cuja luz teve tempo de chegar até aqui. Essa bolha é o universo observável, e ela tem cerca de 93 bilhões de anos-luz de diâmetro, com a gente no meio — não porque a Terra seja especial, mas porque cada observador tem a sua própria bolha. O raciocínio completo está em O espaço tem fim? Até onde vai o universo.

Fora dessa bolha, pode haver mais galáxias. Provavelmente há. Quantas, ninguém sabe, e a honestidade manda dizer que talvez nunca se saiba. Então toda resposta séria à pergunta do título vale só para o que dá para ver.

O truque que inventou a contagem: apontar para o nada

Em dezembro de 1995, o diretor do Telescópio Espacial Hubble tomou uma decisão que muita gente achou um desperdício: apontar o telescópio mais caro do mundo para um pedaço vazio de céu e deixar ali, obturador aberto, por dez dias.

O pedaço escolhido não tinha nada — nenhuma estrela brilhante, nenhuma galáxia conhecida. Era um quadradinho de céu do tamanho de uma cabeça de alfinete segurada com o braço esticado, para usar a comparação da própria NASA.

O resultado foi o Campo Profundo do Hubble, a foto de capa deste artigo. Aquele "nada" estava cheio de galáxias, umas atrás das outras, até onde a sensibilidade do telescópio alcançava. Foi a partir daí que a conta do universo mudou de método: em vez de tentar contar tudo, conta-se num pedacinho e multiplica-se pelo céu inteiro.

É a mesma lógica de um recenseador que não entra em todas as casas do Brasil: ele mede um quarteirão com cuidado e extrapola. Funciona — desde que o quarteirão escolhido seja representativo.

O Campo Ultraprofundo: quase 10 mil galáxias num alfinete

A operação foi repetida com mais capricho entre 24 de setembro de 2003 e 16 de janeiro de 2004. Foram 800 exposições, ao longo de 400 voltas do Hubble em torno da Terra, somando 11,3 dias de tempo de exposição acumulado.

O alvo era um pedaço de céu com um décimo do diâmetro da Lua cheia. Dentro dele apareceram quase 10 mil galáxias. As menores e mais avermelhadas, cerca de uma centena, estão entre as mais distantes já vistas: a luz delas saiu quando o universo tinha 800 milhões de anos de idade, ou seja, menos de 6% da idade atual.

Dá para fazer a conta de cabeça grossa aqui mesmo. Um círculo com um décimo do diâmetro da Lua cheia ocupa cerca de 0,002 grau quadrado do céu. O céu inteiro tem 41.253 graus quadrados. Dividindo um pelo outro e multiplicando pelas 10 mil galáxias, chega-se à ordem de 200 bilhões (conta nossa; o valor exato depende de como se mede o formato do pedaço fotografado). Foi mais ou menos esse o primeiro número firme da astronomia moderna: 100 a 200 bilhões de galáxias.

2016: o número pula para 2 trilhões

Em 2016, uma equipe internacional liderada por Christopher Conselice, da Universidade de Nottingham, refez a conta de um jeito novo. Em vez de contar o que aparece nas fotos, o grupo converteu as imagens do Hubble e de outros levantamentos em um modelo tridimensional, medindo quantas galáxias existem por volume de espaço em cada época da história do universo.

A descoberta central: no universo jovem havia dez vezes mais galáxias por volume do que existe hoje, e quase todas eram pequenas e fracas, do tamanho das galáxias-satélite que orbitam a Via Láctea. Com o tempo, elas foram se fundindo e formando as galáxias grandes de agora.

Somando essas galáxias pequenas que os telescópios não conseguem ver, mas cuja existência o modelo exige, a equipe chegou a pelo menos 2 trilhões de galáxias no universo observável — dez vezes mais do que se pensava. A NASA divulgou o resultado como um dos números mais marcantes do Hubble.

Vale sentir o tamanho disso. Se você contasse uma galáxia por segundo, sem dormir, levaria cerca de 63 mil anos para chegar a 2 trilhões (conta nossa). E, dividindo por todo mundo que está vivo na Terra hoje, daria cerca de 250 galáxias para cada pessoa.

Um campo de céu cheio de pontos e manchas, com dezenas de galáxias distantes marcadas por círculos vermelhos e uma ampliação no canto
Cada círculo vermelho é uma galáxia distante identificada nesta imagem combinada dos telescópios Spitzer e Hubble. É assim, marcando uma a uma num pedacinho de céu, que se monta a estatística do universo inteiro. Foto: NASA/JPL-Caltech/ESA/Spitzer/P. Oesch/S. De Barros/ I.Labbe

2021: uma sonda a 6 bilhões de km discorda

Aqui a história fica boa.

A sonda New Horizons, que visitou Plutão e continuou viajando, estava a mais de 6 bilhões de quilômetros da Terra quando os pesquisadores tiveram uma ideia: usar as câmeras dela para medir simplesmente o quanto o céu é escuro.

Parece bobo, mas não é. Longe do Sol e da poeira do Sistema Solar interno, o céu da New Horizons é dez vezes mais escuro que o céu mais escuro que o Hubble consegue enxergar daqui. A pouquíssima luz que sobra ali, depois de descontar as estrelas conhecidas, é a soma de toda a luz de todas as galáxias do universo — o que os astrônomos chamam de fundo óptico cósmico. E essa soma é um teste direto para o número de galáxias: se existem trilhões de galáxias fracas escondidas, a soma da luz delas tem de aparecer.

O resultado, apresentado em 13 de janeiro de 2021 por Marc Postman e Tod Lauer, foi um balde de água fria na conta anterior. A New Horizons detectou cerca de metade da luz que o estudo anterior do Hubble tinha medido — e, ainda assim, o dobro do que os catálogos de galáxias conhecidas conseguem explicar. Nas palavras de Lauer: "Pegue toda a luz das galáxias que o Hubble consegue ver, dobre esse número, e é isso que a gente vê — e nada além disso."

Traduzindo: o céu não é brilhante o bastante para caber trilhões de galáxias fracas escondidas. Sobra luz, sim, mas pouca — e essa sobra pode vir de galáxias anãs, de estrelas soltas entre as galáxias ou de halos estelares, não necessariamente de um exército de galáxias novas.

Então, qual é a resposta?

A resposta honesta, hoje, é esta:

Método Resultado Ano
Contagem direta nos campos profundos do Hubble 100 a 200 bilhões Anos 1990 e 2000
Modelo 3D com extrapolação de galáxias fracas Pelo menos 2 trilhões 2016
Medida da luz total do céu pela New Horizons Não sustenta os 2 trilhões 2021

Os dois lados usam dados reais e métodos defensáveis. A diferença é o que cada um escolhe medir: um conta o que se vê e estima o que falta; o outro mede a luz de tudo junto, visível ou não. Eles ainda não se encontraram no meio.

Por isso, quando alguém lhe disser um número exato de galáxias no universo, desconfie. A frase correta é: entre algumas centenas de bilhões e alguns trilhões, com a faixa mais baixa ganhando força desde 2021.

E cada galáxia tem quantas estrelas?

Para fechar a ordem de grandeza: a nossa galáxia tem entre 100 e 400 bilhões de estrelas, número que também é estimativa, pelo mesmo motivo — ninguém contou. Se você quiser entender por que a Via Láctea é tão difícil de medir estando dentro dela, vale O que é a Via Láctea e como ver a nossa galáxia do Brasil.

E galáxia não é tudo igual: existem espirais como a nossa, elípticas gigantes e irregulares desengonçadas, cada tipo com uma história diferente, assunto de Tipos de galáxias: espiral, elíptica e irregular. As anãs, que são a maioria absoluta em número, são justamente as mais difíceis de contar — o que é exatamente o miolo da discordância deste artigo.

O que o James Webb muda nisso

O telescópio James Webb enxerga no infravermelho, que é onde a luz das galáxias mais distantes aparece depois de ser esticada pela expansão do universo. Ele já encontrou galáxias grandes e formadas mais cedo do que os modelos previam, o que mexe justamente na parte da conta de 2016 que trata do universo jovem. Algumas dessas descobertas estão em As descobertas mais impressionantes do telescópio James Webb.

Ou seja: a faixa de 200 bilhões a 2 trilhões não é uma resposta preguiçosa. É um problema aberto, em cima da mesa, e provavelmente vai mudar nos próximos anos. O legado do telescópio que começou tudo isso está contado em Telescópio Hubble: o que é e o que ele já descobriu.

Perguntas frequentes

Quantas galáxias existem no universo?

As estimativas para o universo observável vão de 200 bilhões a 2 trilhões. O número maior veio de um estudo de 2016 que extrapolou a existência de galáxias pequenas demais para serem vistas. Uma medição de 2021, feita pela sonda New Horizons, não encontrou luz suficiente no céu para sustentar esse total, e favorece a faixa mais baixa.

Como os cientistas contam galáxias se não dá para ver todas?

Eles fotografam um pedaço minúsculo de céu durante muito tempo, contam as galáxias que aparecem ali e multiplicam pelo céu inteiro. É a mesma lógica de uma pesquisa por amostragem. O Campo Ultraprofundo do Hubble, num pedaço de céu com um décimo do diâmetro da Lua, mostrou quase 10 mil galáxias.

O que é o Campo Profundo do Hubble?

É uma foto feita em dezembro de 1995, quando o Hubble ficou dez dias apontado para um pedaço de céu aparentemente vazio, do tamanho de uma cabeça de alfinete vista com o braço esticado. O "vazio" apareceu cheio de galáxias, e a imagem mudou o jeito de estimar o tamanho do universo.

O número de 2 trilhões de galáxias está errado?

Não está descartado, mas está contestado. Ele vem de um modelo que supõe uma multidão de galáxias fracas invisíveis. A medida da luz total do céu feita pela New Horizons em 2021 encontrou cerca de metade da luz esperada por aquele estudo, o que sugere que o total real seja bem menor.

Quantas estrelas tem cada galáxia?

Varia enormemente. A Via Láctea tem entre 100 e 400 bilhões de estrelas. Galáxias anãs podem ter alguns milhões, e as elípticas gigantes, trilhões. Como a maioria absoluta das galáxias é anã, a média por galáxia é bem menor do que a da nossa.

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